Showing posts with label Artigos. Show all posts
Showing posts with label Artigos. Show all posts

8.04.2010

Não subestimar o rock

Quando se fala de Beatles, é fácil. Todos se sentem à vontade para dizer que eles entraram para a História, que realizaram uma revolução dentro e fora da música. Seja pelo impacto que exerceram sobre jovens contestadores em todo o planeta, seja pela sofisticação dos arranjos de A day in the life ou I am the walrus, poucos duvidam que eles serão lembrados por gerações ainda por vir. No entanto, curiosamente, o grupo de Liverpool não conseguiu estender o mesmo reconhecimento para outras bandas de rock que estiveram à sua altura. O jazz ou a bossa nova, por exemplo, são gêneros com status bem mais confortável, recebendo elogios de maestros notáveis e entrando facilmente nas estantes dos intelectuais. Para os guardiões do bom gosto, Beatles é totalmente aceitável, porém Beach Boys, 13th Elevator Floor, The Who, Jefferson Airplane, Rolling Stones, Elvis Presley ou Chuck Berry já lhes soam como um som mais adolescente, menos sério. E nem se dispõem a notar que as canções de Lennon e McCartney são impensáveis sem o intenso diálogo com todos esses.
Talvez seja um mérito dos roqueiros. Eles não se importavam com o que os acadêmicos ou os bons cidadãos iriam pensar, e grande parte de sua energia vem de sua independência. Mas muito se engana quem crê que a História do rock pertence ao mero entretenimento. Os conservatórios se apegam demais à etimologia da palavra, ao menos quando julgam que a verdadeira música é apenas a que os velhos homens de peruca compunham. Da boca para fora, era essa a opinião expressa de Frank Zappa, mas por algum motivo, ele pegou a guitarra, ligou na tomada e preferiu inovar do que diluir o que já pertence a outra época. Jon Lord, tecladista do Deep Purple, também tem formação erudita e se mostrou bem à vontade em Concerto For Group and Orchestra. O renomado Philip Glass criou composições inspiradas em David Bowie e Brian Eno. Miles Davis bebeu do rock para chegar a um de seus melhores trabalhos, Bitches Brew. John Cale trocou a sonolência de La Monte Young pelo Velvet Underground, com Lou Reed.

E, no entanto, ainda aquela desconfiança, a sensação de que um pianista de fraque sempre nos levará mais longe do que um cabeludo tentando revirar cordas de aço do avesso. Para colocar um pouco de preconceito neste artigo – ou melhor, para não ceder demais ao relativismo – na minha opinião, a música pop mais rebolante dificilmente consegue. Pode-se selecionar as loiras mais provocantes, abusar da iluminação, da maquiagem e dos efeitos especiais, juntar dezenas de bailarinos para acompanhar, e pouco importa, o resultado sonoro será banal, previsível, reduzido a fórmulas batidas, e portanto a bilionésima execução do pianista de fraque continuará tendo algo mais a dizer.

Posso estar sendo preconceituoso, mas não sou o único por essas paragens. Beatles como a única banda de rock que merece ser lembrada? Só chegaram à unanimidade porque se passaram por bons moços. Nem mesmo as experiências com ácido – Lucy in the Sky with Diamonds – ou a língua cada vez mais ferina de John apagaram totalmente a primeira impressão do grupo, quatro rapazes de sorrisos inocentes que pediam tão gentilmente para hold your hand. Para muita gente, não cai a ficha de que eles também cantavam Live and let die, ou que Yesterday era a véspera de the dream is over. A fase inocente dos Beatles, a meu ver, só fica interessante quando vista em retrospectiva – entender que Lennon, mesmo divulgando All you need is love, sempre foi de uma inquietude excepcional. Não foi por falta de tentativa que ele não conseguiu destruir sua imagem inicial, à qual os saudosistas se apegaram.

                                        The Who em Monterrey

Já Rolling Stones e The Who tiveram logo cedo uma imagem rebelde, rompendo decisivamente com a geração de seus pais e com os valores vigentes da sociedade. Depois deles, simplesmente não havia motivos convincentes para se retroceder à candura piegas de Love me do. Especialmente nos anos 70, talvez tenha havido algum exagero nas quebras de hoteis, nas brigas com a plateia, nas cusparadas, nas auto-mutilações e em sacrifícios animais no palco... mas a urgência por um novo ritmo de vida e a profanação dos valores estabelecidos não foi precisamente o que as vanguardas do início do século XX haviam considerado revolucionário? Os maiores intelectuais de Paris um dia celebraram Arthur Cravan, um espírito livre que transitava entre as artes e os ringues de boxe, com uma postura não menos impactante que a dos roqueiros. “Eu não desejo ser civilizado” era seu mote, e ressoava entre os artistas mais decisivos de sua época.

Claro que, ainda na linha erudita, tivemos rebeldes, como Schoenberg, Edgard Varèse, Harry Partch, John Cage, Pierre Boulez, Stockhausen, entre outros. Não são os mais apreciados nas salas de concerto, onde ainda imperam sons mais “puros”, os de Mozart, Bach, Beethoven e companhia. Nem quero dizer que não tenha algo de assustador na Quinta Sinfonia, mas é um terror sublime, ou seja, domesticado. Há uma brilhante representação de nossos medos, ainda assim, permanece dentro das margens de segurança. Se eu fosse marxista, empregaria agora a palavra “burguês”. Em vez de moralizar o discurso, vou traçar uma breve comparação com o modernismo nas artes visuais e na literatura. Minha questão é: se Baudelaire, Rimbaud, Artaud, Van Gogh, Picasso, os futuristas, os dadaístas, etc, hoje são admirados por sua ousadia, tanto na forma como no conteúdo, por que na música parece haver uma resistência tão grande a assimilar rupturas? Por mais que Beethoven tenha sido genial, não há uma certa covardia ao aceitar apenas os sons mais puros?

O que o modernismo buscou fazer é aproximar a arte do campo da vida. Quando Baudelaire flana pela cidade em busca de pequenos temas urbanos, mesmo que para isso tenha que andar por ruas sujas e mal iluminadas, ele começa a tirar a arte do limbo para torná-la mais palpável, mais próxima de nós. Walt Whitman faz poemas agitados sobre máquinas e homens comuns, Rimbaud apresenta-se como jovem indomável, Dostoievsky aborda mentes criminosas. Os temas sublimes são deixados de lado ou se misturam com o trivial e o maldito. Ao mesmo tempo, as palavras vão ganhando autonomia, ficam menos descritivas para que cada sílaba ganhe peso.

Os impressionistas, e logo depois Van Gogh, empastam a tela com grossas camadas de tinta para que o sublime desça à Terra, para que a beleza seja mais tangível. Os artistas vão renunciando à perspectiva, o que foi muito mais do que experimentar algo diferente. Abandonam o ponto de fuga para que o horizonte da arte não nos escape num universo distante, para que não nos esqueçamos completamente do chão em que pisamos. A tinta cria ilusão mas também passa a ser vista como matéria bruta. A fatura se revela, o processo de criação se desnuda. O que eles querem é negar a postura virginal da arte, unir corpo e espírito, e assim colocar a obra de frente para a vida – não acima.

Nesse quesito, na proximidade entre a arte e a vida, o rock foi longe. Traduziu em sons a era da eletricidade, a velocidade da metrópole, e até mesmo a poluição sonora, os motores, os telefones tocando, explosões, usinas, gritos, o caos da civilização em seu ritmo quase destrutivo. As máquinas apocalípticas de Tinguely são rock and roll. Assim como Tapiés, Cy Twombly, talvez Francis Bacon. Pode-se voltar um pouco mais no tempo e buscar raízes nas colagens cubistas, na fúria futurista, na arte de detritos do Merz, nos momentos viscerais do surrealismo, e por aí vai.

A rebeldia sem causa de fato não interessa, apenas daria argumentos a quem considera o rock ingênuo, adolescente; no entanto há muitas bandas que demonstram saber muito bem o que estão fazendo. Com todo respeito aos amantes do jazz e da música erudita, supor que basta seguir a tradição para fazer mais do que Pink Floyd, Radiohead, Sonic Youth ou, da safra mais recente, Battles, chega a ser provinciano. E mesmo algumas bandas que mal saiam dos três acordes, como The Clash e Nirvana, demonstraram uma inventividade e uma contundência exemplares. Philip Glass transmite sua mensagem com simplicidade, apostando na repetição, e com a mesma economia, essas bandas transmitiam musicalmente o sentimento sincero de muitos, sem domesticá-lo ou plastificá-lo.

Longe de mim defender que o rock seja formalmente mais elaborado do que a música erudita. Alguns guitarristas encaram uma competição no quesito virtuosismo, e talvez vençam na velocidade, mas isso é bem pouco interessante, é a técnica pela técnica. O ponto não é esse, como também nunca foi a habilidade técnica das telas de Miró. Uma sinfonia composta para dezenas de instrumentos certamente requer um domínio admirável, mas, assim como um pintor que imitasse Rafael, hoje em dia, diria muito pouco sobre as questões mais atuais, e assim como um poeta que escrevesse como Dante estaria apenas gozando solitário na torre de marfim, os compositores eruditos também devem se perguntar o que fazer para não estar fora de seu tempo. Alex Ross, na conclusão de O resto é ruído – escutando o século XX sugere aos compositores atuais combinarem sua bagagem com um ouvido mais atento às expressões avançadas da música popular, citando com muita naturalidade Sonic Youth, Radiohead e Velvet Underground. Ao menos em suas melhores manifestações, me parece que o rock abarca de modo exemplar certas questões contemporâneas. O rock se lança sem proteções ao que está além da música, diz sim ao mundo e o deixa entrar.

Barulho?

