11.17.2009

Já que sou mesmo um palhaço

Estão todos se esquecendo de que o filósofo mais decisivo que o mundo já viu, Nietzsche, dizia, sem pestanejar: "Sou um bufão".



Acho que todo intelectual deveria se vestir de palhaço de vez em quando. Como terapia, para não se levar a sério demais. Todo saber é poder: potencialmente tão nefasto quanto a ignorância.



Não foi planejado. Aliás, eu não gostava de palhaço quando criança. Adulto é que eu adorei a brincadeira. Como foi? Eu escrevi o roteiro para o piloto de um programa de TV, onde um palhaço boêmio daria um susto em um viajante. Na falta de atores, me escalaram. Sempre que me pergunto "por que não?" e não tenho uma resposta boa, eu topo.



Mas vida de palhaço não é fácil. A gente faz rir porque sabe que não tem solução. Na vida, na arte, no amor, na luta, no trabalho: até onde se deve ir? Até onde se puder rir.

11.15.2009

Superpopulação

Gritam que o mundo está saturado de imagens, por isso que o artista contemporâneo deve abortar, deve se castrar, deve se retirar. O mundo não está saturado apenas de imagens, também está sobrecarregado de pessoas. Comparando, vemos que a resposta pós-moderna é algo como “Não tenham filhos! O mundo já os tem demais, não vamos piorar o problema”. Deixando de lado os ímpetos genocidas, como vimos que praticaram contra a pintura, este “controle de natalidade” pós-moderno é uma estratégia fracassada sob qualquer ponto de vista. Se os homens mais conscientes se recusam a ter filhos, os conservadores não o farão, muito pelo contrário, ampliarão sua influência devido à retirada da esquerda. “Ninguém mais faça arte, temos arte demais” – e é então que a indústria cultural ganha mais força, pois se prolifera sem qualquer força contrária em evidência. Nossos filhos, aqui, são as obras de arte, e um artista mais consciente deve, sim, visar uma perpetuação de seus valores, e para isso contará com filhos bem criados,tantos quanto puder sustentar, desde que haja alimento para crescerem fortes e contestadores. Será com tais filhos, não pela renúncia, que se propagarão ideais de uma vida mais digna. Não perdemos o foco na saturação, pois a distribuição de anticoncepcionais para um controle populacional consciente nas regiões mais pobres fará parte, sem dúvida, dos planos. Não se trata de elitismo: um trabalhador pobre com família muito grande não prospera, apenas provê mão-de-obra barata, lúmpen que os poderosos explorarão. Tambem não queremos nada como o sistema chinês, a proibição impiedosa que acarreta em assassinatos no seio da família, mas condições de planejamento, visando qualidade de vida.

10.27.2009

A filha do poeta

Conto inédito no site Germina!

É só clicar, espero que gostem.

Abraços

10.26.2009

O que há com Krauss?



Na sexta-feira passada, no MIS, entrevistei Rosalind Krauss, considerada a maior crítica de arte das últimas décadas. Apesar das muitas pausas que fizemos devido ao cansaço da viagem e de alguns problemas de saúde, pude fazer muitas das perguntas que me perseguiam há anos. Procurei tornar a entrevista a mais provocante possível, e creio que mesmo quem acompanha seu trabalho há anos poderá se surpreender com suas respostas. Isso vocês conferem na próxima edição da Revista DASArtes.

O mais impressionante, no entanto, ocorreu dois dias depois, na palestra em que ela inaugurou o III Simpósio Internacional de Arte Contemporânea. Sua fala começou bem segura, com sua posição habitual contra o cubo branco e as grandes feiras de arte, atacando inclusive os os artistas cujas obras não combatem tais sistemas. Foi quando se abriu o microfone para as perguntas que tivemos o momento mais inesperado. O professor da PUC Miguel Chaia formulou sua questão de maneira bem civilizada, ressaltando que o trabalho de Krauss é importante para se pensar as instuitições e o mercado, porém disse que a famigerada "fraude da arte", abordada em sua fala, era assunto antigo, e que deveria se referir menos aos artistas do que ao sistema capitalista que a tudo circunda. Uma pergunta que permitia grande margem para resposta, mas que se resolveu em uma declaração direta e um tanto aborrecida: "Eu acho que você está pergutando se eu sou reacionária, e minha resposta é sim". Sem mais.

Em minha entrevista de sexta-feira, não obtive nada com tamanho impacto, contudo, os leitores poderão dizer melhor do que eu, talvez algo do que registrei ajude a entender porque ela chegou a uma assertiva tão polêmica e aparentemente auto-acusatória. Não pretendi mais do que revelar um pouco de sua personalidade, de seu pensamento e de sua trajetória, porém cada vez mais ela me parece impossível de se catalogar. Ainda há muitas questões a se dirigir a esta figura, de um modo ou de outro, sempre soube nos surpreender.

