12.11.2008

Imagens de Puro Enquanto


Meu próximo romance, "Puro enquanto", já está na editora há algum tempo. Agora é com o pessoal da Annablume, não sei quanto eles levam para resolver a papelada e mandar para a gráfica... Eu queria lançar ainda este ano, mas no momento, o máximo que posso fazer é mostrar algumas imagens para vocês. Estão no meu novíssimo Flickr, é só clicar.

Os títulos das pinturas se referem sempre a um trecho do livro. É um bom jeito de obrigar os malditos especialistas a considerarem o contexto que eu estou criando, em vez do contexto deprimente da arte contemporânea, onde a pintura está sempre à beira da morte. Não tenho problemas em admitir que escrevo melhor do que pinto, por outro lado, a tabelinha que estou fazendo entre minha pintura e minhas palavras é afinada o bastante para resolver certos impasses da arte contemporânea. Há muitos pintores melhores do que eu, mas os detratores são tão obstinados que nem mesmo a reencarnação de Miró bastaria para tirar a pintura do mal-estar em que se encontra no atual panorama.



Eu quase desisti das artes plásticas, não escondo que me sinto melhor entre escritores do que entre artistas visuais. Felizmente ou infelizmente, entendi que não poderia fugir da briga: ao escrever "Puro enquanto", ficou claro que o livro não funcionaria se eu empregasse apenas a linguagem verbal. O próprio ritmo do livro pedia por algumas interrupções no fluxo de pensamento, intervalos significativos, que só as imagens poderiam criar. Terminado o livro, vi que, tanto quanto meus artigos mais "militantes", ele é uma ótima prova de que a pintura ainda é necessária, impossível de se substituir. Não é imodéstia dizer que emprego as palavras com muito mais radicalidade do que os artistas conceituais, e em "Puro enquanto" isto fica tão evidente quanto o corolário: a linguagem verbal e a linguagem não-verbal se complementam, não podendo uma eclipsar a outra. Mesmo que se vá ao limite da fala ou da escrita, ainda há uma sede pela imagem que a arte conceitual jamais poderá aplacar.

11.24.2008

Enfrentando o vazio

O vazio da Bienal, podemos dizer, é o vazio do interior de uma bolha. Uma bolha que se agigantou no afã de abarcar tudo, de se infiltrar em todo tipo de ação humana. Da mesma maneira que o mercado financeiro entrou em crise pelos excessos neoliberais, a bolha na arte se mostra prestes a estourar devido a um semelhante laissez-faire. Já temos sinais de que uma crise vá influir na outra, de que os preços dos leilões de arte se tornarão mais modestos, e que os colecionadores pensarão melhor antes de patrocinar qualquer capricho. Porém, se refletirmos apenas sobre os aspectos econômicos, a arte continuará a ser mero jogo da elite, flutuando de acordo com a demanda. A tal ponto o problema é complicado que ainda parece incerto se a intenção de Rafael Augustaitiz, ex-estudante de arte que invadiu o pavilhão com quarenta pichadores, seria o de pertencer ao interior da bolha, ou se ele já procura perfurar a membrana e forçar a explosão. Desde os anos 60, quem queira entrar para o alto circuito de arte dificilmente se arrisca a pintar uma tela, podendo ser mais vantajoso, até mesmo financeiramente, realizar uma ação radical do que batalhar com as tintas. A principal diferença entre a arte moderna e a arte que se designa pós-moderna é que a segunda tende a se restringir ao campo expandido, desprezando o campo metafórico que as cores propiciam em uma tela. Até mesmo uma pintura abstrata é considerada ilusória demais para o pensamento que hoje domina, pois as cores criam tensões e variações de profundidade que vão além da mera materialidade. A ilusão passou a ser considerada reacionária, algo que merece ser destruído – assim como se deve destruir qualquer fronteira entre o espaço da vida e o da arte. Explica-se assim o por que de não haver uma única pintura nessa edição da Bienal, onde a destruição da arte acontece mesmo sem a intervenção de pichadores.


