12.30.2008

Os livros mais bacanas de 2008

O Edson Cruz, do Cronópios, perguntou para os colaboradores do site quais os três livros mais bacanas que a gente leu em 2008. Para quem não viu lá, deixo minha lista aqui:

Caixa Preta, de Amós Oz. Porque este romance epistolar capta as oscilações entre amor e ódio em uma família dissolvida com uma sutileza impressionante.

The De-definition of art, de Harold Rosenberg. Porque os ensaios deste inexorável crítico de arte, se fossem mais lembrados, teriam evitado o vazio teórico que assola as exposições contemporâneas.

O Herói Devolvido, de Marcelo Mirisola. Porque Mirisola pode ser, e é, o escritor mais irritante de nosso tempo, mas transita da podridão para o sublime como poucos.

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Demorou, mas chegou meu exemplar: só ontem pude ler uma resenha muito perspicaz do meu romance de 2007, por Edgar Smaniotto, na revista Scarium n. 22. "Será: ficção científica e filosofia" é, até agora, o texto que melhor captou o que eu quis transmitir no livro. Não sei dizer se é a melhor resenha, mesmo porque o romance pertence ao mundo e é ótimo ver comentários sobre coisas que eu sequer pensei. Mas essa é a que captou o livro da maneira mais próxima do que eu planejava comunicar. Quem quiser conferir, pode encomendar aqui.




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Por hoje é só, até 2009!

12.18.2008

Equilíbrio triangular

“Vicky Cristina Barcelona” está longe de ser meu filme favorito do Woody Allen. Ainda assim, é o que mais me fez pensar na minha própria vida. Este foi um ano em que minhas buscas por amor receberam tantas tergiversações como resposta, que me vi obrigado a ir fundo em pelo menos três grandes questionamentos. 1- se eu sou bom na tarefa quase impossível (amor); 2- se é verdade que as mulheres têm mais sabedoria do que os homens nesse assunto; e 3 - como não poderia deixar de ser, se a monogamia interessa. Três questões, e o número três me obceca quando tento formular resposta a qualquer dos itens.

No filme do nosso amigo judeu, o amor gira sempre em triângulo. O pintor Juan Antonio aborda as gringas Vicky e Cristina, propondo, logo ao conhecê-las, uma viagem de fim-de-semana que terminasse em ménage a trois. Vicky acha o espanhol abusado demais, mas sua amiga Cristina se encanta exatamente pela franqueza de Juan Antonio, pela sua falta de dissimulação. A maioria dos homens é tão hipócrita que a leva a considerar a nudez das intenções mais sensual e honesta do que os disfarces sofisticados. Pensando agora na Cristina, acho que não é só porque foi interpretada por Scarlett Johansson, mas é bem o tipo de mulher que eu sempre procuro. Que possa ser aventureira, sexy, criativa e manter um mínimo de amor próprio. Por sua vez, Vicky é linda, simpática, inteligente, mas é muito certinha, e mesmo sendo agradável por algum tempo, se tornaria cansativa em um namoro longo. Juan Antonio acaba ficando com as duas, mas uma de cada vez e sem que a outra saiba. Vicky cede aos poucos, se rende em segredo ao espanhol, pouco antes de se casar com seu insosso noivo americano. Quanto a Cristina, deixa-se levar por Juan Antonio a ponto de morarem juntos em Barcelona. Os dias transcorrem suaves para o casal, já sem Vicky na equação, e, não fosse um novo elemento, poderíamos pensar que se completavam a dois. No entanto, logo entra em cena Maria Elena (uma das melhores atuações de Penélope Cruz). Ex-mulher de Juan Antonio, de quem ele costumava falar com franca nostalgia, reaparece em sua casa após uma tentativa de suicídio. Juan Antonio não pode negar ajuda a ela, que tem nele um dos únicos pontos de apoio para não enlouquecer. Cristina aceita a nova inquilina, e não demora muito para que a dinâmica tensa de duas mulheres e um homem se desdobre em triângulo amoroso.

O filme deixa para o espectador decidir, mas fica a dúvida se os relacionamentos a dois, tanto o de Vicky com seu marido, quanto o de Cristina com Juan Antonio, poderiam ser satisfatórios se o acaso não trouxesse um terceiro. Vicky teve apenas uma noite com Juan Antonio, porém meses depois, casada, segue tão obcecada por ele que nos perguntamos se não era desde o início fantasiosa sua convicção a respeito do casamento. O outro triângulo é ainda mais complicado: a grande paixão de Juan Antonio sempre seria a ex-mulher, Maria Elena, apesar da violência com que se relacionam. O amor em sua intensidade máxima pode ser fatal – haviam se separado porque Juan Antonio fora esfaqueado pela mulher que amava. Cristina é mais dócil, a tal ponto que com ela na relação, é estabelecido o equilíbrio que faltava entre Juan Antonio e Maria Elena. Os ângulos oblíquos do triângulo suavizam a selvageria da relação frente a frente dos espanhóis. A três, alcançam uma serenidade inédita.

