12.30.2007

Eu versus minha Imagem

O orkut, por mais que tenha um formato extremamente bobo-alegre, é um veículo como qualquer outro. Não é tão diferente de um blog, por exemplo, que pode ser usado da maneira mais fútil, como também comunicar mensagens importantes que não se propagariam nos meios tradicionais. Aqui neste blog eu tenho um espaço onde sou o único chefe, não preciso fazer concessões a ninguém e escrevo sobre o que me vier à cabeça. No Orkut também já aprontei, mais até do que seria sensato, entrando nas comunidades sem pedir licença e incentivando aqui e ali discussões que eu sinto que costumam ser ignoradas. Se eu acredito que tenho algo importante para dizer, algo que poucas pessoas percebem, não quero guardar o conhecimento para mim, quero que ele se espalhe ao máximo possível. Vaidade? Talvez, mas eu chamo de generosidade.

Recentemente, uma coisa esquisitíssima aconteceu no Orkut. Algumas pessoas pensam até agora que foi uma performance minha, e o pior é que por mais que eu tente esclarecer, não tenho como provar o contrário. Confesso que me diverti com a brincadeira, mas realmente não fui o autor e não sei ao certo quem foi. O que aconteceu é que alguém "clonou" meu perfil do Orkut, reproduzindo todas minhas descrições, assumindo meu nome e estampando uma foto minha - a mesma que ilustra este blog. O tal do clone passou a contatar toda minha lista de amigos, falando que o perfil antigo (ou seja, o meu), estava com vírus e portanto quem respondia pelo Ivan verdadeiro seria ele. Isso gerou uma confusão enorme, já que muita gente acreditou no impostor e desconfiou do antigo Ivan, acusado de ser um hacker se passando por mim(!). Eu tive que alertar meus amigos um por um, mas a essa altura ninguém entendia qual identidade estava por trás de cada Ivan, afinal respondíamos pelo mesmo nome e exibíamos a mesma aparência.

Com o passar dos dias a piada foi perdendo a graça, ainda assim o clone mais me pareceu alguém querendo brincar do que um inimigo com intenções de me prejudicar - não fiquei sabendo de nenhuma atitude sua que me difamasse. Meu clone pouco mais fez do que desejar Feliz Natal para meus amigos e adicioná-los. Prefiro - até mesmo para evitar paranóias - não pensar que tenha sido alguém maluco a ponto de realmente alucinar que seja eu, mas acho plausível se tratar de alguém apenas moderadamente maluco que planejou essa bagunça toda como uma espécie de intervenção poética. E, pensando bem, a perturbação que essa pessoa causou entre meus amigos, tenha sido com lucidez ou não, alimenta algumas questões contemporâneas. O que é original e o que é simulacro? Que garantias se pode ter sobre quem diz a verdade? Como delimitar até onde vai a realidade e onde começa a ficção? E até mesmo a vulnerabilidade do meio virtual, ou o quanto é cada vez mais problemática nossa percepção das coisas e dos fatos.

Nunca como hoje o mundo foi tão mediado pela imagem, fazendo com que tudo obedeça à lógica da projeção e do espetáculo. Eu venho lentamente me tornando uma pessoa pública - é com orgulho mas também com espanto que vejo meu nome anunciado na Av. Paulista; ou que aceito elogios pelos desatinos que eu publico; ou mesmo que recebo o PAC, que vai salvar minha pele em 2008 - no entanto, como ainda estou em transição, uma reflexão que me persegue é o que fazer da minha imagem para que ela não seja tão fake quanto a de alguém que fala em meu nome, exibe meu rosto, mas no qual eu não me reconheça mais. O clone já foi deletado, porém o recado que ele me deu, intencionalmente ou não, com carinho ou com despeito, me ajuda a me manter atento. Narciso se apaixonou pela sua imagem e morreu de inanição. Melhor dar mais atenção às nossas fomes, em vez da impressão que nossa aparência causa.

12.20.2007

Clarice não é mulherzinha

Um texto que escrevi para minha mãe, Clarice Lispector, que sempre foi muito mais uma bruxa do que uma dondoca, ao contrário do que alguns pensam.
Saiu no Cronópios. Confira.

12.16.2007

PAC, man!