Ironicamente, se a pintura não pode mais ser arte, qualquer anúncio de que não é arte nada do que costumamos chamar de arte pode ser considerado uma obra avançada. É o que vemos, por exemplo, em uma instalação onde falsificações de dezenas de obras consagradas se amontoam ao lado de seus pedidos por escrito, sugerindo que seja falso até mesmo o desejo de se ver uma pintura significativa. É na constante frustração de desejos como esse que muitos dos artistas selecionados se engajam. Ao lado dessa beligerante instalação, vemos um enorme painel com o livro “O estrangeiro”, de Camus, onde todas suas palavras são recortadas e dispostas em ordem alfabética. Em entrevista, a artista diz ter escolhido o livro por apreciá-lo, mas não é difícil perceber o quanto há de inveja nessa dissecação e ordenação – na aniquilação ou controle de uma fruição que seria bem mais potente com o livro em sua integridade. Em vez de um livro dilacerante, temos um livro dilacerado, muito aquém do que poderia provocar no leitor.
Do outro lado do pavilhão – começamos pelo último andar da exposição – temos duas das poucas obras que apostam na ilusão. O vídeo de Eija Liisa-Ahtila, que aborda a loucura com uma estranha suavidade, e as instigantes gravuras de Leya Mira Brander, cujo discurso sustenta um otimismo em relação à imagem que quase não se ouve mais. Para quem compreende que obras como essas, ainda que não se valham do mesmo poder retórico, são mais complexas do que a produção tipicamente contemporânea, a proposta de “morte da arte” só pode soar rancorosa. A diplomacia costuma reinar tanto na disposição do espaço quanto nas conversas de vernissage, porém por trás das aparências a briga é feia: os pós-modernos insistem no boicote ao espaço ilusório, ao passo que, contra a corrente, alguns poucos conseguem demonstrar que isso não é possível nem vantajoso. O caráter panorâmico de toda grande coletiva faz com que coabitem o mesmo espaço rivais que se ameaçam de morte. Vazio é quem acredita que esse conflito não acarreta abalos ainda maiores. Nesse contexto, o ataque de Rafael e seu grupo Pixação, consideremo-nos artistas ou vândalos, demonstram muito claramente a tensão que está em jogo.
Desçamos do andar superior para o primeiro piso. Caminhando pela arquitetura modernista de Niemeyer, avistamos o vazio e prosseguimos. Vamos nos lembrando que, desde o urinol de Duchamp, qualquer objeto, situação, informação ou sugestão que se insira em um espaço artístico, pode ser considerado arte. Seja um cachorro doente, seja um aperto de mão, seja um anúncio publicitário, uma aula de geopolítica ou a oferta de um copo d’água. É importante esclarecer que, na maior parte das vezes pueris, esses procedimentos não fazem jus ao legado de Duchamp. O artista francês disse com todas as letras que deveria restringir esses deslocamentos a um número muito reduzido – não tendo ele realizado mais do que vinte ao longo de décadas – pois do contrário perderiam o sentido. Desrespeitando o próprio inventor do jogo, muitos dos artistas selecionados levam o truque ao extremo – não é tão difícil uma vez que se aprende – com conseqüências as mais elitistas.
Há jornalistas cobrindo a Bienal, parte deles contratados para publicação interna. No entanto, há artistas fazendo o mesmo trabalho, sendo o único diferencial o status de sua profissão. A cobertura dos artistas poderia ter a mesma qualidade, o mesmo conteúdo e o mesmo foco que o trabalho dos jornalistas – não é o que vai impresso que os diferencia, assim como a caixa de sabão em pó de Andy Warhol era idêntica à das estantes dos supermercados. O Brillo Box de Warhol exauria-se em si mesmo, mas o procedimento não mudou tanto dos anos 60 para cá. Próxima às catracas da entrada, avistamos uma antiga prensa, trabalhando ruidosamente. A máquina é bonita, antiga, mas não é ela a obra. A proposta do artista é recolher perguntas e respostas de qualquer assunto levantado pelos visitantes e reunir em livretos que são distribuídos aos participantes. Basta ler algumas linhas para se perceber que não há qualquer avanço em relação à Wikipedia. Na verdade, há um recuo, pois a Wikipedia é mais dinâmica, tem acesso mais amplo e não faz de seu idealizador um novo “artista”. A prensa da instalação, por antiga que seja, funciona bem, é o pensamento que está obsoleto: uma obra espaçosa demais, que não reconhece as possibilidades de nosso tempo.
À lógica do deslocamento se alia a um discurso que prega o fim de qualquer separação entre vida e arte – seria essa a proclamada “morte da arte”. Em vez de se produzir campos ilusionistas, passar-se-ia a olhar para a vida como se essa fosse uma obra artística. É por isso que um pichador com quatro anos de estudos na Faculdade de Belas Artes sente que sua transgressão deveria ser reconhecida pelos críticos e historiadores como obra de vanguarda. Se de fato não houver a menor distância entre espaços da vida e da arte, teremos que reconhecer que a ousadia de Rafael pode ser admirada com maior profundidade do que admiraríamos uma tela de Matisse. A mentalidade pós-moderna entende que uma pintura é apenas um objeto plano preenchido com tinta, podendo ser mais honroso para um artista subir e descer de um banquinho em uma performance assumidamente narcisista do que criar um objeto. Sendo assim, como dizer que os movimentos dos pichadores invadindo o prédio, dominando os muros e se desviando da polícia em rota de fuga não tenham sido um balé a se apreciar esteticamente? Por que Vito Acconci sim e Rafael Augustaitiz não? Apenas por que Rafael é contra a lei? Se contarmos com esse argumento, a censura determinará o que é arte muito antes de qualquer reflexão. Melhor seria questionar se a arte tem mesmo se aproximado da realidade, ou se a figura do artista não tem sido a de um demagogo com privilégios especiais. Há pessoas que não precisaram de muito mais que visitar algumas ONGs em São Paulo e anotar o trajeto em um mapa da cidade para participarem oficialmente da Bienal. O que elas fizeram que as tornam exemplos tão mais destacados do que os funcionários dessas mesmas ONGs, que não serão considerados artistas?
Dentro do paradigma que se formou na arte contemporânea, o pior assistente social pode, desde que capte o tom do discurso e aperte as mãos certas, ser considerado um artista de respeito. Também um militante mais subversivo, que enfrente o sistema e desafie a polícia, pode, se souber imitar a pose certa, ser aclamado como artista radical. O mesmo vale para jornalistas, cozinheiros, decoradores, etc. Um dos muitos problemas que esse paradigma gera é que jamais temos uma verdadeira fusão entre arte e vida, a despeito do que se proclama. Um crítico importante porém pouco lembrado, Harold Rosenberg, cansou de demonstrar que não é possível a fusão com a vida em qualquer contexto de arte. Nesses casos, o que se passa é sempre deslocamento, jamais integração. Para Rosenberg, os estudantes da Sorbonne de 68 uniram vida e arte, fizeram da política uma dança, mas somente porque a tessitura era a da vida. Estavam do lado de fora da bolha. Ele considera também que é pouco provável que se possa ser libertário na vida sem qualquer repertório de arte ilusionista, com a imaginação sempre presa à realidade, limitada à concretude. Tendo em vista um cenário amplo, só temos a lamentar que a arte venha cooptando manifestações marginais que pouco dizem respeito a suas particularidades. Tanto a arte como a vida perdem, pois ambas se artificializam: o rótulo se fazendo valer mais do que seu caráter.
Duchamp estava certo ao considerar que os deslocamentos deveriam ser limitados. Hugo Ball, fundador do dadaísmo, também entendia que “transformar o dadá em uma tendência artística é problema na certa.” Guy Debord percebeu que teria de abandonar o status de artista para atingir a realidade em cheio. Lygia Clark, preocupando-se mais com a cura do que com a performance, deixou de querer ser vista como artista ao se aprofundar na psicanálise. Aqueles que buscaram ir até o limite da equação arte-vida perceberam que há uma linha a partir da qual uma ação já não deve mais ser considerada arte. Não porque seja menos interessante do que arte, mas porque seria falseamento vê-la como tal. Essa linha não é rígida, nem facilmente visível, é como a superfície de uma bolha. Fazendo-a, inchar, cedo ou tarde ela explode. Não há como levar o mundo todo para seu interior. Nem há motivos para isso, pois há coisas que se tornam mais pungentes quando em outras esferas. O que não se pode é tomar uma bolha, devido ao formato esférico, pelo planeta, pois a arte não é maior que a vida.