Um dos monstos mais inquestionáveis do cinema, Jean-Luc Godard, logo percebeu a ligação entre o rock e a mentalidade de uma geração inquieta e ativa. Em 1967, acompanhou as gravações de Simpathy for the devil, dos Rolling Stones, em um de seus filmes mais ousados, One plus one. Os cineastas foram dos primeiros a entender o rock como vanguarda artística. Memorável também é a participação de Nick Cave na obra-prima de Wim Wenders, Asas do desejo. Não se trata apenas de trilha sonora para criar atmosfera, mas de uma verdadeira legitimação. E tanto melhor que essa legitimação tenha vindo de grandes criadores do que da academia.

                                          Rolling Stones em One plus One 

Historicamente, é difícil negar a importância do rock como movimento. É evidente que há muitos roqueiros alienados, como não poderia deixar de haver, levando em conta sua espontaneidade, sua recepção maciça, e até mesmo a quantidade de bandas que se disseminam. Nem por isso, ouso dizer, deixou de pontuar aspectos filosoficamente avançados. Desde que a cultura cristã se estabeleceu, em poucos momentos houve tanta clareza para tanta gente que a moral estabelecida é o inimigo mais constante. A crença em uma moral imposta foi desdenhada pelos roqueiros com a mesma decisão que por leitores atentos de Nietzsche. Temos aqui uma das principais bandeiras dos artistas modernistas. No caso da música, se pensarmos em Schoenberg e outros atonais, não havia o plano de se levar suas propostas a um grande público, a pesquisa se dirigia quase exclusivamente para especialistas. Contudo, os manifestos de artistas plásticos e escritores costumavam prever uma disseminação de seus valores para toda a sociedade. O fato de o rock ter obtido sucesso, portanto, não depõe contra, não o reduz a mera mercadoria, se soubermos considerar que levou adiante alguns objetivos de um pensamento de vanguarda.

O rock hoje vende e atinge milhões, e isso implica, necessariamente, no perigo de reduzir-se a um produto – perigo ao qual alguns artistas sucumbem mais do que outros. Por outro lado, propaga-se uma mentalidade que está alguns passos a frente da mentalidade mediana. O amor é cantado sem os enfeites das novelinhas de tevê, mantém-se um senso de coletividade (seja na hippie Woodstock ou na punk Camdem Town, assim como na colaboração entre os integrantes de cada banda). E, talvez o mais notável, como raras vezes antes, a expressão artistíca penetra em todas as áreas da vida.

O que os roqueiros dizem, essencialmente, é “Eu estou aqui; a vida é agora”. Por isso são barulhentos. O gênero traz os perigos de um espírito guerreiro, não há dúvida, mas, se tivermos algum respeito a Dionísio, é preferível acatar tais riscos do que se contentar com a passividade que hoje impera. Em vez ignorar o rock, cuidar para que não seja desvirtuado, mantê-lo na linha de resistência. Lembrar da posição dos roqueiros durante a Guerra do Vietnã, de solidariedade para com o sofrimento de uma guerra inútil, e renegar as exceções fascistas que mancham esse legado. Em outras palavras, escolher as batalhas, não renunciar ao combate.

Não é por tocar no rádio que o resultado é necessariamente uma hipnose alienante que faça esquecer a realidade. Se The Who e Jimi Hendrix quebravam seus instrumentos sem maiores cerimônias, é porque havia continuidade entre o som que faziam e o que acontece além da música. Um som que, flertando com seu próprio colapso, se abre para todos os ruídos do mundo ao redor. Não é tão diferente de ver a tinta na tela como ilusão e como matéria bruta, pois pela matéria abre-se a percepção para o que vem de fora. No início do show, a canção já flui à beira da agonia, já se prevêm os estalos, chiados e a microfonia da destruição – porém de maneira afirmativa, sem autocomiseração. Os roqueiros, de modo geral, resvalam na morte da música. Não por menosprezo à melodia, mas por sentirem que tudo é mais intenso quando não se tem medo da morte. É aí que o rock mostra, com uma clareza rara, a sutil diferença entre niilismo fraco e espírito guerreiro, flertando com a morte da arte, mas sem sucumbir a ela. Distinção fundamental, mas às vezes difícil de apreender, e que nem sempre os artistas de outras áreas percebem muito bem.

Para os roqueiros, vida e arte estão tensionadas, muito próximas uma do outra. O vestuário, o vocabulário, certos trejeitos, a atitude e a visão de mundo recebem sua influência, a ponto de quase qualquer aspecto da vida se tornar inimaginável sem a música. Não é preciso gostar de jaquetas de couro, tatuagens ou boemia para reconhecer um acontecimento: os roqueiros souberam tirar a arte do limbo, souberam fazê-la interferir no campo da vida. Tal como propõem as vanguardas. Troca-se o imperativo moral, enganoso, por uma afirmação estética e ética, aberta. Isto não implica que os roqueiros sejam mais crueis que os outros homens, mas tendem a evitar dissimulações. Nos anos 60, com a contracultura, e novamente em Seattle, em 1999, vimos surgir uma militância criativa e libertária, que não se confinava às ideologias. Tais movimentos devem muito ao rock - nos anos 60 tivemos Woodstock, e nos anos 90, Seattle foi a grande capital do grunge. Na revolta de um roqueiro, entende-se o ódio ao sistema como ódio, mas não presta obediência a noções absolutas de como se contrapor; a vontade de mudança é de fato desejo e não abnegação; dispensa-se a moldura de qualquer ideologia sufocante. Nada disso ocorreu por acaso ou modismo, mas acompanhado de questões formais. No caso do rock, de uma sonoridade muitas vezes próxima do ruído bruto, que resvala no antiartístico.

Assim como negar a perspectiva e os temas sublimes não foram gestos gratuitos, o "barulho" no rock também não é. A música, abstrata por excelência, torna-se mais concreta, aproxima-se da realidade. Muitas bandas, ao tocar ao vivo, exploram as microfonias e os retornos dos amplificadores, porém mesmo nos riffs mais assobiáveis, a guitarra é distorcida, contaminando a pureza da arte. Isso faz com que até nos momentos mais deleitosos, mais harmoniosos, permaneça alguma “sujeira”, alguma lembrança do mundo palpável. É comparável à presença forte e corrosiva da matéria de Pollock, cuja técnica, aliás, exigia tanto do corpo quanto da mente. No rock, o peso com que os instrumentos soam é quase tátil, e a performance nos palcos tem necessariamente uma presença corporal importante. A vida é invadida pelo som, tanto quanto invade os palcos. Quando a realidade exige luta, portanto, é enfrentada com a convicção de que a vida deve ser redentora como a arte. Não uma vida apenas 'correta', 'organizada', 'sob controle', mas intensa, variada e aventureira.

Os roqueiros, assim como os artistas modernistas, flertam com a morte da arte, mas o aspecto antiartistíco jamais é total. Se fosse total, não haveria permuta, não se poderia passar das promessas da arte para a realização na vida. Quebram os instrumentos mas logo voltam a afirmar sua potência. Há uma dança infinita da arte com a vida, ambas enlaçadas em uma paixão visceral. Vida e arte não chegam a se fundir, não desaparecem uma na outra – mas se tocam constantemente. Por isso o impacto, por isso a reverberação.

5.24.2010

Divagando: sexo, sedução e envolvimento

* Se, apenas por um instante, eu tivesse acesso à mente divina, e pudesse escolher um único conhecimento, seria o do impossível da mulher. Simplesmente o mais labiríntico dos mistérios.

* O maior erro que um homem pode cometer é tentar ler sua amante em linha reta. Estamos falando da mais sinuosa das criaturas.

* Duas pessoas não se movem juntas, a menos que rodopiem em passos de dança.

* A mulher vem adotando posições que antigamente eram do homem. A cultura, o pensamento e a política só têm a ganhar com isso. Por outro lado, homens e mulheres parecem cada vez mais perdidos.

* Para não ficar para atrás, o homem vem se feminilizando. É uma reação desesperada ou estratégia certeira? Mudança real ou aparente?

 * Será que há um eterno feminino, acima de todas as variações históricas? Pode surgir uma überfrau, uma super-mulher?
 
* Apesar das mudanças, em sua maioria o brasileiro continua machista. Inclusive grande parte das mulheres, e inclusive muita gente dotada de senso crítico.

* Por considerar que o homem é quem mete, muita brasileira acha que seu poder está em valorizar a maneira como se sub-mete. A ação é toda dele, ele é o sujeito do verbo, e ela se deixa posicionar como objeto. 

* Lacan dizia que a mulher não existe. E as lacanianas, o que dizem?

* Poucas coisas me parecem mais raras do que relações onde os dois se posicionem como sujeitos.
 
*Em um casal, geralmente, um dos dois tende a se conformar com o papel de mais fraco e o outro a se aproveitar disso. Nem sempre o homem é o forte do casal - seu papel pode ser o de um castrado para o gozo fálico da histérica. E tampouco a histérica chega a ser um sujeito pleno, pois mal encontra força que não seja roubada do outro; ou seja, é reativa. Para que os dois existam na relação, o equilíbrio de forças é delicadíssimo.

* É uma pena que muitos homens se apavorem quando são a caça, e não o caçador. Infelizmente, inúmeras mulheres evitam tomar a iniciativa sempre que gostariam, para não intimidar.

* Uma mulher que aborda não se rebaixa facilmente a mero objeto, ela começa muito ativa. Nem que seja por uma noite, podem ser duas pessoas assumindo plenamente seus desejos, sem pudores.

