7.29.2006

Sampa City, centro


Estou morando há menos de um mês no centro de São Paulo. Para ser mais exato, há duas quadras do minhocão com seus travestis viciados em crack e à mesma distância do Shopping Higienopólis com suas madames viciadas em poodles. Não poderia me situar em lugar mais representativo das nossas contradições. Um posto bem avantajado para quem tem como prática frequente a observação e estudo das pessoas e seus costumes.
Caminho pela rua Augusta. Percorrê-la de ponta a ponta é como obter um resumo do Brasil, desde a insalubridade de seus puteiros mais tristes até o requinte de suas lojas e casarões nos Jardins. É sem dúvida o chamado “Lado B” da Augusta que percorro com mais frequência, e me delicio em encontrar tão próximos a decadência e o melhor da cultura. Espaço Unibanco, que tantos filmes de qualidade hospeda em suas salas; botecos como o Charm, o BH e o Ibotirama, onde se reúnem cabeças que mesmo um arrogante incorrigível como eu considera pensantes; livros de todos os tipos nas livrarias, nos sebos, e até mesmo nas calçadas, onde já encontrei belos exemplares por menos de dez reais – o preço de um boquete, para quem não se importa muito com a beleza.
A rua Augusta discorda totalmente de Adorno, aquele que contrapôs barbárie e cultura. Aqui, ambas coexistem, lado a lado, combinam-se em densa atmosfera. Creio ser por isso que esse território se tornou tão charmoso, tão atraente para a minha geração – que, mais do que ir ao aconchegante Frevo, quer mesmo é tomar uma cerveja em copo sujo na calçada, e tanto melhor se a aparência das meninas for parecida com a das putas profissionais. Lê-se muito mais Bukowski do que Vargas Llosa, mas há, sim, ao menos a intenção de se unir sexo e cultura, tal como nos cadernos de Don Rigoberto.
Na paralela, na Frei Caneca, a Lôca é a boate culpada do frenesi jovem, por ter sido, alguns anos atrás, o principal centro da promiscuidade paulistana. Eu também tenho minhas histórias lôcas para contar, de lésbicas que não eram tão lésbicas e namoradas que não eram fiéis entre si. Gays e héteros partilham o mesmo ambiente, o som eletrônico e as mesmas drogas. Casais entram juntos nos banheiros, grupos de três ou mais pessoas saem da boate direto para algum motel.
Há muito tempo que prefiro os botecos à claustrofobia das casas noturnas, então marcho para o Bexiga, o bairro mais pitoresco de São Paulo. Bebo deliciosas jurupingas caseiras, enquanto admiro um simpático cão preto latir para os pedestres, e um casal sentado no chão consumindo tranquilamente sua marijuana.
Na 13 de maio encontro bares que, de tão despojados, esculachados mesmo, fazem-me sentir dentro de um filme brasileiro de baixo orçamento – e adoro a sensação. As pessoas são ao mesmo tempo familiares e caricatas. Tão naturais que a tentação é a de transformá-las em personagens. Um homem de bochechas gordas e gorro toma aguardente junto a uma bicha de casaco verde, que cruza as pernas e segura no colo um cãozinho salsicha. Em outra mesa, quatro mulheres roqueiras, beirando os trinta, conversam animadamente em meio aos cigarros. Na mesa de sinuca, homens barrigudos encaçapam com austeridade. Converso um pouco com um rapaz que mora no bairro, e este defende os corintianos contra o sãopaulinismo do dono do bar.
Para fechar a noite, tenho a desconcertante visão de uma pequena multidão, relaxando com um churrasco completo, às três e meia da madrugada, em plena avenida Rui Barbosa. Há poucos metros da avenida, improvisam um futebol. Satisfeito, eu volto para casa, sentindo-me bem por morar no centro da maior cidade do país. As diversas facetas, devidamente absorvidas, repercutem os opostos que duelam dentro de mim. Residência correta para quem descende de prósperos alemães e é neto de uma maltratada cearense, que, tal como os muitos mendigos que vejo pelo caminho, enfrentou a miséria antes de encontrar sua fatia de paz.

Encontro com Lia Chaia

(Publicado no site Cronópios)

No início do ano houve, no Instituto Itaú Cultural, uma mostra de setenta e dois jovens artistas selecionados ao longo de quatro anos, oriundos de todos os cantos do Brasil, chamada “Paradoxos”, do programa “Rumos Itaú Cultural”. O resultado foi tão medonho quanto ambicioso o projeto. Lembro-me do quanto lamentávamos, eu e Marco Buti, ao constatar a falta de qualidade, a carência de propostas, de originalidade, de sensibilidade, de relevância em praticamente tudo o que estava ali exposto. Certamente a curadoria poderia ter feito uma seleção mais criteriosa, porém a sensação, diante do conjunto, era de que não teríamos tão cedo uma nova geração de artistas com algo a dizer.
Contudo, saí mais satisfeito da exposição “Via invertida”, de Lia Chaia, em cartaz até 19 de agosto na Galeria Vermelho. Ela era uma das poucas – três? quatro? – exceções na coletiva supracitada que nos propicia alguma esperança. Digo isso como quem de fato torce por um ambiente cultural mais consistente, e que, tendo acompanhado a obra da artista há alguns anos, percebe uma evolução. Lia, ainda no início de sua trajetória (27 anos), tem mostrado um interessante diálogo entre caos urbano e natureza. Por vezes usando o próprio corpo como limiar entre mundos biológico e civilizado, por outras pavimentando imagens delicadas, ela tem conseguido algum destaque ao imprimir um toque pessoal, singelo, nas obras que realiza.
A instalação que mais me impressionou foi a da sala principal, sem título, que a meu ver contrapõe o caos metropolitano – uma colagem inclinada de edifícios ao longo do minhocão – à uma outra vertigem, bem mais sutil, provocada pelos suaves traços em círculo no chão. Caminha-se um tanto claudicante sobre um piso de concreto desnivelado, enquanto o gesto mais informal e espontâneo, dos círculos rabiscados, também desorienta, dessa vez devido a uma sugestão quase hipnótica de suas formas.
Convido Lia para trocarmos algumas palavras. Não resisto a comentar que seu olhar tem a inocência de criança que ateou fogo na casa - sorriso tranquilo de quem desconhece a ordem instituída. Não tem pose de estrela, não se deslumbra com o prestígio recebido. Ela diz que a mídia é passageira, que as coisas passam muito rápido. Quer aproveitar enquanto está em evidência, mas sabendo que de uma hora para outra pode ser descartada. “Um dia a gente tá no jornal, no outro o jornal tá embrulhando o peixe.”
Entre suas influências estão Regina Silveira, Tarsila, Matta-Cark, uma cubana chamada Ana Mandieta, Burle Marx, o cinema. E, talvez principalmente, a cidade. “Sair e ver o que tá acontecendo”: os prédios, os viadutos, as personagens, as gambiarras dos vendedores ambulantes. O que há de concreto e o que há de efêmero na vida urbana.
Percorremos juntos o espaço da galeria. No segundo andar, há duas séries que registram a passagem do tempo. Em uma, o tempo cíclico das estações, marcado pela mudança de cor nas folhas das árvores. Na outra, a transformação linear da reforma de um prédio, progredindo de um amontoado de materiais brutos a uma quadra esportiva completa. De quando em quando, ouvimos sons de motor e hélices, para nos lembrar que a fachada da galeria foi pintada como uma pista de pouso para helicópteros.
“Eu acho que gosto de estar numa cidade caótica” diz a artista. “Morei seis meses em Paris e achei muito organizada; queria um lugar mais parecido com São Paulo. Depois fui para a Cidade do México (pela bolsa Iberê Camargo), e gostei de perceber o contraste.” Uma das obras expostas, “Choque”, em que carrinhos à pilha se trombam constantemente, é uma referência ao trânsito na capital mexicana.
Tanto a cidade está entranhada em Lia Chaia que seu vídeo “Minhocão” nada mais é do que a artista retirando, cuidadosamente, fotografias de edifícios da boca. “É a continuação de uma obra anterior, em que eu devorava paisagens urbanas. Mas não é só pelo caos que eu gosto de São Paulo: com pouco mais de uma hora estamos na praia, em contato com o mar”, ela diz, enquanto me exibe belas fotos de desenhos sobre a areia.
O que carrego comigo, de toda a conversa que tive com Lia, é a impressão de que ela busca aproximar opostos. Caos e suavidade; cidade e natureza; introversão e extroversão. Tanto a violência da concretude como a delicadeza são capazes de nos desnortar. Creio que a artista ainda tem muito a mostrar no futuro, e fico desde já curioso com os desdobramento de sua obra nos próximos anos. Antes de nos despedirmos, comemos um sanduíche na Rua Augusta, expostos inevitavelmente aos contrastes da metrópole.
“A cidade é apocalíptica, caótica, mas é onde eu vivo. Eu simplesmente não posso propor outro tema.”


“Via invertida” de Lia Chaia – até 19 de agosto, terça a Sexta das 10h às 19h, sábado das 11 às 17h. Galeria Vermelho – rua Minas Gerais, 350, www.galeriavermelho.com.br

7.09.2006

A bola e a bandeira

Crônica sobre a derrota do Brasil.
Minha estréia no Cronópios!

Não é de hoje; sempre olhei para a bandeira do Brasil e a considerei de uma pobreza visual tão lamentável quanto a falta de dentes na boca de um miserável. Não o digo por decepção com a equipe de Parreira, embora a ausência de garra que se viu em campo, neste último sábado contra a França, tenha certamente reiterado a minha antiga sensação. Talvez me chamem de anti-patriota, ou quem sabe coisa pior; no entanto tenho meus argumentos com que me defender.

É fácil observar como as cores da bandeira são enfadonhas: verde, amarelo e azul, sendo que todo verde é mistura de amarelo com azul. Pobreza cromática evidente. Se houvesse, por exemplo, um pouco de vermelho, a composição já teria mais paixão, pois vermelho é uma cor que aciona o sistema nervoso, coloca qualquer animal de sangue quente em estado de alerta. Mas, em nosso caso, o que temos é o predomínio do verde, uma cor fria que sugere calma, tranquilidade – eu diria até mesmo passividade.