10.20.2008

Entre o agora e o nunca

Prefácio de Puro Enquanto, por Yudith Rosenbaum.

O que ocorre durante o estado de coma de alguém que tentou se matar ao saber que foi traído?
É em torno desse núcleo, construído entre a vigília e o devaneio, que se organiza a trama de Puro Enquanto. O tema da traição, de tão longa tradição na literatura, ganha aqui um tratamento singular, visto pela perspectiva madura de um jovem autor, interessado em devassar o submundo das paixões, descortinar a nebulosa das convenções sociais, revelar – com uma linguagem cristalina e potente- o que se esconde sob o verniz da hipocrisia social.

Para isso, Hegenberg não poupa o leitor e o convoca a uma jornada multifocal: o sono acordado do protagonista é o plano onde se entrecruzam um narrador em terceira pessoa, que cede sua voz ao discurso indireto livre da personagem, marcando uma oscilação constante entre quem vive e quem conta. Ora o sujeito em coma é visto de fora (talvez por ele mesmo, travestido em narrador onisciente), ora por dentro, trazendo ao vivo sua mistura de sensações antagônicas, fantasmas, visões, insights.
Essa trama de vozes acaba por revelar um protagonista ressentido, fracassado, algumas vezes paranóico, agoniado de amor e ódio contidos. Dividido entre a paixão pela infiel Larissa e a amizade apaziguadora de Michele, ele relembra e funde cenas infantis e atuais, compondo um retrato duro e desencantado da vida urbana contemporânea, tocada por uma sensibilidade singular:

O bípede-homem passou o dia inteiro andando, agora precisa dormir. Desde que o sol se levantou até depois do início da noite, nada mais fez do que trabalhar e caminhar - por todas as ruas, pelos shoppings, comprando coisas, pagando contas, resolvendo problemas. Essa inepta matéria viva em forma de gente abusou das pernas, precisa do repouso, e por isso se aninha, encolhe os membros, para que a realidade externa se desacelere e permita um pouco da dulcíssima magia do sono. Sabedoria atávica do sono. A energia recomposta se aconchega como um segundo cobertor, e ele suspira, feliz como um gato ronronando.

Como se vê, não há apenas crueldade nesse narrador rejeitado pela volúvel Larissa, assediado por uma mãe lasciva (o aspecto incestuoso do romance é explícito) e um pai a quem dedica a sede de vingança. Também de indulgência e poeticidade se faz o olhar desse personagem, tão bem construído por Hegenberg. Aliás, a prosa tende ao poético a tal ponto que as frases discursivas vão perdendo referencialidade para assumirem a poesia como fundo primordial da narrativa:

Fogos de artifício são gritos coloridos para a cidade inteira ouvir
Uivos de lobos se harmonizam com a celebração
Os raios que rasgam ao vento são como veias mostrando que
mesmo no invisível circula sangue
O mar incrivelmente dourado
sereno como o mais límpido céu
O céu turbulento treme
como ondas marítimas em dia de fúria



O relato se compõe, também, em diálogo com a linguagem plástica - são pinturas do artista/escritor, entremeadas ao longo do enredo. Da abstração ao figurativo, as telas acompanham o emergir do sono à vigília. Palavra e imagem buscam espaço num mundo corrompido e ameaçador, onde o sujeito se encapsula para sobreviver. Na contramão de uma suposta ordem regrada da vida, violência e erotismo (mais fantasiados do que atuados) desagregam a face plácida das coisas. E para alertar-nos da atualidade desse universo fechado e sufocante, o texto se faz quase todo no presente do indicativo, “puro enquanto” de um tempo absoluto.

A prosa urbana de Hegenberg se mostra afiada, pulsante e promissora de um lugar forte na narrativa brasileira. Um romance para mostrar que Esta é a metrópole dos altos papelões enrugados. A noite jamais tem estrelas. Escuridão monocromática, apenas.


Aguardem. Agora só falta diagramar e imprimir - o tempo é curto, mas vou tentar lançar ainda este ano.