10.19.2009

Fuga

Arte é vazão
Mata e mete
Mas remete
É remissão

Arte é alusão
Conduz ao pó
Mas é polida
É ilusão

Arte é parte
É o que te parte
É contraparte
Não é lição

É especular
Espetacular
Experiencial
Especulação

É fuga em lá
Nem maior
Nem menor
- ar te insufla -
Sem salvação

10.12.2009

Último Dia das Crianças

Não sei exatamente quando, mas está decidido: este blog não completará mais um ano de atividade. Talvez eu comece outro, mas não quero assinar como L'enfant Le terrible por muito mais tempo.

Estou perto dos 30 anos, querendo fazer mestrado, cansado de não ser levado tão a sério quanto mereço, e acima de tudo, cansado da infantilidade das pessoas - quase todas.

Terrível, continuarei sendo, mas já não sou um principiante. E é preciso deixar claro para os outros que meu pensamento é maduro, e a alcunha tá começando a atrapalhar. Fazia mais sentido quando eu me orgulhava dos meus textos como um moleque vibra com sua rebeldia, mas isso já não basta. É preciso crescer, fazer com que as palavras atinjam um público vasto e interessado. Contra a corrente eu estou há muito tempo e sempre causarei incômodo, mas se tenho algo a dizer, quero mais é ser ouvido e que minhas ações ecoem.

Antes de parar o blog, no entanto, vou me despedindo com ousadia. Dizem que até os 30 anos determinamos nossa personalidade, então vou fazer o possível para mostrar envergadura, para avançar o máximo que puder e marcar posições. Quero lembrar de L'enfant le Terrible como programa resumido do que desenvolverei ao longo de toda a vida. Se eu mantiver a jovialidade - e, me arrisco a dizer, a novidade - do que esbocei aqui, me darei por satisfeito, terei sido um artista e um pensador pertinente. A partir de agora, tenho no máximo um ano para juntar minhas sementes. O tempo é curto: cada post deve ser um rito de passagem.

9.29.2009

Incognoscível

Hilda Hilst: "você está se esquecendo do incognoscível. O incognoscível? É, velho Ruiska, não se faça de besta. Levanto-me e encaro-o. Digo: olhe aqui, o incognoscível é incogitável, o incognoscível é incomensurável, o incognoscível é inconsumível, é inconfessável. Ele me cospe no olho, depois diz: ninguém está te mandando escrever sobre o incognoscível, estou te dizendo não se esqueça do incognoscível. Ah, está bem. Finjo que entendo. Ou entendo realmente que não devo esquecer do incognoscível?"

Meu primeiro livro se chama A grande incógnita. O conto que dá o título foi escrito em 1997, e de lá para cá eu passei por algumas experiências que vêm desafiando minha vã filosofia. Em 1997, sequer um deus espinosiano, que não guarda qualquer resquício de religião, poderia me causar mais do que bocejos, apesar de eu devorar Clarice Lispector, que desde sua estreia enveredava por uma espiritualidade um tanto maldita com forte inspiração em Espinosa. De Clarice, eu sorvia a força das palavras, mas entendia suas aleluias e epifanias de maneira bem cética, materialista.

Cresci sob um ateísmo imperturbável, que me permitia dormir tranquilo mesmo após entrar em igrejas falando palavrão. Tamanha era a minha certeza de que a metafísica é mera ficção que eu me divertia provando que o trono de Deus é vazio, e blasfemava em seus palácios. Não creio que sequer em um nível inconsciente me senti muito culpado por isso, de tão convencido eu estava de que não há governo superior ao dos homens. A Grande Incógnita aborda reencarnação, no entanto nem por um segundo me pareceu que a metafísica pudesse ser mais do que um belo conto. Uma amiga espírita leu a história e disse que não era muito condizente com a doutrina de Allan Kardec, mas não era essa minha intenção. E até que eu me pus à prova: a convite de amigos, tomei o chá do Santo Daime, três ou quatro vezes. De todas as visões que eu tive, nada me pareceu exigir explicações que fugissem da psicologia. Ao longo desses anos, fui anotando meus sonhos, porém, mesmo que eu procurasse, não encontrei muito o que justificasse o simbolismo de Jung ou explicações transcendentais. Um outro episódio, confesso, me deixou intrigado, mas as pistas falsas eram abundantes.

Talvez eu fosse, desde o início, e ainda hoje, mais agnóstico do que ateu. A rigor, o agnosticismo é uma posição mais científica do que o ateísmo, pois não se pode provar a inexistência de Deus. O que se pode - ou melhor, se deve - é contestar a convicção dos fanáticos, que vomitam dogmas sem qualquer evidência de que agem seguindo a Verdade. O mais engraçado é que, onde procurei com maior afinco, nada encontrei. Talvez porque eu procurasse para não achar - onde tantos pensam ver Deus, só percebi a imaginação dos homens. No entanto, pegando-me desprevenido, de quando em quando me acontecem situações como a do Daniel Seda, cujo e-mail eu transcrevi no último post, e quem eu conheci na semana passada.