No campo de futebol, também verde, os brasileiros pastaram, apáticos como se não tivessem sangue nas veias. Deixaram que os franceses tomassem conta do jogo, e mostraram uma atuação vexaminosa no esporte que é praticamente o único motivo de orgulho nacional. Não acho que futebol deva ser considerado uma prioridade, mas é fato que nada confere maior identidade ao brasileiro do que onze jogadores em campo vestindo a camisa amarela.

Temos o amarelo - que deveria ser ouro. É este o simbolismo do bizarro losango que mal se encaixa sobre o verde-selva da flâmula. Porém jamais vimos a cor do ouro. Bem sabemos que o nobre metal foi vilipendiado sem o mínimo pudor pela coroa portuguesa, extrativista e exploradora durante todo nosso passado colonial. O amarelo em nosso estandarte não é dourado – apenas o singelo amarelo, cor que recua. E tampouco o azul estrelado nos parece infinito – não assim, sufocado entre tantas arestas, dentro de um losango que se posiciona com frouxidão em um desenho pouco dinâmico – Kandinsky concordaria comigo, tenho certeza.

A expectativa de que um círculo pudesse resumir o infinito estava encarnada na bola de futebol. A esperança era de que nossos jogadores, heróis nacionais, movimentassem o amarelo de suas camisas com graça e criatividade sobre o gramado. Pensávamos que, com os melhores boleiros do mundo, a imagem inerte e apática que temos de nosso país seria literalmente driblada, e ao menos durante uma copa do mundo poderíamos nos sentir uma grande potência. Infelizmente não foi o caso, e o que se viu em campo ecoou tudo o que há de estanque em nosso estandarte e em nossa realidade.

Parece deprimente minha análise? Talvez seja, mas minha vontade de ver o país avançar nunca precisou de amores por uma bandeira. Aliás, se levarmos a sério o universo das representações, o melhor seria mudarmos urgentemente o nome que deram à nossa terra. Se pensarmos bem, quando a torcida, exaltada, grita “Brasil!” nada mais faz do que repetir o eufemismo que os portugueses deram para “Escambo”. Pois, se nos batizaram dessa maneira foi para designar a fonte de renda fácil que nossos primeiros ludibriadores aqui encontraram, naquele não tão remoto século XVI.

Para completar a composição, nem ordem nem progresso podemos dizer que façam parte da agenda política nacional. Não quero parecer ressentido, apenas lamento o ufanismo intermitente de uma nação que usualmente não demonstra maiores ambições do que ser o país do futebol. E talvez nem isso sejamos, pois o fato é que jogamos muito mal, sem aplicação, sem vontade. Perdemos com uma equipe repleta de estrelas, de fato foi decepcionante, mas melhor seria que as pessoas torcessem pelo Brasil, e não apenas pelo nosso futebol.


7.04.2006

Igualados pela ignorância

O próprio Ombudsman da Folha de S. Paulo, Marcelo Beraba, me deu um parecer positivo quanto a este artigo e o encaminhou à Redação do jornal. Infelizmente, foi recusado nessa segunda etapa, porque o assunto já estava muito pautado. Agruras de um jovem escritor quase desconhecido.



Como entender o que ocorreu na semana passada, não só em São Paulo como em inúmeros focos por todo o país, sob as ordens do Primeiro Comando da Capital? O que pensar e o que sentir a respeito das rebeliões? É evidente que se passam coisas completamente diferentes na cabeça de cada um, variando conforme sua percepção da realidade. Contudo, vale o esforço de não sermos simplistas diante do caso, e tentarmos refletir da maneira mais panorâmica possível a respeito de um fenômeno que ainda não sabemos bem como irá se desdobrar.

Por um lado, é tão desamparador o momento político em que se encontra o país, e tão baço o horizonte que vem se desenhando nos últimos anos, que uma reação violenta desta grandeza não deixa de ser uma importante mensagem. De fato, é inegável que Marcola e seus subordinados provocaram tumulto o suficiente para causar ao menos um sobressalto na tal da “elite branca”. E, da mesma maneira, é difícil dizer que o modo irresponsável com que os poderosos vêm sugando a camada desfavorecida não seja uma das principais causas desta convulsão. Dificilmente os soldados da organização, nos recentes ataques, arriscariam a pele de maneira tão explicita e vulnerável se tivessem perspectivas realmente dignas. Convém perceber, no entanto, que todo o fenômeno não está exatamente voltado para questões sociais abrangentes, como é o caso do MST no campo.

Tomemos como um ponto de partida a genealogia do PCC. Não é nenhum segredo o quanto a vida nas cadeias sempre foi território desprovido de qualquer respeito aos direitos humanos. Maus-tratos diários por parte dos carcereiros e entre os presos, inclusive com a prática constante do estupro. O Primeiro Comando da Capital foi criado em Taubaté, em uma penitenciária onde as condições estavam tão abaixo do que se pode considerar aceitável, que doença mental e suicídios atingiam índices alarmantes. Num ambiente que podemos chamar de infernal, a facção foi criada como uma rede de proteção para os detentos, e quanto a isso realmente obteve conquistas notáveis. Atualmente não há muitas ocorrências de estupros nas prisões nas quais se ramifica o PCC, pois seu estatuto não o permite, e é considerável o poder de negociação que seus membros adquiriram quanto a seus direitos.

O PCC foi criado por necessidade premente das pessoas mais brutalizadas por nosso sistema. É compreensível que eles gritem; mas precisamos levar em conta a cegueira que se soma a tal ressentimento. Na semana passada, não hesitaram em prejudicar a vida de muitos trabalhadores, que pagaram altos preços sem estarem diretamente vinculados a suas mazelas. Aqui e ali, sobretudo entre os jovens, encontra-se quem exalte as ações do dia 15 - ações de terrorismo aberto - como atitudes de guerrilheiros justificados. Seria mais preciso dizer que se trata de uma organização com interesses próprios, em contínua expansão, e que, é bom destacar, vem se tornando cada vez mais lucrativa. Formam seus próprios advogados, fazem empréstimos a juros, arrecadam mensalidades, gerenciam tráfico de drogas e de armas. Não há sinais de uma ideologia que vá muito além de interesses econômicos ou relativos à condição carcerária. Talvez fosse, sim, louvável que tamanha capacidade de articulação se voltasse para lutas mais solidárias, contudo não é bem esta a intenção por trás. Todavia, muito mais absurdo do que considerá-los heróis revolucionários seria desconsiderar o contexto no qual o crime atinge estas proporções.

Infelizmente, tenho percebido uma grave falta de visão em depoimentos de membros da alta sociedade. É chocante o quanto a elite de modo geral não parece ter percebido o recado, nem mesmo gritante como foi dado, e o quanto ainda não percebeu sua parcela de responsabilidade nesta situação. Na minha interpretação, fenômenos como este evidenciam que a elite brasileira não é tão astuta e habilidosa como sua posição privilegiada possa dar a entender. Fato é que os poderosos não compreendem muito bem, não têm o controle que no passado já tiveram, e não sabem lidar com o monstro que ajudaram a criar. Ou seja, o dinheiro já não os faz tão poderosos como imaginavam. O típico quatrocentão explorador não é muito menos alienado do que os criminosos semi-analfabetos que concretizaram as missões terroristas. Afinal, creio não se tratar de sensacionalismo dizer que não há um único homem rico no Brasil que não precise de uma boa dose diária de fé – uma boa dose de esperança idealista, sem garantia real - para não ser seqüestrado ou mesmo morto de um momento para o outro.

Uma coisa me parece cada vez mais evidente: a constatação de que a história está em pleno movimento. Certamente a questão ainda está longe de ser resolvida, e é provável que novos conflitos se repitam. O fato de o governador Lembo ter culpado a “elite branca”, conforme depoimento, nos dá alguma esperança de que uma nova maneira de pensar venha, aos poucos, ocupar mais espaço – nem que, infelizmente, seja por motivos de pressão extrema. Os desdobramentos permanecem imprevisíveis, porém fica a sensação de que vivemos uma dinâmica de forças que não é a mesma de meros dez anos atrás. Temos visto que não existe mais esquerda e direita, a dicotomia presente em todo século passado; mas também que é cada vez mais difícil situar o que está dentro e o que está fora do que anteriormente se entendia por “sistema”. Tudo passa a se amalgamar no mesmo organismo. Já não é mais possível separar bandidos do resto da sociedade, já não se pode simplesmente separar partes. Elemento algum, num momento próximo a uma situação-limite – pois é disso que nos aproximamos – pode ser levado em conta isoladamente.

Dos novos códigos para a fé



Deus está morto? Os indícios são de que, mais de cem anos depois da sentença de Nietzsche, a entidade suprema continua viva em nossa cultura. No entanto, um olhar atento não poderia deixar de perceber que, nos últimos anos, a fé tem se reformulado. Por exemplo, o sucesso de “Código da Vinci”, que agora repete nos cinemas a febre que obteve nas livrarias, é significativo à medida que politiza e desmistifica aspectos da religião católica. Se tomarmos o cinema como uma espécie de catalizador de opiniões, vale também lembrar de “Quem somos nós?” que buscou cientificizar o debate metafísico, e da figura de Tom Cruise, inegável astro das telas, que vem se tornando garoto-propaganda da polêmica cientologia.

Vamos por partes. Em “Código da Vinci” temos um fenômeno comercial extraordinário, que, junto a intriga policial e tensão amorosa, apresenta a quebra de alguns dos maiores tabus católicos. A principal imagem que se corrompe é a do Cristo sobre-humano, a-histórico, virginal e puro, ainda que Jesus como filho de Deus permaneça incólume. Dan Brown, autor do livro, foi competente ao menos em um ponto: soube seduzir o leitor comum para uma desconstrução de preceitos, soube convidar ao questionamento de dogmas que resistem na mentalidade ocidental há quase dois milênios. Infelizmente, a precisão científica de seu livro é pífia, e ainda que calcada em argumentos pertinentes, está longe de constituir uma tese aprofundada - aliás, já se apontaram mais de duzentos erros históricos que permeiam a narrativa. Contudo, Dan Brown realizou o interessante feito de ao menos inquietar as massas, o que já é, por si, algo a se considerar.

Talvez seja ainda cedo para dizer se, a longo prazo, o público médio que leu o livro ou assistiu ao filme irá realmente se apropriar do deslocamento de ponto de vista que ali se propõe. Transformações na mentalidade são lentas, e requerem tanto um estopim quanto a continuidade de estímulos. Já seria, contudo, uma interessante mudança de patamar se boa parte dos cristãos pudessem assimilar que a Bíblia não é um livro definitivo, tendo sido escrita por homens e decupada por ordens de um imperador - Constantino, no concílio de Nicéia. Tal apreensão seria um salto positivo, pois a perspectiva histórica tende a nos humanizar. Em detrimento de uma leitura moralizadora dos evangelhos, a politização da fé tende a conferir maior dignidade à vida terrena.