* Mirem-se no exemplo das mulheres roqueiras. A expectativa romântica, no sentido novela das oito, costuma ser bem menor do que a da maioria. Isso é saudável. Não é preciso ser mulherzinha para ser feminina; pode-se falar e agir com a mesma potência que os homens. E lidam melhor com os homens ao não esperarem por um príncipe encantado. Nada mais devastador para qualquer coisa real do que um ideal inalcançável.

* Enquanto o amor não vem, o sexo pode ser só sexo. Aliás, apenas os pudicos acham que ir para a cama com uma pessoa não pode ser o início de uma conexão forte e honesta. Pode ser uma oportunidade para conhecer alguém em sua intimidade, não só física. A nudez de duas pessoas na cama após uma noite de prazeres - só depois desse tipo de proximidade é que há como saber realmente se vale a pena investir em uma relação duradoura. 

* Tanto homens quanto mulheres se boicotam muito. Para ser justo, não é só a mulher que tem discursos sinuosos, medos e inseguranças de toda sorte. É sempre mais fácil obter prazeres moderados do que se entregar a uma pessoa que realmente valorizamos. Quando sentimos que temos muito a perder, nos apavoramos. O problema é, em grande parte, falta de amor-próprio. A maior armadilha é depender demais do outro para se sentir bem.

* Quanto mais temos uma reserva de auto-estima, mais podemos nos entregar a pessoas que nos toquem intensamente. Porque temos gordura para queimar, podemos nos arriscar sem o medo de que, caso percamos o parceiro, não nos sobre nada. Então, sim, nos aventuramos. Se não nos sentimos especiais, como sustentar o olhar de alguém que consideramos especial?

* A vida é uma só, mas as histórias podem ser muitas. É altamente recomendável experimentar-se tanto quanto puder. A melhor maneira de conhecer a si mesmo é nessa espécie de dialética com os parceiros.

PS:
* Já vivi uma situação em que do primeiro olhar ao beijo não foram nem quinze segundos - e foi um momento bem marcante. E situações em que o vamos nos conhecer melhor não me soou como um fazer-se-de-difícil, apenas como o convite para um degelo mais lento. Não se trata da velocidade, mas de sinceridade e integridade.

2.03.2010

A-moral

Quando pequeno, como toda minha turma da escola, era só a professora pedir um desenho pra fazer o mesmo esquema: traçar um risco meio torto no que deveria ser o centro da página, e de um lado desenhar o heroi, do outro o vilão. Nossos garranchos ainda assinalavam qual era o "bem" e qual era o "mau". Influência de He-man, Thundercats, Jaspion, Caverna do Dragão e Homem-Aranha, que nos livravam de tantos perigos, abençoados e justos que eram. Mas meu pai, incorrígivel, não me perdoava. Eu não tinha nem sete anos, ele já queria me ensinar que em lugar algum, fora da TV, existe 'bem' ou 'mau'. Com essa idade é um tanto difícil entender, mas a lição perdurava como um desafio na minha cabeça. Uns três anos depois, pra piorar, ele tentou me explicar Complexo de Édipo. Foi mais ou menos assim: Filhinho, tá na hora de você saber que, no fundo, você quer matar o papai. Mas tudo bem, é só no inconsciente. Freud deixa. E antes que eu me recuperasse do susto, arrematava: E essa mulher aí do lado, sabe, a mamãe? Você tem vontade de meter o pinto nela. Mas eu não fico bravo, todo mundo é assim. Depois dessa, não tem mais volta, sua visão de mundo se distancia do senso comum, querendo ou não.

Meu pai era um chato, isso é fato, e aí é que dava mesmo vontade de matá-lo, tal como Freud queria. O contra-senso é que ao matá-lo - simbolicamente, claro - eu lhe dava razão. O conflito de gerações ficou concentrado no gosto musical - meu pai detestando rock, inclusive Doors cantando The End. Quanto à visão de mundo, essa que o Dr. Mauro ensinava já era subversiva o bastante, seria difícil encontrar pontos de partida mais rebeldes. À parte o incesto e as discussões em família, resolvi pensar no que ele tanto queria me ensinar. E, com o tempo, fui entendendo que nada prejudica tanto a vida quanto a noção de 'bondade'. Aliás, qualquer criança deveria saber disso. Que as penitências, o medo do inferno, as inquisições, as convenções, as jihads, os gulags, os preconceitos, as perseguições - só são possíveis quando todo um povo crê firmemente estar do lado "certo". Quem acredita no 'bem' - digamos, o "bom filho", o "bom pai", o "bom marido" - é sempre o mesmo personagem, obedecendo ao ambiente que o circunda. Se está no auge da Inquisição, vibra ao ver queimar na fogueira quem não acredita em pecado; se está na China de Mao, apedreja casais jovens que quebram o decoro ao dar as mãos em público; se está no Brasil de Médici, acha que os dissidentes são maléficos terroristas; se cresceu numa família nazista, tem plena convicção de que os judeus é que são desumanos e traiçoeiros. Em todos os momentos históricos em que houve apoio maciço à imbecilidade, sempre encontramos um ponto em comum: a crença fanática de que estavam certos, e os inimigos, errados.

Quando digo que prefiro uma ética extra-moral, não defendo o foda-se generalizado. Só está além do bem quando se ultrapassa também o mal. Do contrário, permanece aquela linha torta serrando ao meio, ainda estamos diminuídos, e ainda é nosso oposto dizendo quem somos, pelo avesso. A bondade jamais foi encontrada, nem pelos neurologistas, nem pelos psicanalistas, nem pelos amantes, nem pelos poetas. Por mais que mobilize as pessoas, não é nada mais que uma abstração. A empatia pelo outro, no entanto, esta se pode encontrar. Até mesmo em cães e ratos que testemunham maus tratos em outros de sua espécie, percebe-se respostas emocionais imediatas. Todo nosso processo de aprendizagem se apoia na imitação dos próximos. Cognitivamente, perceber ao outro ou a si mesmo requer atividade cerebral semelhante. Até mesmo torcer pelo Homem-Aranha só é possível porque nos identificamos com os demais. Isso não significa que nos identificamos com o Homem-Aranha porque ele representa nosso lado bom. Mais correto é que gostemos de vê-lo esmurrando inimigos.

Eu já nem lembro se foi antes ou depois da crítica de meu pai aos meus desenhos: às vezes eu via oBatman na armadilha e torcia mesmo era pelo Coringa. Torcia por Luc Skywalker, mas de repente a vontade era a de que Darth Vader o derrotasse. Eu não era uma criança nem boa nem má: em alguns momentos, tinha certeza de que ao crescer seria ecologista; em outros, era tão impaciente que esmurrava paredes e só respondia atravessado. E onde já se viu uma criança boazinha, sensata, um anjinho? Só se for muito tolhida, muito amedrontada; não é natural.

Quanto àquele traço que separa o heroi e o vilão de maneira incólume, melhor mesmo apagá-lo cedo, não deixá-lo engrossar. Depois, fica mais doloroso desaprender. Conheço adultos muito inteligentes que, para meu desgosto, ficam ultrajados quando digo apenas o que eu sabia desde a infância. Por exemplo, que quando traçamos contornos para o bem, o que queremos, na verdade, é evitar com toda a força certas empatias. Não queremos entender que o nazista é um ser humano, que pertence à nossa espécie, portanto não é totalmente diferente de nós - e achamos que resolvemos tudo ao tomá-lo por "mau". A armadilha é que este é exatamente o mesmo mecanismo que o nazista usou para definir o judeu. Não é que devamos perdoar genocidas, mas não precisamos gastar nossa energia a fim de convertê-los em algo não-humano. Basta derrubar os conceitos de bem e de mal para que o pensamento genocida não mais se sustente. Para uma criança, um nazista pode ser apenas um homem que não sabe brincar; para um adulto, é o homem que mente para si mesmo, um recalcado, que não confia na liberdade. Uma vez desaparecidas as convicções maniqueístas, interessa apenas o que amplia horizonte, rejeita-se tudo o que torna o mundo mais estreito. Não é preciso moral para valorizar a diferença, a variação, a dignidade de cada um ser como é. Ao dispensar a moral, somos obrigados a nos reiventar constantemente, temos de ser criativos a todo instante - e ninguém cria nada sozinho, somente em diálogo com os demais.

Muito mais natural do que a fiança da moral é o ímpeto para ir além do ego. Não se joga futebol sozinho, não se namora sozinho, não se conta uma piada para si mesmo com a mesma graça com que se conta para os amigos. Nossos desejos sempre se remetem a outras pessoas, o que é motivo para se confiar em uma ética a menos coerciva possível. Quanto menor a moral, menor o sentimento de vingança, menor a surdez nos diálogos e mais improváveis as reviravoltas fanáticas. Não que tudo seja belo, que ninguém se machuque no futebol, que o amor não tenha seus espinhos ou que todas as piadas tenham graça. Ainda assim, é com a inocência de uma criança que faço questão de ser amoral.

1.14.2010

Além dos bens e de Marx


Seja homem e siga a ti mesmo!
Não a mim, não a mim!
                        Friedrich Nietzsche   



            A leitura de Marx não pode fazer mal a quem tenha força para não se submeter acriticamente a mestre algum. Quem souber contrapor teoria à realidade, atualizar o velho, aceitar as lições da História, e tirar conclusões próprias em vez de aceitá-las prontas, muito se beneficiará de um estudo seminal sobre o capitalismo. O problema está em aceitar, junto com o que Marx tem de profícuo, uma série de premissas que já não nos servem e precisam ser questionadas. Estamos falando de um pensador que condenou a religião como ópio do povo, portanto nada mais justo que tenhamos o mesmo desapego quanto a dogmas ao refletir sobre suas ideias. Para começar, podemos perguntar se hoje Marx ainda seria comunista em sua versão totalizante. Até mesmo Einstein teve que recuar em alguns pontos de sua teoria – na constante cosmológica, em especial - e talvez Marx também recuasse diante de evidências que em seu tempo não pôde prever. Mesmo em sua época, ao menos para os jornalistas burgueses, ele dizia que a luta dos operários poderia variar de acordo com cada situação; que, por exemplo, na Inglaterra, a Revolução poderia dar lugar à negociação. Há grandes estudiosos de sua obra que se esquecem desses detalhes. Se desde aquele tempo Karl Marx podia ser mais flexível do que muitos de seus atuais seguidores, hoje há ainda menos motivos para se ouvir apenas a vertente mais intransigente da teoria. Caso a tentativa seja a de pensar em socialismo científico, a experiência deve definir o escopo. 

