6.19.2009

Improviso onírico

Tenho lembrado muito dos meus sonhos, pela manhã. Nós sonhamos todos os dias, não sei se vocês sabem, e às vezes nos lembramos, às vezes, não. Eu venho anotando muitos sonhos, mas ainda não sei se vou escrever outro livro como Puro enquanto. Ao menos para não perder a prática, fiz um improviso com o sonho de ontem.

Foi com a Lucila, que não é exatamente minha namorada, é com quem eu tenho saído nos últimos tempos. Eu falava com ela, meio ansioso, sobre minha visão sobre arte, até cansar. De repente, ela me pede que eu lhe faça uma música. Me sinto meio contrariado, pois não tenho talento pra isso. Eu tento beijá-la, mas ela sorri e desvia o rosto, não consente até que eu atenda o pedido.

Essa é a descrição narrativa do sonho, mas quem disse que os sonhos cabem em uma narrativa linear?



Lucila, luciluzente, não quer mais saber de morte ou de Marte. Ela quer Dionísio, quer música, quer dlin-dlon-dlin. Ela se dá musa, toda-toda, mas se sou surdo, não me beija. Não queixo – certa ela, dona das ondas.

E quando a gente fica junto, co-pulando na cama, na sanha – é o que pergunto – não são os ritmos? Da fúria aos furos, como quem come, sssorvendo os poros, lambendo os pelos? Melodia malícia, Lulu. Dionísio sodomiza Afrodite; quem não vê beleza que vade reto.

6.13.2009

Trecho de Puro enquanto

Sombrão. Assombração; sombrão.


Arrepio; é muito real, não sabia que coisa dessas existisse. Dois metros de altura, atávico (um Ante-passado). Feito sombra - e denso como pedra. Voz que atravessa os tempos, assustadora penetrante, enredante.


‘Sabe o que escondem os quadros de Dali?’ Dali? Dali ou Da Vinci? Ou Dadá... ali, ou vindo, ou a dar? ou vencendo? Vislumbre de Mona Lisa. Mas é como um rosto de um manequim de loja, sem peruca e com rosto pontilhado. Tem algo por trás do quadro, um objeto, entre a moldura e a tela pintada. Teria que se cortar a tela, (a Mona Lisa), e pegar com as mãos.


Mona Lisa é todo retrato de pessoa viva disse uma vez Clarice. Ou mais de uma vez.


Abrindo a terceira gaveta do armário da televisão. A gaveta é que vai lentamente se abrindo, fantasmagórica. Ao redor, paredes se inclinam, como navio à deriva (e nós, tripulantes em meio à tempestade).


Medo, ainda, da sombra. Não olhar para a esquerda, onde ela está. Não ver, evitar de enxergar a alma, e o que quer que seja de olhos vermelhos.

Obs:

O livro é baseado em dez anos de anotações de meus sonhos, que só poderiam ser "amarrados" descontinuamente, em uma linguagem delirante. Levei a palavra escrita o mais longe que pude, próxima da desagregação do "eu" de nossos pensamentos inconscientes. Contudo, mesmo esquizofrenizando a palavra, eu não estava satisfeito. Nos sonhos há sempre algo da ordem do não-dito que poderia ser simulado, mas que minhas frases mais loucas ainda não transmitiam como eu queria. Eu queria sensações inalcançáveis pelo pensamento verbal. Isso me levou a misturar as palavras com diversas imagens visuais, muitas delas abstratas. As pinturas entram como aquilo que o discurso não alcança, aquilo que foge do racionalizável.

Temos uma tradição de milênios em que o mundo da arte o mundo dos sonhos são comparados um ao outro, confundindo-se. Sendo assim, e já que não vivemos só dos devaneios, é natural que a discussão sobre os reflexos da arte na realidade tenha alguma consistência. O protagonista de Puro enquanto, cuja voz conhecemos apenas por meio de seu inconsciente, nos leva a um mergulho no universo fantástico dos sonhos e da arte. Porém, por mais que encaremos este mergulho como aventura pungente, repleta de descobertas viscerais, as incursões pelas profundezas ecoam a agonia de quem se afasta da realidade. O protagonista percebe-se em coma, percebe-se alienado, e procura despertar. Não é tarefa fácil, pois para captar algo da realidade, para não tomá-la pelo mundo dos sonhos, todos temos de nos haver com nossos maiores delírios.