Missão impossível

A tradição cristã é a dominante na sociedade ocidental, porém jamais foi a única. O ocultismo sobreviveu às Inquisições, as religiões africanas resistiram à aculturação, o budismo ganhou novos adeptos ao longo do século XX. E, recentemente, este milênio vem apresentando algumas maneiras tecnicistas de se relacionar com a fé. É o caso da cientologia e da mescla de física quântica com espiritualidade, duas correntes que iniciam perceptível fase de ascensão – a primeira, impulsionada por declarações de Tom Cruise; a segunda, por livros e documentários como “Quem somos nós?” e a influência de físicos de alto escalão. São crenças que, de uma forma ou de outra, cativam aqueles que sentem o cristianismo como algo anacrônico.

A cientologia deriva muito mais da ficção científica do que de um pensamento que se possa chamar racional. Seu fundador foi o americano L. Ron Hubbard, que se notabilizou como escritor de sci-fi, e portanto se confundem na seita sua obra ficcional com sua obra doutrinária. Sua mitologia original é no mínimo extravagante, remontando a 75 milhôes de anos atrás, sendo Xenu uma entidade alienígena que supostamente teria colonizado a Terra. A cientologia professa a reencarnação e propõe uma dispendiosa limpeza espiritual, mediante um tratamento por etapas. De científico, aparentemente há apenas o emprego de máquinas, como o e-metter, uma espécie de detector de mentiras. Tal aparelho seria usado em sessões de terapia regressiva, e auxiliaria a localizar “engramas” - traumas acumulados ao longo das várias encarnações. Constam muitas acusações contra a seita, considerada prejudicial à saúde mental de seus adeptos, e têm sido freqüentes as batalhas judiciais contestando sua legitimidade como religião. Ainda assim, tem sido um negócio extremamente lucrativo, em especial nos EUA e na Europa.

A ascenção da cientologia, a despeito dos inúmeros alertas contra a instituição, pode ser vista como sintoma de desespero, diante de uma preocupante sensação de vazio. Neste ponto, retomo o Nietzstche de Gott ist tot: “Como conseguimos beber inteiramente o mar? Quem nos deu a esponja para apagar o horizonte? (...) Não vagamos através de um nada infinito? Não sentimos na pele o sopro do vácuo?” O filósofo iconoclasta já previa o preço a se pagar pela morte de deus, um sentimento de vazio para o qual ninguém estaria realmente preparado. Para os seguidores da cientologia, Jesus talvez esteja morto, mas deus está tão vivo que não hesitam em gastar rios de dinheiro em seu nome. Talvez o cristianismo sofra, no mundo industrializado, de uma defasagem imagética que a fantasia de Hubbard se propõe a suprir. Afinal, seus adeptos se relacionam melhor com aparelhos como o e-metter do que com o confessionário da igreja, e preferem uma mitologia espetacular, recheada de toques de ficção científica, do que episódios bíblicos que remontem à antiguidade. Eis uma religião que apresenta um espírito de aventura semelhante ao dos filmes hollywoodianos. Não é de se estranhar que alguns de seus astros tenham sido fisgados. É uma seita que une perfeitamente a eterna busca por respostas e a artificialidade consumista de nossa época.

Meta-física

Outro fenômeno que merece atenção é a recente tentativa de popularização da física quântica, em sua vertente mais zen. O primeiro gesto nesse sentido se deu com a publicação de “O tao da física”, de Fritjof Capra, de 1975. O livro torna acessível para leigos algumas das idéias de Heisenberg, que, em confronto com Einstein, interpretou certos fenômenos quânticos com o auxílio da filosofia oriental. De fato, o mundo subatômico desafia a lógica com que estamos acostumados, e até o momento não se encontrou explicações racionais para muitos de seus aspectos, tais como o princípio da incerteza. O pensamento de Heisenberg, em alguns momentos mais filosófico do que empírico, se aproxima de uma indistinção entre consciência e matéria. Uma de suas proposições é a de que o próprio ato de observar uma partícula alteraria seu comportamento.

Por mais que seja um assunto de difícil compreensão para leigos, o prestígio de alguns físicos renomados, muitas vezes professores das melhores universidades, têm transmitido uma sensação de credibilidade a esse sincretismo moderno entre ciência e fé. O documentário “Quem somos nós?”, de 2004, ao fazer um apanhado de seus principais representantes, obteve alguma repercussão entre pessoas não necessariamente da área de exatas. Por um lado, é um debate extremamente interessante que pode e deve invadir outras áreas do conhecimento e até mesmo do cotidiano. Por outro, o perigo é o de se comprar muito fácil aquilo que não se entende bem.

No buscador google, há 1,4 milhões de menções ao filme em inglês (“What the bleep do we know’). Para “quantum” combinado com “physics”, que a princípio seria um dos assuntos mais herméticos, temos 86 milhões. Para se ter uma base de comparação, “Sartre” não atinge sequer 10 milhões. Isso é um sinal de que o assunto ultrapassou há muito o território dos especialistas, e tem cativado um público sedento de respostas. A sedução se faz pela proximidade de que estaríamos de uma explicação “racional” para “deus”.

Alguns dos físicos assumem prontamente a posição de gurus, tal como Amit Goswami, um dos mais populares deste novo nicho. Um problema é que pensadores como ele não colocam qualquer hierarquia entre método científico e misticismo oriental, e sem evidência concludente chegam a afirmar que todo o mundo da matéria é “nada além de possíveis movimentos da consciência”. Por mais que alguns conceitos quânticos possam dar brecha a afirmações desse tipo, não há qualquer prova empírica para tais extrapolações. Muito menos para pretender que qualquer homem já tenha compreendido os meandros de uma metafísica completa. Há uma certa manipulação da ciência nesses casos - nem sempre movida por má-fé, como parece ser o caso da cientologia.

Inconclusão

Mesmo que de maneira às vezes trôpega, o que temos em comum, nos três casos analisados, é o investimento no sentido de tornar instrumental o que tradicionalmente era apenas questão de credo. Temos a politização da narrativa bíblica, sujeitando um livro sagrado a investigações e revisão crítica; temos a tentativa de elevação espiritual mediada por máquinas, que com ponteiros e sinais sonoros guiam as respostas procuradas; e temos a ciência em seu papel mais inusitado, empregando fórmulas complexas para falar em transcendência.

Ratifica-se, portanto, um olhar que diminui a distância, outrora marcante, entre um plano superior e a vida terrena. Em parte, tal fenômeno se dá como forma de competir com onipresenças mais ululantes, como a concretude inevitável dos apelos publicitários. Um deus que queira competir com campanhas maciças e enormes outdoors tem que oferecer algum acesso mais pragmático do que a simples fé. Ao menos uma base que pareça sólida - não necessariamente um estudo preciso e sistemático, pois isso jamais foi exigido pelo grande público. O que se evidencia é a demanda por um deus que se possa assimilar: seja comprando a prestações, seja pensando que seu descendente foi tão humano como nós, seja acreditando que deus é decomponível em números.

Não é de todo impossível que um dia a razão consiga quebrar códigos dos mais obscuros e explicar o inexplicável. Mas convém não nos precipitarmos. Enquanto a solução não aparece, enquanto só podemos ter certeza da incerteza, usemos de nossa ignorância com um mínimo de astúcia. Sejamos desconfiados, suspeitosos de falsas promessas. É tentador desvendar o labirinto, entender de fato ao invés de apenas supor. Mas, para isso, afastemo-nos das armadilhas fáceis.

Em "Ponto Final", Woody Allen traz Dostoievski para nossos dias

O novo filme de Woody Allen contrasta com a maior parte de sua obra, principalmente devido à ausência de humor explícito, à troca de trilha musical – de jazz para ópera – e pela ambientação em Londres, em vez de Nova York. Desta vez, não temos o típico personagem neurótico descarrilhando frases espirituosas, e talvez por isso o filme decepcione boa parte de seus fãs. Pouco se importando com oferecer o que dele esperam, o diretor afirmou considerar este o seu melhor trabalho. Não somos obrigados a concordar, mas seria difícil negar a sutileza de sua direção, o enredo bem costurado e a boa performance das atrizes (Scarlett Johansson deslumbrante no papel de Nola, Emily Mortmer impecável como Chloe).

Contudo, a meu ver, a maneira mais interessante de se apreciar esta última produção de Allen é entendê-la como contraponto de um clássico russo, citado explicitamente no filme. O livro “Crime e Castigo”, de Dostoievski, aparece nas mãos do personagem principal, Chris Wilton, e estrutura todo seu enredo, porém tão transfigurado como os valores de nossa época. Chris Wilton, Raskolnikóv moderno, é um ex-tenista que desistiu do esporte, não exatamente por falta de talento, mas por não ter persistência o bastante para ser o melhor. Envolve-se com Nola, uma aspirante a atriz, sexy mas sem futuro, porém se casa com Chloe, doce, milionária e inexpressiva. Aceita um trabalho como executivo que o sogro lhe arranja, ainda que não tenha vocação nem paixão para o cargo.

Ao passo que, na obra russa, o personagem principal é apresentado em seus aspectos mais sensíveis, no de “Ponto Final” não há caráter por trás de suas ações. Raskolnikóv é ambicioso, sonha com um grande passo que marque a história da humanidade, e tamanho ideal o mobiliza a cometer um crime. Chris é o oposto: não quer mais do que conforto, única motivação que o leva a lutar com todas as forças. Em “Crime e Castigo”, o assassino não é visto como vilão; vilão é o ser humano medíocre, demasiado terreno e mesquinho, encarnado em Svidrigáilov. Chris Wilton poderia ter sido um dos maiores tenistas do mundo caso suasse o bastante, mas optou pela mediocridade: um casamento sem amor, e um emprego com que não se identifica. Racional, traz a marca de nossa época, em que a estabilidade vale mais do que a paixão – a ponto de Nola receber uma das mais frias e calculadas mortes que uma amante já sofreu. Para Woody Allen, não faz sentido distinguir o criminoso de bom coração do aproveitador/conservador, simplesmente porque já não há espaço para grandes sonhos. O aproveitador de hoje não é mais do que o sonhador de ontem, desiludido.