10.11.2008

Por uma arte mais potente

“Porque pensar é mais intenso” foi a resposta de Deleuze. Eu gostaria de fazer a mesma pergunta para os artistas conceituais, pois não creio que eles possam se valer da mesma saída. Para que a busca intelectual, se exige tanto esforço, se desfaz tantas ilusões e se nada garante que a filosofia nos torne mais felizes? Os melhores artistas não são necessariamente os mais cerebrais, apesar de hoje em dia prevalecer a crença de que a arte deva se reduzir ao conceito. Para Deleuze, a arte e a filosofia só interessam na medida que sejam acontecimentos, propiciando intensidades. O sexo é melhor quando praticado do que pensado, mas se for convertido em pensamento, que o seja com vivacidade. Talvez a intenção de Luísa Duarte tenha sido boa ao propor a exposição É Claro Que Você Sabe Do Que Estou Falando? Ela notou que nossos jovens artistas estavam se esquecendo da sexualidade, e propôs o tema para estimulá-los. Não sei se a culpa é da curadora, que convidou algumas das maiores revelações dos últimos anos, mas eu saí da Galeria Vermelho com uma certa vergonha, achando que não se deve tratar o sexo com tanta falta de respeito. No início da era moderna, os artistas chocavam pela libertinagem. Hoje, nos impressionam por fazerem questão de ser brochantes.

No século XX, Freud abriu caminho para a revolução sexual, o que lhe garantiu posição de herói para a vanguarda artística. Em especial os surrealistas acompanhavam com avidez suas teorias. À sua maneira, eles reproduziam nas obras uma vitória contra a repressão semelhante à que o vienense obtinha com suas neuróticas. De arte moderna para pós-moderna, a intelligentsia de hoje não lembra muito a boemia de outrora. Está mais parecida com a neurótica, sofrendo de paralisia, do que com os sensualistas da revolução surreal. Suas obras procuram ser impenetráveis, não seduzem, não flexionam, não permitem o prazer nem a entrega. Bem representativo é um vídeo do plano fechado de uma cabeça, mais meditativa do que excitada, que não interage com nada enquanto aguarda por uma esguichada de sêmen. A corrente se diz pós-moderna, mas talvez seja um platonismo mal-ajambrado: separação do corpo e da alma, privilegiando o intelecto; desprezo pela arte, vista como deturpação do mundo das Idéias; e a crença de que o filósofo poderia salvar a República. Com um platonismo tão fraco não há atualização possível, o caminho para “sair da caverna” passa sempre por um desencanto com o corpo. Outro vídeo poderia ter uma sutileza erótica notável, não fosse o mal uso da filosofia: o fôlego de dois parceiros sexuais percebido apenas pela maneira como partículas de pó são espalhadas pelo sopro. A corporeidade estaria nesse movimento resfolegante, que, no entanto, se faz com intervalos tão longos que podemos associá-los a uma partida de xadrez, mas não a movimentos de alcova.

No teatro, no cinema e na literatura contemporâneos não encontramos os mesmos sinais de pudor ascético. Pelo contrário: Philip Roth, um dos maiores romancistas vivos, disse não ter muito respeito por escritor que não saiba falar de sexo; Lars Von Trier intercala filmes pornô com obras-primas como Dogville; e qualquer um que acompanhe o teatro dos Satyros nota que ainda se pode fazer do sexo uma provocação consistente. Talvez a falta de libido nas artes plásticas tenha alguma solução, mas é preciso que se comece a olhar para outras referências. Aqui e ali há quem apresente algo estimulante – um exemplo é Natacha Merritt, que rompe a fronteira entre pornografia e grande arte nos mais lascivos auto-retratos.

A ala mais careta das artes plásticas associa sexualidade à indústria cultural, como se a única posição do sexo fosse a de mercadoria. Nossos artistas estão confundindo resistência com desistência, com um apego à derrota que chega a ser neurótico. É como se o sexo já não nos pertencesse, completamente anexado pela direita. Mal se pode enveredar por seus territórios, irremediavelmente perdidos para o inimigo... Mas de que adianta acusarem a pasteurização do sexo promovida pela mídia, se a alternativa que oferecem é um discurso da impotência?


Foda, de Lia Chaia

Voltando à questão inicial. Um artista conceitual, antes de se declarar artista, deveria considerar com inquietação: Por que pensar? Ainda mais ao falar de sexo – o intelectual se rende muito fácil à masturbação. Ao menos uma obra da exposição conseguiu me dar uma boa resposta. O título poderia ser menos óbvio – Foda – no entanto, Lia Chaia mostrou uma proposição inteligente sem desprezo pelo sensorial. A partir de uma incursão à Rua Augusta, famosa pelos prostíbulos, ela criou uma composição com losangos, juntando espelhinhos contra um fundo vermelho. Os losangos se organizam concentricamente, ocupando boa parte da parede, estando o centro à altura da virilha do espectador. As formas vibram de maneira frenética, em jogo com o reflexo especular e com a cor quente, fazendo com que o olhar oscile para dentro e para fora da composição. Por mais cerebral que seja, dificilmente uma obra de arte se relaciona com a percepção de maneira mais íntima e intensa. A despeito de todo o recato reinante na pós-modernidade, não há bons motivos para achar que vida e arte não possam ser bons amantes.