Aos modelos científicos não interessam as angústias humanas, considerações moralistas, menos ainda ambições políticas de ocasião. Levando isso em conta, devemos pensar até que ponto o socialismo de Marx ainda pode ser considerado científico – apesar de aspirar à aceitação universal de seus pressupostos. Como, de maneira geral, os cientistas não propõem fuzilamento aos que rejeitam as teorias de Darwin, que os marxistas encontrem fundamentos tão ou mais sólidos para assegurar que sua própria teoria de evolução não implique em sofrimento equivocado. Claro que nem mesmo a seleção natural está acima de qualquer dúvida, é apenas aquela, que, até o momento, se demonstra a mais confiável – a ciência é sempre a ciência de certo momento histórico, passível de ser superada. Uma teoria política, ainda mais uma que reivindica status de ciência, deve também provar ser a mais confiável em seu momento histórico. Se a cobaia é o homem, e se países inteiros podem servir como laboratório, cobrar por evidências não é pedir muito. A não ser que ainda estejamos no terreno da fé, não podemos nos permitir indulgências.

           Não há como discordar que alguns conceitos de Marx continuam sendo fundamentais para a compreensão de nossa época. A mais-valia, o fetichismo da mercadoria e a alienação, por exemplo, nos permitem criticar o capitalismo com ferramentas teóricas das mais incisivas. No entanto, ainda são muitos os que pensam que a vocação do marxismo vai muito além da análise, que se trata de uma preparação para a sociedade por vir, ou mesmo que a revolução será inevitável e redentora. Claro que é muito maior o número de pessoas que entende como obsoleto este modelo revolucionário, porém em muitos nichos intelectuais, a utopia resiste à Queda do Muro de Berlim, resiste a todas as decepções do socialismo real, e mesmo às respostas que grandes filósofos deram ao problema. A revolução comunista se faria em nome da emancipação humana, mas só parece empolgar a quem se recusa a enxergar o ser humano como ele é. Isto porque o ser humano, incluindo aí muitos de seus espécimes mais inteligentes, tende a procurar por líderes, por figuras tomadas como infalíveis que forneçam direções, e com tamanha paixão veem esses líderes que se cegam em relação a suas falhas. O homem é, ao mesmo tempo, muito mais limitado e muito mais fascinante do que Marx propunha. Mais limitado, pois não é capaz de assumir compromissos totalizantes sem em algum momento se deixar levar por desvios. E é mais fascinante, exatamente pelo mesmo motivo. A emancipação tal como Marx sonhava – com todos os trabalhadores em uníssono em nome do bem comum – jamais acontecerá, porque o homem não é capaz de se engajar de forma total. Por outro lado, é isso o que nos permite ver a liberdade possível: a recusa a se subsumir em um sistema. Inclusive o atual.

            Marx tem algo a nos ensinar, desde que o vejamos como um homem, não um mito, portanto passível de errar. Se hoje ele deixaria de ser comunista é especulação, mas não se pode negar que algumas de suas previsões mais assertivas falharam. Ele estava convencido que a revolução começaria nas civilizações mais industrializadas, e o que se verificou foi o oposto: Rússia, China, Cuba, os países da cortina de ferro, do leste asiático e dos revolucionários da África, todos eram essencialmente rurais. Outra previsão que foi para o buraco é a de que a classe média iria minguar, acirrando uma dicotomia entre detentores de capital e operariado. Os números mostram que em muitos países, inclusive o nosso, a classe média pode se expandir junto aos avanços do capitalismo. Aliás, o fato de termos alguma mobilidade social é o que mais frustra os comunistas de hoje, pois é um dos fatores a dissuadir os mais pobres a se unirem em prol da revolução. Não sendo nossa sociedade de todo estanque, muitos dos que estão na pobreza preferem sonhar com uma escalada rumo a um status diferenciado em vez de garantir sua parte em uma distribuição igualitária. A origem social não determina o comportamento individual de maneira tão definida quanto seria necessário para a revolução que Marx imaginou. O mais miserável dos trabalhadores talvez não seja tão diferente do chefe que o explora, pode estar apenas aguardando sua oportunidade. É na cegueira para tais instintos, aliás, que reside o equívoco maior do comunismo. Não se trata apenas de dificuldades acarretadas pela transposição da teoria para a prática – há questões que no papel já se afiguram extremamente problemáticas e perigosas.

            O “bem”

            O maior equívoco do marxismo está em sua necessidade de confiar na bondade humana. A transição de nossa sociedade injusta para uma sociedade igualitária só se faria à força, com violência, o que a princípio se justificaria por contrapor-se à falta de compaixão dos atuais poderosos, puníveis por não se importarem em olhar para a humanidade de cima para baixo. Concordo que falta compaixão a quem está no topo, mas faltou ver o quanto é ingênuo apostar na bondade dos que liderariam a transição. O simples fato de alguém se dizer comunista ou vir de uma camada social mais baixa não é garantia de que seu comportamento em algum momento não poderá ser traiçoeiro. Pelo contrário, é isso o que vimos em todas as tentativas de implantação do comunismo. Bakunin, o maior rival de Marx em seu tempo, não precisou esperar pelos abusos de Stalin, de Mao ou de Fidel para acusar o maior ideológo da esquerda de ingenuidade. Bakunin, anarquista, pode não ter conseguido sistematizar seus próprios sonhos com tantos detalhes quanto Marx, porém foi muito melhor psicólogo do que ele. Ele soube premeditar o que ainda hoje os comunistas se recusam a entender como fatalidade incontornável: o proletário, ou seu representante, ao subir até o poder, já não se comportará mais como proletário. O poder transformará sua essência, mesmo que em um primeiro instante ele acredite sinceramente em sua vocação revolucionária. Nós vemos isso acontecer muito de perto em nossos partidos de esquerda, como o PT, que por mais bem-intecionado, e até mesmo radical que tenha sido no início, está muito longe de permanecer incorruptível. Não há nada no comunismo que nos faça crer que seria diferente. Ou melhor, a diferença estaria na disponibilidade de força total para se usar contra “inimigos do povo”, contra “corruptores” e contra “dissidentes” – que, é claro, são sempre os outros, sempre bodes expiatórios. Eliminados os adversários e “traidores”, no entanto, teríamos que confiar cegamente nas boas intenções desses novos ditadores – não haveria mais ninguém com poder para regular suas ações.

            A questão é quase esotérica, mas consinto que Trotsky parecia muito melhor do que foi Stalin. Um grande sinal de que Trotsky merecia alguma simpatia é sua boa disposição diante dos artistas. Breton frequentemente trocava cartas com ele, em seu refúgio no México, e concordavam em um ponto interessantíssimo: no comunismo de Trostsky, a arte seria anarquista. Não haveria controle estatal algum sobre a criatividade dos artistas, coisa que jamais ocorreu no socialismo real. Se isso fosse aplicado, a arte viveria uma liberdade sem precedentes. No capitalismo, não há como a arte ser totalmente livre, o mercado inevitavelmente impõe seus padrões, seu gosto, seus limites, mas Trotsky defendia um regime onde isso seria possível. Não quero dar a entender que o mais importante seja a política cultural, mas esse ponto me inclina a pensar que sua visão da emancipação humana tinha certa flexibilidade e sensibilidade. Se ele conseguiria colocar tal plano em prática já é levar muito longe o esoterismo, pois o principal a se ter em mente é que Stalin se impôs como sucessor de Lênin. É a pergunta que eu sempre faço aos meus amigos marxistas, e eles nunca me deram uma resposta convincente: uma vez montado um aparato ditatorial, o que garante que o melhor homem assumirá o comando? Mais provável é que aconteça sempre o contrário: que o mais ambicioso, o mais forte, o mais dissimulado ou o mais inescrupuloso saberá galgar degraus melhor do que o homem sensível. Sempre um Stalin em vez de um Trotsky, ou mesmo um Fidel em lugar de um Che. Marx queria dedicar sua obra máxima a Darwin, que ele muito admirava, mas este recusou. Não foi à toa: a evolução natural mostra que os mais fortes tendem a se converter em líderes, e os mais fortes, tanto no reino animal quanto no humano, não dispensam uma agressividade acima da média.

            Na tentativa de evitar este problema, a teoria marxista prescreve que seja temporária a existência de qualquer partido, que a ditadura do proletariado se dissolva assim que a igualdade esteja assegurada. Verificou-se, no socialismo real, uma procrastinação eterna desse momento em que o Estado deixaria de existir. Acreditar que os governantes, uma vez tendo sentido o gostinho do poder, aceitariam o momento de abandonar seus postos é o mesmo que esperar que nossos milionários saiam voluntariamente de suas mansões para morar em conjuntos habitacionais e distribuam tudo que têm de supérfluo.