Outro ponto que requer análise é a questão da sorte. Usando a metáfora da bola que bate na rede e pode ou não cair de maneira favorável, Allen defende que o talento e a perseverança não são decisivos para o sucesso, pois este depende em grande parte do acaso. Esta é, em última instância, a tese do filme, e mais uma diferença entre a visão de Dostoievski e a de Woody Allen. O leitor atento percebe, na cabeça de Raskolnikóv, a correnteza da psique ditando seus caminhos, o inconsciente influenciando seus atos e dando forma às consequências. Woody Allen, com tantos anos de divã, não poderia dizer que desconsidera o fator psicológico, mas, ao menos nesse filme, se demonstra mais fatalista. Chris é um homem objetivo, e como tal aprendeu a sufocar e disfarçar suas culpas, suas emoções. Adaptado, dribla tanto a esposa como a justiça. No entanto, mesmo em boa situação, depende de sorte. O mundo chegou a um grau de instabilidade onde mesmo quem está por cima não sobrevive sem essa coisa tão pouco palpável como o acaso. Ninguém está totalmente protegido, e pode levar um tiro a qualquer momento - talvez mesmo de quem lhe teve amor - ou perder uma fortuna em poucos dias. Não gostamos de pensar nisso, mas é fato marcante de nossa época.

Vive-se com cada vez menos garantias, e isso colabora para um cenário bastante insensível: onde a vida do outro vale menos do que o conforto, onde se comete crimes e enterra-se o remorso como puder, enterram-se todas as fraquezas, e de quebra enterram-se as paixões e os sonhos. A conclusão, após ver o filme, seria a de que o cineasta americano expôs o escritor russo como um idealista ultrapassado? A subjetividade já não tem lugar no mundo pragmático, e a beleza já não diz nada? Não exatamente. Para quem sente o mundo como Chris Wilton, talvez. Para os ainda capazes de humanizar crimes e erros, tanto os seus como os dos outros, não.

Quando arte e religião se atracam

Artigo publicado no site da Caros Amigos


Recentemente, no Rio de Janeiro, foi retirada de exposição uma peça da mostra Erotica, em cartaz no CCBB. Trata-se de “Desenhando em terços”, de Márcia X., foto de dois terços em forma de pênis que se atravessam em cruz. A polêmica foi gerada pela sociedade Opus Christi e a decisão decretada pelo Banco do Brasil, atropelando qualquer diálogo com a curadoria. A obra já havia sido exposta em São Paulo, sem maiores problemas, porém foi recebida no Rio sob protestos.

É aterrador pensar que a censura possa estar, aos poucos, retornando ao campo da cultura brasileira. Temos de estar atentos para evitar os casos isolados, antes que eles se acumulem e passem a se tornar rotina, pois a liberdade de expressão é condição sine qua non para um ambiente cultural saudável. O caso de Márcia X. chama a atenção pela falta de diálogo com que a proibição foi feita, não dando sequer a chance de se argumentar contra a medida.

Se, em defesa da artista, considerarmos a questão como disputa moral, podemos muito bem inverter o foco que os querelantes vêm tomando. Márcia X. iniciou sua carreira nos anos 80 através de performances, numa década de intenso retorno à pintura, o que por si já faz com que sua integridade como artista seja admirável. Fato é que ela seguiu arriscado caminho próprio, sem se importar com apelos mercadológicos ou mesmo com a crítica vigente. Não teve aceitação imediata, e ainda assim prosseguiu trabalhando contra a corrente, por acreditar em seu trabalho. Pensando aqui na habilidade com que grupos como o Opus Christi transformam o sublime em dinheiro, ou lembrando das múltiplas denúncias recentes de pedofilia contra padres, não se percebe a mesma honestidade. É exatamente por isso que são importantes as obras de arte ousadas, capazes de levantar questionamentos, mesmo que se valendo de efeitos de choque.

No caso de “Desenhando Terços” temos a aproximação de dois universos a princípio distantes, mas que ao fundo estão intimamente relacionados. Freud, em “Totem e tabu”, compara os rituais religiosos com as obsessões neuróticas. Um dos traços evidentes para seu paralelo é o de que ambos se caracterizam pela repetição – como exemplos, os cacoetes e manias, rituais neuróticos; ou a reza do terço, ritual religioso. Segundo o vienense, por trás desses comportamentos haveria uma enorme energia sexual represada. Ora, se sua teoria é até hoje levada a sério e amplamente estudada, por que não se poderia sugerir associações entre o furor religioso e o furor sexual? Por que não apresentá-las numa obra de arte? Aliás, é bastante adequado exibir uma obra dessa em uma exposição sobre arte e sexualidade. Afronta agressiva seria fazê-lo em um contexto definitivamente religioso, coisa que Márcia X não viu necessidade de realizar.

O diálogo entre posições antagônicas pode ser muito profícuo, mas não a imposição taxativa, tal como foi feita. A censura fere o direito à liberdade de expressão, sem a qual não há esperança de debates dialéticos. É verdade que a obra pode parecer chocante para alguns grupos de pessoas, e de fato a ironia e a polêmica são marcas da artista em questão. É muito justo que aqueles que se sentiram ofendidos tivessem direito a algum tipo de resposta. Que protestassem, que escrevessem aos jornais, que demonstrassem seu repúdio, mas o fato de terem conseguido a censura é uma derrota lamentável para todos que entendem arte com alguma seriedade. Não é solução que possa ter lugar em um país supostamente democrático.


Entrevista com Tadeu Chiarelli - curador da exposição "Erotica"

- Em primeiro lugar, você diria que toda arte é, em essência, erótica? O artista é alguém que sempre, de uma forma ou de outra, faz de seu trabalho uma sedução
para os sentidos?

Chiarelli - Acho que a arte tem sempre um componente erótico. E não apenas por parte do artista, mas também por parte de quem observa a obra. Existe uma sensualidade que perpassa todas essas relações.

- No andar superior do CCBB temos uma sala temática para o narcisismo; no segundo andar temos o conceito surrealista de Beleza convulsiva, e na sala
do cofre, no subsolo, o tema é a multiplicidade. Qual é a idéia da exposição como um todo?

Chiarelli - A idéia de Erotica é simples: apresentar uma seleção onde a sexualidade e o erotismo foram os propulsores das obras de arte expostas. Não é uma exposição sobre o erotismo. É uma exposição de arte onde o erotismo emerge como elemento estruturador das obras exibidas. Sem dúvida existem salas onde determinadas questões ganham maior visibilidade. No entanto, estive sempre atento para o fato de que, em muitas obras, mais de uma questão erótica pode estar presente. Neste sentido, se você bem perceber, verá que existem contaminações, existe uma fluidez de questões que aparecem em praticamente todas as salas. A começar pelo voyerismo, o exibicionismo e também certos temas tradicionais, constantes nesses casos, como o mito da “bela e da fera”, por exemplo.


- No conjunto exposto em Erotica há uma ênfase no surrealismo, inclusive na concepção da montagem. Podemos dizer que o surrealismo é uma das propostas
artísticas que melhor cumprem esse papel de sedução, de deleite para o espectador?

Chiarelli - O surrealismo, justamente porque teve a questão da sexualidade, via psicanálise, como um dos seus elementos propulsores, foi tomado como linha geral para o desenvolvimento da exposição. O acaso, a associação livre, o automatismo psíquico, a beleza convulsa, o gosto pelo “vulgar”, enfim, vários dos componentes da estética surrealista estão presentes na mostra, conferindo a ela um interesse a meu ver muito diferente daquele que teria se, por exemplo, tivesse um programa mais pautado, por exemplo, no desenvolvimento de uma cronologia.



- Lars von Trier, considerado um dos mais inspirados diretores da atualidade, realizou três filmes pornográficos. A editora Taschen lançou recentemente
"Digital diaries" de Natacha Merritt, uma espécie de diário fotográfico sexual. O artista Jeff Koons filmou a si mesmo na cama com sua esposa, e exibiu como obra
de arte. Contudo, a exposição em cartaz no CCBB optou por uma abordagem bem mais suave, sedutora mas não explícita. Isto posto, o que você acha da fusão que
vem ocorrendo, cada vez mais freqüente, entre alta cultura e pornografia?

Chiarelli - Creio que muitos artistas de formação mais erudita, digamos, se aproximam da pornografia como uma tentativa desesperada de sacudir nossa sociedade, de sacudir nossa capacidade em traduzir todas as manifestações artísticas em produto cultural. Aproximar a arte da pornografia pode servir como uma estratégia para desnaturalizar essa capacidade da nossa sociedade, a partir de imagens que - por mais que o sexo esteja em forte processo de banalização hoje em dia - ainda podem, de alguma maneira desestabilizar algumas de nossas posições de “bom gosto” ou “bom tom”, seja lá o que isso quer dizer, de fato, atualmente.

De alguma maneira, essa tendência está presente na exposição. Não, de fato, como vertente principal. No entanto, chamo sua atenção para as obras de artistas como Picasso, Marquet, Ivan Serpa, Jacques Lebel, Pitágoras e outros que se aproximam de visualidades de extração “baixa”. Eles formam alguns dos pontos altos da mostra.

Porém, o intuito maior de Erotica foi chamar a atenção para outras possibilidades de se pensar o erotismo e o sexo na arte, por meio de obras que explorassem, por exemplo, como o próprio emprego de determinados materiais podem exprimir a sensualidade de uma obra, tanto quanto o próprio tema tratado.

- Você acha, portanto, que esta exposição nos permite perceber a sexualidade na arte como algo que não está restrito ao tema?

Chiarelli – Para responder essa pergunta, lembro-me aqui de alguns exemplos: o desenho de um fauno se masturbando, de Picasso, ou o desenho de um casal copulando de Ismael Nery. Neles, a sensualidade do traço sobre o papel emana uma sensualidade tão potente quanto a imagem que estruturam. O mesmo eu poderia dizer da tela de Visconti, onde uma mulher deitada está representada, ou mesmo o estudo que Rodolpho Bernardelli produziu para a sua “faceira”. No primeiro a sensualidade não está apenas nas formas do corpo da mulher, mas igualmente na própria delicadeza com que o artista tocou todas as partes do corpo da pintura com seu pincel, constituindo uma fina pele sobre o tecido. Ou então, no caso de Bernardelli, como o artista parece ter construído a sensualidade da obra pela própria manipulação da matéria, deixando o registro de suas mãos sobre ela.