O trocadilho pode ser infame, mas motivo para comemorar não me falta! Fiquei sabendo há pouco que abocanhei o PAC! Não é o PAC do Lula, é o Programa de Ação Cultural do Estado de Sampaulo.
São 15 mil reais vindos da Secretaria de Cultura - ou seja, do seu bolso - para eu terminar meu próximo livro, "Puro enquanto".
Fique tranquilo, pretendo fazer bom uso dessa verba, não vou gastar tudo com droga. É um livro que merece existir, mas se não fosse esse prêmio, não sei dizer se eu conseguiria levar adiante. Só a impressão vai me sair uns 12 mil reais! Tenho um ano de muito trabalho pela frente e quero dar o sangue.
Na verdade essa vitória me deixou muito feliz, mas também nervoso como nunca. Nos últimos OITO anos eu me ferrei demais, e é tanto tempo se dando mal na vida que ainda não me acostumei a ganhar. Também fico com um certo receio da inveja alheia. Hoje penso que uma dose de inveja é das coisas mais naturais que podem existir, mas os piores momentos da minha vida foram por conta disso - destruição gratuita, e até então eu nem tinha nada tão precioso para mostrar... Não quero perder amigos por bobagens. Acho que minha única saída é persistir, mirar cada vez mais alto, até nos acostumarmos todos - tanto eu quanto os eventuais invejosos - que eu tenho uma produção que merece algum destaque. O que eu crio não é para mim - assim que eu publico, já não me pertence mais, sempre fiz para os outros.
Problemas e frescuras a parte, foi muito esforço para não ser recompensado. Passei dez anos anotando meus sonhos pela manhã, muitas vezes levantando no meio da noite para escrever; desenvolvi uma linguagem que traduz o caos de uma mente que sonha; criei imagens, levando em conta que os sonhos não podem ser completamente verbalizados; e costurei tudo em uma história com começo meio e fim - mas não necessariamente nessa ordem, como dizia Fellini. A parte do texto está quase pronta, o que me falta são algumas pinturas que dialoguem com o fluxo narrativo.
Não é um livrinho qualquer, é a linguagem querendo testar seus próprios limites. Até o fim de 2008 vocês vão poder conferir.

