11.21.2010

Nota final

Como é que se introduz o encerramento de algo que, no fim das contas, é um começo? Acho que contando brevemente a tortuosa trajetória que me trouxe até aqui. A primeira atividade criativa que me ocupou foram os quadrinhos. As referências que eu tinha eram Turma da Mônica, que eu consumia aos montes, e a Chiclete com Banana do Angeli, que eu pegava meio escondido das coisas do meu pai. Eu e meu vizinho Fê bolávamos e desenhávamos histórias absurdas, onde piadas sujas iam entrando em um universo à primeira vista infantil. Um dos personagens era o Pafúncio, que uma vez fingiu suicídio para comover parentes e colegas, mas, contrariando sua expectativa, deixou todos felizes com sua presumida morte. Alguns anos depois,  descobri que o rock acelerava minha pulsação e escrevi algumas letras esquisitas. E falava para meus amigos mais próximos, de brincadeira: "Decidi que vou ser famoso". O problema era que eu não sabia cantar nem tocar nada, mas isso era o de menos: eu começava a entender que arte podia ser catártica.

Ninguém mais do que eu precisava de estímulos estéticos capazes de provocar alguma transformação. Quando criança, eu era patologicamente tímido. Patológico, afinal posso dizer sem muito medo de errar que eu era o mais travado da escola inteira. O curioso é que uma vez meu pai sugeriu que eu fizesse análise para lidar com isso, mas fui reticente. Por mais frustrado que me sentisse, tive medo que "me curar" pudesse estragar minha criatividade. Eu ainda nem tinha criado nada de que realmente me orgulhasse, mas já começava a intuir que meu caminho seria pela arte. Quando tive conhecimento de literatura subversiva (começando por Rubem Fonseca) e das vanguardas artistícas europeias, pressenti que poderia estar meio lento nos primeiros passos, mas que havia um caminho alternativo a  perseguir. Em vez de consultar um analista, na adolescência fui lendo Freud e me auto-analisando, enquanto os artistas malditos dos sons, das letras e das imagens me empurravam para me arriscar mais na vida social.

Hoje em dia há uma espécie de consenso instaurado que a arte não transforma ninguém, que no máximo distrai e diverte. Muitos intelectuais repudiam a estética justamente por isso, considerando-na uma espécie de anestésico que minaria o contato com o mundo real. Não é uma questão fácil de responder, afinal ninguém consegue medir o efeito concreto de uma pintura, de uma música ou de um livro nas atitudes de uma pessoa. O que eu posso dizer é que parti de muito pouco, de uma apatia quase autista, e hoje, se contasse tudo que já aprontei, nem Allen Ginsberg poderia dizer que não me experimentei, que não ousei, que não encarei a vida com uma coragem que pouquíssimas pessoas têm. Podem até me repreender, achar que em alguns momentos fui longe demais - e, pela tentativa e erro, algumas vezes fui mesmo - mas lembrando que até os treze anos eu mal abria a boca, conquistei uma liberdade a se considerar. Pode ser que eu esteja enganado, que eu teria ido ainda mais longe sem a companhia da arte, mas eu apostaria a alma que não.

Contudo, não foi uma evolução linear. Aos vinte anos, quando eu começava a me sentir à vontade comigo mesmo de maneira inédita, quando as coisas pareciam se encaixar - eu terminava meu primeiro livro, eu voltava de uma viagem de oito meses da Europa, eu ingressava na ECA, eu me sentia confiante o bastante para fazer tudo o que desse vontade - no meu melhor momento, entrei em uma crise profunda. Resumindo muito, as cinco pessoas em que eu mais confiava na época me decepcionaram bruscamente em menos de seis meses. Foi como se todas minhas paranoias de rejeição se provassem reais, e não a mera insegurança que pareciam ser. Pensando hoje no assunto, acho que todos estavam tão acostumados com o velho Ivan que não quiseram aceitar que ele estava mudando tão rápido, pouco importando que ele estivesse melhor e mais simpático que antes. Eles me atacaram de maneiras que eu não poderia prever e, como foram cinco ao mesmo tempo, não aguentei muito bem.

Não é à toa que tanta gente acha o Será um livro pesado. Eu até que tento, no final,  mostrar que dá para descer bem fundo no abismo e voltar, mas antes disso o leitor pode vislumbrar o estado em que eu me encontrava. A meu ver, não deixa de ser uma tentativa desesperada de salvação, e acho que escrevê-lo me ajudou a me recuperar, porém há uma descida até o mais desolador dos infernos antes da esperança. Os anos mais agudos da crise não deixaram de ser anos de aprendizado, em que minha única opção era perder tudo o que ainda me restasse de ingenuidade, aceitar as pessoas como elas são, e buscar freneticamente maneiras de afirmar a vida, apesar das intempéries. Nada muito leve surtiria efeito porque não me pareceria convincente.

Creio que com a ajuda da Telma, a namorada que não entendo como me suportou por mais de três anos, Nietzsche e boa arte, eu poderia ter me restabelecido um tanto mais cedo do que de fato aconteceu. Quem conhece meus textos sobre arte contemporânea agora pode entender melhor porque são tão viscerais. Também foi aos vinte anos que tomei conhecimento da chamada morte da arte. Eu entrei na faculdade desavisado, animado por milhares de pinturas que eu tinha visto na minha estadia europeia. Kandinsky, Miró, Picasso, Goya, Bosch, Rembrandt, Van Gogh, todos os que eu só conhecia por reprodução, vistos ao vivo me causavam um bem enorme, era como se preenchessem pedaços de mim que, por defeito de fabricação, estavam me faltando. Mas eis que entro na faculdade e começo a me inteirar da crítica atual, quase hegemônica, que tenta fazer meus herois parecerem tão conservadores quanto os mais medíocres dos fascistas. E provavelmente teria sido melhor ignorar essa besteira pós-moderna, mas eu fiquei na dúvida por um tempo. Estava meio difícil seguir a intuição, porque a intuição também me dizia que as pessoas mais próximas jamais me fariam sentir tão miserável, e essa previsão falhou.

No momento em que eu mais precisava de arte, um dos poucos apoios que me restavam, fui bombardeado por uma ideologia intransigente que simplesmente tentava me fazer sentir um reacionário caso não renunciasse aos artistas que mais me fortaleciam. Só fui me sentindo melhor conforme aprendi a desmontar os argumentos deles, um por um. Isto se concluiu agora, com o Diagnósticos para uma arte em crise, uma espécie de mestrado outsider. Estão longe de ser meus textos favoritos, gosto mais da minha ficção, mas achei que era necessário refutar a morte da arte para não deixar mal-entendidos. Eu gostaria de ter lido algo assim quando comecei a estudar, e é um conteúdo que não se encontra em lugar algum.

Talvez fique mais claro, com tudo que contei, porque estou encerrando o blog. Eu creio estar fechando um grande ciclo. Com o tempo, aquela minha crise pessoal foi mitigando, e já posso dizer que vários dos melhores momentos da minha vida só foram possíveis porque aprendi algo com a queda.  Também meu desgosto com a crise da arte foi diminuindo um pouco, a ponto de eu já conseguir apreciar alguns aspectos menos deploráveis dos meus "inimigos". Bem que fico curioso em saber o que seria de mim se a trajetória tivesse sido mais natural, sem desvios abruptos, mas acho que eu não teria chegado tão longe se não fossem as porradas que levei. Passei boa parte da vida me sentindo afastado da realidade, sentindo que havia alguma coisa a que eu não tinha contato efetivo; porém cada vez mais a sensação é, pelo contrário, de que de tanto tentar, acabei aprendendo como que se quebram algumas barreiras. Em outras palavras, entendo cada vez melhor como tocar a pele da vida.

Não sei bem se vai mudar muito o que escreverei no futuro do que o que escrevi até agora. Uma diferença é que não acho que tenho que provar mais nada a ninguém. E outra é que até aqui meus escritos vieram do próprio processo de descoberta, os mares que eu singrava ainda me eram desconhecidos. Hoje sou rodado demais para ficar com L'enfant no nome. Terrível eu continuarei sendo, isso eu garanto.


This is not The End. 
This is The And.

10.15.2010

Diagnósticos diferenciais para uma arte em crise

Alguns reclamaram por eu estar me despedindo de L'Enfant Le Terrible. Se servir como prêmio de consolação, reuni meus melhores textos sobre arte em uma espécie de livroblog, Diagnósticos diferenciais para uma arte em crise. Para quem quiser conhecer o tratamento de última geração, a casa está aberta. Mais ou menos a metade do livroblog é inédita, outra metade circulou por aqui e por outros canais. Todos os textos foram revisados, ganharam imagens e links para outros endereços para facilitar a vida de vocês. Aliás, achei que lidos em conjunto eles fazem muito mais sentido do que quando ficavam dispersos. Os dois blogs ficam melhores assim - mesmo este aqui, fica mais ligeiro depois da partilha de textos.

Em L'enfant Le Terrible, ainda quero postar uma Nota final. Assim que eu tiver tempo.
Não se sintam abandonados, ok? Pode não ser aqui, mas vocês ainda vão receber notícias de mim de outros lugares, online e offline.

Abraços

10.03.2010

Qual revolução?

Antes de encerrar o blog, vou tentar deixar um pouco mais clara minha visão política a quem possa interessar. A melhor maneira de transmitir o conflito em que fico a cada eleição é lembrando que nasci em 14 de julho. Ou seja, mesmo dia da Queda da Bastilha e do nascimento de Buenaventura Durruti. O momento decisivo da Revolução Francesa, que espalhou o espírito democrático para todo o planeta, inclusive em nossas terras; e aniversário do maior guerrilheiro anarquista, figura heroica daquela que talvez tenha sido a luta mais libertária de que temos notícia, a Revolução Espanhola. A coletivização de terras em Aragão e a ocupação de órgãos estratégicos na Catalunha durou pouco demais para que soubéssemos o quanto uma sociedade seria capaz de se manter fielmente anarquista. A democracia, por outro lado, tem sido praticada há tempo demais para que não sintamos que é intrinsicamente falha.