Agora uma coisa é preciso ser dita: o curador, por mais que tenha respeito pelo artista, ele sempre está do outro lado, porque está sempre fazendo cultura, enquanto o artista opera na desestabilização da mesma.

O curador tenta traduzir a obra de arte para o campo da cultura e para isso forçosamente tende a restringir seu papel desestruturador. Mas isso é uma outra história.



- E quanto à sensualidade kitsch? Qual a verdadeira distância entre, por exemplo, J. R. Duran (fotógrafo da Playboy) e as obras expostas em Erotica?

Chiarelli - A idéia da exposição foi justamente estabelecer, na medida do possível, um diferencial entre aquilo que o público vai encontrar dentro do Centro Cultural Banco do Brasil daquilo que está à sua espreita nas bancas de jornais, nos arredores, nos out-doors, na tv, etc e tal.

A idéia é educar o olhar do público para que ele entenda que a imagem com carga erótica pode sim transcender o mero estatuto de mercadoria para alcançar um patamar mais amplo de conhecimento do mundo.

As ligações entre o que está dentro e o que está fora do CCBB será feito pela capacidade do visitante em perceber tais diferenças quando ele estiver frente as obras ali expostas. Mas ele também será auxiliado pelo serviço de monitoria da instituição capacitada para estabelecer pontes de conexão entre o universo da arte e o universo das imagens de massa, assim como a série de conferências organizadas pelo Reinaldo Mesquita dará conta de abrir o debate sobre o erotismo para outras esferas da vida dos cidadãos.


- Um dos traços marcantes de nossa época é a presença constante do sexo na mídia, seja em canais de televisão, em revistas, na internet ou nos demais veículos. Você sente que com isso ele se tornou menos interessante ou menos vital? E pode a arte, hoje, fazer com que corpo e espírito caminhem juntos?

Chiarelli - Não acho que essa exposição toda, essa banalização sem medidas do sexo o tenha tornado menos interessante, pelo menos para grande parte das pessoas. Creio, isso sim, que todo esse processo pode levar a resultados não muito salutares, não apenas no plano individual mas aqui pensando também em todo o corpo social. Dentro deste quadro, creio que a exposição Erotica pode servir como um bom antídoto para toda essa banalização, sugerindo que o sexo e que o erotismo no campo de nossa cultura visual podem transcender o papel de mera mercadoria, mero artigo de consumo.

(Erótica está no Centro Cultural Banco do Brasil, r. Álvares Penteado 112. Visitação de terça a domingo, das 10h às 21h)

Contracultura e arte dos anos 60

O presente texto se propõe a levantar questões relevantes para se pensar arte e cultura de modo geral, para isso tomando como ponto de partida dois fenômenos culturais que, tendo surgido na década de 60, causaram tamanho impacto que ainda hoje pode ser percebido. Entre os jovens de boa parte das famílias ocidentais se alastrava uma postura rebelde, de recusa dos principais valores da sociedade burocrática e de consumo, enquanto uma nova geração de inquietos artistas plásticos propunha radicais questões para a arte e expandia seus limites. Os dois fenômenos apresentam experiências e influências em comum, sendo que um intercâmbio de aprendizados certamente ocorreu, apesar de terem se constituído como situações de considerável autonomia.

Contracultura é uma designação ampla, geralmente associada aos hippies, que traduz a rebeldia dos jovens dos anos 60 contra os principais valores que o sistema cobra de seus cidadãos. A revolta foi principalmente contra a tecnocracia do mundo em que ainda vivemos, um mundo em que a eficácia produtiva e lucrativa é maquinalmente exigida dos trabalhadores, impossibilitados dessa maneira de um modo de vida realmente criativo. Apesar de o tempo todo recerbemos imagens e estereótipos bem limitados do que foi essa contestação, tratava-se de uma juventude bastante heterogêna, inclusive desorganizada, contraditória, sem um rigor ideológico que centralizasse as ações, que contudo lutou contra o autoritarismo, o moralismo, a hipocrisia, a burocracia, o racismo, o machismo, o consumismo e o militarismo.

Theodore Roszak[1] salienta que não se pode perder de vista o caráter de conflito de gerações nesse episódio da história, pois não houve especial afinidade desses jovens com a esquerda tradicional, apesar do inimigo em comum. Hippies e marxistas tradicionais não viam o capitalismo explorador sob o mesmo ponto de vista, sendo que os primeiros discordavam quanto a trocar um industrialismo capitalista por outro socialista, e rejeitavam esse tipo de militância da mesma forma como evitavam tudo o que se remetesse a gerações anteriores. “Não confio em ninguém com mais de trinta anos” parecia ser o lema dessas pessoas, e, muitas vezes com uma dose de ingenuidade, válida como tentativa, se arriscaram a fazer tudo como se fosse um exato oposto ao que seus pais fariam.

O movimento hippie, ao que tudo indica, tem sua origem a partir dos beatniks, representados por escritores como Jack Kerouac, Allen Ginsberg, William Burroughs. Estes, influenciados por Ezra Pound, mesclaram ensinamentos zen com rebeldia, e viveram à margem do sistema, apesar de não o terem confrontado diretamente. Seu ideal era o de viajar pelo mundo adquirindo toda forma de experiência que caracterizasse seu estilo de vida, principalmente aventuras sexuais, noites de bebedeiras com amigos e poetas, experimentos com drogas e aprendizados budistas. São comportamentos que foram legados alguns anos depois aos que associamos com Woodstock.

Provos

O que poucos sabem, e constitui um fato relevante, é que os primeiros a transpor a liberdade beatnik para um esforço de transformação da sociedade foram os chamados Provos, de Amsterdam, que podem ser considerados os fundadores da contracultura. Em vez do famoso “drop out” beat, insistiram em permanecer em sua cidade e de fato conseguiram transformá-la. A palavra “provos” deriva de “provocadores”, batizados assim por um relatório policial e aceito espontaneamente pelos referidos. Tratava-se de um pequeno grupo, por volta de duzentas pessoas em seu auge, que atuou de forma intensa e subversiva entre julho de 1965 e maio de 1967. Sob influência do dadaísmo e de outras tendências artísticas, porém sem nunca se definir como movimento de arte, os provos se valiam de happenings para defender a legalização das drogas, a liberdade sexual, a liberdade de expressão, questões ecológicas e o boicote ao consumismo.

Eis o manifesto que criaram em 1965:

PROVO é uma folha mensal para anarquistas, provos, beatniks, noctâmbulos, amoladores, malandros, simples simoníacos estilitas, magos, pacifistas, comedores de batatinhas fritas, charlatões, filósofos, portadores de germes, moços das estribarias reais, exibicionistas, vegetarianos, sindicalistas, papais-noéis, professores da maternal, agitadores, piromaníacos, assistentes do assistente, gente que se coça e sifilíticos, polícia secreta e toda a ralé deste tipo.

PROVO é alguma coisa contra o capitalismo, o comunismo, o fascismo, a burocracia, o militarismo, o profissionalismo, o dogmatismo e o autoritarismo.

PROVO deve escolher entre uma resistência desesperada e uma extinção submissa.

PROVO incita à resistência onde quer que seja possível.

PROVO tem consciência de que no final perderá, mas não pode deixar escapar a ocasião de cumprir ao menos uma quinquagésima e sincera tentativa de provocar a sociedade.

PROVO considera a anarquia como uma fonte de inspiração para a resistência.

PROVO quer devolver vida à anarquia e ensiná-la aos jovens.

PROVO É UMA IMAGEM.

Os principais membros do grupo eram Robert Jasper Grootveld, uma espécie de xamã performático que combatia o tabaco, Simon Vinkenoog, poeta, defensor da maconha, Roel Van Duijn, jornalista, Bart Huges, um exótico médico alternativo, e Bernhard De Vris, que antes de se tornar ator foi eleito vereador, sob uma grande apoteose anárquica por parte de todos os membros provos.

Em nenhum momento o grupo se apresentou como um movimento artístico, no entanto é evidente que eles tinham conhecimento da performance como meio, e a utilizaram de maneira lúdica a fim de chamar a atenção para seus objetivos. Na festa nacional para o aniversário da rainha, organizaram uma série de manifestações: eleição da Miss Provo, maratona ao redor do Palácio Real com bicicletas brancas[2], “torneio de lançamento de ovos, manteiga e queijo entre Provos e polícia”, “demonstração de ar fresco”, competição de tiros de bombas de efeito moral, concurso de pintura no asfalto, jogo de futebol com laranjas, transformação do principal chafariz da cidade em um chafariz de laranjada, lançamento de uma estátua de baleia branca em um dos canais da cidade.

São tantas a s atividades em que os provos se empenharam que é difícil defini-los como grupo político, artístico ou mesmo religioso[3]. O que eles propunham enfim era uma sociedade renovada em todos seus aspectos, e portanto era preciso lançar propostas para todos os setores. A contracultura, quando chega em São Francisco e de lá para o mundo, tem a mesma ambição, porém com suas particularidades, de que trataremos adiante.

Os provos tinham seu jornal, onde discutiam questões raciais, feminismo, liberação sexual e legalização das drogas. Seguidores dos provos caminhavam em bando sobre automóveis e sabotavam escapamentos, por considerarem os carros poluentes e assasssinos. Lançaram bombas de gás de efeito moral sobre a carruagem real, humilhando o casal de princípes no dia de seu casamento - devido às ligações do princípe com o nazismo na Segunda Guerra. Elegeram um vereador e zombaram do poder, pois De Vris assumiu arrotando descalço em seu primeiro discurso (eles mal sabiam o que fazer com o cargo, queriam apenas esvaziá-lo de sentido). Planejaram comunidades nômades antes que os hippies se reunissem em seus acampamentos.

Por fim, em 1967 os provos conquistam alguns de seus principais objetivos. A própria Coroa holandesa, depois de perceber que a repressão policial não surtia efeito - os provos, numa atitude que Matheo Guarnaccia[4] diz ser possível apenas com uma espécie de fé em magia, resistiam pacificamente a pancadarias semanais em todos seus encontros - sentiu-se obrigada a rever sua intolerância. É devido à atuação desses jovens que hoje Amsterdam conta com zonas em que o consumo de drogas é legalizado. Também podemos contar como vitória dos provos uma maior tolerância para as questões racias e feministas em sua cidade e, por boa parte da sociedade holandesa, a aceitação da liberação sexual, além do fim da apreensão de jornais de mídia underground, ou seja, liberdade de expressão.

