3.18.2009

De volta ao novo

Este deve ser um dos blogs mais imprevisíveis de toda a web. Um dia você encontra piadas idiotas, no outro um programa de tevê é comparado com alta literatura, e de repente surge um artigo como De volta ao novo, recém-saído no Cronópios. O mesmo homem que faz o Caderno de bobagens dispara um texto que nem os maiores dos pós-modernos poderiam refutar. Se eles acham que podem, que o tentem, mas na mão deles a arte estava morrendo, e eles mesmo diziam isto.

Meu pensamento sobre arte é dos mais sérios, nem por isso faço a figura do acadêmico sisudo. Personagem por personagem, o Dr. House, diagnosticista excêntrico, me cai melhor. Meus procedimentos são heterodoxos e meu comportamento talvez seja constrangedor, mas posso salvar um paciente à beira da morte. Onde os cautelosos vêm provocação, eu provo eficácia com intervenções cirúrgicas. Compreendo o que é preciso extirpar para que o todo sobreviva. Percebo que causo sofrimento, até mesmo a colegas próximos, mas aceito o risco de enfiar o bisturi quando ninguém mais tem coragem. Cada vez me sinto mais seguro de que eu estou certo, de que tenho apontado as causas do mal-estar. Ao notar que o paciente pode reagir, como notei na exposição do CCBB, meu humor melhora consideravelmente.

Daí as piadas. De arte contemporânea nem todo leitor deste blog entende, mas talvez possa imaginar um quadro de extrema neurastenia que esteja progredindo para a "morte do humor". Os artistas contaminados, que conheci às dezenas, geralmente tinham grande dificuldade de rir. É o sintoma secundário que completa o quadro: se a arte sucumbe, como é que a graça poderá resistir? Eu encontrei a arte em péssimo estado, só se pensava em sacrificá-la. Hoje, com alguns anos de experimentos inusitados, o que tenho a oferecer são o diagnóstico e a receita. Mas quem assiste House sabe que ainda resta um problema: nem sempre o doente quer se curar. Daí nosso humor ter seu lado cáustico, ainda que contenha sabedoria sobre a saúde.

3.16.2009

House, de David Shore



Dizem que heroína pode viciar na primeira dose, o que me leva a ficar longe dela, apesar de dizerem que não há Terra qualquer prazer comparável. Mas de House eu não escapei. Não faz muito tempo que tomei a primeira dose e já estou obcecado. O programa passa todos os dias na Universal às 20h e na Record quinta-feira à meia-noite. Trata-se de um médico mal-humorado e sádico, que não demonstra qualquer compaixão pelos pacientes ou respeito às regras do hospital. Em compensação, é brilhante como um Sherlock Holmes ao diagnosticar os casos clínicos mais enigmáticos. Sua equipe tem que aguentar diariamente suas tiradas sarcásticas, os pacientes passam pelos procedimentos mais invasivos, e mesmo assim, talvez protoganize o que há de mais humanista na televisão. As situações vão ao limite, porque também o espectador precisa de procedimentos radicais, precisa que a agulha penetre o coração e que os neurônios se rearranjem.

Dr. House é o personagem mais complexo que já se criou para a televisão, pois somente ao longo de muitos episódios conseguimos notar o mínimo de afeto que ele tem pelos demais. Misantrópico, escapando da depressão pelo brilhante humor sarcástico e pelos desafios intelectuais, ele tenta a seu modo vencer as dificuldades que tem para sentir algo pelas pessoas, para se importar até mesmo com seus colegas mais próximos. Em um dos episódios, Foreman, seu braço direito, se infectou em serviço, e, mesmo próximo de sucumbir, aparentemente não arrancava o chefe de sua frieza racional. Por mais que já esteja no senso comum a figura do médico como alguém cujo olhar é excessivamente técnico, impassível diante do sofrimento alheio, a anestesia moral do protagonista pode ser chocante. Ele não hesita ao sacrificar um recém-nascido, desde que com isso possa diagnosticar outros. O médico e o monstro são uma pessoa só, no entanto ele salva vidas, o que põe qualquer julgamento sobre seu cárater em suspensão. Com um vigor filosófico mais comum em Sartre do que na tevê, abundam as situações em que é a própria agressividade que permite à mente dissecar os problemas, ir à raiz, e encontrar a cura.