10.03.2008

Hakim Bey: um amante do caos na vernissage

Se é ou não coisa de adolescente pode ser discutido, mas é fato que boa parte do que se apresenta hoje no mundo da arte se parece muito com o que Hakim Bey chama de terrorismo poético – não fossem o tom politicamente correto e o essencialismo desfigurarem o que poderia ser ao menos sincero. O que o extravagante agitador norte-americano denomina terrorismo poético é muito semelhante ao que se tem chamado de artivismo: intervenções na rua que confrontem os transeuntes com atos inusitados, propiciando reflexões sobre política e sobre o cotidiano. O terrorista poético chega à arte ao tentar mudar a realidade; o artivista chega à realidade ao tentar mudar a arte, mas as práticas se assemelham muito. Alguns exemplos extraídos do livro CAOS, de Hakim Bey: “poemas rabiscados nos lavabos dos tribunais, pequenos fetiches abandonados em parques e restaurantes, arte-xerox sob o limpador de pára-brisas de carros estacionados, slogans escritos com letras gigantes nas paredes de playgrounds, cartas anônimas enviadas a destinatários previamente eleitos ou escolhidos ao acaso (fraude postal)”, entre outros. O problema é que qualquer dessas ações poderia ser encontrada em uma exposição de arte contemporânea, e lá estaria muito confortável. Não são poucos os críticos de arte que pensam que o registro dessas intervenções devem substituir o interesse que antes se dava à pintura e à escultura. Hakim Bey discordaria: “Para que o TP (terrorismo poético) funcione, deve afastar-se de forma categórica de todas as estruturas tradicionais para o consumo de arte (galerias, publicações, mídia).” É evidente que, quando os interesses são confusos, o oposto pode funcionar melhor. Por mais que pareça bizarro, a subversão do cotidiano hoje faz com que os acadêmicos bem posicionados se sintam “sérios” ao dispô-lá no espaço museológico.

O acadêmico-padrão só leva vantagem em relação a Bey por ter uma retórica mais pomposa, marcada por jargões redundantes e uma ideologia já bem disseminada entre seus colegas. Bey pode até mesmo, em alguns momentos, soar como um metaleiro entupido de haxixe, mas no mínimo é alguém que absorveu boa filosofia de vida antes de disparar suas idéias na cadência eletrizante que o faz popular entre os jovens. Se não há motivos para considerar Artaud, um interno de hospício, menos inteligente do que um intelectual médio, está na hora de considerar se um sobrevivente de Woodstock não pode ter uma compreensão de arte mais acurada do que os manipuladores do espetáculo. Ao menos é algo que merece ser discutido, o que de maneira alguma tem acontecido. A arte que se entende como a mais contemporânea deve muito ao dadaísmo, mas Hakim Bey me parece ser um dos poucos que levam em conta esse legado sem esvaziá-lo.

Hakim Bey é o nome árabe de Peter Lamborn Wilson, convertido ao sufismo. Historiador de profissão, ele se especializou em sociedades paralelas e insurreições populares. Seu público-alvo é, sem dúvida, os jovens, o que me parece o mais acertado para quem esteja mais interessado em ação do que em requintes artistícos ou retóricos. Já nesse quesito, o artivismo perde pontos, na medida que se propõe a ser uma força direta de transformação da sociedade, mas defende sua causa com tanto hermetismo que jamais poderia mobilizar as pessoas de fora de seu circuito restrito. Uma diferença crucial é que, por mais que as expressões radicais de arte façam parte de seu repertório, Bey entendeu que a fusão entre arte e política só acontece quando já não nos remetemos mais ao mundo da arte. “Não faça TP para outros artistas, faça-o para aquelas pessoas que não perceberão (pelo menos não imediatamente) que aquilo que você fez é arte”. O sucesso dos PROVOS em Amsterdam ou dos Situacionistas em Paris se devem ao respeito a essa regra, e é para movimentos como estes que o terrorista poético está atento, muito mais do que para as pequenas ousadias de salão dos artivistas.

Bey não fala em arte como quem espera sair na Artforum ou ser convidado para a Bienal de Veneza, mas simplesmente como tempero para seu neo-anarquismo. Tal como os Situacionistas, ele tem alguma noção de arte e se vale disso, mas já não está preocupado em pertencer à História da Arte. É para uma História das Resistências, em toda sua objetividade, que ele pretende colaborar. A estética é uma arma boa demais para não ser usada, pois é na confluência da contestação com a festa que um levante se torna libertário. A esses espaços de alegre ruptura com a lógica dominante Bey chama de Zonas Autônomas Temporárias, semelhantes às linhas de fuga de Deleuze. Bey vê com a mesma clareza que o filósofo francês o quanto os projetos totalizantes estão fadados ao fracasso, e propõe a única coisa que se pode fazer, que são as pequenas desestabilizações. Sua guerrilha é mais psicológica do que física, derrubando, com uma escrita pulsante, os símbolos de poder que estão na mente do leitor, e incitando-o a ajudar outras pessoas a passarem pelo mesmo através de atos “terroristas”. No Brasil, o grupo Delinquentes desenvolveu essa lógica com muito humor e com uma penetração considerável. Até que ponto o choque-estético transforma a vida das “vítimas” é difícil dizer, mas eu o considero uma espécie de contra-propaganda, que funcionam ao menos como convite para a reflexão. Os artivistas aparentemente também têm a mesma confiança que eu de que a guerrilha psicológica é interessante como micropolítica, mas pecam em primeiro lugar pelo essencialismo. De modo geral, eles pensam que estão fazendo Arte com A maiúsculo, o que não só é pouco convincente como reacionário. Ao darem tanta importância à figura mítica do artista em ações que pedem por capilaridade, eles neutralizam a experiência, colocam-lhe uma moldura. A assinatura, a legitimação artistíca passa a preceder a ação, que já não é mais relacionada com o cotidiano.

Afrouxa-se o laço com a imediaticidade do mundo quanto mais se aperta sua ligação com a História da Arte. A ação se aliena, passa por uma mediação que não se justifica.
Não bastasse esse grave mal-entendido, os artivistas ainda fazem questão de propagar um tedioso moralismo em seus discursos. Giram muito em torno da culpa e da vitimização, não indo além de uma pequena economia sobre o peso da consciência. Hakim Bey é um porra-louca, mas ao menos possui uma desconfiança arguta: se ele percebe as armadilhas da sociedade do espetáculo, também não vê com bons olhos o mártir que exige sacrifícios. Quando ele propõe uma resistência menos abnegada, não está apenas considerando uma maior chance de adesão, mas também que, depois de Nietzsche, não é mais possível ver no bem e no mal princípios sólidos com os quais se possa orientar. Não são poucos os artistas e os “revolucionários” que ele classificaria como “policiais-sem-poder" - todo ódio e toda vergonha pelo mundo são coisas a se combater, não a se pregar. Hakim Bey me parece alguém que compreendeu muito bem a saúde nietzschiana e se dispôs a ajudar outras pessoas a alcançá-la. Não é mais do que isso que o terrorismo poético pretende, o que me soa mais decente do que se aproveitar da condição de rebanho dos outros para manobrá-los. “Esmague os símbolos do Império, mas não o faça em nome de nada que não seja a busca do coração pela graça".