Em 13 de maio de 1967 Provos dissolve-se em festa, por estarem “cansados de bancar a entidade oficial de provocação” e para não se tornarem previsíveis, ainda que muitos de seus membros continuassem a atuar em transformações da sociedade, porém de outras maneiras. Um dos destinos mais comuns de ex-provos foi ingressar em lutas por causas ambientais, sendo alguns de seus ex-membros fundadores do Greenpeace.

Cultura hippie

Devido a efervescência e à eficácia das ações desses jovens holandeses, alguns jornalistas underground de são Francisco souberam o que estava acontecendo por lá, e propuseram que se fizesse algo semelhante, como se pode ler em um artigo do San Francisco Oracle entitulado “Provos sim, ianques não”:

“A cidade de Amsterdam está coberta de círculos da paz do CND e de desenhos de uma maçã de ponta-cabeça, que é o emblema dos Provos, os Joõezinhos, sementes de maçã de nossa época. Um dos meios mais poderosos de influenciar as pessoas é semear, por meio da imagem, as sementes de outro modo de vida.

(...) É preciso ocupar os cruzamentos das artérias mais transitadas não para protestar contra a discriminação, mas contra os próprios cruzamentos. Legiões de jovens cantando no meio das ruas nas horas do rush e usando as ruas para a única coisa para a qual poderiam servir: dançar.

Temos de nos reunir nos parques e em volta das estátuas, porque nos pertencem. Temos de espalhar o verde pela cidade toda, tornar a dar vida às cidades, renovar os seres humanos”.

Expandindo pouco a pouco sem um nome e um rumo definidos, a partir de 1967 o movimento hippie explode como moda, impulsionado por músicos como os Beatles - cujo disco Sargent Peppers mostrou uma nova fase do quarteto, inspirados pelo uso de ácido. John Lennon e Paul McCartney cantavam sobre um céu de marmelada e uma garota de olhos caleidoscópicos; Pink Floyd criava longas trilhas sonoras para viagens alucinógenas; Jim Morrison dos Doors se proclamava o Rei Lagarto, conquistando uma multidão de fãs com sua atitude rebelde; Jimi Hendrix transmitia com sua guitarra dissonante a angústia dos excluídos; Frank Zappa levava arte e política ao palco em canções sarcásticas e imprevisíveis. Os shows de rock eram verdadeiros eventos catárticos. O rock, ao menos em sua melhor forma, representa uma vontade de ruptura, de inconformismo, renovação, que era o que estava acontecendo no momento.

Em 1968 os quadrinhos de Robert Crumb chegam ao público, junto com outros desenhistas que compunham a revista Zat. O formato quadrinhos foi bem recebido pela juventude. Era algo que se opunha à tradição, à geração dos pais, e de fato o movimento hippie não contava com muitos talentos na prosa comum. Lia-se alguns autores mais velhos, como os beatnicks, Herman Hesse, Paul Goodman, e livros teóricos como os de Marcuse, os primeiros de Marx - considerados mais humanistas que “O Capital”. No entanto os quadrinhos underground supriram uma certa lacuna de autores literários, pois dificilmente alguém conseguia representar essa geração nos moldes dos livros tradicionais. O gato Fritz, personagem de Crumb, se popularizou facilmente, e a contracultura se sentiu representada em suas histórias, que sempre contavam com celebrações das drogas e do sexo. Contraditoriamente, havia muita violência da parte do personagem, ao passo que os hippies de modo geral pregavam a paz. No entanto, os abusos do gato - que em suas aventuras não tem escrupúlos em estuprar ou se aproveitar de amigos - provavelmente foram encarados como liberdade de expressão, pois o Comics Code americano era extremamente rígido, e os quadrinistas da época se orgulhavam de ultrapassar todos os limites.

Além de Robert Crumb, um desenhista que ganhou grande popularidade entre os jovens foi Rick Griffin. De inspiração psicodélica, esmerando-se em um acabamento que tende a efeitos ópticos de vibração, Griffin criava posteres apreciados por surfistas e por usuários de LSD. Nos quadrinhos, criava muitas vezes sequências semelhantes a viagens lisérgicas.

A contracultura tinha portanto nos quadrinhos sua narrativa e expressão gráfica, nas roupas coloridas e psicodélicas seu vestuário, no rock sua música, em Marcuse e no jovem Marx direcionamentos políticos, e como religião tinham o zen-budismo.

Para a maior parte dos adeptos, o zen-budismo dessa geração não era algo apreendido com rigor e profundidade. Apesar de muitos dos jovens, na maioria norte-americanos, terem viajado para o Oriente em busca de um aprendizado direto, a maioria bebeu de fontes muito mais pop. A maioria extraiu seu budismo de literatura como Dharma Bum de Jack Kerouac, e de programas de tevê como, nos Estados Unidos, o de Alan Wats - um estudioso sério das religiões orientais, que no entanto traduzia a filosofia zen para moldes estritamente ocidentais.

De qualquer maneira, nos diz muito sobre a mentalidade da época o modo como Kerouac descreve suas lições zen. Em Dharma Bums o personagem Japhy Ryder transmitia a Alvah Goldbook, nome ficitício para Allen Ginsberg:

“Você deveria casar e ter filhos mestiços, manuscritos, cobertores feitos em casa e leite materno sobre o seu tatame alegre e esfarrapado como este aqui. Arrume uma cabana para morar no mato não muito longe da cidade, gaste pouco para viver, enlouqueça em um bar de vez em quando, escreva e caminhe pelas montanhas e aprenda a serrar tábuas e converse com velhinhas, seu grande tolo, carregue muita madeira para elas, bata palmas em altares, consiga favores sobrenaturais, faça aulas de arranjos florais e plante crisântemos ao lado da porta.”

Contracultura e arte

O momento era, portanto, de renovação, de intenso questionamento de antigos valores postos em prática, de uma utopia compartilhada por muitos de que se podia melhorar o mundo. Algo semelhante ao que acontecia entre jovens estudantes de cabelos longos e batas indianas se pasava no círculo da arte. Cada vertente tinha um programa, todos na esperança de que a arte pudesse interfirir na realidade. A arte povera trazia a natureza para as galerias, utilizava objetos simples como resposta ao consumismo e ao artificialismo. O minimalismo refletia uma filosofia muito próxima à do budismo, com a procura do extâse na simplicidade. O grupo Fluxus interagia diretamente com a sociedade, pensando questões políticas dentro de uma expressão que ultrapassava mídias convencionais. E foram inúmeros os artistas que questionaram a instituição dos museus, de maneira análoga aos jovens contestando seus pais, e abordaram questões como o feminismo, o racismo, a alienação, pensando o mundo e levantando propostas.

Desde o fim dos anos 50, Alan Kaprow vinha buscando uma maneira de se pensar e fazer arte que fosse equivalente à vida. A mesma postura fora defendida pelos dadaístas, pelos futuristas, construtivistas e surrealistas, no entanto ocorria uma retomada após décadas em que essas questões não eram consideradas a fundo. Alan Kaprow não desejava visitantes para suas obras, mas participantes ativos. Evidentemente, o mesmo se pode dizer de Hélio Oiticica com os Parangolés e Lygia Clark com os Bichos. Aliás, o próprio visual adotado por esses artistas deve muito aos hippies.

Kaprow considerava que o padrão de deslocamento dos carrinhos em um supermercado pode ser tão interessante quanto qualquer obra de arte. Além de muitas performances em que orientava os participantes a sentirem o ambiente e os próprios gestos, realizou um trabalho singelo, chamado “Trading dirt”. O trabalho consistia em sair pelas ruas com um pequeno balde de terra, pedindo aos passantes que trocassem de terra com ele. Creio que nesse caso só se trata de uma obra de arte quando o passante a considera como tal - quando ele, e não só o artista, obtém uma percepção diferenciada de si mesmo e da realidade. Contudo, inclusive por esse motivo, temos uma nova atitude artística, em que o espectador torna-se parte fundamental da obra, assim como o Parangolé não acontece sem quem o vista, e o Bicho é só uma peça morta se não for manuseado, que é para o que foi feito.

Assistindo aos shows de Frank Zappa, um músico cuja importância transcende o âmbito do rock, percebemos que ele estava a par das questões que artistas como estes traziam. Pessoas da platéia chamavam sua atenção o tempo todo, e ele se permitia interromper um discurso para ouvi-las, receber presentes, beijar-lhes na boca. Era comum ele convidar os espectadores para que subissem ao palco e participassem de pequenas performances, ou simplesmente para dançarem à vontade. Sua atuação ia muito além do que se espera de um músico, sendo que ele se valia da atenção recebida para discutir comportamento, política, contar histórias, sempre empregando comentários agudamente sarcásticos. Também recorria a elementos visuais e teatrais como o uso de máscaras, indumentária andrógena e objetos como uma boneca inflável, um carro de polícia de brinquedo, ou um poodle de pelúcia com o qual simulava sexo oral[5]. Frank Zappa é um bom exemplo de um artista que soube fundir variadas formas de expressão artísticas, e essas com a vida.

Também Joseph Beuys tinha essa intenção. Aliás, podemos dizer que sua persona se tornou parte mesmo de suas obras, tornando-se difícil distinguir a pessoa do artista, se é que isso é possível. Talvez sua presença física, junto com as referências que seu conhecido passado evocam, seja realmente importante para o significado de seus trabalhos. O fato é que ele encarna uma espécie de xamã, e a construção de seu mito pessoal, de um homem que esteve próximo à morte e se recuperou com o auxílio da sabedoria primitiva, colabora para que o aceitemos como uma ponte entre nossa cultura civilizada e outras que nos parecem misteriosas.

Na sua performance Coiote, Beuys reunia objetos de imaginário cristão, como o manto de pastor e o cajado, colocando-os em diálogo com o coiote, símbolo da cultura nativa norte-americana e do mundo animal. O coiote vivo, deslocado de seu habitat, por um lado entrava num espaço humano, e por outro obrigava o artista a entrar em sintonia com sua própria esfera animal. Nos movimentos de Beuys, nas pequenas alusões que os objetos em cena proporcionavam - um triângulo, um disparador de flash interpretado como energia, o cajado - havia intencionalmente uma retomada do xamanismo, do ritualismo de povos tribais. E mesmo isso pode se relacionar com a ênfase que se coloca na sua presença enquanto Joseph Beuys em pessoa.