6.10.2009

Finalmente, nas livrarias!


Até que enfim, quando ninguém mais acreditava, eis que meu romance está à venda! Ainda não definimos data de lançamento, mas quem já quiser ver, cheirar e degustar o livro, ele está disponível no site da Livraria Cultura, que entrega para o Brasil todo. Além da Cultura, qualquer livraria que trabalhe com a Editora Annablume (e são muitas) pode encomendar o livro.

Até o final desta semana, está mais do que prometido, vou postar um trecho de Puro Enquanto. Não é nada parecido com qualquer coisa que eu tenha escrito antes: é a língua que eu falo nos sonhos.

6.09.2009

Tempo (e a falta de)

Uma das minhas angústias mais frequentes costumava ser a falta de tempo. Não era fácil conciliar as tarefas do ganha-pão com o tempo necessário para criar, para pensar e para falar de arte. Sempre uma urgência desesperada de me expressar, e eu seguia frustrado porque outros deveres me chamavam. Hoje, ao menos aquilo que de fato eu precisava fazer e me deixava sem dormir está em boa parte concretizado. Terminei o Puro enquanto, livro que me tomou dez anos para realizar e que termino com grande felicidade. E alívio, vocês não sabem como foi difícil. Nos próximos anos vou ficar só nos contos e nos poemas, mais fáceis de espremer entre uma obrigação e outra.

Quanto às minhas leituras, sinto que, na medida do possível, pude pô-las em dia - nos últimos anos, li tanta filosofia, tanta teoria estética e tanta literatura que ao menos não me sinto mais numa dívida constante. A sensação de que não posso escrever um artigo decente até entender o que Nietzsche ou Rosenberg queriam dizer, ou que eu não posso me considerar escritor de verdade até ler os principais autores, já foi quase neurótica, hoje está bem mais suave. Só passou com as muitas horas de vôo, depois de ler muito. Em muitos momentos, foi um grande prazer; em outros nem tanto, pois a gente não lê só os autores com que tem afinidade.

Pensei agora, não é à toa que em um de meus romances, estico meu tempo até o século XXIII, e nesse novo, o tempo é puro enquanto. À minha maneira, eu quis ampliar a experiência temporal, revirar o cotidiano. Torná-lo mais musical, extrair ritmos. Não me contento com o tempo objetivo, pois sei que ele coexiste com o tempo dos sonhos e dos devaneios. Percepção e memória são inseparáveis, e a mais remota infância ecoa em cada um de nossos gestos. Se entrarmos em física quântica, então, a coisa se complica ainda mais, pois há teorias que entendem o passado, o presente e o futuro como como ocorrências simultâneas. Mas essa é uma conversa que deixo para um outro dia - pra que a pressa?

O que me interessa não é só o tempo, mas a temporalidade, os ritmos, a possibilidade de ver vida e arte numa dança. Aquela história de "morte da arte", na minha opinião, aniquilava tudo isso, percebessem ou não seus defensores. A gente faz o melhor que pode para ser um bom terrorista poético, ou seja, para não se esquecer de dançar enquanto briga, mas nem sempre é fácil. Acho que hoje, finalmente, estou bem seguro de que minhas opiniões sobre arte contemporânea estão embasadas o suficiente para o assunto não me drenar tanto as energias. Organizando os artigos já escritos e alguns inéditos, até o fim do ano reúno o material todo em um livro e lanço grátis em PDF. Assim, dou minha conclusão à querela, em que eu gastei tanto tempo e neurônio que minha pressão estava sempre alta, e também evito deixar monotemático este tão querido blog. Exatamente porque o tempo é precioso, quero postar mais sobre atos criativos, meus e dos outros, e menos reclamações sobre a anticriação. Os dois ou três melhores artigos inéditos contra a antiarte eu ainda vou postar avulsos, porque talvez sejam os mais fortes, mas comecei a sentir essa querela como um contra-tempo, e acho que o barato é vencê-la logo, para ajudar a arte de modo geral a recuperar também seu tempo perdido.

Carpe diem et carpe noctem!