Um dos termos mais interessantes de Hakim Bey é o anarquismo ontológico. Com isso, ele quer dizer que tudo o que está vivo tende ao caos, ao passo que os valores da nossa civilização se baseiam na negação do desejo. Sendo assim, a vontade de se contrapor à ordem dominante não precisa de qualquer ideologia. Sua aposta na espontaneidade e na liberdade fazem com que ele compreenda o espírito do Cabaret Voltaire muito melhor do que os sisudos neo-dadaístas. Nosso mundo pode estar tomado por caos negativo, mas é ilusória qualquer tentativa de miná-lo pela imposição de uma ordem. O caos é anterior à sociedade – até mesmo a Segunda Lei da Termodinâmica prevê a tendência para a entropia – mas nem por isso devemos nos render ao niilismo. Se não há como derrubar o poder, cada sujeito que se sinta um “anarco-monarca”, seguindo suas próprias leis e criando suas linhas de fuga.

Algo curioso é que ele, por mais que estimulasse o caos, era sensível o bastante para rejeitar toda manifestação de arte onde haja sofrimento inútil, a começar pela auto-mutilação, como nos experimentos radicais de body art. Creio que não se tratava apenas de incômodo pessoal, mas de uma posição contra a negatividade que não cabia em sua visão de caos positivo. Não é fácil distinguir o caos positivo do negativo, e não creio que se possa chegar a essa sensibilidade sem um certo apreço pelos ritmos e pelas formas, entendendo quais que fluem desimpedidos e quais derivam da auto-repressão. Tal percepção é tão sutil que me faz pensar – e nisto estou de acordo com Harold Rosenberg – que mesmo a guerrilha poética mais radical ainda requer a sobrevivência da arte enquanto atividade autônoma e potente. Somente na rua se dá a verdadeira fusão entre arte e política – no cubo branco das galerias isso sempre tem algo de ridículo – mas o guerrilheiro da contracultura ainda precisa da velha arte como influência. Na verdade, a grande arte e o terrorismo poético são um o limite e o complemento do outro. Ambos contribuem para uma vida mais plena, embora de maneiras distintas.

Por fim, os artivistas deveriam ler um texto de Bey chamado Vernissage, onde ele mostra toda sua descrença na vanguarda elitista. “Não é o suficiente ocupar
um pedestal sagrado e especial chamado Arte de cima do qual se zomba da
estupidez e injustiça do mundo ‘quadrado’. A arte é parte do problema.” Ele recomenda que todos evitem ganhar a vida com arte, embora não seja autoritário a ponto de fazer disso a bandeira hipócrita que alguns artivistas fazem. Melhor do que pensar que a grande questão seja essa, ele faz a lista do que não interessa a quem faz sua maior aposta no desejo, dentro ou fora do circuito: “Morbidez sem sentido, niilismo cínico, tendências de frivolidade pós-moderna, reclamar/praguejar/resmungar (o culto liberal da ‘vítima’), exaustão, hiperconformidade irônica Baudrillardiana; nenhuma destas opções é séria o suficiente, e ao mesmo tempo nenhuma é intoxicada o bastante para servir aos nossos propósitos, muito menos merecer o nosso riso”.

9.23.2008

Conto inédito na Terra Incógnita

Acabou de sair o primeiro número da revista virtual Terra Incógnita, editada por Fábio Fernandes e Jacques Barcia. A linha editorial deles é muito boa: querem deixar para trás os grandes clichês da ficção científica e mostrar uma produção que não se restrinja a este nicho quase invisível. O desafio é oferecer mais do que literatura "de genêro" e estabelecer um diálogo de igual para igual com a literatura contemporânea. Nas palavras deles, "explodir as espaçonaves clarkeanas, desprogramar os robôs asimovianos, desvendar as farsas dos códigos davincis e tirar a titia Úrsula K. Leguin para dançar forró."
Eu venho pensando que a ficção científica vai ganhar uma importância enorme nos próximos anos, principalmente com as descobertas que o LHC, o acelerador de partículas de Genebra, pode nos proporcionar. Os físicos estão a poucos passos de desvendar alguns mistérios que prometem transformar completamente nossa maneira de pensar e sentir. Não se trata de mera elocubração nerd, é bem provável que logo mais você abra o jornal e descubra que vive em mais do que quatro dimensões! Ou fique estarrecido com novidades sobre a tal da anti-matéria. Também sobre a evolução do universo se esperam algumas notícias. Tudo isso me faz crer que o século XXI vai ser dos mais empolgantes da História, e que todo escritor deveria prestar atenção à revolução que a ciência está prestes a realizar.
Meu conto na revista se chama Emaranhamento, um fenômeno que deixava Einstein assombrado e até hoje não foi explicado. Trata-se da influência entre partículas a uma distância potencialmente infinita, o que contraria os princípios da Teoria da Relatividade. Pensando nisso, escrevi sobre o "emaranhamento" de duas pessoas que se distanciam, mas continuam a influir uma sobre a outra.
Outros autores desta edição são Carlos Orsi, Guilherme Kujawski, Fábio Fernandes e Ekaterina Sedia. É só clicar aqui e aproveitar a leitura.