12.11.2007

Ainda sobre o delinqüente Ari Almeida

Logo depois de publicar meu artigo sobre essa figura imprevisível, nosso maior terrorista poético, me surpreendi com uma entrada em seu blog que a princípio daria a entender que ele passou por uma alteração brusca em sua maneira de pensar, Dinheiro como Deus: Uma mudança na percepção do dinheiro enquanto valor.
Nos comentários, as reações variaram ente "Alguma coisa mudou nesse blog" e "O Ari endoidou". Um tanto doido ele sempre foi, afinal apanhar sistematicamente de seguranças ao desafiar shopping centers, igrejas e outros redutos do consumismo e da moral não é um comportamento dos mais comuns. No entanto, todas as ações descritas em seu Manual Prático de delinqüencia juvenil, por mais inusitadas e polêmicas que sejam, transmitem uma análise sobre o poder bem mais lúcida do que a que o stablishment tenta nos vender. Há pelo menos dois anos eu acompanho o blog de Ari Almeida, e, por mais porra-louca que ele seja, me convenceu de ser alguém que sonha com um mundo mais livre. Trata-se de um neo-anarquista, leitor de Hakim Bey, Foucault e Deleuze, capaz de escancarar as contradições do sistema capitalista em ações criativas, que, a meu ver, se parecem um pouco com o que vem ocorrendo na atual "arte engajada", porém com uma contundência muito maior. No mínimo me parecem mais sinceras, como vocês podem conferir na resenha que escrevi para o Casulo, disponível logo abaixo.
Confesso que me senti um tanto culpado no dia do lançamento do Casulo. Não por defender alguém tão radical, mas, pelo contrário, por no mesmo dia ter me apresentado em um espaço patrocinado por um banco, o Itaú Cultural. Se nosso Delinqüente está nesse exato momento confundindo todos que o tomam como um herói do combate ao sistema, eu, apesar de não ter um currículo como o dele, fui tão contraditório quanto. Ao mesmo tempo que eu elogiava um terrorista poético que exorcisava bancos, "lugares do mal" como ele diz, minha arte estava à disposição do Itaú, o que de certa forma agrega valor à instituição. No mundinho das artes prospera uma militância ferrenha, um povo tão obsecado pelo ideal de uma arte imune ao mercantilismo que já não consegue olhar para obra nenhuma, apenas para os veículos em que ela aparece. Eu já escrevi muitas vezes que essa ala mais crítica, que conseguiu estabelecer o pensamento dominante em artes plásticas, nunca foi coerente, apenas faz barulho mas não age de acordo com o que prega. De qualquer modo, mais parecia uma brincadeira do destino que, no dia primeiro deste mês, eu estivesse ao mesmo tempo lançando um texto quase inofensivo em um banco e outro texto, combativo, que criticava não só os bancos como todos os perpetuadores da lógica selvagem do capitalismo.
Vou tentar dar conta aqui dessas contradições, tanto as minhas quanto as do Ari. No texto mais recente de seu blog, pela primeira vez ele fez algo como um elogio sem pudores ao dinheiro. Uma coisa surpreendente, vinda de alguém que colocou meninos de rua em um shopping, atacou a fábrica da Renault, e dispara afirmações como "a generosidade não tem vez no mercado global". Por outro lado, jamais notamos em Ari uma posição comprometida com qualquer militância tradicional. Pelo contrário, ele deixou claro muitas vezes que não se orientava por uma Revolução, mas pelos levantes, pelos breves momentos de liberdade - o que Hakim Bey chamaria de TAZ (Zona Autônoma Temporária) e Deleuze de linhas de fuga. Uma coisa que me atraiu nesses discursos foi constatar que seus inimigos são os mesmos que os meus: o pensamento único, a realidade consensual. Pensar que o inimigo seria simplesmente "o capitalismo" apenas nos faria patinar na lama, já que não se trata de algo tão monolítico quanto se pode imaginar. Além disso, por mais que simpatizemos com ideais igualitários, não acreditamos que as pessoas já tenham uma mentalidade à altura de uma sociedade anarquista. Talvez jamais venham a ter, e ainda assim considero o terrorismo poético uma arma das mais interessantes nessa luta. Não é a luta de quem pretende uma tomada de poder, mas de quem anseia pela expansão do senso crítico. E o terrorismo poético não é a única arma, mas uma das mais sedutoras, porque pega as pessoas desprevenidas, convida-as para a reflexão usando métodos heterodoxos, diante dos quais ninguém tem um escudo pronto.