É nos detalhes sórdidos que muitas vezes o diagnosticista encontra a chave para os maiores quebra-cabeças. O detetive pressiona cada paciente até as lágrimas para extrair informações relevantes, beirando a tortura para se certificar que o paciente não está escondendo nada. "Todo mundo mente", inclusive para si mesmo, como os histéricos, criando falsos sintomas e mantendo em segredo o que realmente corrói os órgãos. Ao perceber que é preciso ir além do que se mostra, o espectador vai, aos poucos, delineando a luta entre vida e morte que agita o doutor. Uma bengala é o apoio para a perna doente que o atormenta com dor constante, mas sua luta é menos física do que existencial. O que lhe acomete é a náusea da falta de sentido, é o tédio diante das convenções sociais que tornam qualquer vida uma questão meramente estatística. House sofre o efeito colateral do excesso de inteligência, o desencanto de quem atravessa a superfície dos homens, tanto as vísceras quanto o cérebro. A investigação nos torna mais aptos a encontrar a cura, no entanto precisamos de antídotos para que a inteligência mesma não nos torne catatônicos. O que sustenta a série há mais de cinco anos não é o diagnóstico de cada paciente do hospital, que, por complexo que seja, a equipe resolve em algumas horas ou dias. É a tarefa, muito mais difícil, de arrancar o próprio Dr. House de sua beligerência contra a vida. Uma mais ampla noção de saúde.

Com David Shore, roteirista da série, podemos flexibilizar a hierarquia costumeira que coloca os livros sempre acima dos programas de televisão. Enquanto meio, a tevê não é necessariamente mais limitada que o cinema, que também pode ter o foco na audiência ou na qualidade. Embora na imensa maioria das vezes o foco esteja na audiência, Shore se confessa impresionado com a não-interferência dos produtores sobre seu programa. De fato se nota que ele tem grande liberdade para ousar e fazer de House uma série surpreendemente autoral. O personagem pode causar inveja a qualquer escritor que lhe preste atenção, os diálogos são polifônicos a ponto de nos lembrar de Dostoievski, a trama é ágil e captura. Há em David Shore uma inteligência de quem não se limita às fórmulas fáceis, não importa o veículo em que trabalhe.

Impressionado eu fico ao constatar que um programa tão dilacerante tem sido a série mais assistida. Um programa que vai além do entretenimento fácil, que exige cérebro e estômago do espectador, que o obriga a formular algo em vez de apenas absorver passivamente. Não passa de academicismo insistir que o feito não seja possível, se já temos o prognóstico, e é positivo. Neil Gaiman fez algo semelhante nos quadrinhos, e Matt Groening nos desenhos animados. David Shore conseguiu se infiltrar na cultura de massas e proporcionar a uma imensa multidão algo de que ela é carente, que podemos chamar de arte.

3.02.2009

Caderno de bobagens - 1

Um dos maiores perigos de todo intelectual "sério" é cair no politicamente correto. Como antídoto, decidi resgatar um caderno de juventude, em que eu anotava as piadas infames que eu e meus amigos inventávamos. Até que rendeu um caderno grosso, que gostei tanto de reler que, de tempos em tempos, vou reproduzir aqui. Vou começar com uma "música de abertura", que eu cantava sempre que estava bêbado e feliz, cambaleando com os amigos pelas ruas:

Quanta besteira
Aí, quanta besteira
Quanto besteira
Aí, planto bananeira

Yo soy un hombre sin cerebro
No sé bater palma
Yo soy un hombre sin cerebro
No sé bater palma
Y antes de morir yo quiero
Encuentrar una alma

Quanta besteira
Aí, planto bananeira

(Experimente cantar no ritmo de Guantanamera)

Caderno de bobagens - 2

Texto de 2004:

Deu pra perceber que o mercado de moleques lavando vidro de carro foi totalmente superado pela nova onda de malabarismo no semáforo.
Imagino que tenha havido reuniões, MBAs e palestras:
- Meu amigo, você tem que perceber que o mercado do rodinho, lavar carro, já era. Talvez dure mais dois ou três meses, mas tá obsoleto. Se você quiser se preparar para os novos tempos, invista na carreira do malabarismo, que é a profissão do futuro. E outra coisa. Quem sobe no ônibus dizendo que um filho tá doente, o outro tá passando fome, ou que tá contaminado com AIDS não pega mais. Acabou, não dá mais lucro, o público precisa de novidade. O empreendimento mais garantido nos ônibus é a venda de chocolates. Vocês precisam acompanhar as mudanças.

Caderno de bobagens - 3

Minha versão para Sampa. Por nada não, mas eu conheço a cidade melhor que o Caetano.

Alguma coisa acontece em meu coração
Que só quando tusso contaminado por toda essa poluição
É que quando eu cheguei por aqui eu quase morri

A aguda buzina aberta a cada esquina
A violência escrota de duas quadrilhas

Ainda não havia para mim bronquite
Nem a safena da operação

Alguma coisa acontece no meu coração
Que só quando vejo a 12 de um ladrão