As pessoas costumam associar anarquismo com desordem, mas quem poderá dizer que é harmonioso o processo democrático em nosso país? Não ficou definido sequer o que haverá com os votos assinalados para os candidatos ficha suja, decisão que foi jogada para depois da convocação às urnas. Claro que nenhuma decepção pode ser mais engraçada do que a de quem fizer questão em votar em um político sob litígio e não puder ter confirmado seu desejo inabalável de ser enganado. A Lei da Ficha Limpa é, de longe, o fato político mais importante destas eleições, muito mais do que a figura que vier a assumir o poder, seja ela quem for. O Projeto Ficha Limpa nos oferece um mínimo de esperança, nem tanto por coibir candidatos criminosos, mais por ter sido uma iniciativa popular. Alguém consegue imaginar um projeto como esse sendo proposto pelos deputados e senadores, restringindo sua própria festa? 

Os políticos no Planalto supostamente representam aqueles que neles votaram, no entanto jamais contrariarão seus próprios interesses. Não há como esperar algo muito diferente, pois representam em primeiro lugar aqueles que patrocinam suas campanhas e estes obviamente vão querer algum retorno. A elite econômica sempre será atendida antes do povo, mesmo por governantes que tenham vindo das classes populares. Para chegar ao poder, Lula moderou seu discurso, fez alianças com a direita, foi conivente com a corrupção no congresso, manteve relações das mais ambíguas com Daniel Dantas, entre outros fatos lamentáveis. Mas como poderia ter sido diferente? O famoso comentário de Lula não deixa de ser um desabafo: no Brasil até mesmo Jesus teria que fazer acordos com Judas. E completa: "entre o que você quer e o que você pode fazer tem uma diferença do tamanho do Oceano Atlântico". Não dá para criticar Lula sem criticar o sistema, estamos falando de realpolitik.

Justamente por ter visto a velocidade com que o PT foi se deformando conforme saia da oposição para a situação, não consigo me entusiasmar muito por nenhum projeto partidário. Mesmo os que se mantiveram mais à esquerda, não poderão crescer tanto quanto o PT sem fazer concessões semelhantes. Não gosto de generalizações, não acho que todos os políticos sejam iguais, mas mesmo que alguns se salvem individualmente, não dá para ignorar que a tendência natural do sistema é se manter injusto, manipulador e covarde. Algumas melhorias os políticos mais progressistas podem propiciar, até o Plínio admitiu isso - mas é pouco, velhos hábitos tendem a se cristalizar.

Por outro lado, uma experiência como a da Ficha Limpa, impulsionada pela internet, aponta para possibilidades de uma democracia mais direta. Quanto mais as pessoas se politizarem, quanto mais sentirem que seu papel nas decisões vai muito além da escolha dos candidatos, menor nossa dependência do governo para mudar o país. Sou um tanto cético quanto a derrubada do Estado à força, mas vejo em certas iniciativas populares algo que muito agrada meu lado Buenaventura Durruti. Não é a extinção do Poder Central, não é o fim da exploração dos ricos sobre os pobres, mas maneiras de colocar o establishment sob tensão. Com uma melhor distribuição do poder, pode vir uma melhor distribuição de todos os recursos.

Em Totem e tabu, Freud conta de uma tribo na África onde o rei era espancado por seus súditos antes de assumir a coroa. Ele não deixava de ser amado por seu povo, mas na mesma proporção que era odiado. Pode parecer uma prática primitiva, mas me parece conter sabedoria. Tenho pensado em amadurecimento político como uma conciliação dos dois 14 de julho. O espírito revolucionário da Queda da Bastilha não pode se apagar com a democracia instaurada, pois para que haja verdadeira democracia, com oportunidades para todos, é vital que o povo saiba "anarquizar" sempre que contrariado. Não basta votar no seu candidato favorito, por melhor que você conheça sua trajetória, ou mesmo por melhores que sejam as intenções dele. O jogo do poder é podre demais para ficar tranquilo com isso, para achar que o voto indireto garanta os interesses do eleitor. Para o bem da democracia, é preciso saber confrontá-la.

8.31.2010

Mais leve

Eu estava dando uma olhada na pasta de rascunhos para ver o que ainda quero publicar antes de encerrar o blog. No meio dessa faxina, reencontrei este texto do ano passado. Deve ter parado no meio dos rascunhos sem querer, é um post de que gostei muito. Era de agosto de 2009, quase exatamente um ano atrás.

Não é só porque minha mãe se recuperou completamente da cirurgia. Não é só porque meu pai, que estava sob suspeita de câncer, recebeu um diagnóstico bem mais suave. Não é porque finalmente lancei o livro em que eu trabalhei por dez anos. Não é apenas o Brasil saindo da crise, ou mesmo a arte querendo sair da crise. O melhor é aquilo de que estou lembrando, e de que eu nunca deveria ter me esquecido.

Sobre a leveza. Ela, que parecia me escapar pelos dedos. Reencontro-a como a uma amiga íntima de quem conheço as histórias mais inusitadas. Eu quase me esquecia onde ela faz a morada. Não é no coração dos ignorantes ou entre os sedentos de poder. Tampouco um privilégio das crianças. Com quem aprendi sobre a leveza? Inesperadamente, com artistas e pensadores os mais subversivos. O sorriso falso não convence, não como os que ensinam malabarismo com o mundo às costas. Os inquietos podem parecer densos, tocando nas feridas, rompendo o que é estável, invertendo perspectivas – mas o fazem porque são ágeis o bastante, porque encontram força.

Nietzsche, por exemplo, o filósofo das marteladas, não é ele também o mais sutil? As marteladas, um bom tradutor já apontou, são perscrutações no corpo, pequenos toques para compreender reflexos. Seus livros estão além do bem e do mal, mas para ele o pensamento é “algo leve, divino, e intimamente aparentado à dança e à exuberância.” O mais corrosivo dos pensadores definiu a si mesmo como um bufão. Nossa época é cética demais para captar tais nuances, mas é aí que está a mais doce sabedoria.

Ou então, Clarice Lispector. Ela que vai da delicadeza ao soco no estômago, ela que se humaniza e se desumaniza nas mais inquietas metamorfoses... “Estremece em mim o mundo”, ela diz, mas “não é pesado de se carregar porque simplesmente não se carrega: é-se o tudo”. Só na coragem de atravessar as piores tormentas é que se amplia o espírito o bastante para longas viagens.

Então podem retrucar: “leveza, nesse mundo sórdido? E as pessoas morrendo, e as guerras, e a injustiça?” Aí mesmo que é preciso não se deixar abater. O oncologista que trata doentes terminais, um guerrilheiro que combate o fascismo, o promotor que desafia a banda mais podre do poder... ou o fazem para aliviar o mundo do excesso de peso, ou seus gestos são inúteis. Seriedade não é manter os lábios constritos. Mesmo Kafka, tão obscuro, lia seus contos às gargalhadas com os amigos. É preciso rir com Kafka, já dizia Deleuze.

Arte e pensamento valem quando propiciam sobrevoos. Viajando de balão ganhamos a paisagem do alto, mas para isso é preciso dominar a gravidade. É preciso esforço de construção: o preparo do envelope, a tensão das cordas, o equilíbrio das formas, e – porque somos leves mas não levianos – o manejo do fogo.

8.04.2010

Não subestimar o rock

Quando se fala de Beatles, é fácil. Todos se sentem à vontade para dizer que eles entraram para a História, que realizaram uma revolução dentro e fora da música. Seja pelo impacto que exerceram sobre jovens contestadores em todo o planeta, seja pela sofisticação dos arranjos de A day in the life ou I am the walrus, poucos duvidam que eles serão lembrados por gerações ainda por vir. No entanto, curiosamente, o grupo de Liverpool não conseguiu estender o mesmo reconhecimento para outras bandas de rock que estiveram à sua altura. O jazz ou a bossa nova, por exemplo, são gêneros com status bem mais confortável, recebendo elogios de maestros notáveis e entrando facilmente nas estantes dos intelectuais. Para os guardiões do bom gosto, Beatles é totalmente aceitável, porém Beach Boys, 13th Elevator Floor, The Who, Jefferson Airplane, Rolling Stones, Elvis Presley ou Chuck Berry já lhes soam como um som mais adolescente, menos sério. E nem se dispõem a notar que as canções de Lennon e McCartney são impensáveis sem o intenso diálogo com todos esses.
Talvez seja um mérito dos roqueiros. Eles não se importavam com o que os acadêmicos ou os bons cidadãos iriam pensar, e grande parte de sua energia vem de sua independência. Mas muito se engana quem crê que a História do rock pertence ao mero entretenimento. Os conservatórios se apegam demais à etimologia da palavra, ao menos quando julgam que a verdadeira música é apenas a que os velhos homens de peruca compunham. Da boca para fora, era essa a opinião expressa de Frank Zappa, mas por algum motivo, ele pegou a guitarra, ligou na tomada e preferiu inovar do que diluir o que já pertence a outra época. Jon Lord, tecladista do Deep Purple, também tem formação erudita e se mostrou bem à vontade em Concerto For Group and Orchestra. O renomado Philip Glass criou composições inspiradas em David Bowie e Brian Eno. Miles Davis bebeu do rock para chegar a um de seus melhores trabalhos, Bitches Brew. John Cale trocou a sonolência de La Monte Young pelo Velvet Underground, com Lou Reed.

E, no entanto, ainda aquela desconfiança, a sensação de que um pianista de fraque sempre nos levará mais longe do que um cabeludo tentando revirar cordas de aço do avesso. Para colocar um pouco de preconceito neste artigo – ou melhor, para não ceder demais ao relativismo – na minha opinião, a música pop mais rebolante dificilmente consegue. Pode-se selecionar as loiras mais provocantes, abusar da iluminação, da maquiagem e dos efeitos especiais, juntar dezenas de bailarinos para acompanhar, e pouco importa, o resultado sonoro será banal, previsível, reduzido a fórmulas batidas, e portanto a bilionésima execução do pianista de fraque continuará tendo algo mais a dizer.

Posso estar sendo preconceituoso, mas não sou o único por essas paragens. Beatles como a única banda de rock que merece ser lembrada? Só chegaram à unanimidade porque se passaram por bons moços. Nem mesmo as experiências com ácido – Lucy in the Sky with Diamonds – ou a língua cada vez mais ferina de John apagaram totalmente a primeira impressão do grupo, quatro rapazes de sorrisos inocentes que pediam tão gentilmente para hold your hand. Para muita gente, não cai a ficha de que eles também cantavam Live and let die, ou que Yesterday era a véspera de the dream is over. A fase inocente dos Beatles, a meu ver, só fica interessante quando vista em retrospectiva – entender que Lennon, mesmo divulgando All you need is love, sempre foi de uma inquietude excepcional. Não foi por falta de tentativa que ele não conseguiu destruir sua imagem inicial, à qual os saudosistas se apegaram.

