O Romeu Martins, um dos jornalistas mais talentosos desse nosso vasto porém obscuro universo da ficção científica, escreveu uma resenha sobre o "Será" no site Overmundo
Achei que a resenha tá muito bem conduzida. Gostei principalmente de quando ele fala que o livro é "uma criatura com o esqueleto de Friedrich Nietzsche e as carnes de Clarice Lispector."
Tenho minhas ressalvas para a comparação que ele traça com Oscar Wilde e todo o lance de "arte pela arte", mas isso a gente resolve na próxima etapa, que vai ser uma entrevista. Bombástica, eu prometo!
Não verás mundo nenhum
A pintura é simples e direta, feito um quadro primitivista. Pinceladas fortes, rápidas e irregulares registraram, sempre em marrom, a silhueta de estruturas cilíndricas que podem ser conjuntos habitacionais padronizados, chaminés industriais ou torres de comunicação. A impressão geral é de tédio e de imutabilidade. O espectro da cor única é, no conjunto, desagradável. Começa com tons claros, semelhantes aos da terra seca e sem vida; passa por uma tonalidade pouco mais escura, que lembra a cor de excrementos; com algo de vermelho, parece ser o marrom de uma casca de ferida em processo de cicatrização; tendendo ao preto, aparenta ser a crosta de matéria em putrefação. O quadro, pintado por Ivan Hegenberg, artista plástico formado pela USP, acabou servindo de capa para o romance de estréia dele próprio, lançado no final de 2007: Será, uma estranha e niilista ficção científica nacional.Distopias são um dos temas mais recorrentes na tradição da FC mundial e renderam algumas das melhores obras do gênero em diversas mídias. Historicamente, a palavra parece ter sido empregada pela primeira vez, com seu sentido literal de lugar mau - e em oposição à utopia, o lugar nenhum-, pelo filósofo e economista inglês John Stuart Mill, em um discurso no Parlamento Britânico, no ano de 1868. Estamos às vésperas do aniversário de 140 anos de sua criação, portanto. Quando o mundo das artes se apropriou do termo, em reação aos sonhos de futuros idealizados, tecnologicamente avançados e socialmente justos, começaram a ser produzidos livros como 1984, de George Orwell; quadrinhos do nível de V de vingança, de Alan Moore e David Lloyd; e um sem-número de filmes que se passam em tempos pós-apocalípticos como a trilogia Matrix dos irmãos Wachowski. Todas obras marcadas pelo autoritarismo dos governantes, humanos ou não, ou por grandes catástrofes globais, sejam causadas pelo homem, sejam naturais. O paulistano, com seu segundo livro - o primeiro foi uma coletânea de contos, A grande incógnita, publicada em 2005 pela editora Annablume -, pode ser incluído nesta lista de autores desesperançados com os dias que virão.No início de Será - para ser exato, em seus dois primeiros capítulos, “História do mundo” e “Água” - o cenário geral é traçado. Apesar do longo histórico internacional deste subgênero, tais trechos da obra do iniciante lembram mesmo a mais famosa e bem sucedida distopia já produzida no Brasil, escrita por um veterano conterrâneo dele, em 1981. Não verás país nenhum, livro mais conhecido de Ignácio de Loyola Brandão, antecipou há mais de 25 anos muitas das preocupações ambientais que vivemos nesta primeira década do século XXI. Será também mostra a tentativa de sobrevivência de personagens que vivem as consequências do abuso dos recursos naturais do planeta. A maior diferença é que, na obra da década de 80, a narrativa ficava circunscrita ao Brasil, mais que isso, a São Paulo, e tinha um protagonista claro, Souza; no livro lançado em 2007, a abrangência é mundial e há uma profusão de personagens sem uma hierarquia clara entre eles na ordem das coisas. Datas não são definidas com muita precisão ao longo do texto, mas uma brincadeira quase oculta nas últimas páginas faz supor que estejamos por volta do ano de 2348. A população mundial praticamente triplicou em relação à de nossos dias, são 15 bilhões de pessoas disputando o mesmo espaço. Se número já assusta, ele poderia ser ainda maior, se não houvesse ocorrido cerca de 6 bilhões de mortes por doenças virais, um século antes dos eventos narrados no livro.Para respirar, a solução foi retirar oxigênio diretamente dos oceanos, o que faz um dos personagens se perguntar se é o consumo desse “ar para peixes” que os faz se sentirem tão “desadaptados”. É uma boa questão, pois o clima de apatia é dominante neste futuro amarronzado, em que as necessidades mínimas de todas as pessoas, de moradia à alimentação, são atendidas em pé de igualdade. Se no livro de Brandão havia um poder por trás de tudo, o Esquema, aqui há o Sistema, uma forma de democracia direta mediada por softwares. Tudo é motivo para consultas plebiscitárias à população adulta para que os sistemas de inteligência artificial - que são sempre citados, mas não exercem uma presença física nas páginas do livro - tomem as providências executivas. Novamente a exemplo de Não verás país nenhum, a água potável se tornou um artigo raro. Se no primeiro livro, eram os civiltares que exerciam um controle coercitivo da população, em Será existe uma milícia chamada Comando Água para fazer o serviço sujo. Aparentemente, os programas governantes imaginados pelo brasileiro seguem a famosa legislação proposta por Isaac Asimov que os proíbe de matar pessoas. Isso não os impede de tentar fazer passar uma lei para promover a esterilização em massa da humanidade e ainda permitir que os agentes do tal comando executem todos aqueles considerados inaptos para continuar a viver.Sim, essa é a impressão gerada pelas primeiras 40 das 240 páginas totais de Será, com o dilema de Ganton e William, dois velhos amigos separados pelas escolhas que fizeram. Um a de servir indiretamente ao