Uso aqui o "nós" porque as posições coincidem em muitos pontos, não porque somos um movimento. Contudo, o que nos interessa é a liberdade, um ideal muito mais verdadeiro que a "bondade", coisa que a rigor sequer existe - para quem tem dúvidas, que leia um pouco de Nietzsche, e entenda por a + b que a bondade é uma ficção. A propagação de qualquer ideologia baseada em imperativos categóricos só pode mobilizar através de uma nova forma de domínio, o que não deixa de ser bastante limitador. Nossa ética, por sua vez, tem uma presença imanente: é a constatação de que a liberdade individual entra em choque com a mentalidade do capitalismo avançado, por mais individualista que seja esse sistema. A competição exarcebada, a decorrente violência, os desejos inculcados artificialmente pela publicidade... não vamos entrar em detalhes em um texto curto, mas o caso é que tudo isso tende a diminuir a potência do indivíduo e a qualidade de sua vida, mesmo que na aparência seja o contrário. Porém, a contradição está dos dois lados, tanto à esquerda quanto à direita. Afinal, que liberdade seria essa em que, para questionar os abusos do poder, uma vontade autêntica (de gastar um pouco de dinheiro) tivesse que ser duramente reprimida? Não se pode ser dogmático, não se pode insistir que o consumo traga somente a infelicidade, nenhum ideal vai muito longe apoiado em sofismas. Por esse motivo não condeno Ari quando diz que não devemos rejeitar o dinheiro, apenas ter uma relação mais saudável com ele. Em uma de suas tiradas, ele disse algo com que só posso concordar: "Não estou falando de não comer, estou falando de mastigar antes de engolir. Estou falando de sentir o gosto da parada a tempo de cuspir fora se for uma merda. Ou pior: veneno. Enfim, senso crítico."
Ari está aposentado como terrorista poético. Aquela fase de sua vida ao menos rendeu seu Manual Prático da delinqüencia Juvenil, que me anima por se tratar de um convite à reflexão acessível a qualquer adolescente esperto. É preciso algo mais cativante do que panfletos para conquistar quem poderia muito bem se encerrar no egoísmo, e nesse ponto o Ari é prato cheio para os jovens. A linguagem dele é a linguagem das ruas, sua ironia questiona e diverte ao mesmo tempo e suas aventuras são demonstrações práticas de que o melhor da vida não está nas promessas do status quo. Não é um livro que ensina como derrubar o sistema, mas ensina a não abaixar a cabeça.
Ainda assim, para mim está bastante claro que a delinqüencia só pode mesmo ser juvenil, não é aconselhável para quem começa a ter rugas na cara. Tanto é verdade que o novo herói de Ari é George Soros, um dos maiores especuladores de todos os tempos. Mas é bom lembrar que Soros não é simplesmente um "porco capitalista". Também é um homem excêntrico, que alimenta associações de esquerda das mais atuantes e a defesa de programas polêmicos, tais como a legalização do aborto. Eu nunca duvidei que pode haver coerência entre subversão e acumulação de capital, não só pelo exemplo do Soros, que realmente incomoda os conservadores, como pelo exemplo de Asger Jorn, um pouco mais caro para mim. Asger Jorn foi um pintor expresssionista do grupo COBRA, que pintou seguindo seu desejo, sem se render aos preceitos sufocantes da arte engajada. Ele pintou telas que eram prazerosas tanto para ele quanto para o público, abusou das brechas do sistema, ganhou dinheiro, deve ter gasto com algumas regalias porque ninguém é de ferro, mas uma generosa parte dessa renda foi para Guy Debord e os situacionistas. Com isso, a atuação dele rendeu muito mais frutos na expansão do senso crítico do que os lamentos exangües da atual arte engajada, que nada tem de livre, nem de prazerosa, nem de contundente. Também por isso não me interessa a anti-arte, já que toda grande obra, mesmo quando formalista e apolítica, contribui para uma mentalidade mais elástica. Um bom artista sabe despertar no espectador a sensação de que a vida pode ser intensa, que pode ir um pouco além do materialismo. Eis porque vejo mais coerência em defender tanto o terrorismo poético quanto a arte erudita, cada uma em seu campo de atuação, do que diluir uma coisa na outra e chegar a uma "arte engajada" que pouco mais consegue do que assumir uma séria crise de identidade.