De qualquer modo, não há como chegar a um momento em que o comunismo se torne natural o bastante para funcionar sem coerção. Se, uma vez estabelecida a igualdade, o Estado abandonasse sua função, em pouquíssimo tempo os homens voltariam a competir, voltariam a disputar cada pequeno degrau, restabelecendo uma situação cada vez mais semelhante à do capitalismo atual. Por amargo que seja, é preciso admitir que o capitalismo é mais espontâneo, é mais natural do que o comunismo. Se somos descendentes dos macacos, não podemos esperar um comportamento sem qualquer vestígio de brutalidade animal – devemos lidar com isso da melhor maneira possível, mas sem ilusões. Ao contrário do que Rousseau acreditava, não há um bom selvagem que a sociedade corromperia. Pelo contrário: a disputa por território, a exploração e a hierarquia não são exclusividade do capitalismo avançado.
           
            Podre poder

Toda relação humana é relação de poder. Seja com o Estado, com o trabalho ou na vida em família. Foucault entendia que até mesmo o amor só existe em uma dinâmica entre dominador e dominado, às vezes mais sutil, às vezes com maior tensão. Não é à toa, portanto, que a revolução cultural de Mao Tsé-Tung coibia demonstrações de afeto, livros e filmes românticos ou qualquer traço sensual nos trajes e cortes de cabelo femininos. A princípio, pode parecer que ele estava deturpando os ideais comunistas, no entanto o que exerceu foi mais uma interpretação literal demais do que uma traição. O que Mao notou é que, se o princípio da igualdade deve se sobrepor a qualquer desejo individual, até mesmo a paixão dos amantes seria, potencialmente, um sentimento adverso, na medida que os afastaria da coletividade. Quanto mais dessexualizado um homem e uma mulher, mais eles poderiam se comportar fraternalmente, sem a subjugação de um ao outro, tal como Foucault constatou. Lembramos também que Marx havia escrito, em seus textos mais panfletários, que os filhos deveriam se separar dos pais e ser entregues ao Estado assim que se concluissem os primeiros cuidados maternais. Parece-nos bruto, seco demais, e dificilmente um comunista moderno concordaria ipsis litteris, no entanto pensamentos como esse coadunam com a dieta restrita de afetos que uma sociedade comunista requereria.

No início, aliás, Mao tentou oferecer maior liberdade de expressão, lançando a Campanha de Cem Flores, com a intenção de que todas as vozes dissidentes fossem ouvidas – cem escolas de pensamento, inclusive contrárias ao comunismo, seriam ouvidas. Em 1956, assim ele dizia: “Como verdade científica, o marxismo não teme críticas. Se o fizesse e pudesse ser derrotado numa discussão, não teria validade.” A intenção de abrir espaço para críticas parecia boa, mas logo incorreu em uma onda de protestos tão caótica e contraproducente, que Mao voltou atrás e se viu obrigado a reprimir os desafetos.

 Onde, quando e quanto se deve reprimir pode ser variável, no entanto, o igualitarismo pleno é impraticável sem o sufocamento de um grande leque de desejos e opiniões individuais. Se o Partido se arroga o direito de expropriar pessoas influentes de suas propriedades, de ocupar fábricas e empresas, e de decidir quem se incumbirá de quais funções na sociedade, só é capaz de fazê-lo ao legitimar sua autoridade junto ao povo. No primeiro momento, a repressão é sine qua non, para impedir os antigos poderosos de se reestruturarem. Obtida a estabilidade política, o Estado ainda precisa impor constantemente sua autoridade, atuando com a capilaridade e onipresença que caracteriza uma ditadura. Caso relaxe em sua influência, os opositores se reorganizam e o processo revolucionário não se consuma, como Mao bem o percebeu. Não só as transformações objetivas devem ser asseguradas, como uma nova subjetividade deve ser criada. Este passo, que costuma incluir o culto à personalidade do dirigente, é de vital importância, para que as identificações burguesas sejam substituídas por novos valores e possa haver harmonia nessa sociedade.

Um problema é que os desejos burgueses, com todas as críticas que podemos lhes fazer, não são tão totalmente artificiais. Por mais que a publicidade use truques escusos para difundir desejos supérfluos, alguma vontade de consumir é autêntica. O dinheiro traz infelicidade para a sociedade, mas para o indivíduo pode ser prazeroso. Mesmo no imaginário dos mais pobres, há uma volúpia em torno do dinheiro que só se reprime a muito custo, usando força bruta contra os dissidentes, controlando-se a imprensa e a educação. Se a nossos olhos parece que o socialismo real cometeu exageros, não foi apenas pela idiossincrasia dos comandantes, mas porque a transposição da teoria para a realidade desperta resistências que só podem ser vencidas com mão de ferro. Tão difícil é esse controle que, para o Partido, o melhor é estabelecer laços simbólicos os mais entranhados possíveis. Com isso, uma grande energia é dispendida não com a instrução científica, mas com a propaganda mais emotiva e irracional. Não vejo em que medida isto seja menos pior do que a publicidade do capitalismo. O ditador, cultuado, assume as feições de grande pai, responsável pela vida de cada um, ensinando com severidade e atenção constante, influindo na maneira de pensar, de agir e de desejar de cada filho. Mesmo que não houvesse perseguições e fuzilamentos arbitrários, o comunismo já seria lamentável por infantilizar o povo, por afastar cada homem de sua potência, de sua capacidade de responder por si mesmo.

Duas acepções de economia

Marx fala em emancipação humana. Com o fim do trabalho exploratório, o homem readquiriria sua dignidade. O trabalho já não seria reificante, pois o produto de seu esforço retornaria ao trabalhador de forma justa, desfazendo sua posição de inferioridade em relação ao empregador. Até aqui, o pensamento é de fato libertário. Constenador é perceber tudo que ficou de fora. Pode ser profícuo considerar, tanto quanto a noção marxista de economia, a maneira como Freud emprega a mesma palavra. “Economia”, no vocabulário psicanalítico, não diz respeito às finanças, mas ao fluxo da libido, à maneira como o inconsciente lida com as pulsões. As duas acepções da palavra podem ser pensadas conjuntamente, embora se costume esquecer do quanto uma economia interfere na outra. 

Todas as correntes psicanalistas, por mais diversas que sejam, concordam que a agressividade é anterior ao surgimento da propriedade privada e faz parte da psique desde a primeira infância. O sofrimento psicológico é impossível de se erradicar – afinal nem sempre advém de situações concretas, muitas vezes sendo deflagrado por situações imaginárias. Para organizar sua economia psíquica, constantemente ameaçada de caos, cada indivíduo se vale de poderosas ilusões que nutre a respeito de si mesmo e do mundo. Trata-se de ilusões constituintes, necessárias, que podemos chamar de loucura cotidiana. Nem eu nem vocês estamos isentos dessa condição, que no entanto nos salva da loucura maior, patológica. Lembremos que o homem é um animal desgarrado da natureza, de que a sociedade se apoia em inúmeros artifícios, de que a consciência da morte nos oprime, e de que o pacto social, mesmo o mais justo, nos impinge um grande leque de dificuldades adaptativas. O marxismo não atribui o mesmo peso a tais considerações que a psicanálise. Caso confrontasse a economia material com a economia libidinal, teria que admitir que todos os comandantes do Partido estão sujeitos, como qualquer homem, à loucura cotidiana. A auto-ilusão pode ser encontrada, sem dúvida, nos governantes da democracia, porém ao menos não se lhes oferece poder totalitário. Na democracia, um presidente homofóbico pode ser eleito, mas tal sintoma terá que ser contido. Mesmo Berlusconi, um dos piores chefes de Estado da atual democracia, não pode dar plena vazão a seus preconceitos. Nas mãos de um ditador, a homofobia pode se externalizar em um decreto que condene o homossexualismo e toda a cultura gay, como de fato fez Fidel Castro em Cuba. Nem sequer vem ao caso falar em “crueldade”. Os ditadores comunistas que tivemos muito provavelmente sentiam-se fiéis ao legado de Marx – mesmo porque trata-se de uma ideologia estruturante, totalizante a ponto de organizar sua economia psíquica e acentuar convicções –, no entanto, nem mesmo a crença sincera na utopia garante que as neuroses ficarão de fora das decisões nacionais. Fidel Castro – ou mesmo Stalin – aparentemente sentiam-se bons cumpridores de seus deveres, por mais que sua rotina fosse sanguinária. 

O próprio Marx, se tivermos um mínimo de honestidade com a História, possuía uma auto-imagem incompatível com algumas de suas atitudes. Filho da burguesia, o revolucionário defensor dos trabalhadores vivia às custas de Engels, pedindo-lhe empréstimos que não se destinavam à mera sobrevivência, mas ao aprumo nas vestimentas e na decoração de sua casa. Ele considerava fundamental ter uma apresentação vistosa, muito acima dos trabalhadores que defendia, para suas reuniões políticas. Diplomaticamente, talvez seja defensável, mas o que pensar de sua decisão, confessada em carta a Engels, de que suas filhas deveriam se casar com homens bem-posicionados? Ele diz com todas as letras que não era conveniente que suas filhas se casassem com proletários. Também encontramos em sua correspondência certos traços racistas, ou no mínimo colonialistas, sem grandes simpatias pela África. Esforço-me para não ser tendencioso, não é preciso manipular os fatos para fazer um retrato humano de Marx que não é de todo agradável. Homem algum, por maior que seja, passa incólume pela vida, isento de uma mancha ou outra.