Sistema, matando sem culpa os indivíduos mais fracos, os que de certa forma desistiram de resistir, para garantir a existência da coletividade. O outro, um integrante da Sobrevivência Unida, tem como norte moral a certeza de que a humanidade deveria sucumbir junta, de que “morrer com suprema beleza é bem mais digno do que matar com avidez”. Mas a aparência é falsa, pois no restante do livro - a cada capítulo primeiro; a cada página em certos momentos; a cada páragrafo em certos casos -, as sensações, os climas, os estilos, os ritmos vão se alterando, se confundindo, se mesclando, apesar de seguirem aquele esboço inicial. É como se o leitor fosse convidado a acompanhar a feitura de um quadro momento a momento: a confusão de pinceladas e raspagens aparentemente caóticas que acabam dando origem a uma pintura figurativa, ainda que expressionista.Para exemplificar tal alternância estilística, podemos seguir o sumário dos capítulos. “Dia qualquer”, o terceiro, tem um quê de absurdo à Kafka; já a personagem principal de “Passagem”, o seguinte, a garota Seda, lembra as crianças superdotadas de Orson Scott Card, autor de livros de FC como o Jogo do Esterminador. É no quinto, “Zeitgeist”, que a coisa se complica ainda mais. Hegenberg se utiliza de outra modificação que introduziu em seu mundo ficcional - através de métodos não explicados, a humanidade desenvolveu e difundiu um certo nível de telepatia - para de fato passar aos leitores o espírito da época daquele cenário. Helmut, um homem centenário, se utiliza de seus dons para bancar o voyeur telepático. O resultado é uma colagem de curtas sequências de pessoas vivendo suas vidas, praticando sexo casual, casamentos sendo desfeitos, resumos de sonhos, trechos de aulas, conversa de mãe pra filho... Uma autêntica cacofonia em meia centena de páginas.Possivelmente, uma pista das intenções do autor pode ser encontrada no sexto capítulo, “O Supremo Esteta”. Logo de início, aquelas páginas se destacam por apresentar uma editoração diferenciada, com as letras em negrito. O motivo por trás de tal recurso só fica claro ao final do curto capítulo, que se revela uma montagem intertextual pós-moderna do escritor. Além da forma, o que “O Suprem Esteta” tem a oferecer em termos de conteúdo é uma especulação sobre a principal visão religiosa do futuro de Será, o Esteticismo-maior. Dois terços da população do planeta parecem ter substituído do panteão universal os deuses com uma visão moralista de mundo, com a divisão entre certo e errado, bom e mau, por uma noção baseada na estética acima de tudo, tanto nas relações naturais, quanto nas ações humanas.Não parece tanto que o objetivo do novo romancista seja o de propriamente lançar as bases de uma nova religião. Mas aparenta ser uma declaração de princípios de uma autor em relação à sua forma de expressão e, quem sabe?, com a vida. O fato é que, apesar de tantas outras leituras possíveis, é difícil ler aquelas páginas, ou mesmo evocar em termos literários a expressão supremo esteta, e não pensar em um dos maiores defensores da arte pela arte. Em um dos prefácios mais conhecidos de todos os tempos, aquele que Oscar Wilde redigiu para O retrato de Dorian Gray, ficou resgistrado:“A vida moral do homem forma parte do argumento e do material do artista. Mas a moralidade da arte consiste no uso perfeito de um instrumento imperfeito. Nenhum artista pretende provar o que quer que seja. A própria verdade não pode ser provada.Artista algum tem preferências éticas. Uma preferência moral, em um artista, é imperdoável maneirismo de estiloNão há artista doentio. O artista pode exprimir tudo”.Essas palavras escritas no século XIX poderiam bem resumir o manifesto do Esteticismo-maior se for feita uma leitura puramente estética da obra, levando-se em conta que o artista é o deus de seu mundo criativo. Escolhas estéticas em detrimentos dos julgamentos morais parecem ser um dos pontos fortes de Será. Nas páginas seguintes, na segunda metade do livro, o efeito permanece e até se amplia. A sucessão interminável de personagens e de situações parece seguir tais critérios, segundo a vontade do criador, sem se submeter a um roteiro linear, um destino traçado e coerente. Em “Explorações”, um dos melhores capítulos do livro, por exemplo, a narrativa se divide em três momentos para contar simultaneamente a visita de um filósofo ao show de um comediante, os bastidores de um filme pornográfico e, em uma rara concessão a temas mais típicos da FC, um empreendimento científico ousado: um grupo de pesquisadores é encolhido a nível microscópico para desbravar o interior de uma célula.O livro lançado pela editora Ragnarok, da qual Ivan Hegenberg é um dos sócios, é em boa parte a fusão dos autores que mais reconhecidamente o influenciaram, uma criatura com o esqueleto de Friedrich Nietzsche e as carnes de Clarice Lispector. A obra acaba servindo para coletar uma série de relexões filosóficas do escritor a respeito de diversos aspectos da vida. Em alguns casos, as falas e pensamentos dos personagens chegam a soar algo ingênuo, como nas críticas constantes feitas ao capitalismo - que fariam o já citado John Stuart Mill dar boas risadas liberais. Porém, em certos pontos, o livro consegue um efeito bastante interessante, ainda mais levando-se em conta que ele foi escrito por um autor tão jovem - o paulistano nasceu em 1980. Quase sempre o resultado é bastante incômodo, o que faz voltar a lembrar daquele prefácio de Wilde: "Não existe livro moral nem imoral. Os livros são bem ou mal escritos. Eis tudo”. E Será, com sua narrativa sobre tédio e imutabilidade, sobre a terra seca e sem vida, sobre feridas que podem cicatrizar e outras que já apodreceram, é um livro bem escrito.