                                        The Who em Monterrey

Já Rolling Stones e The Who tiveram logo cedo uma imagem rebelde, rompendo decisivamente com a geração de seus pais e com os valores vigentes da sociedade. Depois deles, simplesmente não havia motivos convincentes para se retroceder à candura piegas de Love me do. Especialmente nos anos 70, talvez tenha havido algum exagero nas quebras de hoteis, nas brigas com a plateia, nas cusparadas, nas auto-mutilações e em sacrifícios animais no palco... mas a urgência por um novo ritmo de vida e a profanação dos valores estabelecidos não foi precisamente o que as vanguardas do início do século XX haviam considerado revolucionário? Os maiores intelectuais de Paris um dia celebraram Arthur Cravan, um espírito livre que transitava entre as artes e os ringues de boxe, com uma postura não menos impactante que a dos roqueiros. “Eu não desejo ser civilizado” era seu mote, e ressoava entre os artistas mais decisivos de sua época.

Claro que, ainda na linha erudita, tivemos rebeldes, como Schoenberg, Edgard Varèse, Harry Partch, John Cage, Pierre Boulez, Stockhausen, entre outros. Não são os mais apreciados nas salas de concerto, onde ainda imperam sons mais “puros”, os de Mozart, Bach, Beethoven e companhia. Nem quero dizer que não tenha algo de assustador na Quinta Sinfonia, mas é um terror sublime, ou seja, domesticado. Há uma brilhante representação de nossos medos, ainda assim, permanece dentro das margens de segurança. Se eu fosse marxista, empregaria agora a palavra “burguês”. Em vez de moralizar o discurso, vou traçar uma breve comparação com o modernismo nas artes visuais e na literatura. Minha questão é: se Baudelaire, Rimbaud, Artaud, Van Gogh, Picasso, os futuristas, os dadaístas, etc, hoje são admirados por sua ousadia, tanto na forma como no conteúdo, por que na música parece haver uma resistência tão grande a assimilar rupturas? Por mais que Beethoven tenha sido genial, não há uma certa covardia ao aceitar apenas os sons mais puros?

O que o modernismo buscou fazer é aproximar a arte do campo da vida. Quando Baudelaire flana pela cidade em busca de pequenos temas urbanos, mesmo que para isso tenha que andar por ruas sujas e mal iluminadas, ele começa a tirar a arte do limbo para torná-la mais palpável, mais próxima de nós. Walt Whitman faz poemas agitados sobre máquinas e homens comuns, Rimbaud apresenta-se como jovem indomável, Dostoievsky aborda mentes criminosas. Os temas sublimes são deixados de lado ou se misturam com o trivial e o maldito. Ao mesmo tempo, as palavras vão ganhando autonomia, ficam menos descritivas para que cada sílaba ganhe peso.

Os impressionistas, e logo depois Van Gogh, empastam a tela com grossas camadas de tinta para que o sublime desça à Terra, para que a beleza seja mais tangível. Os artistas vão renunciando à perspectiva, o que foi muito mais do que experimentar algo diferente. Abandonam o ponto de fuga para que o horizonte da arte não nos escape num universo distante, para que não nos esqueçamos completamente do chão em que pisamos. A tinta cria ilusão mas também passa a ser vista como matéria bruta. A fatura se revela, o processo de criação se desnuda. O que eles querem é negar a postura virginal da arte, unir corpo e espírito, e assim colocar a obra de frente para a vida – não acima.

Nesse quesito, na proximidade entre a arte e a vida, o rock foi longe. Traduziu em sons a era da eletricidade, a velocidade da metrópole, e até mesmo a poluição sonora, os motores, os telefones tocando, explosões, usinas, gritos, o caos da civilização em seu ritmo quase destrutivo. As máquinas apocalípticas de Tinguely são rock and roll. Assim como Tapiés, Cy Twombly, talvez Francis Bacon. Pode-se voltar um pouco mais no tempo e buscar raízes nas colagens cubistas, na fúria futurista, na arte de detritos do Merz, nos momentos viscerais do surrealismo, e por aí vai.

A rebeldia sem causa de fato não interessa, apenas daria argumentos a quem considera o rock ingênuo, adolescente; no entanto há muitas bandas que demonstram saber muito bem o que estão fazendo. Com todo respeito aos amantes do jazz e da música erudita, supor que basta seguir a tradição para fazer mais do que Pink Floyd, Radiohead, Sonic Youth ou, da safra mais recente, Battles, chega a ser provinciano. E mesmo algumas bandas que mal saiam dos três acordes, como The Clash e Nirvana, demonstraram uma inventividade e uma contundência exemplares. Philip Glass transmite sua mensagem com simplicidade, apostando na repetição, e com a mesma economia, essas bandas transmitiam musicalmente o sentimento sincero de muitos, sem domesticá-lo ou plastificá-lo.

Longe de mim defender que o rock seja formalmente mais elaborado do que a música erudita. Alguns guitarristas encaram uma competição no quesito virtuosismo, e talvez vençam na velocidade, mas isso é bem pouco interessante, é a técnica pela técnica. O ponto não é esse, como também nunca foi a habilidade técnica das telas de Miró. Uma sinfonia composta para dezenas de instrumentos certamente requer um domínio admirável, mas, assim como um pintor que imitasse Rafael, hoje em dia, diria muito pouco sobre as questões mais atuais, e assim como um poeta que escrevesse como Dante estaria apenas gozando solitário na torre de marfim, os compositores eruditos também devem se perguntar o que fazer para não estar fora de seu tempo. Alex Ross, na conclusão de O resto é ruído – escutando o século XX sugere aos compositores atuais combinarem sua bagagem com um ouvido mais atento às expressões avançadas da música popular, citando com muita naturalidade Sonic Youth, Radiohead e Velvet Underground. Ao menos em suas melhores manifestações, me parece que o rock abarca de modo exemplar certas questões contemporâneas. O rock se lança sem proteções ao que está além da música, diz sim ao mundo e o deixa entrar.

Barulho?

Um dos monstos mais inquestionáveis do cinema, Jean-Luc Godard, logo percebeu a ligação entre o rock e a mentalidade de uma geração inquieta e ativa. Em 1967, acompanhou as gravações de Simpathy for the devil, dos Rolling Stones, em um de seus filmes mais ousados, One plus one. Os cineastas foram dos primeiros a entender o rock como vanguarda artística. Memorável também é a participação de Nick Cave na obra-prima de Wim Wenders, Asas do desejo. Não se trata apenas de trilha sonora para criar atmosfera, mas de uma verdadeira legitimação. E tanto melhor que essa legitimação tenha vindo de grandes criadores do que da academia.

                                          Rolling Stones em One plus One 

Historicamente, é difícil negar a importância do rock como movimento. É evidente que há muitos roqueiros alienados, como não poderia deixar de haver, levando em conta sua espontaneidade, sua recepção maciça, e até mesmo a quantidade de bandas que se disseminam. Nem por isso, ouso dizer, deixou de pontuar aspectos filosoficamente avançados. Desde que a cultura cristã se estabeleceu, em poucos momentos houve tanta clareza para tanta gente que a moral estabelecida é o inimigo mais constante. A crença em uma moral imposta foi desdenhada pelos roqueiros com a mesma decisão que por leitores atentos de Nietzsche. Temos aqui uma das principais bandeiras dos artistas modernistas. No caso da música, se pensarmos em Schoenberg e outros atonais, não havia o plano de se levar suas propostas a um grande público, a pesquisa se dirigia quase exclusivamente para especialistas. Contudo, os manifestos de artistas plásticos e escritores costumavam prever uma disseminação de seus valores para toda a sociedade. O fato de o rock ter obtido sucesso, portanto, não depõe contra, não o reduz a mera mercadoria, se soubermos considerar que levou adiante alguns objetivos de um pensamento de vanguarda.

O rock hoje vende e atinge milhões, e isso implica, necessariamente, no perigo de reduzir-se a um produto – perigo ao qual alguns artistas sucumbem mais do que outros. Por outro lado, propaga-se uma mentalidade que está alguns passos a frente da mentalidade mediana. O amor é cantado sem os enfeites das novelinhas de tevê, mantém-se um senso de coletividade (seja na hippie Woodstock ou na punk Camdem Town, assim como na colaboração entre os integrantes de cada banda). E, talvez o mais notável, como raras vezes antes, a expressão artistíca penetra em todas as áreas da vida.

O que os roqueiros dizem, essencialmente, é “Eu estou aqui; a vida é agora”. Por isso são barulhentos. O gênero traz os perigos de um espírito guerreiro, não há dúvida, mas, se tivermos algum respeito a Dionísio, é preferível acatar tais riscos do que se contentar com a passividade que hoje impera. Em vez ignorar o rock, cuidar para que não seja desvirtuado, mantê-lo na linha de resistência. Lembrar da posição dos roqueiros durante a Guerra do Vietnã, de solidariedade para com o sofrimento de uma guerra inútil, e renegar as exceções fascistas que mancham esse legado. Em outras palavras, escolher as batalhas, não renunciar ao combate.

Não é por tocar no rádio que o resultado é necessariamente uma hipnose alienante que faça esquecer a realidade. Se The Who e Jimi Hendrix quebravam seus instrumentos sem maiores cerimônias, é porque havia continuidade entre o som que faziam e o que acontece além da música. Um som que, flertando com seu próprio colapso, se abre para todos os ruídos do mundo ao redor. Não é tão diferente de ver a tinta na tela como ilusão e como matéria bruta, pois pela matéria abre-se a percepção para o que vem de fora. No início do show, a canção já flui à beira da agonia, já se prevêm os estalos, chiados e a microfonia da destruição – porém de maneira afirmativa, sem autocomiseração. Os roqueiros, de modo geral, resvalam na morte da música. Não por menosprezo à melodia, mas por sentirem que tudo é mais intenso quando não se tem medo da morte. É aí que o rock mostra, com uma clareza rara, a sutil diferença entre niilismo fraco e espírito guerreiro, flertando com a morte da arte, mas sem sucumbir a ela. Distinção fundamental, mas às vezes difícil de apreender, e que nem sempre os artistas de outras áreas percebem muito bem.