Obs: continuo devendo o texto sobre Hakim Bey. Meu maior inimigo tem sido o tempo (o presente mesmo, quanto ao futuro eu ando otimista). Assim que eu tiver uma brecha, cometo a insensatez de falar sobre essa criatura maldita.

9.09.2008

Terrorismo poético ou oportunista?



Desde que fiquei sabendo da última investida de Rafael Augustaitiz, muita coisa me passou pela cabeça - inclusive se valia a pena publicar qualquer coisa a respeito. Eu já havia escrito sobre a invasão na Faculdade de Belas Artes, quando ele e quarenta amigos picharam as paredes da instituição e definiram o ato como um "trabalho de conclusão de curso". No último sábado, o alvo foi a Galeria Choque Cultural, especializada em arte urbana e grafite, onde ele e seu bando danificaram dezenas de obras alheias. No primeiro ataque, eu deixei claro o quanto me parecia bisonho que um ato de vandalismo reivindicasse a anuência da academia, e o quanto isso era sintomático de uma crise mais antiga no pensamento da arte contemporânea. Algumas pessoas do meio artistíco defenderam o rapaz, o que só prova que a anti-arte faz parte de uma lógica disseminada. Meses depois, nesta ação contra uma galeria comercial, ao menos a contravenção não parece pedir elogios da parte das vítimas. Se o bando que pretende "discutir os limites da arte" falhou ao tentar obter um diploma universitário para seu líder, tampouco se esforça para obter a simpatia de muitos artistas considerados alternativos, que viam nessa galeria a maior esperança de sair das ruas para o estrelato.

Eu dei uma olhada no blog do Rafael. A primeira coisa que me ocorreu foi procurar incongruências, apontar o quanto ele, apesar da iconoclastia, procura um lugar ao sol, o quanto ele quer reconhecimento de seus pares e mecenas bacanas patrocinando o que ele está fazendo. Exatamente como os artistas que ele ataca. A verdade é que, nos tempos niilistas em que vivemos, a auto-destruição da arte é a epítome do que se tem prestigiado nos salões, com tanta insistência que não sobrou muito para se destruir. Rafael não é mais contraditório que os artistas contemporâneos, apenas levou a cabo o que os outros vêm deixando no campo da sugestão. No fundo, acho bom que isso tenha acontecido, talvez obrigue as pessoas a pensarem até o fim o que só interessava pensar pela metade.

E eu não estou fora disso. A maneira como penso arte hoje em dia não pode ser entendida sem o contato que tive com o terrorismo poético - que o Rafael cita sem saber do que se trata, do contrário diria "anarquismo ontológico" em vez de "antológico". Se eu vislumbro coisas que os acadêmicos têm dificuldade de enxergar, devo muito à minha leitura de Hakim Bey, ao grande impacto que me causou Ari Almeida e à experiência de sair da retórica para a ação. Também tive minhas experiências com a subversão do cotidiano, mas tive a decência de não chamá-la de arte. O terrorismo poético que eu conheci, para quem não sabe do que estou falando, tem muito mais generosidade do que destruição pela destruição. A anti-arte é um discurso do ressentimento, nos afasta de Dionísio, ao passo que o terrorismo poético propõe o choque como maneira de despertar a consciência dos desavisados, de proporcionar um pouco de poesia a quem jamais entraria em uma galeria de arte. Uma das sugestões de Hakim Bey é invadir as casas alheias, mas, em vez de roubar, deixar objetos desconcertantes. Sem dúvida, essa proposta influenciou o filme Edukators, mas conheci quem o fizesse na prática.

Quando entrei em contato com o maior terrorista poético do Brasil, Ari Almeida, apesar de estar cometendo meus próprios crimes poéticos, eu pensei que ele iria me ignorar ou me mandar à merda, simplesmente porque eu continuava me interessando por pintura e outras artes comerciais. O discurso que mais zumbiam na minha orelha era o detestável pós-modernismo de faculdade, e me surpreendi ao saber que a radicalidade do Ari, muito mais ampla do que a dos artistas contemporâneos, não precisava da tal da morte da pintura. O grande barato é não se importar com dogma nenhum, e logo notei que mesmo quando nos diferenciávamos nos métodos, nós buscávamos coisas parecidas. Mais surpreso ainda eu fiquei quando ele me disse que adorou um dos meus artigos sobre arte, justamente porque sentiu que eu lhe dava alfinetadas. Era Não-vida e a superação da anti-arte, onde eu tentei distinguir os objetivos de qualquer militância criativa e os das artes plásticas. Fiz isso justamente para evitar essa institucionalização do caos que vejo imperar na arte contemporânea. Afinal, qual o sentido de uma transgressão consentida?

Verdade que meu número de pinturas é maior que o número de ataques que realizei, mas sempre foi uma questão de honra deixar meus atos de terrorismo poético fora do meu portfólio de artista. Eu jamais cobraria nota na faculdade para o que aprontei na rua ou pediria ao Ivo Mesquita para expor na Bienal. O marasmo crítico chegou a tal ponto que eu poderia muito bem fazê-lo e estar em sintonia com o que há de mais "vanguardista", mas me recuso a agir assim por um motivo muito simples. Eu adoraria ver a subversão do cotidiano se espalhar ao máximo, em vez de confiná-la ao meio artistíco. Foram ações não-autoritárias, é bom deixar claro. O que eu fiz nas ruas - ataques críticos-poéticos a shoppings e a lanchonetes - qualquer um que queira se sentir menos passivo pode fazer, e acho que ao menos os jovens deveriam tentar, com a naturalidade de quem combate o próprio tédio.