Isto posto, devemos ter a clareza de que nenhuma filosofia onde se separe o bem e o mal pode ser tábua de salvação. Quando se tem uma auto-imagem envolta pela aura do “bem”, permite-se muitas indulgências para consigo. Quando se pressupõe a existência do “mal” como um absoluto, obtém-se permissão para liquidá-lo sem maiores explicações. O problema é que não há, a priori, qualquer instrumento para aferir se o “mal” está realmente no inimigo, ou se pertence à dinâmica de auto-ilusão constituinte do comandante. Para se pensar o homem com alguma confiabilidade, é preciso ter coragem de pensá-lo além do bem e do mal. Em vez de apostar em um discernimento moral sobre-humano por parte do ditador, que nem mesmo Marx atingiu, é preferível uma filosofia que lide com a vida de maneira extra-moral – como o faz a psicanálise ou, antes dela, Nietzsche. Nietzsche assume os aspectos trágicos da vida, no entanto nos ensina a lidar com eles. O filósofo foi muito mais ético do que se costuma pensar. Ele é associado erroneamente ao nazismo, sendo que rompeu com Wagner devido ao anti-semitismo do compositor. Costuma-se também tachá-lo de niilista, quando na verdade trata-se do oposto. Se Nietzsche escancara os aspectos trágicos da vida é porque ao olhar para o abismo de frente pode-se aprender a atravessá-lo. É evidente que ele tem seu lado perturbador, pois abdica da tentativa de livrar o mundo do sofrimento. Que fique claro, no entanto, que assim faz porque qualquer tarefa totalizante só poderia ter como resultado novos enganos. Em vez de nos orientar ideologicamente, nos estimula a coragem para enfrentarmos as ilusões. A única grande ilusão que Nietzsche conserva é a arte, que, aliás, serve-lhe como exemplo de que o sofrimento pode render coisas belas e potentes. O filósofo viveu no fim do século XIX, época em que os ideais socialistas ganhavam força, e observando tais movimentos, considerou que um regime igualitário poderia, em tese, ser alcançado. A seu ver, contudo, tal regime só poderia se firmar através de uma série de ilusões, através de uma pressão constante e manipuladora, o que faria com que tivéssemos uma sociedade de “homens de rebanho”, sem voz própria. Se levarmos em conta o que se passou na arte da Rússia soviética, não deixa de ter sua razão. Com Trotsky e Breton afastados do governo, toda a vanguarda artística que havia no país, de Malevitch a Maiakóvski, enfrentou a prisão, o exílio ou o ocaso, ao passo que prosperou o realismo socialista, uma produção que pode ter sido boa propaganda, porém insípida como arte. A verdade é que a cultura se deteriorou em todos os regimes socialistas, recuperando-se apenas nos momentos de abertura.
 
Em um governo totalitário, seja de esquerda ou de direita, a tendência não é a de que a expressão livre prospere, mas a de que o programa político inclua o controle sobre a arte. Arte controlada só pode ser uma arte menor, e não se trata apenas de arte. Um pensamento crítico ao capitalismo sem dúvida é fundamental para que nos livremos da alienação, afinal nosso atual sistema divulga uma idéia muito limitada de liberdade, associada ao consumo voraz. Não vou me estender neste ponto, que já abordei em outros textos, mas a publicidade contamina nosso imaginário, desestimulando-nos a afirmar uma subjetividade mais autêntica, mais digna. No entanto, a emancipação planejada pelo comunismo pode ser ainda mais enganosa, e com menor espaço para dissidências do que temos na democracia. Lacan, por exemplo, paga seus tributos a Marx, mas entende que a alienação não acontece apenas nas relações de trabalho, de produção ou de consumo. Alienação, no vocabulário de Lacan, significa submissão ao Outro, onde os desejos pessoais ficam tolhidos. O fascínio que os ditadores populistas exercem sobre a população, que, como vimos, assume a mitologia de um grande pai, é extremamente alienante. Se não há uma distinção clara dos desejos do indivíduo em relação aos desse Outro, encarnado pelo ditador, não podemos sequer dizer que o sujeito esteja politicamente mobilizado. Sua subjetividade é coordenada por desejos alheios, vindos de cima para baixo. É um quadro de grande fragilidade e de infantilidade psíquica. Nas palavras de Nietzsche, é esse o homem de rebanho. Não é só a exploração material que deforma o homem; essa é, certamente, uma das coisas, no entanto Marx foi muito redutor. Também a hierarquia, a obediência a um líder e o trabalho não-criativo sufocam e atrofiam o homem. Marx teria suposto que a longo prazo tais problemas supostamente seriam resolvidos com o fim do Estado, porém, se este passo é impraticável, o estabelecimento de uma ditadura apenas os exacerba.
            
 A dificuldade maior, que até mesmo alguns dos grandes pensadores dos últimos tempos não souberam assimilar, é a compreensão de que não há como livrar o mundo de toda tragédia. É um erro ainda mais trágico, por parte dos sistemas totalitários, arrogar-se a pretensão de erradicar da humanidade suas inevitáveis angústias. A partir do momento que o homem se afasta da natureza, não há maneira de não se deformar. A alienação tem uma envergadura muito maior do que o marxismo considera. Não há, infelizmente, como renunciar a esta condição, embora se possa aprimorar ao longo da vida as maneiras de se responder pelo próprio desejo, em vez de se subordinar a diretrizes superiores. Tal noção de liberdade me parece mais generosa e mais ética do que a noção materialista. Uma filosofia trágica, tal como a de Nietzsche, não se confunde com uma visão pessimista, na medida que nos ensina a dizer Sim para a vida, apesar de seus conflitos. Não há uma “saída” finalista, mas uma busca por maior autonomia, ainda que incompleta, onde possamos escolher nossos próprios equívocos. Não se defende aqui o relativismo total, pois este sim seria niilista, mas uma resistência local, não-dogmática, e uma consciência que abarque também o inconsciente, o fugidio e o inexpugnável. A micropolítica, como defendem aqueles que melhor atualizaram Nietzsche, como Deleuze e Foucault, é preferível às políticas totalizantes, precisamente por considerar a economia libidinal tanto quanto a economia financeira.

Ao concentrar todos os fluxos em um único aspecto da vida em sociedade – o bem-estar material -, subordinando cultura, autonomia e liberdade individual a um sistema controlado, o ideal comunista desconsidera todos os outros devires, todas as demais batalhas e conquistas da humanidade. A compreensão de que o capitalismo é perverso denota um pensamento crítico, porém este termina assim que se obstina por soluções demasiado moralistas. Falha quem desconsidera a natureza humana no que esta tem de variado, de complexo, de sutil, e mesmo de incoercível. Um comunista ortodoxo talvez venha a tachar meus pensamento de conivente e conservador, quando se trata mais precisamente de uma desencantada, porém vigorosa lucidez. Prefiro-a do que a ilusão eloquente – o estrago é bem menor, e as possibilidades se abrem para o que podemos chamar com mais sabedoria de liberdade.


12.20.2009

Mosquitos e Berlusconi

Pelas minhas contas, no último mês matei uma média de 2,3 mosquitos por dia. Confesso que sinto orgulho desta marca e que é com muita felicidade que encerro a vida dos chupadores de sangue. Os jainistas se recusam a tirar a vida de qualquer criatura, por mais insignificante ou irritante que seja, mas nem com a mais profunda meditação eu suportaria insetos zumbidores. Também não há consciência ecológica que supere a emoção de ver que o tapa foi certeiro, que o bicho aprendeu que há alguma distância entre homem e artrópode.

Mas e quanto a chupadores de sangue maiores e mais perigosos, tal como Berlusconi, primeiro ministro italiano? Todos devem ter visto, na televisão ou na internet, a porrada que ele tomou de Massimo Tartaglia. A imprensa se apressou a desconsiderar o gesto de Tartaglia como ato político, devido a seu histórico psiquiátrico. Na verdade, a imprensa está sempre esperando uma oportunidade para igualar ativismo e insanidade, e não perderia essa. Não estou defendendo o gesto de Tartaglia, logo mais digo por que, mas acho que há muita ignorância em pressupor que quem busca tratamento psiquiátrico não possa ter opiniões sobre a maneira como seu país é conduzido. Há nuanças para a loucura, nem todos os casos são extremos a ponto de não restar juízo crítico. Meus pais militaram pelo movimento antimanicomial, justamente para contestar ideias como essa. Artaud e Van Gogh foram internos e criaram obras brilhantes. E ninguém aí leu O alienista? Na minha opinião, o melhor conto de Machado de Assis.

Pesquisando um pouco na web, vemos que Tartaglia era um artista. Apesar de não muito conhecido, ele teve inteligência o bastante para criar o que chamou de music picture, quadros cujas cores e formas mudam de acordo com os sons. Eu, como quase ninguém, jamais tinha ouvido falar nele antes, mas aí abaixo está a reprodução de uma obra sua, onde podemos ver dispositivos eletrônicos para acender as luzes. Não parece uma obra-prima, ele não é um Van Gogh contemporâneo, mas vale como prova de que ele não era de todo alienado.



Tartaglia não é o único que sentia vontade de dar um murro no mais polêmico e autoritário governante que a Itália viu desde Mussolini. Não é à toa que, logo após seu ataque, surgiram fã-clubes seu no Facebook com milhares de adeptos. Berlusconi é acusado de corrupção, é conhecido por comentários racistas e machistas, tem exercido a censura, tem sido um rolo compressor contra os imigrantes, para não falar na confissão de mafiosos, alegando que têm envolvimento direto com ele. Com uma fortuna de US$ 20 bilhões e a propriedade de uma grande emissora de TV, recursos para impulsionar a popularidade não lhe faltam, mas o homem por trás da tela não é nada agradável.

Confesso que senti um certo prazer ao ver o rosto de alguém tão detestável desfigurado pelo ódio de alguém que, se é mais louco do que nós, fez o que muitos queríamos. Podemos somar toda alegria que tive em me vingar das dezenas de mosquitos nos últimos tempos, deve ter sido esta a emoção que Tartaglia sentiu. Podem chamá-lo de louco, mas nós, os sensatos, estamos sempre apenas observando. Observamos Berlusconi tornar o mundo mais fascista, e observamos confortáveis uma reação que tentava desequilibrar a situação.