1.28.2008
12.20.2007
Clarice não é mulherzinha
Um texto que escrevi para minha mãe, Clarice Lispector, que sempre foi muito mais uma bruxa do que uma dondoca, ao contrário do que alguns pensam.
Saiu no Cronópios. Confira.
Saiu no Cronópios. Confira.
12.16.2007
PAC, man!

O trocadilho pode ser infame, mas motivo para comemorar não me falta! Fiquei sabendo há pouco que abocanhei o PAC! Não é o PAC do Lula, é o Programa de Ação Cultural do Estado de Sampaulo.
São 15 mil reais vindos da Secretaria de Cultura - ou seja, do seu bolso - para eu terminar meu próximo livro, "Puro enquanto".
Fique tranquilo, pretendo fazer bom uso dessa verba, não vou gastar tudo com droga. É um livro que merece existir, mas se não fosse esse prêmio, não sei dizer se eu conseguiria levar adiante. Só a impressão vai me sair uns 12 mil reais! Tenho um ano de muito trabalho pela frente e quero dar o sangue.
Na verdade essa vitória me deixou muito feliz, mas também nervoso como nunca. Nos últimos OITO anos eu me ferrei demais, e é tanto tempo se dando mal na vida que ainda não me acostumei a ganhar. Também fico com um certo receio da inveja alheia. Hoje penso que uma dose de inveja é das coisas mais naturais que podem existir, mas os piores momentos da minha vida foram por conta disso - destruição gratuita, e até então eu nem tinha nada tão precioso para mostrar... Não quero perder amigos por bobagens. Acho que minha única saída é persistir, mirar cada vez mais alto, até nos acostumarmos todos - tanto eu quanto os eventuais invejosos - que eu tenho uma produção que merece algum destaque. O que eu crio não é para mim - assim que eu publico, já não me pertence mais, sempre fiz para os outros.
Problemas e frescuras a parte, foi muito esforço para não ser recompensado. Passei dez anos anotando meus sonhos pela manhã, muitas vezes levantando no meio da noite para escrever; desenvolvi uma linguagem que traduz o caos de uma mente que sonha; criei imagens, levando em conta que os sonhos não podem ser completamente verbalizados; e costurei tudo em uma história com começo meio e fim - mas não necessariamente nessa ordem, como dizia Fellini. A parte do texto está quase pronta, o que me falta são algumas pinturas que dialoguem com o fluxo narrativo.
Não é um livrinho qualquer, é a linguagem querendo testar seus próprios limites. Até o fim de 2008 vocês vão poder conferir.
12.11.2007
Ainda sobre o delinqüente Ari Almeida
Logo depois de publicar meu artigo sobre essa figura imprevisível, nosso maior terrorista poético, me surpreendi com uma entrada em seu blog que a princípio daria a entender que ele passou por uma alteração brusca em sua maneira de pensar, Dinheiro como Deus: Uma mudança na percepção do dinheiro enquanto valor.
Nos comentários, as reações variaram ente "Alguma coisa mudou nesse blog" e "O Ari endoidou". Um tanto doido ele sempre foi, afinal apanhar sistematicamente de seguranças ao desafiar shopping centers, igrejas e outros redutos do consumismo e da moral não é um comportamento dos mais comuns. No entanto, todas as ações descritas em seu Manual Prático de delinqüencia juvenil, por mais inusitadas e polêmicas que sejam, transmitem uma análise sobre o poder bem mais lúcida do que a que o stablishment tenta nos vender. Há pelo menos dois anos eu acompanho o blog de Ari Almeida, e, por mais porra-louca que ele seja, me convenceu de ser alguém que sonha com um mundo mais livre. Trata-se de um neo-anarquista, leitor de Hakim Bey, Foucault e Deleuze, capaz de escancarar as contradições do sistema capitalista em ações criativas, que, a meu ver, se parecem um pouco com o que vem ocorrendo na atual "arte engajada", porém com uma contundência muito maior. No mínimo me parecem mais sinceras, como vocês podem conferir na resenha que escrevi para o Casulo, disponível logo abaixo.
Confesso que me senti um tanto culpado no dia do lançamento do Casulo. Não por defender alguém tão radical, mas, pelo contrário, por no mesmo dia ter me apresentado em um espaço patrocinado por um banco, o Itaú Cultural. Se nosso Delinqüente está nesse exato momento confundindo todos que o tomam como um herói do combate ao sistema, eu, apesar de não ter um currículo como o dele, fui tão contraditório quanto. Ao mesmo tempo que eu elogiava um terrorista poético que exorcisava bancos, "lugares do mal" como ele diz, minha arte estava à disposição do Itaú, o que de certa forma agrega valor à instituição. No mundinho das artes prospera uma militância ferrenha, um povo tão obsecado pelo ideal de uma arte imune ao mercantilismo que já não consegue olhar para obra nenhuma, apenas para os veículos em que ela aparece. Eu já escrevi muitas vezes que essa ala mais crítica, que conseguiu estabelecer o pensamento dominante em artes plásticas, nunca foi coerente, apenas faz barulho mas não age de acordo com o que prega. De qualquer modo, mais parecia uma brincadeira do destino que, no dia primeiro deste mês, eu estivesse ao mesmo tempo lançando um texto quase inofensivo em um banco e outro texto, combativo, que criticava não só os bancos como todos os perpetuadores da lógica selvagem do capitalismo.