Da arte para a vida, essa situação me fez pensar nas minhas últimas relações. Recentemente, vivi um triângulo amoroso semi-platônico com duas mulheres lindas, Aline e Lívia... Não posso entregar tudo o que aconteceu no “semi”, mas sei que, enquanto éramos dois, simplesmente não fluía. Saí com a Aline e ficamos juntos uma vez, mas, por intensos que fossem os desejos mútuos, um estranho campo magnético tornava impossível qualquer relação frontal. As tergiversações dela tinham como refrão a temporalidade dos encontros, uma fusão completa que não poderia ser precipitada. Até hoje não entendi muito bem essa conversa, ainda mais vinda de alguém que não se diz reprimida, mas não foi à toa que os jogos de sedução, tanto os meus quanto os dela, começaram a incluir a Lívia. Aline dizendo que nós três éramos como os Sonhadores de Bertolucci; Lívia me convidando, meio a sério, meio brincando, para agarrarmos a Aline; e eu, antes mesmo de ver o filme do Woody Allen, já sentia que seria mais fácil lidar com essas garotas em trio do que como casal. A própria Aline, sendo uma boa psicanalista, entendeu quando eu disse que seria mais harmoniosa uma relação a três do que só eu e ela. Um triângulo semiplatônico não é necessariamente o que planejávamos, mas o que pôde acontecer.

Claro, relações em triângulo não são duradouras, em algum momento um dos lados espana. Para mim, o mais perturbador disso tudo é que eu já não sei com que tipo de mulher eu poderia ter uma relação de igual para igual, intensa e que durasse mais do que um mês. Dificilmente ultrapasso a barreira de um mês – que também é o tempo que Juan Antonio teria conseguido ficar com a certinha Vicky sem se desentenderem. De toda a História do Cinema, com nenhum personagem me identifico tanto, ao menos nesta fase da minha vida, do que com Juan Antonio – mesmo que eu não seja bonitão como Javier Bardem. A comparação fica mais clara quando eu penso no que aconteceu na minha última tentativa séria de monogamia.

Que foi com a Joana, de quem eu falei um pouco, tempos atrás. Passados alguns meses, entendo melhor porque a gente não deu certo. O que eu procurei nela é algo semelhante ao que se vê na Cristina: a Joana é bonita, charmosa, inteligente e tem um senso estético apurado – que nem mesmo a Escola de Frankfurt estragou. Ao menos nos três primeiros meses, a gente tinha uma sintonia muito boa, como poucas vezes me aconteceu. Mas, deve ser uma dessas coisas do inconsciente, eu mal percebia que eu esboçava uma outra aresta, que por fiel que eu tentasse ser, fantasiava um triângulo. Eu negaria até a morte que a intenção fosse essa, mas depois da experiência que eu tive com a Aline, e depois de ver o filme de Woody Allen, posso rever a dinâmica que se armou. Em março desse ano, Joana estava procurando onde morar, e uma amiga minha, Ericats, procurava alguém para dividir um apê que ela encontrou na Rua Augusta. Eu apresentei uma à outra, e na mesma semana elas correram para a imobiliária. Eu só esqueci de contar à minha namorada que já havia ficado com a Ericats, alguns anos atrás. Não quis contar porque para mim a Ericats era muito mais uma amiga do que uma ex – o que tivemos foi bem passageiro e permaneceu a amizade, assim é que eu vejo. A Joana foi desconfiando aos poucos (ela é esperta, não é toda mulher que perceberia), até que um dia ela me perguntou e eu tive que confirmar. A essa altura, ela já estava me odiando como nenhuma outra mulher me odiou. Mais pelo fato de eu ter omitido do que outra coisa.

Qual o começo e qual é o final, eu nunca vou saber ao certo... Sei que nossa relação se tornou insuportável como a de Juan Antonio e Maria Elena. Admito que eu cometi um deslize, até acho que muitas mulheres, no lugar dela, teriam me largado, mas não sei se nosso último mês e nossa pós-separação precisavam de demonstrações tão dramáticas de ódio. O homem sempre leva a culpa, não é? Não que eu seja bonzinho, porém fui escorraçado pela Joana pior do que por mulheres com quem realmente aprontei. No começo do filme de Allen, o boato corria como se o pintor houvesse esfaqueado sua ex-mulher, só depois se constatou que havia sido o oposto. Pior: mesmo tendo sentido a faca na pele, logo mais ele lhe daria abrigo, não recuando nem mesmo sob risco de vida. Se eu acabei fazendo aqui algo que eu evito fazer em público, uma picuinha com ex-namorada, é porque o assunto não é o pé na bunda. É que eu teria arriscado minha vida pela Joana. Ela sabe que isso é literal, eu me dispus a tanto. Se a Joana deixasse, eu teria lutado por ela numa situação específica em que minha pele estaria sob alto risco. Hoje em dia, quase ninguém morre em nome do amor ou da justiça, acho que o gesto seria tão bonito quanto escrever meus livros. Não me parece muito pesada a morte que tenha algum heroísmo. Talvez seja mais leve do que a vida.