Antes de falar dessa coincidência tão improvável, vamos combinar uma coisa. Não quero que ninguém acredite em mim só por voto de confiança. Se eu contar com algo tão insólito quanto a fé, valho tanto quanto um padre, e poucas coisas causam mais sofrimento no mundo do que os dogmas. Quero que cada um tenha fé em si mesmo, acima de qualquer autoridade ou qualquer palavra. Quem me lê deve ter fé em si mesmo mais do que em mim, portanto deve guardar uma dúvida, deve perguntar se eu não estou louco, ou se não foi tudo armado entre mim e Daniel Seda. Quanto a mim, venho preferindo fazer como o Ruiska de Hilda Hilst. Tenho lidado com o incognoscível como inconfessável, não me esquecendo dele mas raramente falando abertamente sobre.

Não sei ao certo sequer se eu deveria ter colocado o e-mail do Seda no ar. Em primeiro lugar porque é inconsumível - vide o silêncio nos comentários, apesar da boa visitação. E principalmente porque não consigo juntar o que penso sobre "metafísica" e os demais assuntos que me interessam, de arte à política. O Daniel é bem diferente de mim nesse aspecto: ele fala de telepatia sem muitos rodeios, vendo na internet um potencializador desses fenômenos e um prelúdio para uma sociedade mais igualitária. Pelo que me diz, ele vê tal potencial de maneira semelhante ao que eu descrevi no Será. Claro, ele sabe que, se eu escrevi A grande incógnita sem intenção de divulgar Kardec, também não escrevi Será para ser lido ao pé da letra. "Será", em ficão, deve ser lido como "Seria", do contrário não se defenderia a distância necessária entre arte e vida. Contudo, a aproximação entre Seda personagem e Daniel mostra até que ponto o diálogo entre as duas instâncias pode ser dinâmico e estreito. Não apenas a maneira como Daniel chegou até o livro, relatada no e-mail, mas certas semelhanças de nossas trajetórias surpreendem. Também ele se formou em artes plásticas mas tem se aproximado cada vez mais da literatura, buscando unir as duas linguagens. Também ele estudou Deleuze e anotou seus sonhos durante anos. E gastou horas e horas tentando imaginar como transpor um pouco da mentalidade anarquista para a realidade, sem se perder na utopia pela utopia. Se eu não fosse o próprio, acharia que esse Ivan Hegenberg batizou o personagem de Seda como homenagem, já conhecendo Daniel há tempos. Acho saudável que duvidem, mas eu não posso me dar esse luxo sem considerar que minha memória deve ter pulado alguma parte, pois não estou avisado da armação.

Não faço a menor ideia de porque atraio sincronicidades e fenômenos afins. Lembro, no entanto, que diversos escritores que se empenharam em levar a linguagem ao seu limite acreditaram tocar no incognoscível. Hilda Hilst pensava poder captar as vozes dos mortos; James Joyce se convenceu de que sua filha era telepata; Clarice falava de Deus com tão estranha proximidade que foi convidada a um simpósio sobre bruxaria; Guimarães Rosa hesitou por anos em aceitar a cadeira na Academia, como se soubesse que morreria três dias depois da honraria. Nenhum desses episódios vale como prova de nada, a não ser, talvez, de uma correlação entre uma certa compreensão da linguagem poética e uma experiência de mundo que crê ter intimidade com a "metafísica". Talvez. Há também a física quântica, que me faz a um só tempo esperançoso e cauteloso. Estou aguardando, não quero especular muito.

Ainda prefiro a ciência, gaia que seja, à fé pura e simples. Em poucos anos, o acelerador de partículas de Genebra ajudará a explicar os fenômenos não-newtonianos. Para quem não sabe, na física de partículas observam-se situações tão desnorteadoras que teorias como dimensões extra ou a simultaneidade entre passado, presente e futuro são consideradas com a maior seriedade. Há também quem esboce uma correspondência profunda entre matéria e informação, para não falar em teorias mirabolantes como as divulgadas no esquisitíssimo Quem somos nós?. Estima-se que em dois ou três anos, teremos algumas respostas para essas questões. Já imaginou o incomensurável tornando-se comensurável?

Tudo isto é tão confuso para mim quanto pode ser para os leitores, mas estava difícil passar para qualquer outro assunto enquanto o e-mail do Daniel ficasse flutuando sem reflexão. Agora, até mesmo pela incapacidade de avançar nesses mistérios, vou voltar à programação "normal".