Vou tentar dar conta aqui dessas contradições, tanto as minhas quanto as do Ari. No texto mais recente de seu blog, pela primeira vez ele fez algo como um elogio sem pudores ao dinheiro. Uma coisa surpreendente, vinda de alguém que colocou meninos de rua em um shopping, atacou a fábrica da Renault, e dispara afirmações como "a generosidade não tem vez no mercado global". Por outro lado, jamais notamos em Ari uma posição comprometida com qualquer militância tradicional. Pelo contrário, ele deixou claro muitas vezes que não se orientava por uma Revolução, mas pelos levantes, pelos breves momentos de liberdade - o que Hakim Bey chamaria de TAZ (Zona Autônoma Temporária) e Deleuze de linhas de fuga. Uma coisa que me atraiu nesses discursos foi constatar que seus inimigos são os mesmos que os meus: o pensamento único, a realidade consensual. Pensar que o inimigo seria simplesmente "o capitalismo" apenas nos faria patinar na lama, já que não se trata de algo tão monolítico quanto se pode imaginar. Além disso, por mais que simpatizemos com ideais igualitários, não acreditamos que as pessoas já tenham uma mentalidade à altura de uma sociedade anarquista. Talvez jamais venham a ter, e ainda assim considero o terrorismo poético uma arma das mais interessantes nessa luta. Não é a luta de quem pretende uma tomada de poder, mas de quem anseia pela expansão do senso crítico. E o terrorismo poético não é a única arma, mas uma das mais sedutoras, porque pega as pessoas desprevenidas, convida-as para a reflexão usando métodos heterodoxos, diante dos quais ninguém tem um escudo pronto.
Uso aqui o "nós" porque as posições coincidem em muitos pontos, não porque somos um movimento. Contudo, o que nos interessa é a liberdade, um ideal muito mais verdadeiro que a "bondade", coisa que a rigor sequer existe - para quem tem dúvidas, que leia um pouco de Nietzsche, e entenda por a + b que a bondade é uma ficção. A propagação de qualquer ideologia baseada em imperativos categóricos só pode mobilizar através de uma nova forma de domínio, o que não deixa de ser bastante limitador. Nossa ética, por sua vez, tem uma presença imanente: é a constatação de que a liberdade individual entra em choque com a mentalidade do capitalismo avançado, por mais individualista que seja esse sistema. A competição exarcebada, a decorrente violência, os desejos inculcados artificialmente pela publicidade... não vamos entrar em detalhes em um texto curto, mas o caso é que tudo isso tende a diminuir a potência do indivíduo e a qualidade de sua vida, mesmo que na aparência seja o contrário. Porém, a contradição está dos dois lados, tanto à esquerda quanto à direita. Afinal, que liberdade seria essa em que, para questionar os abusos do poder, uma vontade autêntica (de gastar um pouco de dinheiro) tivesse que ser duramente reprimida? Não se pode ser dogmático, não se pode insistir que o consumo traga somente a infelicidade, nenhum ideal vai muito longe apoiado em sofismas. Por esse motivo não condeno Ari quando diz que não devemos rejeitar o dinheiro, apenas ter uma relação mais saudável com ele. Em uma de suas tiradas, ele disse algo com que só posso concordar: "Não estou falando de não comer, estou falando de mastigar antes de engolir. Estou falando de sentir o gosto da parada a tempo de cuspir fora se for uma merda. Ou pior: veneno. Enfim, senso crítico."
Ari está aposentado como terrorista poético. Aquela fase de sua vida ao menos rendeu seu Manual Prático da delinqüencia Juvenil, que me anima por se tratar de um convite à reflexão acessível a qualquer adolescente esperto. É preciso algo mais cativante do que panfletos para conquistar quem poderia muito bem se encerrar no egoísmo, e nesse ponto o Ari é prato cheio para os jovens. A linguagem dele é a linguagem das ruas, sua ironia questiona e diverte ao mesmo tempo e suas aventuras são demonstrações práticas de que o melhor da vida não está nas promessas do status quo. Não é um livro que ensina como derrubar o sistema, mas ensina a não abaixar a cabeça.
Ainda assim, para mim está bastante claro que a delinqüencia só pode mesmo ser juvenil, não é aconselhável para quem começa a ter rugas na cara. Tanto é verdade que o novo herói de Ari é George Soros, um dos maiores especuladores de todos os tempos. Mas é bom lembrar que Soros não é simplesmente um "porco capitalista". Também é um homem excêntrico, que alimenta associações de esquerda das mais atuantes e a defesa de programas polêmicos, tais como a legalização do aborto. Eu nunca duvidei que pode haver coerência entre subversão e acumulação de capital, não só pelo exemplo do Soros, que realmente incomoda os conservadores, como pelo exemplo de Asger Jorn, um pouco mais caro para mim. Asger Jorn foi um pintor expresssionista do grupo COBRA, que pintou seguindo seu desejo, sem se render aos preceitos sufocantes da arte engajada. Ele pintou telas que eram prazerosas tanto para ele quanto para o público, abusou das brechas do sistema, ganhou dinheiro, deve ter gasto com algumas regalias porque ninguém é de ferro, mas uma generosa parte dessa renda foi para Guy Debord e os situacionistas. Com isso, a atuação dele rendeu muito mais frutos na expansão do senso crítico do que os lamentos exangües da atual arte engajada, que nada tem de livre, nem de prazerosa, nem de contundente. Também por isso não me interessa a anti-arte, já que toda grande obra, mesmo quando formalista e apolítica, contribui para uma mentalidade mais elástica. Um bom artista sabe despertar no espectador a sensação de que a vida pode ser intensa, que pode ir um pouco além do materialismo. Eis porque vejo mais coerência em defender tanto o terrorismo poético quanto a arte erudita, cada uma em seu campo de atuação, do que diluir uma coisa na outra e chegar a uma "arte engajada" que pouco mais consegue do que assumir uma séria crise de identidade.