Para os roqueiros, vida e arte estão tensionadas, muito próximas uma do outra. O vestuário, o vocabulário, certos trejeitos, a atitude e a visão de mundo recebem sua influência, a ponto de quase qualquer aspecto da vida se tornar inimaginável sem a música. Não é preciso gostar de jaquetas de couro, tatuagens ou boemia para reconhecer um acontecimento: os roqueiros souberam tirar a arte do limbo, souberam fazê-la interferir no campo da vida. Tal como propõem as vanguardas. Troca-se o imperativo moral, enganoso, por uma afirmação estética e ética, aberta. Isto não implica que os roqueiros sejam mais crueis que os outros homens, mas tendem a evitar dissimulações. Nos anos 60, com a contracultura, e novamente em Seattle, em 1999, vimos surgir uma militância criativa e libertária, que não se confinava às ideologias. Tais movimentos devem muito ao rock - nos anos 60 tivemos Woodstock, e nos anos 90, Seattle foi a grande capital do grunge. Na revolta de um roqueiro, entende-se o ódio ao sistema como ódio, mas não presta obediência a noções absolutas de como se contrapor; a vontade de mudança é de fato desejo e não abnegação; dispensa-se a moldura de qualquer ideologia sufocante. Nada disso ocorreu por acaso ou modismo, mas acompanhado de questões formais. No caso do rock, de uma sonoridade muitas vezes próxima do ruído bruto, que resvala no antiartístico.

Assim como negar a perspectiva e os temas sublimes não foram gestos gratuitos, o "barulho" no rock também não é. A música, abstrata por excelência, torna-se mais concreta, aproxima-se da realidade. Muitas bandas, ao tocar ao vivo, exploram as microfonias e os retornos dos amplificadores, porém mesmo nos riffs mais assobiáveis, a guitarra é distorcida, contaminando a pureza da arte. Isso faz com que até nos momentos mais deleitosos, mais harmoniosos, permaneça alguma “sujeira”, alguma lembrança do mundo palpável. É comparável à presença forte e corrosiva da matéria de Pollock, cuja técnica, aliás, exigia tanto do corpo quanto da mente. No rock, o peso com que os instrumentos soam é quase tátil, e a performance nos palcos tem necessariamente uma presença corporal importante. A vida é invadida pelo som, tanto quanto invade os palcos. Quando a realidade exige luta, portanto, é enfrentada com a convicção de que a vida deve ser redentora como a arte. Não uma vida apenas 'correta', 'organizada', 'sob controle', mas intensa, variada e aventureira.

Os roqueiros, assim como os artistas modernistas, flertam com a morte da arte, mas o aspecto antiartistíco jamais é total. Se fosse total, não haveria permuta, não se poderia passar das promessas da arte para a realização na vida. Quebram os instrumentos mas logo voltam a afirmar sua potência. Há uma dança infinita da arte com a vida, ambas enlaçadas em uma paixão visceral. Vida e arte não chegam a se fundir, não desaparecem uma na outra – mas se tocam constantemente. Por isso o impacto, por isso a reverberação.

7.15.2010

Trintando

Enfim, ontem cheguei aos trinta. Com um certo espanto: sobrevivi. Minha vida está bem melhor aos trinta do que aos vinte, sem a menor dúvida.

Quando ligou para me dar os parabéns, meu pai disse que nasci às 7:14 da noite. Eu não sabia, acho que ele nunca tinha me dito. 7:14 do 14/07. Não entendo nada de numerologia, mas gostei dos números se espelhando.

7.08.2010

Ah! Eh! Uh!

Ah! Botas. Esqueçam o salto alto. As feministas dos anos 60 deveriam ter se livrado do salto alto, não do amigável sutiã - que afinal as mulheres não deixaram de por, e os homens adoram o momento de tirar. Livrem-se do sapatinho de salto alto, mesmo que digam que é elegante. Algo que complica os movimentos e torna o passo mais contido é de uma época em que os homens não queriam que as mulheres fossem muito longe. Hoje elas não precisam andar como quem pisa em ovos. Ou a ideia é justamente que seja nos ovos deles, demarcando o fetiche? Prefiro as botas, que podem ser femininas mas mostrar personalidade, mostrar disposição para passadas mais largas. Desde coturnos pesados a aconchegantes calçados de inverno, com o cano alto torneando as pernas e um pouco de metal na fivela. Então, sim, para quem fizer questão, a bota pode terminar dando um salto, mas com a firmeza assegurada.

Eh! Unhas compridas. Toda mulher deveria deixar as unhas compridas e resistentes. Mais que isso: saber usá-las nas costas de seu amante, não tão forte a ponto de sangrar, mas com pressão o bastante para causar arrepios. Nada como a sinestesia de dez pequenos pontos patinando na pele, lascivos e destemidos. Uma mulher que domine esta técnica não precisa sentir a tal da inveja do pênis. Ela possui tanto quanto é possuída.

Uh! A mulher pode, ou melhor, deve, ser tão participativa quanto o homem no jogo da sedução. O cu doce não vale nada, no século XXI deverá ser abolido. Vou contar para quem ainda não reconheceu a vanguarda. Quando a mulher se faz de difícil, ela pode estar pensando: "Gostei dele, mas vou fazê-lo trabalhar mais até me merecer." O erro é dele se avançou antes de aquecer, mas é erro dela - e sim, elas erram - se não trabalhar o aquecimento, só o balde de água fria. Um balde atrás do outro, o que pensa o homem comum? "O 'não' é igual a 'sim', assim são as mulheres até a gente calar a boca delas". Se a temperatura está em ascensão, mas ainda não ferveu, não diga 'não'. Protele um pouco, se quiser, mas não proteste. Homem pode ser mesmo direto demais, e a mulher mais curvilínea, mas não é jogando na defensiva que se faz ouvir. O homem retrógrado - que sobrevive apenas porque elas incentivam - quer um 'não' atrás do outro, pra no fim deixar claro que é ele quem afirma. O homem de vanguarda dispensa esse teatro, prefere que a mulher seja mais imaginativa. A sedução é uma arte poética escrita a dois, mas esse 'não' que significa 'sim' é literatura de décima quinta categoria.

6.27.2010

Algo

Meio resfriado em pleno sábado à noite, fiquei vasculhando textos antigos, e encontei esse, com eu-lírico feminino. Já não me lembro bem o que me inspirou na época, mas relendo, achei que rende um post razoável.



A você tudo parece fácil, mera questão de prosseguir, de força de vontade. Pode denominar fraqueza minha, pode vociferar o desprezo teu, não se poderá mudar. É sem delícias que me descubro, é com pesar que desvio – sempre; inevitavelmente – dos projetos com que poderia, se venturosa eu fosse, laborar a construção de
Algo.
Naquela última tarde, quando sôfrego você quis se fazer real, sem espaço para enganos, sem liames com os mais fracassados erros – sem infância, derrotando mais inimigos do que o número de monstros que eu julgava haver debaixo da cama, triunfante sobre a própria raiz do Medo – naquele instante, de tão poderoso, de tão forte, tão maior que eu, naquele instante....... me senti só como nunca jamais em dia algum.
Não é assim que se protege uma moça em perigo. Não é sem mentiras que se faz as verdades do coração desconsolado de uma mulher. Não conto com nenhum recuo seu, com nenhuma nova transigência e ponderações que possa me ofertar. Não vejo por onde nem por que haveria você de se reformular – muito menos por minha causa, que sou uma só e o mundo tão maior do que eu possa te transmitir. Meu afastamento não coincide com o fim do amor, mas por ora opto inelutavelmente pela distância. Peço que respeite minha decisão, sabendo o quanto me é difícil. Não fale comigo, não me faça desejar outra vez e deixe a memória cuidar de editar os vestígios. Sigamos por caminhos divergentes, porquanto meus soluços são contrações ao menos suportáveis.

Discussão de Relacionamento - 1

Sobre relacionamento de casal, mas igualmente sobre a relação entre vida e arte.

Preste atençao, não pretendo repetir o que vou dizer agora. Bem maior que a habitual deve ser tua atenção, pois sequer pretendo dizer tudo. Há coisas que devem permanecer nas entrelinhas, coisas tão diáfanas que basta transpô-las à dimensão das palavras para deformá-las. Após tantos anos de desentendimentos, porém, algo precisa ser dito.

Vejo pelos teus dedos inquietos o quanto você se impacienta. No entanto, hesita entre pedir para eu falar tudo de uma vez ou para eu esperar até que você se prepare emocionalmente. Pegue um cigarro, abra uma janela, ajeite-se melhor no seu assento, como quiser. Você quer algo de mim, ou não levaria a situação ao ponto que chegou. Mas não sabe exatamente o que me pedir. De minha parte, só peço que me ouça, mas não a partir do lugar de vítima. Hoje não interessa quem é o homem e quem é a mulher; não estão em pauta os cromossomos. Admita, finalmente: você conquistou muitas coisas. O direito de ser eterna vítima – ao menos disto você vai ter que abrir mão.

Não quero falar de mim, não sou tão valioso assim. Também não quero falar de você, pois você só me interessa quando te sinto por perto. Nem de mim, nem de você: só existimos em relação. Mas nunca quis me relacionar com o-que-a-tua-mãe-e-o-teu-pai-fizeram-de-você. Nem com o-que-as-pessoas-ao-redor-esperam-de-você. Nem mesmo com o-que-você-acha-que-eu-quero-ouvir. Quero me relacionar com tua verdade inalcançável.

Sei muito bem, no entanto, que jamais nos ajustaremos perfeitamente um ao outro. Você também deveria saber disso. Ou melhor, você sabe e finge que não sabe. Ou melhor, você sabe que jamais nos ajustaremos perfeitamente um ao outro, e já parou de fingir que não sabe, mas continua, de certa forma, me culpando por isso. Esta tua nostalgia bastarda. Tua maior sorte é nunca ter encontrado o parceiro que você idealiza, esse que não existe, nem poderia existir. Se você o encontrasse, veria o quanto é incapaz de lhe oferecer o que me cobra.

Cobra. Se serpenteamos, não é apenas por sermos venenosos. É para evitar as linhas retas, para evitar as formas perfeitas. Mesmo quando nos enroscamos, nossos encaixes devem ser escorregadios.

Por mil anos, pensou-se que o universo girava em torno da Terra. Por mil anos, quem nascia para se calar não podia romper a lei. Por mil anos, o maldito não podia ser dito e o bem visto não podia ser revisto. Saibamos celebrar por não ser mais assim. Ouroboros é ser mitológico. Aqui embaixo, o final jamais coincide com o início.