Obs: uma ou outra pessoa chegou a pensar que eu sou o Ari Almeida ou que ele é uma ficção minha. É melhor esclarecer que não moramos na mesma cidade e tampouco nos conhecemos pessoalmente. Aliás, somente por dedução posso afirmar que ele não é fictício. São poucas as pistas que ele deixou quanto à veracidade de suas ações, mas algumas delas são suficientes para supor que, por mais fantásticas que pareçam, ele pôs em prática as ousadias relatadas em seu livro.

12.03.2007

Para o maior terrorista poético do Brasil

Saiu um artigo meu no jornal de literatura O Casulo, sobre o terrorista poético Ari Almeida.




Ari Almeida, você é mais importante do que imagina. Se você soubesse o quanto as conversas dos artistas plásticos e dos poetas chegam sempre no mesmo impasse... Uma palavra freqüente é “crise”, pois é isso que está tomando conta de todas as expressões artísticas. A coisa é séria, os artistas estão todos perdidos, parecem mais cobras mordendo o próprio rabo. Existe, entre os poetas e artistas de hoje, uma tentativa de fundir arte e vida, de dissolver a arte no cotidiano, de fazer com que o dia-a-dia se torne mais poético. A intenção é empolgante: se o próprio correr dos dias fosse tão rico e intenso quanto um poema épico ou quanto a pintura mais bonita, já não precisaríamos nem de museus nem de coletâneas de autores. Mas a verdade é que essa tentativa fracassou, o artista continua fazendo o papel de uma instituição, de uma autoridade que decide o que é arte e o que não é. Ou seja, se precisamos do “Artista” como uma espécie de juiz, a arte continua separada da vida.
Eis que de repente, Ari, você entra na discussão. Você mesmo, jamais um artista, antes um guerrilheiro da contracultura. Nem sequer assina com o nome verdadeiro (caramba, quem é Ari Almeida?). Não pede licença para invadir a casa dos outros e espalhar suas idéias onde quer que esteja. Entende como ninguém o quanto a verdadeira história é a história do desejo. Percebe que num mundo apático como o nosso, a consciência só é despertada diante de verdadeiros crimes. E portanto oferece o terrorismo poético como alternativa, em lugar da crueldade do terrorismo real. Palavras e imagens não bastam para mudar o mundo, daí nasce teu amor pela ação. Se alguém quiser mesmo fundir vida e arte no mesmo gesto, é preciso deixar de lado toda a história da arte. Você não precisa do status de artista para ser arteiro: de outra maneira, só teria histórias frustradas para nos contar.
E o que não te falta é repertório, como você descreve no Manual Prático de Delinqüência Juvenil. Com os Delinqüentes, você ousou como um verdadeiro Lampião, com a diferença que trocou a carabina pelo estilingue. Se nós, poetas angustiados, declamamos poesia nos saraus, vocês os atiraram para dentro das casas, quebrando as vidraças e a apatia. Os muros também não foram poupados, fazendo as vezes de tela para pinturas e frases que são como disparos. Nem mesmo a sagrada televisão, a maior rival da cultura, ficou ilesa: Delinqüentes não precisam respeitar nem mesmo Rede Globo, invadem a programação e dão sua própria versão (na verdade, a subversão) do Jornal Nacional. Nas mãos de vocês, o que era um cínico out-door se torna uma queima de fogos, o que era enfeite de natal vira protesto contra o consumismo, e um técnico de geladeira merece tanto carinho quanto um grande artista ou um popstar.
Não pude deixar de notar que você tem suas mil contradições, que tento entender como efeito colateral de uma liberdade radical. Como você mesmo disse: “Hoje quem não está confuso ou está mal informado ou está sendo desonesto consigo mesmo”. Devo admitir que não é fácil te defender em público, não se fala de alguém tão polêmico impunemente. Claro que eu vejo uma grande beleza quando você conta que invadia casas para, em vez de roubar, presentear o morador com mensagens disruptivas ou com surpresas maravilhosas. É uma generosidade ampla, com a qual não estamos acostumados. Eu me pego sonhando com o que foi que sentiu a criança que ganhou um coelhinho vivo na páscoa, na calada da noite; ou a velha viúva que se deparou com uma horta inesperada em seu quintal; ou mesmo as madames que podem, talvez, “não terem entendido nada”, mas tiveram uma chance de questionar seu próprio marasmo. Não podemos esquecer, no entanto, que nem tudo que vocês fizeram pode ser imitado. São Paulo é mais perigosa que Curitiba: a polícia é mais intolerante e os traficantes estão por toda parte. Invadir casas por aqui não é recomendável. Além disso, algumas de suas subversões não me parecem boas saídas: uma catapulta de merda contra os carros novinhos da fábrica da Renault pode simbolizar uma vingança contra os ricos, mas quem limpa a sujeira depois é um homem do povo, vítima do sistema.
De qualquer maneira, em um mundo tão caótico como o nosso, acho importante ver o que tem a dizer quem busca converter todo o caos em algo positivo. Comoveu-me muito um comentário em seu blog de um professor, chamado Renato, que levou suas narrativas para a sala de aula e confessou que aprendeu contigo algo sobre união. Pode parecer desnorteador pensar que aprendemos algo tão sublime com alguém tão porra-louca, mas o perigo maior não está no seu livro nem no blog. Está na realidade em decadência, e você mesmo demonstra isso em sua prosa beatnik.
É difícil prever o que acontecerá com cada pessoa que ler o Manual, mas não duvido que ele possa até mesmo salvar vidas. É um livro que dá alternativas aos jovens mais inquietos: aqueles que se sentem sem rumo, que cedo ou tarde acabariam se perdendo, que se marginalizariam sem volta, que se desesperam por não entender porque não se adaptam. Nós precisamos desses inquietos, conscientes e em liberdade. São eles que nos dão a esperança de que algo possa mudar. Não sei se todos te compreenderão, Ari, mesmo porque você é um poço sem fundo de contradições. Ainda assim, não escondo a admiração pelo terrorista que, se nunca invadiu minha casa com seus disparos, invadiu minha mente com os relatos, e com isso mudou minha vida.


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