Obs: uma ou outra pessoa chegou a pensar que eu sou o Ari Almeida ou que ele é uma ficção minha. É melhor esclarecer que não moramos na mesma cidade e tampouco nos conhecemos pessoalmente. Aliás, somente por dedução posso afirmar que ele não é fictício. São poucas as pistas que ele deixou quanto à veracidade de suas ações, mas algumas delas são suficientes para supor que, por mais fantásticas que pareçam, ele pôs em prática as ousadias relatadas em seu livro.
Nos comentários, as reações variaram ente "Alguma coisa mudou nesse blog" e "O Ari endoidou". Um tanto doido ele sempre foi, afinal apanhar sistematicamente de seguranças ao desafiar shopping centers, igrejas e outros redutos do consumismo e da moral não é um comportamento dos mais comuns. No entanto, todas as ações descritas em seu Manual Prático de delinqüencia juvenil, por mais inusitadas e polêmicas que sejam, transmitem uma análise sobre o poder bem mais lúcida do que a que o stablishment tenta nos vender. Há pelo menos dois anos eu acompanho o blog de Ari Almeida, e, por mais porra-louca que ele seja, me convenceu de ser alguém que sonha com um mundo mais livre. Trata-se de um neo-anarquista, leitor de Hakim Bey, Foucault e Deleuze, capaz de escancarar as contradições do sistema capitalista em ações criativas, que, a meu ver, se parecem um pouco com o que vem ocorrendo na atual "arte engajada", porém com uma contundência muito maior. No mínimo me parecem mais sinceras, como vocês podem conferir na resenha que escrevi para o Casulo, disponível logo abaixo.
Confesso que me senti um tanto culpado no dia do lançamento do Casulo. Não por defender alguém tão radical, mas, pelo contrário, por no mesmo dia ter me apresentado em um espaço patrocinado por um banco, o Itaú Cultural. Se nosso Delinqüente está nesse exato momento confundindo todos que o tomam como um herói do combate ao sistema, eu, apesar de não ter um currículo como o dele, fui tão contraditório quanto. Ao mesmo tempo que eu elogiava um terrorista poético que exorcisava bancos, "lugares do mal" como ele diz, minha arte estava à disposição do Itaú, o que de certa forma agrega valor à instituição. No mundinho das artes prospera uma militância ferrenha, um povo tão obsecado pelo ideal de uma arte imune ao mercantilismo que já não consegue olhar para obra nenhuma, apenas para os veículos em que ela aparece. Eu já escrevi muitas vezes que essa ala mais crítica, que conseguiu estabelecer o pensamento dominante em artes plásticas, nunca foi coerente, apenas faz barulho mas não age de acordo com o que prega. De qualquer modo, mais parecia uma brincadeira do destino que, no dia primeiro deste mês, eu estivesse ao mesmo tempo lançando um texto quase inofensivo em um banco e outro texto, combativo, que criticava não só os bancos como todos os perpetuadores da lógica selvagem do capitalismo.
Vou tentar dar conta aqui dessas contradições, tanto as minhas quanto as do Ari. No texto mais recente de seu blog, pela primeira vez ele fez algo como um elogio sem pudores ao dinheiro. Uma coisa surpreendente, vinda de alguém que colocou meninos de rua em um shopping, atacou a fábrica da Renault, e dispara afirmações como "a generosidade não tem vez no mercado global". Por outro lado, jamais notamos em Ari uma posição comprometida com qualquer militância tradicional. Pelo contrário, ele deixou claro muitas vezes que não se orientava por uma Revolução, mas pelos levantes, pelos breves momentos de liberdade - o que Hakim Bey chamaria de TAZ (Zona Autônoma Temporária) e Deleuze de linhas de fuga. Uma coisa que me atraiu nesses discursos foi constatar que seus inimigos são os mesmos que os meus: o pensamento único, a realidade consensual. Pensar que o inimigo seria simplesmente "o capitalismo" apenas nos faria patinar na lama, já que não se trata de algo tão monolítico quanto se pode imaginar. Além disso, por mais que simpatizemos com ideais igualitários, não acreditamos que as pessoas já tenham uma mentalidade à altura de uma sociedade anarquista. Talvez jamais venham a ter, e ainda assim considero o terrorismo poético uma arma das mais interessantes nessa luta. Não é a luta de quem pretende uma tomada de poder, mas de quem anseia pela expansão do senso crítico. E o terrorismo poético não é a única arma, mas uma das mais sedutoras, porque pega as pessoas desprevenidas, convida-as para a reflexão usando métodos heterodoxos, diante dos quais ninguém tem um escudo pronto.