Quantas gerações até que eu pudesse descer da torre para dizer que não quero mais te ver de cima para baixo? Que não te quero tão longe, que te quero mais perto? Gerações e gerações; e você, o que faz? Viu alguém descendo e, em vez de perguntar como se sobe, em vez de ajudar a construir aeronaves para ir cada vez mais longe, torce para que a descida continue. Mesmo que para isso, você também caia. Por despeito, por sentir que foi desrespeitada. Como pode pedir respeito se não conhece o significado?

Não é tão fácil me derrubar. Se quiser muito ver uma queda, será a tua. É imaginação minha, ou ouço você dizer que não é isso o que quer? Não é vingança? Espero não estar ouvindo coisas. Este sorriso em teu rosto, é um sorriso sardônico ou de cumplicidade? Seja como for, continuo.

Dê-me tua mão. Você já me deu a mão antes, vamos. É preciso que eu a aperte com força. Não para esmagar; é para você sentir que é de alguém forte a mão que, não faz tanto tempo, já te acariciou. É de alguém forte a mão de quem diz: Quero te levar na escalada. Mas você não pode ter medo.

Sim, faz algum tempo que o céu caiu. O que apenas significa que as distâncias diminuiram. O eterno não nos é mais terno. É hora de nos renovar. Dois filhos caídos que jamais retornarão ao paraíso. Sentindo juntos, e fabricando sentidos um para o outro. Comunicação oblíqua. Sujeito e objeto se revezando em dinâmica frenética.

Como eu disse, só existo na relação. É você quem me cria. E basta crer. Basta crer, e você logo terá a mesma força com que aperto tua mão. Não falei por falar, estamos em terreno onde não importa quem é o macho e quem é a fêmea.

Os dois devem ser fortes juntos. Após anos de desentendimento, ao menos uma coisa aprendemos um com o outro. Sozinhos somos medíocres. Ao menos nisso concordamos.

Um forte percorre vasto espaço interno, mas se abre para o que vem de fora. Explora-se em diversas direções e diversas combinações. Precisa do outro com a mesma necessidade que precisa de água. Do contrário, o oásis não passa de miragem. Falando sozinho, o mais animado dos discursos não passa de delírio. Não há dúvida de que o inferno são os outros, mas as festas no céu são mornas demais.

Não fossem algumas ideias turvas – que sequer são tuas, mas das quais te convenceram quando você era estudante – você já saberia qual é o maior desafio que temos pela frente. Você sabia antes, mas em algum momento, se esqueceu. Vou refrescar a memória. Devemos criar tantos pontos de encontro quanto possível; porém, jamais, em hipótese alguma, pontos de fusão. Olhar bem fundo nos olhos, mas sem a confusão de um pelo outro. Não é tão fácil quanto parece. Relacionar-se, interpenetrar-se – mas, por favor, com vãos, com furos, com vazios – com espaço. Para dizer de modo mais simples: não me sufoque, ou a vontade de estar perto demais é o que vai nos afastar.

E a voz que ouço de tua garganta, se eu não a reconhecer como tua – o que você acha? Se eu não reconhecer a voz como tua, simplesmente não tenho motivo algum para continuar te ouvindo. Não quero na tua garganta a voz de tua mãe, de tua tatataravó, de teus professores, da crítica especializada, a voz do bom senso, nem a minha própria voz em eco. Para dizer de modo mais simples: surpreenda-me.

Algo em você que não se perceba em nenhum outro lugar. Meu ouvido não é tão ruim quanto você julga. Encontre aquela prosódia que é só tua, cada pessoa tem uma, é como a impressão digital. Encontre-a, só você a tem, e a realce, valorize-a. É o canto que eu quero ouvir.

6.19.2010

Discussão de Relacionamento - 2

Se você apenas grita em tom de vingança, a voz é esganiçada – ou seja, você ainda não encontrou teu canto. Se o discurso não tem mais do que acusações ou auto-indulgência, é um discurso pobre; reativo, e não ativo. Não, não quero que você se comporte, que corte as unhas. Não quero te adestrar. Pelo contrário, é bom que você saiba cravar as unhas nas minhas costas. É preciso que você não seja delicada demais, não se iniba, não recue, não se recuse.

Por que um deve ser ativo e o outro reativo? Não podem ser ambos criativos? Saiba discordar de quem ama sem desacorçoar.

Olhando para o umbigo, você não encontra nem tua própria paisagem. Precisamos do olhar do outro como espelho. É nos encontros que o fogo arde mais forte.

Contudo, a maldição decreta que: se realmente nos encontrássemos, sem qualquer proteção, seria como um sol encostando em outro sol. Não seria possível suportar. Por isso, os anteparos.

Eis porque todos serpenteamos. Por que os jogos, por que as manhas, por que a insatisfação quando tudo parece bem, por que as discussões que irrompem sem motivo algum? Para evitar um contato frontal. 180 graus é rota de colisão. Há muito tempo, os espíritos disseram: é preciso turvar o caminho.

Ao contrário do que se pensa, as fantasias muito românticas foram feitas para afastar, não para aproximar. São histórias histéricas: porque o ponto de fusão é morte certa. O faz-de-conta providencialmente possível, para manter longe o que é Real.

É preciso habilidade de artista para que o âmago de um se aproxime do âmago de outro até o ponto que mais aquece, mas não estorrica. Não se toca o âmago nem de quem te parece mais próximo e mais brilhante, como não se toca o sol, mesmo que ele gere vida.

Jamais tocarei o sol de teu sistema, você jamais tocará o sol do meu, mas na superfície nos entrelaçamos e sentimos o calor. Sinto tua gravidade, mas não forço tua órbita ao meu redor. Como eu poderia amar você como sujeito, se eu reivindicasse tua elipse?

Mais que isso não digo. Falei demais, e se falo demais, canso-me de minha voz. Quero ouvir a tua. A voz que me informa remotamente sobre você, que sibila, que chama e afasta ao mesmo tempo, que cria as curvas e me leva a inclinar, que convida, que alude, que arranha e constrói. Tua voz.

6.06.2010

Omito

Na manhã mais fria do ano
quando menos esperava voltar a me fascinar por ti
em uma louca epifania, descobri

o encaixe
a sintaxe
o adágio mais sábio
que me permite
te re-conhecer
e uma vez mais me arriscar

Quas’escapando da boca
o louvor (o ardor) que me ocorreu
que você nunca ouviu
Nem nunca ouvirá

Todas as palavras são traduções
Todas as palavras são traições
Então: adivinharás melhor
no brilho de meu olhar
Intenso como nunca, ao te desvendar

A língua vibrando em silêncio
Para não vibrar sozinha

O desejo que sinto
A chama que clama
Será mais rútila
Será mais límpida
Se eu mentir sincero

Por isso omito

5.24.2010

Divagando: sexo, sedução e envolvimento

* Se, apenas por um instante, eu tivesse acesso à mente divina, e pudesse escolher um único conhecimento, seria o do impossível da mulher. Simplesmente o mais labiríntico dos mistérios.

* O maior erro que um homem pode cometer é tentar ler sua amante em linha reta. Estamos falando da mais sinuosa das criaturas.

* Duas pessoas não se movem juntas, a menos que rodopiem em passos de dança.

* A mulher vem adotando posições que antigamente eram do homem. A cultura, o pensamento e a política só têm a ganhar com isso. Por outro lado, homens e mulheres parecem cada vez mais perdidos.

* Para não ficar para atrás, o homem vem se feminilizando. É uma reação desesperada ou estratégia certeira? Mudança real ou aparente?

 * Será que há um eterno feminino, acima de todas as variações históricas? Pode surgir uma überfrau, uma super-mulher?
 
* Apesar das mudanças, a brasileira continua machista. Inclusive as que têm algum senso crítico.

* Por considerar que o homem é quem mete, a brasileira acha que seu poder está em valorizar o instante em que se sub-mete. A partir do momento em que deixou óbvio que tem vontade, a marcha ré remete a valores tradicionais dos mais ultrapassados. Pior: estimula o homem a seguir na mesma cartilha. Se ela não sustenta o desejo por conta própria, se precisa que o homem insista demais, é como se delegasse a responsabilidade para ele. A ação é toda dele, ele é o sujeito do verbo, e ela se deixa posicionar como objeto. 

* O cu doce exagerado obriga o homem a ser muito técnico no ritual de sedução. Ou seja, a partir de certo ponto, ele sabe que não deve levar a sério as negativas da mulher, e deve continuar avançando, com os dribles certos e movimentos calculados. Não há mais espontaneidade, é uma encenação mal feita. A mulher está, no fundo, ensinando o homem a desrespeitá-la: "Não acredite muito em mim. Quando digo uma coisa que te frustra, ignore e faça prevalecer tua vontade contra minha palavra".

* Não é que não possa haver graça alguma nos joguinhos. Dependendo de como se os conduz, podem ser mais lúdicos do que retraídos. Por exemplo, no início do ano, saí com uma cabo-verdeana. Tão sensual quanto qualquer brasileira, a africana não cedeu à minha primeira investida. Poderia ser o que chamamos de cu doce, no entanto ela levou o momento de uma maneira ativa, muito à vontade com a situação, sem provocar uma mini-guerra dos sexos. Ela ria, fingia que não iria ceder, mas me acariciava calorosamente enquanto se desviava dos meus beijos. Bastou sentarmos para tomar uma cerveja para ela deixar acontecer, encerrando a brincadeira com um timing perfeito.
 

* Lacan dizia que a mulher não existe. E as lacanianas, o que dizem?

* Poucas coisas me parecem mais raras do que relações onde os dois se posicionem como sujeitos.
 
*Em um casal, geralmente, um dos dois tende a se conformar com o papel de mais fraco e o outro a se aproveitar disso. Nem sempre o homem é o forte do casal - seu papel pode ser o de um castrado para o gozo fálico da histérica. E tampouco a histérica chega a ser um sujeito pleno, pois mal encontra força que não seja roubada do outro; ou seja, é reativa. Para que os dois existam na relação, o equilíbrio de forças é delicadíssimo.

* Acho interessante quando as mulheres tomam a iniciativa. É uma pena que muitos homens se apavorem quando são a caça, e não o caçador. Infelizmente, inúmeras mulheres evitam tomar a iniciativa sempre que gostariam, para não intimidar.