Como escreve Theodore Roszak: “Xamã, a primeira figura a se impor na sociedade humana como personalidade individual”. E mais adiante: “É provável que os primeiros esforços humanos na arte pictórica fossem obra dos xamãs, praticando uma estranha magia gráfica”. O xamã é responsável por equilibrar as relações entre os homens da tribo e os deuses ou os mortos. Sua importância é tanto social, como cultural, religiosa e política, e foi louvado pela contracultura como uma resposta ao racionalismo – que, associado à tecnocracia, era considerado responsável pelos males ocidentais.

Um evento muito curioso ocorrido em 1967 nos mostra como era inusual a maneira de se protestar e tentar mudar o mundo nessa época. Em 21 de outubro houve uma grande manifestação diante do Pentágono. Grande parte da multidão era formada por estudantes pacifistas, e muitas mães certamente engrossavam a passeata, no entanto boa parte dos presentes tentavam realizar uma “revolução mística”. Para “exorcisar” o Pentágono, reuniram-se muitos homens que se consideravam bruxos, cada um munido de seu amuleto, todos de cabelos compridos e proferindo “palavras poderosas” na tentativa de fazer levitar a enorme estrutura. Acreditaram realmente que poderiam fazê-lo. John Lenon ainda não havia cantado que o sonho acabou.

Menos uma crítica do que uma constatação, é preciso reconhecer algumas tendências infantistas no movimento. Não desmerecendo o quanto eles foram corajosos em rejeitar os confortos consumistas, muitas vezes abandonando o lar de seus pais e viajando para regiões mais inóspitas, deve-se ter em vista que a revolta desses jovens nasce de uma profunda recusa em se inserir no mundo adulto. A grande parte tinha sua origem na classe média, e, nos Estados Unidos, onde o movimento teve maior adesão, tratava-se de uma geração que cresceu nos anos dourados. A classe média norte-americana pôde dar aos seus filhos o luxo de prolongarem uma relativa falta de responsabilidade, sendo comum que os jovens estudassem nas universidades sem se procupar com trabalho por alguns anos. Tendo sido criados com zelo pelas mães, e sob moldes educacionais relativamente humanistas, muitos dos adolescentes não se sentiam adaptados à rigidez com que o mais capitalista de todos os países recebe seus trabalhadores.

Não vem ao caso julgar moralmente esses jovens, dizendo que eram vagabundos e preguiçosos, afinal havia muita hipocrisia na sociedade contra a qual preferiram se rebelar. Também seria se fechar para o questionamento dizer que todos deveriam se submeter à ordem do trabalho tal como ela se impõe, não importando se as condições são desumanas ou não. Contudo, se localizamos na rebeldia hippie uma certa imaturidade, devemos estar atentos para em que outros pontos ela se manifesta. A ingenuidade estava no próprio imaginário hippie, plena de fugas para mundos mágicos, influenciadas por literatura de fantasia como “Senhor do Anéis” e por viagens alucinógenas alçadas à categoria de religião; e mesmo na falta de coesão política com que os protestos eram feitos; ou na rejeição de mero sinal contrário a qualquer sabedoria que a geração dos seus pais pudesse emprestar aos propósitos que eles mesmos buscavam - tudo isto explica muitos dos fracassos que vieram com o passar de poucos anos.

De qualquer modo, foi um período de utopia. Adaptando Jesus Cristo a seu característico hedonismo, propunham o amor contra a guerra, e simples flores contra a repressão. Talvez tenham esperado demais da bondade humana, e inclusive por parte deles mesmos. O ser humano é complexo demais para que se desconsidere poder, dinheiro, ódio, cíumes, inveja. É preciso buscar a superação do lado negativo, porém jamais ignorá-lo. Talvez por isso, o movimento punk tenha surgido na década seguinte como uma reação aos hippies.

Nos Estados Unidos, onde o punk surgiu nos clubes noturnos de rock, constatou-se em inúmeros depoimentos que os primeiros punks sentiam uma verdadeira aversão ao excesso de “positividade” que os hippies propagavam. Afirmaram ser esse um dos motivos de terem buscado um modo de vida alternativo que em muitos pontos era o oposto do "flower power". Ou seja, por mais que também contestassem a sociedade em que estavam inseridos, eles jamais poderiam se sentir abarcados pela utopia hippie, que desconsiderava um lado amargo e humano que o movimento punk não quis deixar de expressar.

Talvez, se refletirmos um pouco, os momentos mais radicais da body art possam ser vistos como fenômenos de uma causa semelhante. Surgida ainda nos anos 60, a body art estava em conjunção com as curiosidades que o corpo suscitava em toda aquela geração, uma descoberta do corpo como área ainda não totalmente explorada. Podemos observar nos registros de Woodstock as pessoas tomando banho nuas no lago, atirando-se na lama[6], experimentando drogas lisérgicas, fazendo exercícios respiratórios que levam a alucinações. Celebrava-se o corpo através de uma revolta hedonista. No entanto, merece um segundo olhar o sofrimento dos que levaram as experiências corporais a limites dolorosos. Muitos sofriam sequelas pelo uso das drogas, morriam de overdose, ou apenas sofriam lancinantes cíumes ao aceitar mas não se adaptar ao amor livre. E outros simplesmente sentiram que as experiências com o corpo deveriam ir o mais longe possível. Será acaso que atitudes como as mutilações de Gena Pane tenham se manifestado numa época em que os limites estavam incertos como nunca? Quando os artistas da body art se perfuram, se chocam contra paredes, masturbam-se em público, não estarão eles, em dissonância com a utopia hippie, antecipando a angústia punk?

Fato é que o movimento punk, em seu início - por volta de 1976 - foi mais turbulento, agressivo e mesmo fisicamente mais violento que o dos hippies. Havia uma vontade generalizada de destruição, demonstrando a impossilidade dos ideais hippies de atingir a todos. Que nem todo o mundo se converteria à paz, no entanto, era esperado, e se decepcionou os profetas da revolução do amor foi somente porque eles não compreenderam a totalidade do espírito humano. Isto fica evidente na postura de John Lennon - após participar ativamente em campanhas pela paz, inclusive através de performances com Yoko Ono - de afirmar em 1971 que o sonho acabou. Tal declaração parece provir em boa parte de seu cansaço natural - sendo que o mesmo ocorreu espontaneamente em muitos outros de sua geração.

Sob o ponto de vista da maturidade, nos parece claro que a arte erudita da mesma época esteve em vantagem intelectual, embora não necessariamente fosse mais intensa. Os anos 60 continuam sendo uma referência fundamental para os artistas de hoje, e se as experiências nesse campo ultrapassaram o tempo é porque convenceram melhor os acadêmicos, com um poder retórico mais permanente. Não se pode, contudo, dizer precipitadamente que todos os artistas intelectuais estavam certos no modo como pensavam seus trabalhos, inclusive porque os programas divergiam e muitas vezes se opunham. Enquanto muitos propunham a morte da arte, principalmente artistas conceituais, outros a exaltavam como algo sagrado. Enquanto a land art levava a ordem humana à natureza distante, a arte povera descarregava a mesma natureza, indomada, dentro das galerias. Enquanto os minimalistas defendiam a busca por formas sucintas, Rauschenberg persistia na combinação caótica de imagens postas em choque.

Ao fim das contas, por mais que o mundo de hoje não se pareça muito com a efervescência da década de sessenta, não podemos negar que vivemos o seu legado. Nesse caso, me parece que o movimento nas ruas, que a força que encontramos somente em um movimento de massa, foi mais transformador que a arte restrita aos conhecedores. A grande revolução cultural do período não respondia pelo nome de nenhum movimento artístico, tendo sido uma manifestação popular. Talvez a arte erudita tenha lançado algumas sementes, aliás desde o dadaísmo, que foram absorvidas pelos jovens rebeldes, popularizadas por eles, disseminando alguns ideais que os artistas quiseram transmitir. Na verdade é muito difícil, quase impossível, avaliar o impacto das artes plásticas, produções individuais, como potencial mobilizador para as massas, organizações coletivas. Aliás, a arte não é capaz de transformar o mundo, mas sim os indivíduos, um por um.

Enfim, se o sonho acabou, temos de reconhecer que algumas vitórias se conquistaram em consequência da agitação daquelas anos. Não se pode negar que a contracultura foi decisiva para a posição de quase igualdade que a mulher adquiriu hoje, para a quebra do hipócrita tabu de se casar virgem, para um grande avanço nas questões das minorias raciais (ainda falta muito, porém alguns passos se deram), e para a conquista de uma relativa liberdade de expressão. O movimento hippie realizou na prática o ideal de se unir arte e vida, e demonstrou uma maneira lúdica de se revoltar, de protestar. Continuamos vivendo num mundo cada vez mais tecnocrático e consumista, exatamente aquilo contra o que os jovens de então se rebeleram - e muitas vezes os mesmos hippies de ontem tornaram-se típicos conservadores - no entanto o que aconteceu naquela época persiste como um momento histórico de revolução a partir da cultura e continua a nos ensinar.



[1] Em “A contracultura - Reflexões sobre a sociedade tecnocrática e a oposição juvenil.”

[2] As bicicletas brancas foram um plano contra a poluição do ambiente pelos carros. Consistia em espalhar bicicletas pintadas de branco por toda a cidade, que assim demarcadas se configurariam como transporte público gratuito. Ninguém seria proprietário dessas bicicletas, elas ficariam à disposição de quem precisasse. O plano foi levado a cabo, apesar de a polícia muitas vezes apreender essas bicicletas sem base legal, apenas por ser uma “atitude subversiva”.

[3] Grootveld criou uma “igreja anti-fumo”, em que toda semana realizava rituais performáticos, que tal como Joseph Beuys se alimentava de recursos tipicamente xamânicos - tanto é verdade que Grootveld, após a desaparição do Provos, passou a se considerar um xamã. Na igreja anti-fumo, as apropriações xamânicas tinham uma conotação a princípio irônicas, como os mantras onomatopéicos (cof, cof, cof, cof), defumações e fórmulas mágicas contra os maus espíritos da dependência e do controle. No entanto, ao que parece Grootveld exercia sobre seus “seguidores” uma atração muito próxima à que a fé exerce, e se torna difícl dizer o quanto ele não supria uma necessidade religiosa.