Uso aqui o "nós" porque as posições coincidem em muitos pontos, não porque somos um movimento. Contudo, o que nos interessa é a liberdade, um ideal muito mais verdadeiro que a "bondade", coisa que a rigor sequer existe - para quem tem dúvidas, que leia um pouco de Nietzsche, e entenda por a + b que a bondade é uma ficção. A propagação de qualquer ideologia baseada em imperativos categóricos só pode mobilizar através de uma nova forma de domínio, o que não deixa de ser bastante limitador. Nossa ética, por sua vez, tem uma presença imanente: é a constatação de que a liberdade individual entra em choque com a mentalidade do capitalismo avançado, por mais individualista que seja esse sistema. A competição exarcebada, a decorrente violência, os desejos inculcados artificialmente pela publicidade... não vamos entrar em detalhes em um texto curto, mas o caso é que tudo isso tende a diminuir a potência do indivíduo e a qualidade de sua vida, mesmo que na aparência seja o contrário. Porém, a contradição está dos dois lados, tanto à esquerda quanto à direita. Afinal, que liberdade seria essa em que, para questionar os abusos do poder, uma vontade autêntica (de gastar um pouco de dinheiro) tivesse que ser duramente reprimida? Não se pode ser dogmático, não se pode insistir que o consumo traga somente a infelicidade, nenhum ideal vai muito longe apoiado em sofismas. Por esse motivo não condeno Ari quando diz que não devemos rejeitar o dinheiro, apenas ter uma relação mais saudável com ele. Em uma de suas tiradas, ele disse algo com que só posso concordar: "Não estou falando de não comer, estou falando de mastigar antes de engolir. Estou falando de sentir o gosto da parada a tempo de cuspir fora se for uma merda. Ou pior: veneno. Enfim, senso crítico."
Ari está aposentado como terrorista poético. Aquela fase de sua vida ao menos rendeu seu Manual Prático da delinqüencia Juvenil, que me anima por se tratar de um convite à reflexão acessível a qualquer adolescente esperto. É preciso algo mais cativante do que panfletos para conquistar quem poderia muito bem se encerrar no egoísmo, e nesse ponto o Ari é prato cheio para os jovens. A linguagem dele é a linguagem das ruas, sua ironia questiona e diverte ao mesmo tempo e suas aventuras são demonstrações práticas de que o melhor da vida não está nas promessas do status quo. Não é um livro que ensina como derrubar o sistema, mas ensina a não abaixar a cabeça.
Ainda assim, para mim está bastante claro que a delinqüencia só pode mesmo ser juvenil, não é aconselhável para quem começa a ter rugas na cara. Tanto é verdade que o novo herói de Ari é George Soros, um dos maiores especuladores de todos os tempos. Mas é bom lembrar que Soros não é simplesmente um "porco capitalista". Também é um homem excêntrico, que alimenta associações de esquerda das mais atuantes e a defesa de programas polêmicos, tais como a legalização do aborto. Eu nunca duvidei que pode haver coerência entre subversão e acumulação de capital, não só pelo exemplo do Soros, que realmente incomoda os conservadores, como pelo exemplo de Asger Jorn, um pouco mais caro para mim. Asger Jorn foi um pintor expresssionista do grupo COBRA, que pintou seguindo seu desejo, sem se render aos preceitos sufocantes da arte engajada. Ele pintou telas que eram prazerosas tanto para ele quanto para o público, abusou das brechas do sistema, ganhou dinheiro, deve ter gasto com algumas regalias porque ninguém é de ferro, mas uma generosa parte dessa renda foi para Guy Debord e os situacionistas. Com isso, a atuação dele rendeu muito mais frutos na expansão do senso crítico do que os lamentos exangües da atual arte engajada, que nada tem de livre, nem de prazerosa, nem de contundente. Também por isso não me interessa a anti-arte, já que toda grande obra, mesmo quando formalista e apolítica, contribui para uma mentalidade mais elástica. Um bom artista sabe despertar no espectador a sensação de que a vida pode ser intensa, que pode ir um pouco além do materialismo. Eis porque vejo mais coerência em defender tanto o terrorismo poético quanto a arte erudita, cada uma em seu campo de atuação, do que diluir uma coisa na outra e chegar a uma "arte engajada" que pouco mais consegue do que assumir uma séria crise de identidade.
Obs: uma ou outra pessoa chegou a pensar que eu sou o Ari Almeida ou que ele é uma ficção minha. É melhor esclarecer que não moramos na mesma cidade e tampouco nos conhecemos pessoalmente. Aliás, somente por dedução posso afirmar que ele não é fictício. São poucas as pistas que ele deixou quanto à veracidade de suas ações, mas algumas delas são suficientes para supor que, por mais fantásticas que pareçam, ele pôs em prática as ousadias relatadas em seu livro.
12.03.2007
Para o maior terrorista poético do Brasil
Saiu um artigo meu no jornal de literatura O Casulo, sobre o terrorista poético Ari Almeida.

Ari Almeida, você é mais importante do que imagina. Se você soubesse o quanto as conversas dos artistas plásticos e dos poetas chegam sempre no mesmo impasse... Uma palavra freqüente é “crise”, pois é isso que está tomando conta de todas as expressões artísticas. A coisa é séria, os artistas estão todos perdidos, parecem mais cobras mordendo o próprio rabo. Existe, entre os poetas e artistas de hoje, uma tentativa de fundir arte e vida, de dissolver a arte no cotidiano, de fazer com que o dia-a-dia se torne mais poético. A intenção é empolgante: se o próprio correr dos dias fosse tão rico e intenso quanto um poema épico ou quanto a pintura mais bonita, já não precisaríamos nem de museus nem de coletâneas de autores. Mas a verdade é que essa tentativa fracassou, o artista continua fazendo o papel de uma instituição, de uma autoridade que decide o que é arte e o que não é. Ou seja, se precisamos do “Artista” como uma espécie de juiz, a arte continua separada da vida.