* Das (poucas) vezes em que eu fui o alvo, achei relativamente fácil para um homem sair da condição de objeto e equilibrar o jogo. E uma mulher que aborda não se rebaixa facilmente a mero objeto, ela começa muito ativa. Nem que seja por uma noite, são duas pessoas assumindo plenamente seus desejos, sem pudores.

* Não só historicamente, como biologicamente, hormonalmente, o homem tende a ser um pouco mais ativo no casal. Isso não mudará tão fácil, e talvez não tenha que se transformar completamente. Afinal, a marca distintiva do masculino é a penetração. No entanto, para nós, seres falantes, é mais excitante, mais honesto e mais recompensador permitir algum espaço para a mulher mostrar que tem poder. Claro, desde que ela saiba se aproveitar disso sem querer reduzir o homem a um objeto, castrando-o.

* Mirem-se no exemplo das mulheres roqueiras. A expectativa romântica, no sentido novela das oito, costuma ser bem mais baixa do que a da maioria. Isso é saudável. Não é preciso ser mulherzinha para ser feminina; pode-se falar e agir com a mesma potência que os homens sem deixar de ser sexy. O que não faz sentido é achar que a perfeição de uma mulher vem com a perfeição de algum príncipe encantado. Nada mais devastador para qualquer coisa real do que um ideal inalcançável.

* Enquanto o amor não vem, o sexo pode ser só sexo. Aliás, só os pudicos acham que ir para a cama com uma pessoa não pode ser o início de uma conexão forte e honesta. Pode ser uma oportunidade para conhecer alguém em sua intimidade, não só física. A nudez de duas pessoas na cama após uma noite de prazeres - só depois desse tipo de proximidade é que há como saber realmente se vale a pena investir em uma relação duradoura. 

* Tanto homens quanto mulheres se boicotam muito. Para ser justo, não é só a mulher que tem discursos sinuosos, medos e inseguranças de toda sorte. É sempre mais fácil obter prazeres moderados do que se entregar a uma pessoa que realmente valorizamos. Quando sentimos que temos muito a perder, nos apavoramos. O problema é, em grande parte, falta de amor-próprio. A maior armadilha é depender demais do outro para se sentir bem.

* Quanto mais temos uma reserva de auto-estima, mais podemos nos entregar a pessoas que nos toquem intensamente. Porque temos gordura para queimar, podemos nos arriscar sem o medo de que, caso percamos o parceiro, não nos sobre nada. Então, sim, nos aventuramos. Se não nos sentimos especiais, como sustentar o olhar de alguém que consideramos especial? Todos aqueles velhos clichês: só ganha quem está disposto a perder, quem não arrisca não petisca, etc.

* A vida é uma só, mas as histórias podem ser muitas. É altamente recomendável experimentar-se tanto quanto puder. A melhor maneira de conhecer a si mesmo é nessa espécie de dialética com os parceiros.

PS:
* Já vivi uma situação em que do primeiro olhar ao beijo não foram nem quinze segundos - e foi um momento bem marcante. E situações em que o vamos nos conhecer melhor não me soou como um fazer-se-de-difícil, apenas como o convite para um degelo mais lento. Quero apenas deixar claro que não se trata da velocidade, mas do quanto a mulher sabe ser ativa, íntegra e sincera na cumplicidade de uma aventura a dois.

5.09.2010

Não é piada...

Minha mãe tem uma casa que pia! Não é piada, nem prosa fiada. Algum passarinho fez um ninho na tubulação do Suggar, que ninguém usava há anos. Não dá para ver os filhotes, mas quem vai à cozinha preparar um café, pode ouvir os pios. Várias gerações já compartilharam esse teto. Quando ficam grandes, da janela vemos os exercícios de seus primeiros voo solo.

5.07.2010

Secretária Eletrônica - Caderno de Bobagens - 4

Trabalhando cerca de 12 horas por dia, não tem como não sentir o estresse. Para relaxar um pouco e seguir adiante, resolvi folhear meu velho Caderno de Bobagens. Uma das minhas bobagens favoritas, da qual eu estava quase me esquecendo, era gravar mensagens de saudações bizarras na secretária eletrônica. Adorava isso quando era moleque, e não sei como meus pais deixavam.

As pessoas telefonavam para minha casa, de parentes e amigos a cobradores e colegas de trabalho, e mesmo que não falassem com ninguém, saberiam que os Hegenbergs não eram muito convencionais. A secretária eletronica se incumbia de dar esse recado.

Às vezes, assustava. Entrava Hit the light do Metallica para criar a atmosfera apocalíptica, seguida de minha narração: O fim... O fiiiiiiiim está próximo. Guitarras rasgando. E então, ouviremos a mensagem. Voz profética se elevando. Mas antes... Deixava rolar a bateria acelerada, até uma pausa súbita. Antes... o sinal. E então, o bip da gravação.

Outra, antológica, tinha aquela trilha da Missão Imposível, que um amigo improvisava com a boca ao fundo. Tananan, tananan, tananan, nanan. Em vez de pedir nome, telefone e horário em que ligou, eu falava sobre QG, códigos secretos e exigia informes sobre a próxima missão. Besteira, sem dúvida, mas era divertido.

Outras intervenções eram um pouco mais dadaístas. Como uma anunciada e celebrada escovação de dentes. Muito antes de saber de Vito Acconci, eu falava da higiene bocal como se fosse uma performance imperdível para os ouvintes incautos. Ou então, improvisava um conto surealista que poderia ir de sapos a naves espaciais, sem o menor nexo entre as partes, só para deixar aquela cara de interrogação em quem queria ser recebido com um simples Alô. Ah, também tinha essa, que aliás era meio manjada: dizer alô, como se não fosse uma gravação, esperar o tempo da resposta, emendar um tudo bem, e levar adiante, para que o pobre coitado na outra linha pensasse estar falando com alguém em carne e osso, em vez de uma voz gravada.

Geralmente, essas saudações, por estúpidas que fossem, causavam um certo frisson, até mesmo uma expectativa quanto a qual seria a próxima. Mas às vezes deixavam as colegas de trabalho de minha mãe apreensivas a ponto de se queixarem. Como uma em que o teclado lhes dava aquela frase lenta e hipnótica, aguda, tão familiar quanto desenraizante. Nem todo mundo gostava de saber que, com um simples telefonema, poderia entrar na Zona Além da Imaginação.   

4.29.2010

Crise dos 30

Este blog, com este nome, não vai sobreviver à minha crise dos 30. Que completo no dia 14 de julho. Data revolucionária, dia da Queda da Bastilha, o que sempre me deu um certo orgulho e um ímpeto por mudanças repentinas. Especialmente dos vinte até hoje, mal consegui atravessar dois meses sem enfrentar questionamentos bruscos de alguma ordem, fosse política, estética, afetiva, psicológica ou metafísica. É exaustivo, afinal dificilmente alguém consegue me acompanhar em tantas guinadas. Este blog mesmo... mal sei como tem sua média de 12 visitas por dia. Também nem desconfio como mantenho algumas amizades por 15 anos, se não sou a mesma pessoa por mais do que alguns instantes. Claro, eu só sobrevivo por ter esses parceiros de longa data,  mas sinto que só uma companhia me tem sido realmente constante: o espírito questionador, que em muitas situações mais me atrapalha do que ajuda.

No entanto, se você traça linhas aleatórias por muito tempo, algumas começam a incidir com maior visibilidade do que outras. O desenho vai se tornando mais visível, certos caminhos se sobressaem. Após muitas reviravoltas, por exemplo, é com alívio que chego a um momento profissional satisfatório. Estou adorando fazer traduções para a Discovery Channel, acho que descobri um nicho onde sou competente profissionalmente. Meu inglês ainda não é impecável, mas tem alguma coisa nessa rotina multitask que vai ao encontro da minha personalidade: o trabalho com a língua; a atenção à imagem; bocas abrindo e fechando onde encaixar a dublagem; o aprendizado a cada documentário; e o próprio ritmo frenético de passar de uma janela para a outra me são viciantes. Além das traduções, tenho lecionado inglês, o que para mim é um desafio bem maior, mas também recompensador. Acima de tudo, essas aulas têm me deixado mais aberto a pessoas bem diferentes de mim. Com isso, venho flexibilizando meu ponto mais intransigente, mais "jacobino": eu costumava pensar que só tinha a aprender com quem mostrasse algo de espírito-livre. Posso estar ficando velho, mas levei três décadas para entender que a vida não é uma superação atrás da outra. É que meus pais não me ensinaram a ser gente, apenas a ser filósofo ou artista. E por melhor que você seja nessas áreas, é pouco; eu estava deixando de captar muitas frequências e agora eu quero captá-las.

A maldição de ser artista, ao menos um com a imodesta intenção de criar algo relevante, é que quanto menos concessões fizer, mais longe chegará. Não no sentido comercial, claro, isso tem sido inversamente proporcional, mas quanto à contundência. Concessão não é apenas o que você cede para o mercado, pode ser como você se adapta a qualquer nicho estabelecido. Muitos conseguem repoduzir, por exemplo, exatamente o que a Folha de São Paulo ou a USP esperam de um artista, moldando-se àquele formato, independentemente de concordarem ou não. Nem essa facilidade eu me permito, apesar de que, se eu quisesse, saberia muito bem como fazê-lo.

Não acho que tenho uma natureza intrinsicamente beligerante, só não consigo ficar quieto quando enxergo erros hediondos que poucos percebem.  Nesse ponto, não dá para negar, sou definitivamente a minoria, talvez por isso subestimado. Foi com Nietzsche que aprendi o quanto a moral é inimiga da vida, mas quantos têm, mais do que inteligência, estômago para realmente absorver suas lições, 130 anos depois? Já Harold Rosenberg viu com muita clareza a farsa de grande parte da arte contemporânea, mas essa farsa não é percebida por quase ninguém com lucidez o bastante para contestá-la. O comunismo é uma ideia que chegou a me atrair, mas é impossível observar o homem em suas minúcias e julgá-lo capaz de sair da teoria à prática - mas quantos se dispõem a ver o homem com imparcialidade, sem véus confortadores? E, por fim, o amor, que não está em moda entre intelectuais, mas é sempre um filão para grande público. O pior é que eu acredito no amor, mas não como o vendem. A cada experiência que atravesso, repito a pergunta com maior decepção: cadê a coragem das pessoas para se abrirem ao outro sem se apoiar em um monte de mentiras?