[4] Provos - Amsterdam e o nascimento da contracultura

[5] Como no vídeo Baby Snakes, dirigido pelo próprio. Trata-se do registro de um show e seus bastidores em 1979, que ainda traziam os valores de dez anos antes.

[6] O contato com a lama, que se tornou um dos símbolos do evento, continha uma simbologia zen. Atirar-se à lama é como um ensinamento de humildade, e de que o nirvana almejado, o “vazio” que revelaria o mundo como ilusão, poderia ser atingido a partir do contato direto com coisas simples da natureza.

Fones de ouvido

Passeavam de mãos dadas, na praia. Ele queria muito mostrar a ela este lindo encontro de areia e mar, a léguas de qualquer cinza urbano, que era seu refúgio desde criança. Caminhavam devagar, os rostos próximos. De quando em quando paravam, trocavam beijos macios. A natureza estava esplêndida, com a luz do sol, forte, irradiando vida ao verde das folhas, o colorido das flores mais que nunca colorido, pássaros cortando o céu em vôo aberto. O walkman ligado, colado na orelha.

- Me empresta um fone, vai? Deixa eu ouvir o que você tá ouvindo.

Como de costume, ela preferiu a brincadeira. Disse um "Não" teimoso, inflando as bochechas. Moleca.

No rosto dela, naquele irretocável rosto de leite dela, suavidade e ternura. De uma perfeição tão delicada e harmonia tão justa que confundiam - seu jeito travesso, as pirraças que fazia. Era anjo afeito a diabruras.

Às vezes ele se pegava nuns instantes em que receava tocá-la ou beijá-la, como que temendo desmanchar, ela uma estátua de nuvem. Seis meses que namoravam, e ele ainda se surpreendia tomado por pequenos delírios, o angelical de sua beleza atingindo um tom quase sublime. Não sabia explicar se com determinada luz ou sombra, se de eventual expressão mais graciosa, se era ele que se emocionava - aconteceu mais de uma vez, durando o tempo de um lapso. Depois passava, ele se vingava da hesitação com beijos duas vezes mais lascivos.

Contornavam o mar abraçados, pele com pele e desejos.

Contagiava-o sua animação, toda risonha, carismática, admirada com tudo. Colhendo conchinhas na areia, afagando um cão que passava, conversando em voz doce. Seu maior talento talvez fosse uma habilidade especial para extrair de qualquer coisa uma leveza, com que sorrir, querendo nos fazer bem.

- A areia tá fofinha, não tá? Eu gosto quando ela faz cosquinha, faz "suiche suiche" debaixo dos pés... - e eram trejeitos, olhares, ternuras, somente seus.

A manhã de domingo. Amanheceu com sol, ele telefonou convidando para irem à praia. No entanto teve uma sensação estranha, uma intuição aguda e vaga. Ele tateava não sei o quê, algum disfarce por trás daquela voz aparentemente receptiva. Talvez uma indecisão, chegou a pensar que uma recusa, chegou a ter certeza disso. Ela disse sim, aceitou. Parecia alegre e disposta, sua entonação o indicava. Mesmo assim não se convencia, ainda havia alguma nuança, pouco perceptível, suspeitável. Poderia ser imaginação, era bem possível, mas como saber? Não era de sua personalidade esse tipo de insegurança, não agora com vinte e sete anos.

Ou será que ela, guardando algum mistério, mergulhava um pouco mais fundo em seus sentimentos do que as demais garotas até então? Se a insegurança estava nele ou nela era difícil dizer; sua sensibilidade estava confusa.

Por causa dos negros e envolventes olhos dela, sua pele branca, seu perfume único... Seus gestos, seus lábios, sua voz... Os dias corriam breves, a cada manhã uma maior saudade de alcançá-la.

Seus olhos não eram olhos. Eram imensos segredos brilhantes, profundos abismos incrustados na face. Algo se escondia por trás desse par sedutor, algo inatingível, longe. Ele a penetrava no sexo, mas será sempre barrado diante desses olhos negros. Imensos.

Ele a penetrava no sexo, preenchia, completava. Mas o que será que se passava na cabeça dela nos momentos? Em cada momento de sua vida - prazer, alegria, dor, fastio - da vida vivida juntos. Compartilhada, porém menos compartilhada que assistida, dois espectadores alheios. Porque não era o orgasmo que os tornava um só; nada é capaz de quebrar o invólucro dos corpos.

Prazer, alegria, dor, fastio.

Namoravam há algum tempo, a intimidade aumentava. Ele se satisfazia, sempre. E ela? Quando ia despi-la, notava uma certa timidez, uma hesitação, alguns segundos apenas. Mas suficientes para o fazerem ansioso. Não exatamente a cautela da primeira vez, que com frequência lembrava. Os dois envergonhados, ele também, acanhados nos dedos, os lábios tímidos, a expectativa resignada... Superaram logo, com a segurança de que o namoro iria além. No ato sexual ela se dedicava, era com carinho que o recebia à porta das sensações.

Mas é que... como dizer? Para ele não bastava ver o sorriso no rosto dela, e estarem suas mãos unidas. Era pouco, seu desejo ardia por mais. Queria sentir exatamente do mesmo modo que ela sentia. O sentimento exato, não o de duas pessoas próximas que se identificam - um ser só. Uma consciência só. Vez em quando ele diz que gostaria de experimentar o orgasmo do ponto de vista dela, invertido. Não um orgasmo feminino; o orgasmo dela.

- Que foi que cê tá me olhando desse jeito? - ela perguntou, entre risos. Fingiu um falso ar de preocupação, zombando docemente. Moveu então os lábios para dizer mais alguma coisa, dissimulou, preferiu cantar. Recolocou o fone e se deixou ouvindo música.

O braço dele a envolvia pela cintura, acolhedor. Olhando calado nos olhos, apreciando a delicadeza de seu rosto. Naquele instante desejou ser a um mesmo tempo a mão sua e a pele acariciada dela, e sentir ambos os toques simultâneos. Seria um consagrado êxtase.

“Esqueça” pensou, “é impossível”. Ah, se ao menos pudesse conhecer todas as miudezas do não-dito, dessas que se multiplicam incessáveis entre um casal... Se pudesse ler o que vai em sua cabeça. O que ela pensa a cada gesto seu, a dissonância entre o pensamento e a fala, que sensações ela tem quando se beijam, quando se tocam. Assim a teria muito mais do que se pode ter, eliminaria muito da distância inesgotável que os torna estranhos mesmo quando íntimos.

Seria paranóia? Mas nem mesmo o corpo se pode ter inteiro! Ao abraçar pela frente, por mais apertado que seja, deixa-se de abraçar pelas costas. E é por isso que pegava dela com tanto ímpeto, mais que um carinho uma vontade de envolvê-la inteira, englobá-la – e abraçava, trançava as pernas, apertava junto ao peito.

Pegou na sua mão, beijaram-se. Sentados de frente para o mar. O rumor trazendo e levando águas, enquanto seus dedos sulcavam buracos na areia. Alisava o solo, traçava marcas distraídas. Colhendo os grãos e deixando escorrerem.

Ele estava apaixonado? - quanto mais repetia a questão, mais a resposta lhe parecia sim. Apesar de não conseguir dizer em voz alta. Ele era um homem que gostava de dizer “eu te amo” - para as namoradas anteriores, sempre que houve sinceridade, sempre o disse. Gostava de dizer, não sentia vergonha em ser romântico - ao contrário, orgulho - com essas três palavras tornava-se um pouco menos mortal. Mas para ela, que despertava sentimentos tão novos, não ousava. Temeroso de ela não responder como esperava. Ou pior, respondesse, mas como saber se não estava mentindo?

O maldito walkman! Por que é que ela não desliga? Começava a irritá-lo. Deveriam estar conversando, rindo juntos, e ela se fazendo surda com esse maldito rádio na orelha! Pegou e atirou um punhado de areia para o lado. “Quem é você?” Talvez sejam essas as três palavras que ele nunca teria forças para pronunciar, entaladas à beira da boca. “Quem é você?” Mas não um interrogatório, ou análise. Não, ele queria a cumplicidade, uma união maior que nunca, um amor sem proporções. Mas ela teria de responder tudo, absolutamente tudo, desabar da memória desde a lembrança menos significativa à mais oculta e proibida. Cada sensação, pensamento e impressão contidos nela, e o mais que se vai carregando ao longo da vida. Para que pudesse ele nela vivê-la.

Do canto do olho, discreto, espreitou a brancura de seu rosto liso. E se ele dissesse agora, “Eu te amo”? Todas as letras, sem medo. Agora. Qual seria o exato timbre com que ressoariam na caixa craniana dela, as ondas sonoras traduzidas em sensação? Atadas a que impressões iriam ecoar essas calculadas palavras, sopradas de sua boca para o ouvido dela? De sua boca, para o ouvido dela.

Os fones de walkman, mais uma vez. Naquele instante o aparelho se tornava seu pior inimigo, fazia-se urgente combatê-lo. Os fones, símbolo desse isolamento, confirmando a fronteira entre as almas... Lá estava ela, cantarolando em voz baixa as notas da canção, balançando a cabeça sozinha. Transportada para aquela caixinha que trazia música só para ela, um ambiente só dela.

Ele investiu uma nova tentativa; optando pelo tom lúdico. Fingiu um ar severo, policial:

- Garota, acho que vou ter de confiscar seu aparelho. Posso ver sua habilitação para o porte?... Como eu suspeitava: está vencido.

Ela fez “Nããão” novamente, mostrou a língua. Ele insistiu, ela se divertia em negar todas as vezes, caprichosa.

Isso o aborreceu. Voltou à cena do telefone, ao pressentimento. Que mais ela escondia? Fechou a cara. Estava com sua namorada, a mulher que amava, e, no entanto, sentia-se só. Não porque a praia fosse deserta – era a praia de sua infância, povoada de recordações - não era o lugar, é que mal saberia dizer se a pessoa que o acompanhava estava mesmo ali.

Sua irritação se tornava visível, ela percebeu. Primeiro baixou os olhos, pensativa. Parou de cantar. Não queria magoá-lo, é que não esperava que ele ficasse assim triste. Só estava brincando. Estalou um beijo em sua nuca, soprou junto à orelha. E quando ele virou o rosto pôde ver que ela lhe oferecia o tão requisitado fone de ouvido.

Ele sorriu agradecido, realmente feliz. Muito feliz. Ela nunca saberá o quanto.