Multo bene. Eu queria falar um pouco do prazer, porque uma parte de mim quer sair por aí distribuindo porrada em todos os corruptos, manipuladores e proto-fascistas que nos sugam o sangue. Para ser ainda mais franco, não vejo até aí grandes problemas éticos, não acho moralmente "feio". Acho que o status quo, apesar de legitimado pelo pacto social, pode ser muito mais violento do que um gesto como o de Tartaglia. Dois dentes quebrados e um inchaço no rosto não são nada em comparação com a fome, a pobreza, a alienação e a perda de liberdade que Berlusconi impinge. Alguma agressividade é necessária para não se acabar exangue.

Entretanto, não necessariamente agressividade física. No fim das contas, a vingança falhou, pois a maioria dos italianos não percebe que seu primeiro ministro é um inseto asqueroso. Quase jainistas, sentem piedade por quem lhes retribui com desprezo e vileza. A popularidade do "pobre coitado" subiu sete pontos em uma semana! As pessoas fazem questão de oferecer a outra face, nem percebem de quem estão apanhando. Mesmo assim, a FAI (Federação Anarquista Italiana), se empolga, acha que vai ser ouvida e comete um atentado a bomba em uma universidade... Ninguém se feriu, mas, mais uma vez, acho que o governo pode se fortalecer com isso. As pessoas ficam assustadas, não consideram o contexto político para além do que a TV vomita, tampouco têm ímpeto revolucionário para se engajar numa luta sangrenta. O resultado acaba favorecendo quem está no poder, não tem a menor graça.

A resposta ao fascismo deve ser agressiva, porém dificilmente funcionará se escorrer sangue. O inimigo - não só na Itália - é dono da mídia. Tem se mantido no poder com a manipulação dos fatos, portanto é numa guerrilha de contra-informação que se deve engajar. Eu sinto que venho fazendo minha parte com meus textos, mas não é privilégio de escritor. Qualquer um tem capacidade para se tornar um vetor de transformação, seja através de blogs, de ativismo criativo, terrorismo poético, em conversas nos bares, corredores, universidades, em intervenções urbanas, em manifestações culturais e contraculturais, contestando tudo que nos degrada.

8.02.2009

Mordendo a língua

Mordo a língua. Mas o gosto do sangue é adocicado. Depois de tantos combates, tenho maior clareza do que eu sentia pelo inimigo. Melhor admitir que desde cedo eu me inclinava para a dentada. Mordo a língua, porém sem me trair, pois é da linguagem, e não do músculo, que estou falando. De qualquer modo, não era apenas repúdio o que guiava meus ataques à arte pós-moderna. Entendo que havia, simultaneamente, uma atração. Uma proximidade com o limite, com o momento em que a linguagem se contorce sobre si mesma. Ficou muito claro, para mim mesmo, a partir do último conto que escrevi, Esquizóide, publicado no Portal Stalker. O personagem passa a suspeitar que é um personagem, ele se pergunta o que pode haver além do espaço metafórico onde está inscrito. A ficção refletindo sobre si mesma. Como num Mito da Caverna invertido, o personagem, de formas ideais, tem sua origem no mundo imperfeito do autor. É a partir de dentro que o pacto ficcional sofre um abalo e o espaço da arte se revela em seu processo, perdendo sua realidade autônoma. Basta isso para se chegar muito perto do instante da Morte da arte - embora meu convite seja para olhar a margem do abismo, não para se atirar.

Não acho que todos os artistas contemporâneos entendam a diferença entre olhar para a morte sem medo e cometer de fato o assassinato (ou o suicídio). Meu reconforto é compreender que não estou agindo como mera contraparte, minha ação não é mera reação. Poupando o dinheiro do analista: não era só pelo poder do inimigo que eu me chocava com a morbidez de seus discursos, tinha a ver comigo mesmo. Era urgente discernir o que os antiartistas faziam e o que eu mesmo pretendia fazer. A diferença é enorme, embora tenha sido muito complicado entender qual era, e a confusão tenha me levado a muitas dúvidas quanto ao meu próprio trabalho. Quanto à estupidez de alguns deles, mantenho o que eu disse antes, até com maior convicção, de que denigrem não só a arte como a vida. Os argumentos estão no Crepúsculo de Paradigma e em outros artigos, não preciso repetir. Acrescento apenas que se eles não existissem, teria sido mais simples, porém a partir do momento em que eles fizeram um estrago enorme, precisei quebrar a cabeça. O que teve seu lado bom, me forçou a pensar a arte até o fim (até a "morte"). Foram anos até entender como levar a linguagem tão longe quanto eu queria sem incorrer nos erros deles - na quase literal Morte da arte, para resumir. Fico aliviado em perceber que não era tanto por eles que eu estava obcecado. Seria impossível continuar testando limites em meu trabalho se eu não compreendesse onde traçar minha bifurcação e escapar das armadilhas.

Desde meu primeiro livro, que comecei a escrever aos 17 anos, muita vezes estive próximo da destruição do espaço ilusório. Alguns de meus contos brincavam com os sinais gráficos, como em O homem que de fato morreu, onde um ponto final se converte em formiga esmagada; ou em Neurocirurgia, onde a linguagem da narrativa se desagrega em meio a um surto psicótico do protagonista. Foram coisas que escrevi por instinto, não conhecendo praticamente nada das teorias pós-modernas. Em Puro enquanto, já consciente dos debates atuais, o que coloco em cena é justamente o embate entre ilusão e realidade. No romance, a linguagem fragmentária é a de alguém em coma, tentando despertar porém demasiado fascinado pelo mundo dos sonhos (ou da arte). Porém, mesmo explorando tensões, a busca pela riqueza estética deixa poucas dúvidas quanto minha crença na força da fantasia. Com este último conto, Esquizóide, mais explícito na auto-referência, estão acentuados os vetores contraa ilusão. É algo que só interessa se você tiver uma boa noção de até onde a ilusão resiste. Se sacudimos a arte, podemos trazê-la mais perto de nós. Se ela passar por algumas provações, nos parecerá mais forte, interagindo com maior proximidade.

De modo geral, acho que os escritores contemporâneos souberam não arruinar a literatura, ao passo que muitos artistas visuais se esforçaram para realmente impossibilitar a arte. Muitos dos mais jovens têm outra pegada, mas ainda vemos retardatários. Minha maior dúvida, hoje, é se as especifidades da arte visual eram tais que a antiarte seria inevitável (por questões históricas, econômicas, do suporte, etc). Se comparo com o que houve na literatura, a tentação é a de dizer que nem seria preciso teoria pesada para evitar o sangramento: a intuição mesma
poderia dar conta. Bastaria não confundir a auto-mutilação dos penitentes com a ousadia dos aventurosos. Os escritores souberam roçar o limite sem esgarçá-lo (mesmo porque, se você leva ao esgarçamento, algo se afrouxa). Contudo, se eu, que detestava a antiarte, levei dez anos para traçar a diferença, acho que nas artes plásticas estava mais difícil de percebê-la do que na literatura. De fato pareceu que para ampliar o campo da arte, seria preciso matá-la, e também eu estive confuso quanto a avanços e recuos.

Em muitos momentos, um verdadeiro espírito livre precisa testar um limite, e se sentirá um covarde se não o fizer. Cravar os dentes nas palavras em fluxo, ou sentir na boca o sabor das tintas. Um artista ou um escritor pode morder a língua sem que o gosto sutil de sangue cause grande mal. O sangue só será amargo se jorrar demais e atravancar a fala. Agora mordo a língua e a sinto doce.

4.28.2009

Harold Rosenberg

Saiu agora um artigo meu na revista Filosofia, Ciência e Vida: Harold Rosenberg diante da morte da arte.Fiz uma aproximação entre meu crítico de arte favorito e a filosofia de Nietzsche, mostrando que os dois juntos derrubam muito do que se pensou sobre arte das últimas décadas. Gosto de Rosenberg porque ele nunca fugiu da briga, percebendo quais eram os desafios intelectuais de nosso tempo e respondendo à altura. Ele foi brilhante ao combater a antiarte com argumentos muito superiores aos de seus adversários, sem cair em simplismos, com uma capacidade quase nietzschiana de avaliar diversos lados ao se posicionar. A antiarte não conseguiu refutá-lo, apenas ignorá-lo bem cinicamente, como muitos fazem até hoje.

É impossível resumir o texto em poucas linhas, mas vou deixar um trecho só para mostrar que a artilharia é pesada:


Percebendo o quanto a aceitação incondicional do novo é comodista, Rosenberg desdenha do que chama de opiniões da geração, não reconhecendo nestas muito mais do que modismo. Não é de todo gratuito, portanto, que acusa seus colegas de “embusteiros profissionais”. É evidente que declarações como essa não o tornavam especialmente simpático por parte de seus contemporâneos, o que também deve ter contribuído para seu isolamento. Contudo, ele não poderia ter herdado de Nietzsche apenas o espírito contestador sem um tanto de sua virulência.

