4.12.2010

Pichadores convidados para a Bienal

Engraçado ver a notícia anunciada justo na Mônica Bergamo, pois não se trata de arte, mas de colunismo social mesmo. Alpinismo, holofote, vernisage, drinkzinho. Eu cantei a bola dois anos atrás: os pichadores se encaixam tão bem na atual mentalidade de arte contemporânea que poderiam ser cooptados numa boa. Não há uma distância muito grande entre os ataques de Rafael Augustaitis e a antiarte das últimas cinco décadas. O que ocorre é uma espécie de ultimato: ou se desiste de muito do que foi pensado nas universidades a respeito da antiarte, ou se endossa qualquer ataque à arte como vanguarda. O movimento inercial tem sido o da subtração, mais que da criação, e Rafael se valeu dessa brecha desde que começou.

Se ao menos esses caras pichassem mais as casas dos políticos ou propagassem mensagens como Maio de 68, eu poderia considerá-los, se não grandes artistas, ao menos terroristas poéticos. Eu já fiz isso - eu, cujo background de infância, comparado com o deles, é o de um filhinho de papai - por que não esses maloqueiros tão destemidos? Está provado que eles, assim como boa parte dos artistas "engajados" atuais, querem mais é aparecer, em detrimento de quem faz arte de verdade.

Contra a corrente sou eu. Por mim, as instituições podem considerá-los revolucionários - eu estou cada vez mais orgulhoso de seguir meu caminho sem tanta ansiedade pelo sucesso. E nem tenho um discurso anti-sucesso, como supostamente eles têm. Mas, do mesmo jeito que eu sabia dois anos atrás que eles poderiam escalar e ser cooptados, eu sabia também que meu caminho podia me deixar um tanto à margem. Ok, meus livros estão no mercado, tenho artigos na DASArtes, aceitei bolsa, mas corro meus riscos, e não me vendo sem um mínimo de coerência. E, isso eu tenho sentido na pele, especialmente estes dias: é muito, mas muito mais fácil engolir um Pixabomb do que um Ivan Hegenberg - por uma questão de densidade.

Para não me repetir muito, vou deixar o link de Crepúsculo de Paradigma, o artigo onde fui mais a fundo em toda essa discussão.

3 comments:

cahoni chufalo said...

duas coisas a se pensar: a facilidade com que o meio da arte absorve qualquer coisa como arte,e o discurso dos pixadores que, se antes criticavam a bienal e o meio artistico, despidos agora desse discurso que validava suas açòes terão que ser avaliados por aquilo que produzem. Não sei até que ponto suas obras tem força sem a discurso contestador. Pelo menos essa bienal nos dará essa oportunidade.

abraço ivan

Ivan Hegenberg said...

É, Cahoni, meu caro,
quem se contenta com discursos, que sintonize na TV Senado.

Abraços

Anonymous said...

ler todo o blog, muito bom