Eis que de repente, Ari, você entra na discussão. Você mesmo, jamais um artista, antes um guerrilheiro da contracultura. Nem sequer assina com o nome verdadeiro (caramba, quem é Ari Almeida?). Não pede licença para invadir a casa dos outros e espalhar suas idéias onde quer que esteja. Entende como ninguém o quanto a verdadeira história é a história do desejo. Percebe que num mundo apático como o nosso, a consciência só é despertada diante de verdadeiros crimes. E portanto oferece o terrorismo poético como alternativa, em lugar da crueldade do terrorismo real. Palavras e imagens não bastam para mudar o mundo, daí nasce teu amor pela ação. Se alguém quiser mesmo fundir vida e arte no mesmo gesto, é preciso deixar de lado toda a história da arte. Você não precisa do status de artista para ser arteiro: de outra maneira, só teria histórias frustradas para nos contar.
E o que não te falta é repertório, como você descreve no Manual Prático de Delinqüência Juvenil. Com os Delinqüentes, você ousou como um verdadeiro Lampião, com a diferença que trocou a carabina pelo estilingue. Se nós, poetas angustiados, declamamos poesia nos saraus, vocês os atiraram para dentro das casas, quebrando as vidraças e a apatia. Os muros também não foram poupados, fazendo as vezes de tela para pinturas e frases que são como disparos. Nem mesmo a sagrada televisão, a maior rival da cultura, ficou ilesa: Delinqüentes não precisam respeitar nem mesmo Rede Globo, invadem a programação e dão sua própria versão (na verdade, a subversão) do Jornal Nacional. Nas mãos de vocês, o que era um cínico out-door se torna uma queima de fogos, o que era enfeite de natal vira protesto contra o consumismo, e um técnico de geladeira merece tanto carinho quanto um grande artista ou um popstar.
Não pude deixar de notar que você tem suas mil contradições, que tento entender como efeito colateral de uma liberdade radical. Como você mesmo disse: “Hoje quem não está confuso ou está mal informado ou está sendo desonesto consigo mesmo”. Devo admitir que não é fácil te defender em público, não se fala de alguém tão polêmico impunemente. Claro que eu vejo uma grande beleza quando você conta que invadia casas para, em vez de roubar, presentear o morador com mensagens disruptivas ou com surpresas maravilhosas. É uma generosidade ampla, com a qual não estamos acostumados. Eu me pego sonhando com o que foi que sentiu a criança que ganhou um coelhinho vivo na páscoa, na calada da noite; ou a velha viúva que se deparou com uma horta inesperada em seu quintal; ou mesmo as madames que podem, talvez, “não terem entendido nada”, mas tiveram uma chance de questionar seu próprio marasmo. Não podemos esquecer, no entanto, que nem tudo que vocês fizeram pode ser imitado. São Paulo é mais perigosa que Curitiba: a polícia é mais intolerante e os traficantes estão por toda parte. Invadir casas por aqui não é recomendável. Além disso, algumas de suas subversões não me parecem boas saídas: uma catapulta de merda contra os carros novinhos da fábrica da Renault pode simbolizar uma vingança contra os ricos, mas quem limpa a sujeira depois é um homem do povo, vítima do sistema.
De qualquer maneira, em um mundo tão caótico como o nosso, acho importante ver o que tem a dizer quem busca converter todo o caos em algo positivo. Comoveu-me muito um comentário em seu blog de um professor, chamado Renato, que levou suas narrativas para a sala de aula e confessou que aprendeu contigo algo sobre união. Pode parecer desnorteador pensar que aprendemos algo tão sublime com alguém tão porra-louca, mas o perigo maior não está no seu livro nem no blog. Está na realidade em decadência, e você mesmo demonstra isso em sua prosa beatnik.
É difícil prever o que acontecerá com cada pessoa que ler o Manual, mas não duvido que ele possa até mesmo salvar vidas. É um livro que dá alternativas aos jovens mais inquietos: aqueles que se sentem sem rumo, que cedo ou tarde acabariam se perdendo, que se marginalizariam sem volta, que se desesperam por não entender porque não se adaptam. Nós precisamos desses inquietos, conscientes e em liberdade. São eles que nos dão a esperança de que algo possa mudar. Não sei se todos te compreenderão, Ari, mesmo porque você é um poço sem fundo de contradições. Ainda assim, não escondo a admiração pelo terrorista que, se nunca invadiu minha casa com seus disparos, invadiu minha mente com os relatos, e com isso mudou minha vida.
Clique aqui para baixar gratuitamente o Manual Prático de Delinquência Juvenil. E aqui para a Parte 2.
http://www.4shared.com/file/8009537/d68d3a41/MANUAL_PR_TICO_revisao_final_.html

Ari Almeida, você é mais importante do que imagina. Se você soubesse o quanto as conversas dos artistas plásticos e dos poetas chegam sempre no mesmo impasse... Uma palavra freqüente é “crise”, pois é isso que está tomando conta de todas as expressões artísticas. A coisa é séria, os artistas estão todos perdidos, parecem mais cobras mordendo o próprio rabo. Existe, entre os poetas e artistas de hoje, uma tentativa de fundir arte e vida, de dissolver a arte no cotidiano, de fazer com que o dia-a-dia se torne mais poético. A intenção é empolgante: se o próprio correr dos dias fosse tão rico e intenso quanto um poema épico ou quanto a pintura mais bonita, já não precisaríamos nem de museus nem de coletâneas de autores. Mas a verdade é que essa tentativa fracassou, o artista continua fazendo o papel de uma instituição, de uma autoridade que decide o que é arte e o que não é. Ou seja, se precisamos do “Artista” como uma espécie de juiz, a arte continua separada da vida.