Com todas as dificuldades e algumas cicatrizes, sigo vivo, escolhendo meus novos riscos. Quando tento tirar uma lição disso tudo, me pergunto se meu problema não tem sido justamente buscar relações muito frontais – quero dizer, olho no olho, 180º, nenhum dos dois se passando por Outro, nudez nas intenções. Talvez esse tipo de amor seja mesmo insuportável, e somente suicidas como eu e a Joana – ou como Juan Antonio e Maria Elena – de fato tentam realizar. A maioria das pessoas faz mesmo como Vicky: sonha com a paixão mais intensa, mas no fundo sabe que é perigosa, e quando encosta no fogo, recua, conformando-se com relações mais mornas, mais seguras. O amor é idealizado em nossa cultura através de milhares de cineastas que não compreendem um décimo do que Woody Allen compreende, mas pouquíssimas pessoas vão até o fim em seus sonhos românticos.

A geometria que a imensa maioria das pessoas vive tem o sublime no topo, aliviando os ângulos. Não é preciso uma terceira pessoa, muito menos que o ménage a trois se consuma, para formar triângulo – basta um sonho. Durante séculos, o amor a Deus foi a principal aresta a proporcionar uma distância segura aos amantes mundanos. Por volta do século XII, temos o surgimento do amor cortês, marcado justamente por uma temporalidade cautelosa e por uma série de etiquetas que ao mesmo tempo aproxima e afasta os amantes. A Aline, por exemplo, bem que tentou comigo uma relação semelhante à do amor cortês, onde a poesia suavizasse as arestas, onde se criassem muitas fantasias antes de olhar direto nos olhos. No fundo, fui eu que não soube brincar. Talvez seja uma das minhas maiores contradições. Defendo o ilusionismo na arte, mas em matéria de amor sou muito literal. Tanto que tivemos que convocar a Lívia para abrir o ângulo sem recorrer ao sublime, e assim continuamos com alguns jogos de sedução. O julgamento mais rápido me condena, porém até mesmo Vicky mudou de opinião sobre o artista.

Passei por tamanha série de desilusões ao longo da vida que tenho mesmo dificuldade para fantasiar meus encontros. No entanto, repasso pela memória diversos namoros em que essa frontalidade adquiria toda sua potência romântica – em especial Telma, que cuidou de mim quando eu estive a ponto de me matar, e Lila, anarquista com quem tive alguns dos momentos mais intensos de minha vida, ainda que breves. Todas as tensões que tivemos não impediu que fossem duas das relações mais deliciosas que eu poderia ter, justamente porque nos apresentávamos sem disfarces, gostando e sendo gostados pelo que somos. Reconheço, no entanto, que eu estava tomado por pulsão de morte, minha vontade de morrer era enorme e eu não estava nada cauteloso comigo mesmo. Talvez seja preciso abandonar toda cautela para se relacionar com sinceridade, eis porque a maioria apenas sonha. Mesmo no caso da Joana, eu me apaixonei por ela a ponto de flertar com a morte. Joana me apareceu em um momento de transição, onde eu apenas começo a me livrar da pulsão de morte - coisa que venho conseguindo em boa parte graças à escrita, à leitura, à arte em geral.

Novas movimentações, cansado de pensar em morte: se eu coloquei a Joana para morar com Ericats, talvez fosse para armar triângulo, nem que fosse semi-platônico, sair da frontalidade total. Ninguém jamais me olhou tão fundo nos olhos quanto Joana, e eu a amava por isso, mas começava a sentir o quanto um amor assim é insustentável. Eu precisava girar os olhos ao menos alguns graus, assim como Juan Antonio e Maria Elena precisavam de um terceiro para não se agredirem. Cristina apaziguava, promovia distensão para o ódio ancestral dos amantes de sangue latino. Em certos momentos, Joana parecia ainda mais disposta que eu à intensidade a dois. Ela buscava uma frontalidade perigosamente sincera, embora não duvidasse da harmonia de um amor hollywoodiano. Não que ela fosse ingênua nessa combinação, eu mesmo já fui muito parecido, e é quase inevitável para quem oscila entre a entrega suicida e a renúncia aos instintos mórbidos. Como Joana D’Arc, ela não teme a fogueira, vai à guerra como um homem, mas tem fé (se não em Deus, no sublime). Não sei como ela imagina que serão seus próximos namoros, mas acho que despertei seu lado mais forte, mais fatal – mais interessante, é difícil negar. Cada um que conte a história com suas palavras, mas creio que não fiz mais do que suportar a sinceridade que ela desferia, mais até do que eu, tal como Juan Antonio cometia a improbidade de permanecer apaixonado apesar dos golpes.