Em plena crise afetiva, bem sei que não facilito a vida das mulheres. Muitas dizem que adoram aquele livro da Clarice, Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres... É mais ou menos a história que eu tento tornar realidade, mas, em meio à crise dos 30, estou a ponto de desistir. O socialismo eu descarto porque acho impossível, não porque não ache belo, e a aprendizagem da Clarice me parece mesmo bela, mas está começando a me parecer utópica. Basicamente, é um homem ensinando uma mulher a ser tão forte quanto possível. Para isso, ele deve ensiná-la a encontrar forças em si mesma, não só nele, pois só então eles seriam dignos um do outro. Alguns dos ensinamentos são meio deprimentes, como ele não levá-la para a cama antes que o aprendizado se conclua. Clarice que me desculpe, isso não dá para seguir, mas não creio que minha falha esteja aí. A dificuldade está na própria falta de concessões. Que é também a grande questão no embate de minha vida artistíca versus minha vida pessoal. Fato é que qualquer pessoa com quem eu venha me relacionar entra em um terrível ménage a trois. Tenho como amante fiel uma entidade das mais exigentes, mas com quem tenho uma sintonia incrível e me dá um prazer enorme. Minha obra, é claro, por que não dizer que eu a amo, que estou feliz com ela?

Nos meus empregos, estou fazendo concessões o tempo todo, o que não é necessariamente ruim. Algum senso de realidade é preciso ter, e bem que encontrei tarefas que me ampliam os horizontes. Mas seja nas aulas ou nas traduções, não é o mesmo amor que eu tenho com a arte. Emprego algum poderia igualar, pois com meu trabalho pessoal o diálogo é outro, não tem restrições. Agora, se meu aprendizado amoroso vem principalmente da minha relação com arte, como produtor ou como fruidor, acho que uma única vez consegui traduzir isso para uma relação com uma mulher. Foi eterno enquanto durou, pouco mais de três anos. No caso, acho que foi uma espécie de ménage a trois. Ela interferia diretamente na minha obra, criticando às vezes severamente, outras me elogiando com admiração genuína. Muitas vezes me sugeria leituras que me enriqueceram muito, mas tudo com enorme respeito. A sintonia era boa entre nós todos. Um tentava fortalecer o outro, mas, como no livro dos prazeres, não se faz isso sem pequenas - ainda que proveitosas - destruições. O que digo é que não havia muitas concessões, o que havia era um senso de desafio e uma tentativa radical de nos mantermos honestos um com o outro. Essa é a parte mais perigosa, e abre algumas feridas, mas era o que nos punha em verdadeiro contato um com o outro.

Próximo dos trinta anos, sinto que pela primeira vez estou em ótima fase tanto na vida profissional quanto na produção artistíca. Mas, quanto à vida amorosa, alguma coisa está faltando. Constanto que a imensa maioria das mulheres me pede uma relação que me soa mais com a que tenho com o trabalho, não a maneira com que funciono quando realmente amo. Devo ser complicado mesmo, e as mulheres não se importam tanto com quem você é, podem até te achar um gênio, elas se importam muito mais com o que você é e faz para elas. Nesse ponto é que eu mais as decepciono, assim que elas percebem que meu compromisso com minha obra pode ser mais profundo do que meu compromisso com elas. A menos que uma delas, por algum motivo especial, consiga intervir e estabelecer uma relação a três, não há como eu ceder apenas para ser gentil. Eu sou irritantemente fiel à minha obra, apesar das amantes fortuitas de carne e osso.

4.12.2010

Pichadores convidados para a Bienal

Engraçado ver a notícia anunciada justo na Mônica Bergamo, pois não se trata de arte, mas de colunismo social mesmo. Alpinismo, holofote, vernisage, drinkzinho. Eu cantei a bola dois anos atrás: os pichadores se encaixam tão bem na atual mentalidade de arte contemporânea que poderiam ser cooptados numa boa. Não há uma distância muito grande entre os ataques de Rafael Augustaitis e a antiarte das últimas cinco décadas. O que ocorre é uma espécie de ultimato: ou se desiste de muito do que foi pensado nas universidades a respeito da antiarte, ou se endossa qualquer ataque à arte como vanguarda. O movimento inercial tem sido o da subtração, mais que da criação, e Rafael se valeu dessa brecha desde que começou.

Se ao menos esses caras pichassem mais as casas dos políticos ou propagassem mensagens como Maio de 68, eu poderia considerá-los, se não grandes artistas, ao menos terroristas poéticos. Eu já fiz isso - eu, cujo background de infância, comparado com o deles, é o de um filhinho de papai - por que não esses maloqueiros tão destemidos? Está provado que eles, assim como boa parte dos artistas "engajados" atuais, querem mais é aparecer, em detrimento de quem faz arte de verdade.

Contra a corrente sou eu. Por mim, as instituições podem considerá-los revolucionários - eu estou cada vez mais orgulhoso de seguir meu caminho sem tanta ansiedade pelo sucesso. E nem tenho um discurso anti-sucesso, como supostamente eles têm. Mas, do mesmo jeito que eu sabia dois anos atrás que eles poderiam escalar e ser cooptados, eu sabia também que meu caminho podia me deixar um tanto à margem. Ok, meus livros estão no mercado, tenho artigos na DASArtes, aceitei bolsa, mas corro meus riscos, e não me vendo sem um mínimo de coerência. E, isso eu tenho sentido na pele, especialmente estes dias: é muito, mas muito mais fácil engolir um Pixabomb do que um Ivan Hegenberg - por uma questão de densidade.

Para não me repetir muito, vou deixar o link de Crepúsculo de Paradigma, o artigo onde fui mais a fundo em toda essa discussão.

Nobody loves me

Nobody loves me
It's true

Só depois de ouvir meio distraído muitas vezes, reparei no terceiro verso da canção:
Not like you do

Ela canta esse verso um pouco mais para dentro, mais abafado, do que o início do refrão. A voz de Beth Gibbons é melancólica, o trip hop da banda é introspectivo, o nome da música é Sour Times - "tempos amargos". Este "not like you do" me deixa com uma ponta de dúvida. Ninguém me ama "como você" ou "não (é verdade) que você me ame"? Ela fala em disfarces, clama por sinceridade, e aponta que as "circunstâncias vão decidir".

A canção do Portishead tem ido e voltado na minha cabeça diante da consideração de que ninguém me ama. Acho que nunca antes, em quase trinta anos de vida, despertei tanta admiração - mas amor? Há muito tempo que ninguém me permite uma única chance para o amor. As mulheres têm se relacionado comigo com todas as precauções imagináveis, abandonando-me ao menor sinal de que um sentimento mais forte possa surgir.

Se eu for otimista, posso entender o segredo sussurrante do "not like you do" como um "ninguém me ama como você". Mas não mudaria a atmosfera da música - continuaria melancólica, com vidas enterradas e memórias de ontem.

Já não consigo mais dizer se o problema é meu ou delas. Estou pensando em amor, mas, assim como Beth Gibbons, desconfio de todos seus maneirismos mais codificados. Cavalheirismo, juras precipitadas, dez telefonemas por dia - na minha opinião, convenções sociais e neurose são um pouco diferentes de amor. A maioria das pessoas prefere assim mesmo, acho até que se sentem mais confortáveis com o mero simulacro do que com uma conexão verdadeira. Principalmente quem não se conhece muito bem, não permite uma relação onde os dois tentem se aproximar um do outro. Nada contra flores, mas qualquer mulher experiente deveria saber que os pseudo-cavalheiros as usam como disfarce. Mais ou menos assim: "Fique olhando para essas flores, mas não olhe por trás dos meus olhos, ok?". A ironia é que o acordo é aceito com um certo alívio; se a mulher apenas superficialmente quer conhecer seu homem, mas morre de medo do que pode encontrar no fundo, prefere o vermelho das flores do que o de seu coração pulsante.

Elogios à roupa, perguntas sobre como foi seu dia, presentinhos, bilhetinhos, um milhão de telefonemas - claro que em muitos casos isso pode conter um carinho sincero, mas em inúmeros outros, se reduz a apenas técnica, manutenção, procedimentos burocráticos que os homens, ao longo de gerações, aprenderam ser necessários para que a parceria funcione, independemente do que estejam sentindo. Ou apenas neurose, onde não se enxerga o outro, apenas se controla os papéis em cena. Não estou propondo o fechamento de todas as floriculturas - ora, eu já dei flores de presente - apenas que o foco esteja no que não é decorativo. Na minha opinião, o amor é a exceção da exceção. A cada dez casais que pensam que se amam, talvez apenas um se relacione com alguma verdade. A maioria das pessoas simplesmente não tem estômago para aceitar o parceiro tal como ele é, pelo motivo óbvio de que não aceitam a si mesmas tal como são.

A simples encenação de um namoro ou de um casamento pode parecer sublime, mas eu prefiro não confundir a personagem com a atriz. O momento de sedução sempre é um teatro, inevitavelmente, e eu até subo no palco e recito algumas falas decoradas. Mas quando ameaço tirar a maquiagem para que alguma coisa real tome lugar, geralmente é o início do fim. Elas nem mesmo esperam para ver se meu rosto ao natural lhes agrada ou não - é o próprio gesto de tirar a máscara que as assusta. Talvez porque se sentiriam impelidas a limpar o rosto delas também. Ao menos, esta é a minha versão do que tem me acontecido com uma irritante recorrência.

Mas quem sou eu para falar de amor? Afinal, nobody loves me
It's true

3.13.2010

Mulher

     Mulher sangra pra virar moça

         Sangra ao conhecer homem

         Sangra desde o início da vida

         Sangra no último dia


          Mulher quer, mulher sente

          Sente-se de perna cruzada, minha filha.

           

           Mira o homem, parece forte

           Quer troco, se zanga, questiona

           Desliza, compete, quer braço

           Carinho ou atrito, amasso 

             
           Suporta no ventre o excesso da vida
           A natureza a violenta por dentro   
           No imo, por baixo, nas veias
           Ecoa as dores da criação.

       

3.03.2010

Jein no Arena Poesia

Jein é meu mais novo poema, que vocês conferem no Arena Poesia. O site é administrado por Pedro 
Andrade Jr, um cara muito simpático e com boas ideias. Quem quiser colaborar com o site, entre em contato com ele: pandrade66@hotmail.com A cada edição do Arena Poesia, há um tema novo. Jein, no caso, é uma palavra alemã que combina o sim e o não (ja e nein) para sugerir ambiguidade e imprecisão.