11.24.2008

Enfrentando o vazio

O vazio da Bienal, podemos dizer, é o vazio do interior de uma bolha. Uma bolha que se agigantou no afã de abarcar tudo, de se infiltrar em todo tipo de ação humana. Da mesma maneira que o mercado financeiro entrou em crise pelos excessos neoliberais, a bolha na arte se mostra prestes a estourar devido a um semelhante laissez-faire. Já temos sinais de que uma crise vá influir na outra, de que os preços dos leilões de arte se tornarão mais modestos, e que os colecionadores pensarão melhor antes de patrocinar qualquer capricho. Porém, se refletirmos apenas sobre os aspectos econômicos, a arte continuará a ser mero jogo da elite, flutuando de acordo com a demanda. A tal ponto o problema é complicado que ainda parece incerto se a intenção de Rafael Augustaitiz, ex-estudante de arte que invadiu o pavilhão com quarenta pichadores, seria o de pertencer ao interior da bolha, ou se ele já procura perfurar a membrana e forçar a explosão. Desde os anos 60, quem queira entrar para o alto circuito de arte dificilmente se arrisca a pintar uma tela, podendo ser mais vantajoso, até mesmo financeiramente, realizar uma ação radical do que batalhar com as tintas. A principal diferença entre a arte moderna e a arte que se designa pós-moderna é que a segunda tende a se restringir ao campo expandido, desprezando o campo metafórico que as cores propiciam em uma tela. Até mesmo uma pintura abstrata é considerada ilusória demais para o pensamento que hoje domina, pois as cores criam tensões e variações de profundidade que vão além da mera materialidade. A ilusão passou a ser considerada reacionária, algo que merece ser destruído – assim como se deve destruir qualquer fronteira entre o espaço da vida e o da arte. Explica-se assim o por que de não haver uma única pintura nessa edição da Bienal, onde a destruição da arte acontece mesmo sem a intervenção de pichadores.


Ironicamente, se a pintura não pode mais ser arte, qualquer anúncio de que não é arte nada do que costumamos chamar de arte pode ser considerado uma obra avançada. É o que vemos, por exemplo, em uma instalação onde falsificações de dezenas de obras consagradas se amontoam ao lado de seus pedidos por escrito, sugerindo que seja falso até mesmo o desejo de se ver uma pintura significativa. É na constante frustração de desejos como esse que muitos dos artistas selecionados se engajam. Ao lado dessa beligerante instalação, vemos um enorme painel com o livro “O estrangeiro”, de Camus, onde todas suas palavras são recortadas e dispostas em ordem alfabética. Em entrevista, a artista diz ter escolhido o livro por apreciá-lo, mas não é difícil perceber o quanto há de inveja nessa dissecação e ordenação – na aniquilação ou controle de uma fruição que seria bem mais potente com o livro em sua integridade. Em vez de um livro dilacerante, temos um livro dilacerado, muito aquém do que poderia provocar no leitor.
Do outro lado do pavilhão – começamos pelo último andar da exposição – temos duas das poucas obras que apostam na ilusão. O vídeo de Eija Liisa-Ahtila, que aborda a loucura com uma estranha suavidade, e as instigantes gravuras de Leya Mira Brander, cujo discurso sustenta um otimismo em relação à imagem que quase não se ouve mais. Para quem compreende que obras como essas, ainda que não se valham do mesmo poder retórico, são mais complexas do que a produção tipicamente contemporânea, a proposta de “morte da arte” só pode soar rancorosa. A diplomacia costuma reinar tanto na disposição do espaço quanto nas conversas de vernissage, porém por trás das aparências a briga é feia: os pós-modernos insistem no boicote ao espaço ilusório, ao passo que, contra a corrente, alguns poucos conseguem demonstrar que isso não é possível nem vantajoso. O caráter panorâmico de toda grande coletiva faz com que coabitem o mesmo espaço rivais que se ameaçam de morte. Vazio é quem acredita que esse conflito não acarreta abalos ainda maiores. Nesse contexto, o ataque de Rafael e seu grupo Pixação, consideremo-nos artistas ou vândalos, demonstram muito claramente a tensão que está em jogo.
Desçamos do andar superior para o primeiro piso. Caminhando pela arquitetura modernista de Niemeyer, avistamos o vazio e prosseguimos. Vamos nos lembrando que, desde o urinol de Duchamp, qualquer objeto, situação, informação ou sugestão que se insira em um espaço artístico, pode ser considerado arte. Seja um cachorro doente, seja um aperto de mão, seja um anúncio publicitário, uma aula de geopolítica ou a oferta de um copo d’água. É importante esclarecer que, na maior parte das vezes pueris, esses procedimentos não fazem jus ao legado de Duchamp. O artista francês disse com todas as letras que deveria restringir esses deslocamentos a um número muito reduzido – não tendo ele realizado mais do que vinte ao longo de décadas – pois do contrário perderiam o sentido. Desrespeitando o próprio inventor do jogo, muitos dos artistas selecionados levam o truque ao extremo – não é tão difícil uma vez que se aprende – com conseqüências as mais elitistas.
Há jornalistas cobrindo a Bienal, parte deles contratados para publicação interna. No entanto, há artistas fazendo o mesmo trabalho, sendo o único diferencial o status de sua profissão. A cobertura dos artistas poderia ter a mesma qualidade, o mesmo conteúdo e o mesmo foco que o trabalho dos jornalistas – não é o que vai impresso que os diferencia, assim como a caixa de sabão em pó de Andy Warhol era idêntica à das estantes dos supermercados. O Brillo Box de Warhol exauria-se em si mesmo, mas o procedimento não mudou tanto dos anos 60 para cá. Próxima às catracas da entrada, avistamos uma antiga prensa, trabalhando ruidosamente. A máquina é bonita, antiga, mas não é ela a obra. A proposta do artista é recolher perguntas e respostas de qualquer assunto levantado pelos visitantes e reunir em livretos que são distribuídos aos participantes. Basta ler algumas linhas para se perceber que não há qualquer avanço em relação à Wikipedia. Na verdade, há um recuo, pois a Wikipedia é mais dinâmica, tem acesso mais amplo e não faz de seu idealizador um novo “artista”. A prensa da instalação, por antiga que seja, funciona bem, é o pensamento que está obsoleto: uma obra espaçosa demais, que não reconhece as possibilidades de nosso tempo.
À lógica do deslocamento se alia a um discurso que prega o fim de qualquer separação entre vida e arte – seria essa a proclamada “morte da arte”. Em vez de se produzir campos ilusionistas, passar-se-ia a olhar para a vida como se essa fosse uma obra artística. É por isso que um pichador com quatro anos de estudos na Faculdade de Belas Artes sente que sua transgressão deveria ser reconhecida pelos críticos e historiadores como obra de vanguarda. Se de fato não houver a menor distância entre espaços da vida e da arte, teremos que reconhecer que a ousadia de Rafael pode ser admirada com maior profundidade do que admiraríamos uma tela de Matisse. A mentalidade pós-moderna entende que uma pintura é apenas um objeto plano preenchido com tinta, podendo ser mais honroso para um artista subir e descer de um banquinho em uma performance assumidamente narcisista do que criar um objeto. Sendo assim, como dizer que os movimentos dos pichadores invadindo o prédio, dominando os muros e se desviando da polícia em rota de fuga não tenham sido um balé a se apreciar esteticamente? Por que Vito Acconci sim e Rafael Augustaitiz não? Apenas por que Rafael é contra a lei? Se contarmos com esse argumento, a censura determinará o que é arte muito antes de qualquer reflexão. Melhor seria questionar se a arte tem mesmo se aproximado da realidade, ou se a figura do artista não tem sido a de um demagogo com privilégios especiais. Há pessoas que não precisaram de muito mais que visitar algumas ONGs em São Paulo e anotar o trajeto em um mapa da cidade para participarem oficialmente da Bienal. O que elas fizeram que as tornam exemplos tão mais destacados do que os funcionários dessas mesmas ONGs, que não serão considerados artistas?
Dentro do paradigma que se formou na arte contemporânea, o pior assistente social pode, desde que capte o tom do discurso e aperte as mãos certas, ser considerado um artista de respeito. Também um militante mais subversivo, que enfrente o sistema e desafie a polícia, pode, se souber imitar a pose certa, ser aclamado como artista radical. O mesmo vale para jornalistas, cozinheiros, decoradores, etc. Um dos muitos problemas que esse paradigma gera é que jamais temos uma verdadeira fusão entre arte e vida, a despeito do que se proclama. Um crítico importante porém pouco lembrado, Harold Rosenberg, cansou de demonstrar que não é possível a fusão com a vida em qualquer contexto de arte. Nesses casos, o que se passa é sempre deslocamento, jamais integração. Para Rosenberg, os estudantes da Sorbonne de 68 uniram vida e arte, fizeram da política uma dança, mas somente porque a tessitura era a da vida. Estavam do lado de fora da bolha. Ele considera também que é pouco provável que se possa ser libertário na vida sem qualquer repertório de arte ilusionista, com a imaginação sempre presa à realidade, limitada à concretude. Tendo em vista um cenário amplo, só temos a lamentar que a arte venha cooptando manifestações marginais que pouco dizem respeito a suas particularidades. Tanto a arte como a vida perdem, pois ambas se artificializam: o rótulo se fazendo valer mais do que seu caráter.
Duchamp estava certo ao considerar que os deslocamentos deveriam ser limitados. Hugo Ball, fundador do dadaísmo, também entendia que “transformar o dadá em uma tendência artística é problema na certa.” Guy Debord percebeu que teria de abandonar o status de artista para atingir a realidade em cheio. Lygia Clark, preocupando-se mais com a cura do que com a performance, deixou de querer ser vista como artista ao se aprofundar na psicanálise. Aqueles que buscaram ir até o limite da equação arte-vida perceberam que há uma linha a partir da qual uma ação já não deve mais ser considerada arte. Não porque seja menos interessante do que arte, mas porque seria falseamento vê-la como tal. Essa linha não é rígida, nem facilmente visível, é como a superfície de uma bolha. Fazendo-a, inchar, cedo ou tarde ela explode. Não há como levar o mundo todo para seu interior. Nem há motivos para isso, pois há coisas que se tornam mais pungentes quando em outras esferas. O que não se pode é tomar uma bolha, devido ao formato esférico, pelo planeta, pois a arte não é maior que a vida.