Alguma conclusão? Não digo que a monogamia seja impossível, já conheci casais que pareciam felizes após décadas juntos. É pouco provável, no entanto, que nesses casos, os olhares não sofram desvios. Quando não houver simples estrabismo ou miopia, simples recusa a enxergar o outro como ele é, pode ser que um olhe para o outro de cima para baixo; ou que os amigos e parentes participem da relação tanto quanto os cônjuges; ou que um ideal se imponha como aresta (Deus ou uma utopia, por exemplo). Impossível é a frontalidade permanente, a não ser que ódio visceral e tremor de facas entrem na dinâmica. Isto posto, começo a entender porque as mulheres fazem tantos rodeios. Eu sempre detestei as tergiversações, as mil negociações com seu próprio desejo, o famigerado cu doce. Continuo não gostando, mas começo a pensar nisso como gesto preventivo contra os perigos dos 180 graus. Os rodeios vão tornando o olhar oblíquo, vão impondo fantasias e impedindo a comunicação demasiado franca. Vicky passou por vários dilemas morais, mas nenhum deles foi o de contar para o marido que dormiu com um amante espanhol. A verdade não a atormenta, mesmo porque sua relação com o marido tem uma distância segura, onde a sinceridade é dispensável – o que a obstina não é a verdade, é o sonho. Por outro lado, se ela fosse mais parecida comigo (ou com Juan Antonio, ou com Maria Elena), e tentasse unir sonho e verdade, cedo ou tarde ficaria cansada dos conflitos que isso gera.

Nem mesmo a arte é uma aresta firme a ponto de garantir um fluxo menos agonístico – os dois espanhóis viviam em torno da pintura, mesmo assim, não sublimavam os conflitos. Minha dificuldade para imaginar um final feliz no amor, ao menos na minha vida particular, é a mesma que transparece no filme de Woody Allen. Pode ser que alguém me surpreenda, ou que eu me reinvente, mas o que aprendi para o sexo fortuito não sei para o amor – em que ângulos seria mais prazeroso me posicionar.

12.11.2008

Imagens de Puro Enquanto


Meu próximo romance, "Puro enquanto", já está na editora há algum tempo. Agora é com o pessoal da Annablume, não sei quanto eles levam para resolver a papelada e mandar para a gráfica... Eu queria lançar ainda este ano, mas no momento, o máximo que posso fazer é mostrar algumas imagens para vocês. Estão no meu novíssimo Flickr, é só clicar.

Os títulos das pinturas se referem sempre a um trecho do livro. É um bom jeito de obrigar os malditos especialistas a considerarem o contexto que eu estou criando, em vez do contexto deprimente da arte contemporânea, onde a pintura está sempre à beira da morte. Não tenho problemas em admitir que escrevo melhor do que pinto, por outro lado, a tabelinha que estou fazendo entre minha pintura e minhas palavras é afinada o bastante para resolver certos impasses da arte contemporânea. Há muitos pintores melhores do que eu, mas os detratores são tão obstinados que nem mesmo a reencarnação de Miró bastaria para tirar a pintura do mal-estar em que se encontra no atual panorama.



Eu quase desisti das artes plásticas, não escondo que me sinto melhor entre escritores do que entre artistas visuais. Felizmente ou infelizmente, entendi que não poderia fugir da briga: ao escrever "Puro enquanto", ficou claro que o livro não funcionaria se eu empregasse apenas a linguagem verbal. O próprio ritmo do livro pedia por algumas interrupções no fluxo de pensamento, intervalos significativos, que só as imagens poderiam criar. Terminado o livro, vi que, tanto quanto meus artigos mais "militantes", ele é uma ótima prova de que a pintura ainda é necessária, impossível de se substituir. Não é imodéstia dizer que emprego as palavras com muito mais radicalidade do que os artistas conceituais, e em "Puro enquanto" isto fica tão evidente quanto o corolário: a linguagem verbal e a linguagem não-verbal se complementam, não podendo uma eclipsar a outra. Mesmo que se vá ao limite da fala ou da escrita, ainda há uma sede pela imagem que a arte conceitual jamais poderá aplacar.