Ainda assim, confesso que para mim mesmo não é tão fácil entender como posso ter me apaixonado por duas atividades que a princípio parecem concorrer uma contra a outra. Faz sentido se influenciar igualmente por Ari e por Kandinsky? Ou dar atenção a Hakim Bey sem perder de vista Guimarães Rosa? É por isso que a pergunta do título acima não se dirige tanto a Rafael e seu bando. Nem para os grafiteiros alternativos que, segundo o movimento PixAção, traíram a verdadeira arte de rua ao colocarem seus trabalhos à venda. É a mim mesmo que questiono. Como posso realizar pinturas, ou seja, arte em seu sentido mais convencional, depois de já ter deixado Matisse e Miró de lado e ter ido para a rua? Depois de ter despejado a criatividade numa militância muito mais frontal do que a de uma tela? Pior que isso: o que eu devo fazer se, a partir da publicação do Puro Enquanto, a demanda por óleos de Hegenberg se tornar maior que a demanda por óleo de baleia? Moralismos e ideologias à parte, o Ivan de hoje, ainda não muito famoso e com apenas 28 anos, não gostaria de ser desapontado por um Ivan veterano, que ao se afogar em mares de dinheiro se esqueça do quanto a arte pode ser potente. Não posso garantir muito sobre quem eu serei no futuro - e quem é que pode? - mas não acho que todo artista que finalmente consiga viver de arte se esqueça completamente de como era quando começou. Além do mais, para mim não há opção: o que eu crio é sério o bastante para consumir uma quantidade enorme de tempo e energia, a ponto de até hoje eu não ter conseguido conciliar arte com uma profissão estável. Vivo de free-lances para ter algum tempo livre, mas vivo mal. Talvez os moralistas preferissem que eu fosse um artista ainda mais "atitude", que eu passasse a vida inteira sem vender uma peça, mas a obra que eu tenho para criar não é compatível com horários de hobby. Se eu não conseguir transformá-la em ganha-pão, aí sim estarei fazendo a maior concessão: pintar e escrever muito menos do que eu poderia, ficar aquém de onde posso chegar.

Nem por isso acho que os problemas se resolvam tão facilmente. Acho que, apesar das contradições, Rafael aponta para uma angústia genuína. Não seria mal um pouco de humildade da nossa parte: o cara está disposto a enfrentar polícia para dar seu recado, não precisamos pensar que seja tudo encenação. É bom saber que nem tudo é retórica - ainda há quem se incomode quando o comércio sufoca as sempre pequenas possibilidades de a arte permanecer honesta. Não concordo com o autoritarismo de seu método, mas a apatia geral também seria tão triste quanto. É bem provável que Rafael tenha lido a mesma matéria que eu, na Folha de São Paulo da semana passada: o dono da galeria atacada falando de arte como quem fala de ações na bolsa. Baixo Ribeiro, o galerista, demonstrava sua animação com os colecionadores iniciantes que, segundo ele, ganham gosto por arte ao constatar, após um par de anos, que as peças que haviam comprado estão se valorizando. Até o galerista de um espaço alternativo diz que é a rentabilidade que deve levar uma pessoa a apreciar arte? Pensando no quanto o valor de uma obra vem se reduzindo ao seu valor de mercado, também me passa pela cabeça alguma maneira de desestabilizar esse esquema. No entanto, acho que se chega mais longe com um mínimo de sutileza. Aliás, este post já é bem menos sutil do que eu gostaria.Se eu não testemunhasse o quanto não estão entendendo nada, eu não teria que ser tão explícito, não precisaria dizer que a cada artigo que escrevo me parece mais plausível abalar o pregão.

O que vai acontecer quando finalmente os colecionadores perceberem que 90% da arte contemporânea é pura enganação? Isto sim, pode causar muito mais impacto do que a destruição física de algumas pinturas. Muita gente perdendo dinheiro muito rápido - basta deixar claro o que é arte de verdade, para que a desvalorização do que não presta seja estrondosa. O único jeito de fazer isso é através de um pensamento que se mostre mais sofisticado do que os discursos que se ramificaram da anti-arte. Não me parece tão difícil de fazê-lo: se não engolirem o moleque de 28 anos que constatou que a subversão funciona melhor fora do circuito, são muitos os intelectuais mais "respeitáveis" que apontam para a fragilidade da arte pós-moderna. Basta reavivar os melhores livros de Harold Rosenberg. Ou fazer uma leitura decente de Nietzsche, de Lacan, de Deleuze, de qualquer um que tenha pensado o ser humano com este nível de complexidade.

Mas já que queremos todos parecer tão ousados, e já que calhou de eu só conseguir escrever este artigo em um 11 de setembro, termino com uma pequena sugestão para todos os artistas do ressentimento. Em vez de agir só com sinal negativo (sempre moralmente, sempre reclamando de que arte não deveria dar aos mãos ao comércio, etc), por que não agir de forma mais potente, com sinal positivo? Por que não usar o enorme montante que a arte consegue proporcionar a uma pessoa (e, supostamente, uma pessoa com consciência crítica) de uma maneira que desnorteie o status quo? Até o Bin Laden, fanático e anêmico, é mais interessante do que vocês: por mais que ele detestasse os dólares, juntou muitos deles para organizar um ataque eficaz. Longe de mim fazer apologia à violência, mas vocês não conseguem ver que a partir de certo ponto o enfrentamento não se dá mais internamente, não se faz na obra de arte? Nas artes visuais já está mais do que provado que não, o autoritarismo também não interessa, mas e quanto a um terrorismo verdadeiramente... poético?


PS: Mesmo quem não for fiel à deusa da discórdia, peço que faça uma oração para Éris em nome do Ari, que está com um problema grave no rim.