Vale a pena contar, rapidamente, como conheci o figura. No final do ano passado, estávamos eu e meu irmão na fila da Funhouse, e puxamos conversa com um grupo de amigos para matar o tempo. Nos divertimos comentando a transformação da casa ao lado da boate: antes era uma casa de fetiches (bondage, sadomasoquismo), agora é uma escola infantil. Nossa imaginação doentia logo visualizou crianças pedindo palmatória e professores brandindo o chicote. O uniforme, claro, era composto de peças de couro, e quem não batia no colega ficava de castigo.

Entre uma piada idiota e outra, descobri que o Pedro trabalha com cinema e escreve poesia. Trocamos e-mails e algumas dicas. Ele leu meu roteiro para longa-metragem e deu os melhores palpites que Poesia Dissonante já recebeu. E ainda me deu de presente o tema para um poema que não é dos meus piores. Rock, cinema, humor infame, poesia... Uma pena que não sou gay, eu ia me apaixonar por ele fácil fácil.

2.24.2010

Guilherme de Almeida Prado

Em pleno sábado de carnaval, lá estava eu com este grande cineasta, na Lanchonete da Cidade, para trocarmos impressões sobre nossos trabalhos. Um dia antes de eu farrear encarnando um travesti, na Dorotéia de Boiçucanga, nada mais justo que encontrar ao vivo, depois de algumas conversas ao telefone, um diretor que não hesita em confudir gêneros. Gêneros sexuais, no que lembra Almodóvar, mas especialmente cinema com pintura, filme noir com pós-modernismo e diferentes referências musicais.

Ele começou a carreira na boca do lixo, como assistente de pornochanchadas. Aliás, este é o assunto de seu proximo projeto, em uma comédia sobre os bastidores desse universo. Com A Dama do Cine Shangai, de 1987, ganha o prêmio do Festival Gramado. Seu filme mais redondo é A Hora Mágica, onde explora com muita competência a transição da era do rádio para a era da televisão. Contudo, meu preferido dele é Onde Andará Dulce Veiga, que vocês podem baixar gratuitamente aqui. O filme não "vazou", foi o próprio Guilherme que liberou para a rede. Apesar de não ter sido bem compreendido pela crítica, é um filme que precisa ser visto. Guilherme interferiu diretamente no negativo, combinando padrões de cores arrebatadores com as cenas filmadas. Até mesmo pétalas de flores e asas de borboleta foram coladas na película. A Dulce Veiga do título é uma diva da música dos anos 60 há muito esquecida, interpretada por Maitê Proença. O jornalista Caio tenta resgatar seu passado quando é incumbido de cobrir a banda de sua filha, uma roqueira lésbica (Carolina Dickemann, em uma atuação ousada).

As duas divas, mãe e filha, uma apresentando versões suaves, outra, estridentes, da mesma canção, confundem os sentimentos de Caio. O peso que a música ganha, de uma geração para a outra, sinaliza o quanto o mundo ficou mais elétrico e tenso. Quanto ao nome do personagem principal, não é Caio à toa - trata-se de uma adaptação de romance homônimo de Caio Fernando de Abreu.

Basta uma espiada nas cenas do trailer para concluir que a crítica especializada - no Brasil, careta a ponto de se chocar com Cleópatra de Bressane - bem que tentou anular o filme, mas este sobreviverá. Não dá para negar que estamos diante de uma obra das mais experimentais e singulares que já se produziu em nossas terras.

2.03.2010

A-moral

Quando pequeno, como toda minha turma da escola, era só a professora pedir um desenho pra fazer o mesmo esquema: traçar um risco meio torto no que deveria ser o centro da página, e de um lado desenhar o heroi, do outro o vilão. Nossos garranchos ainda assinalavam qual era o "bem" e qual era o "mau". Influência de He-man, Thundercats, Jaspion, Caverna do Dragão e Homem-Aranha, que nos livravam de tantos perigos, abençoados e justos que eram. Mas meu pai, incorrígivel, não me perdoava. Eu não tinha nem sete anos, ele já queria me ensinar que em lugar algum, fora da TV, existe 'bem' ou 'mau'. Com essa idade é um tanto difícil entender, mas a lição perdurava como um desafio na minha cabeça. Uns três anos depois, pra piorar, ele tentou me explicar Complexo de Édipo. Foi mais ou menos assim: Filhinho, tá na hora de você saber que, no fundo, você quer matar o papai. Mas tudo bem, é só no inconsciente. Freud deixa. E antes que eu me recuperasse do susto, arrematava: E essa mulher aí do lado, sabe, a mamãe? Você tem vontade de meter o pinto nela. Mas eu não fico bravo, todo mundo é assim. Depois dessa, não tem mais volta, sua visão de mundo se distancia do senso comum, querendo ou não.

Meu pai era um chato, isso é fato, e aí é que dava mesmo vontade de matá-lo, tal como Freud queria. O contra-senso é que ao matá-lo - simbolicamente, claro - eu lhe dava razão. O conflito de gerações ficou concentrado no gosto musical - meu pai detestando rock, inclusive Doors cantando The End. Quanto à visão de mundo, essa que o Dr. Mauro ensinava já era subversiva o bastante, seria difícil encontrar pontos de partida mais rebeldes. À parte o incesto e as discussões em família, resolvi pensar no que ele tanto queria me ensinar. E, com o tempo, fui entendendo que nada prejudica tanto a vida quanto a noção de 'bondade'. Aliás, qualquer criança deveria saber disso. Que as penitências, o medo do inferno, as inquisições, as convenções, as jihads, os gulags, os preconceitos, as perseguições - só são possíveis quando todo um povo crê firmemente estar do lado "certo". Quem acredita no 'bem' - digamos, o "bom filho", o "bom pai", o "bom marido" - é sempre o mesmo personagem, obedecendo ao ambiente que o circunda. Se está no auge da Inquisição, vibra ao ver queimar na fogueira quem não acredita em pecado; se está na China de Mao, apedreja casais jovens que quebram o decoro ao dar as mãos em público; se está no Brasil de Médici, acha que os dissidentes são maléficos terroristas; se cresceu numa família nazista, tem plena convicção de que os judeus é que são desumanos e traiçoeiros. Em todos os momentos históricos em que houve apoio maciço à imbecilidade, sempre encontramos um ponto em comum: a crença fanática de que estavam certos, e os inimigos, errados.

Quando digo que prefiro uma ética extra-moral, não defendo o foda-se generalizado. Só está além do bem quando se ultrapassa também o mal. Do contrário, permanece aquela linha torta serrando ao meio, ainda estamos diminuídos, e ainda é nosso oposto dizendo quem somos, pelo avesso. A bondade jamais foi encontrada, nem pelos neurologistas, nem pelos psicanalistas, nem pelos amantes, nem pelos poetas. Por mais que mobilize as pessoas, não é nada mais que uma abstração. A empatia pelo outro, no entanto, esta se pode encontrar. Até mesmo em cães e ratos que testemunham maus tratos em outros de sua espécie, percebe-se respostas emocionais imediatas. Todo nosso processo de aprendizagem se apoia na imitação dos próximos. Cognitivamente, perceber ao outro ou a si mesmo requer atividade cerebral semelhante. Até mesmo torcer pelo Homem-Aranha só é possível porque nos identificamos com os demais. Isso não significa que nos identificamos com o Homem-Aranha porque ele representa nosso lado bom. Mais correto é que gostemos de vê-lo esmurrando inimigos.

Eu já nem lembro se foi antes ou depois da crítica de meu pai aos meus desenhos: às vezes eu via oBatman na armadilha e torcia mesmo era pelo Coringa. Torcia por Luc Skywalker, mas de repente a vontade era a de que Darth Vader o derrotasse. Eu não era uma criança nem boa nem má: em alguns momentos, tinha certeza de que ao crescer seria ecologista; em outros, era tão impaciente que esmurrava paredes e só respondia atravessado. E onde já se viu uma criança boazinha, sensata, um anjinho? Só se for muito tolhida, muito amedrontada; não é natural.

Quanto àquele traço que separa o heroi e o vilão de maneira incólume, melhor mesmo apagá-lo cedo, não deixá-lo engrossar. Depois, fica mais doloroso desaprender. Conheço adultos muito inteligentes que, para meu desgosto, ficam ultrajados quando digo apenas o que eu sabia desde a infância. Por exemplo, que quando traçamos contornos para o bem, o que queremos, na verdade, é evitar com toda a força certas empatias. Não queremos entender que o nazista é um ser humano, que pertence à nossa espécie, portanto não é totalmente diferente de nós - e achamos que resolvemos tudo ao tomá-lo por "mau". A armadilha é que este é exatamente o mesmo mecanismo que o nazista usou para definir o judeu. Não é que devamos perdoar genocidas, mas não precisamos gastar nossa energia a fim de convertê-los em algo não-humano. Basta derrubar os conceitos de bem e de mal para que o pensamento genocida não mais se sustente. Para uma criança, um nazista pode ser apenas um homem que não sabe brincar; para um adulto, é o homem que mente para si mesmo, um recalcado, que não confia na liberdade. Uma vez desaparecidas as convicções maniqueístas, interessa apenas o que amplia horizonte, rejeita-se tudo o que torna o mundo mais estreito. Não é preciso moral para valorizar a diferença, a variação, a dignidade de cada um ser como é. Ao dispensar a moral, somos obrigados a nos reiventar constantemente, temos de ser criativos a todo instante - e ninguém cria nada sozinho, somente em diálogo com os demais.

Muito mais natural do que a fiança da moral é o ímpeto para ir além do ego. Não se joga futebol sozinho, não se namora sozinho, não se conta uma piada para si mesmo com a mesma graça com que se conta para os amigos. Nossos desejos sempre se remetem a outras pessoas, o que é motivo para se confiar em uma ética a menos coerciva possível. Quanto menor a moral, menor o sentimento de vingança, menor a surdez nos diálogos e mais improváveis as reviravoltas fanáticas. Não que tudo seja belo, que ninguém se machuque no futebol, que o amor não tenha seus espinhos ou que todas as piadas tenham graça. Ainda assim, é com a inocência de uma criança que faço questão de ser amoral.