Eis que de repente, Ari, você entra na discussão. Você mesmo, jamais um artista, antes um guerrilheiro da contracultura. Nem sequer assina com o nome verdadeiro (caramba, quem é Ari Almeida?). Não pede licença para invadir a casa dos outros e espalhar suas idéias onde quer que esteja. Entende como ninguém o quanto a verdadeira história é a história do desejo. Percebe que num mundo apático como o nosso, a consciência só é despertada diante de verdadeiros crimes. E portanto oferece o terrorismo poético como alternativa, em lugar da crueldade do terrorismo real. Palavras e imagens não bastam para mudar o mundo, daí nasce teu amor pela ação. Se alguém quiser mesmo fundir vida e arte no mesmo gesto, é preciso deixar de lado toda a história da arte. Você não precisa do status de artista para ser arteiro: de outra maneira, só teria histórias frustradas para nos contar.
E o que não te falta é repertório, como você descreve no Manual Prático de Delinqüência Juvenil. Com os Delinqüentes, você ousou como um verdadeiro Lampião, com a diferença que trocou a carabina pelo estilingue. Se nós, poetas angustiados, declamamos poesia nos saraus, vocês os atiraram para dentro das casas, quebrando as vidraças e a apatia. Os muros também não foram poupados, fazendo as vezes de tela para pinturas e frases que são como disparos. Nem mesmo a sagrada televisão, a maior rival da cultura, ficou ilesa: Delinqüentes não precisam respeitar nem mesmo Rede Globo, invadem a programação e dão sua própria versão (na verdade, a subversão) do Jornal Nacional. Nas mãos de vocês, o que era um cínico out-door se torna uma queima de fogos, o que era enfeite de natal vira protesto contra o consumismo, e um técnico de geladeira merece tanto carinho quanto um grande artista ou um popstar.
Não pude deixar de notar que você tem suas mil contradições, que tento entender como efeito colateral de uma liberdade radical. Como você mesmo disse: “Hoje quem não está confuso ou está mal informado ou está sendo desonesto consigo mesmo”. Devo admitir que não é fácil te defender em público, não se fala de alguém tão polêmico impunemente. Claro que eu vejo uma grande beleza quando você conta que invadia casas para, em vez de roubar, presentear o morador com mensagens disruptivas ou com surpresas maravilhosas. É uma generosidade ampla, com a qual não estamos acostumados. Eu me pego sonhando com o que foi que sentiu a criança que ganhou um coelhinho vivo na páscoa, na calada da noite; ou a velha viúva que se deparou com uma horta inesperada em seu quintal; ou mesmo as madames que podem, talvez, “não terem entendido nada”, mas tiveram uma chance de questionar seu próprio marasmo. Não podemos esquecer, no entanto, que nem tudo que vocês fizeram pode ser imitado. São Paulo é mais perigosa que Curitiba: a polícia é mais intolerante e os traficantes estão por toda parte. Invadir casas por aqui não é recomendável. Além disso, algumas de suas subversões não me parecem boas saídas: uma catapulta de merda contra os carros novinhos da fábrica da Renault pode simbolizar uma vingança contra os ricos, mas quem limpa a sujeira depois é um homem do povo, vítima do sistema.
De qualquer maneira, em um mundo tão caótico como o nosso, acho importante ver o que tem a dizer quem busca converter todo o caos em algo positivo. Comoveu-me muito um comentário em seu blog de um professor, chamado Renato, que levou suas narrativas para a sala de aula e confessou que aprendeu contigo algo sobre união. Pode parecer desnorteador pensar que aprendemos algo tão sublime com alguém tão porra-louca, mas o perigo maior não está no seu livro nem no blog. Está na realidade em decadência, e você mesmo demonstra isso em sua prosa beatnik.
É difícil prever o que acontecerá com cada pessoa que ler o Manual, mas não duvido que ele possa até mesmo salvar vidas. É um livro que dá alternativas aos jovens mais inquietos: aqueles que se sentem sem rumo, que cedo ou tarde acabariam se perdendo, que se marginalizariam sem volta, que se desesperam por não entender porque não se adaptam. Nós precisamos desses inquietos, conscientes e em liberdade. São eles que nos dão a esperança de que algo possa mudar. Não sei se todos te compreenderão, Ari, mesmo porque você é um poço sem fundo de contradições. Ainda assim, não escondo a admiração pelo terrorista que, se nunca invadiu minha casa com seus disparos, invadiu minha mente com os relatos, e com isso mudou minha vida.
Clique aqui para baixar gratuitamente o Manual Prático de Delinquência Juvenil. E aqui para a Parte 2.
http://www.4shared.com/file/8009537/d68d3a41/MANUAL_PR_TICO_revisao_final_.html
11.30.2007
Menino que faz os sonhos
Para quem perdeu minha apresentação de hoje à tarde, vou deixar aqui o conto na íntegra. Ao vivo foi muito melhor, é claro, mas acho que o texto funciona com ou sem uma interpretação em voz alta.
Menino que faz os sonhos
- Ai, que mininu bunitu, coisa fofa da titia!
Rafaelzinho mal sabia que se chamava Rafael. Ainda estava aprendendo a pronunciar os primeiros sons, e como quase sempre chamavam-no de “Mininu”, ainda
estava longe o dia em que diria: “Meu nome é Rafael dos Anjos”.
- Bilubilubilubilubilú! Lindinho!
Na verdade, é Rafael das Dores, mas com um rostinho tão angelical, os cabelos loiros charmosamente encaracolados e a pele tão branca, preferiria um nome que melhor lhe aparentasse, e não o dos parentes.
- Vem agora com a mamãe, meu anjo, vem.
Rafaelzinho ainda não sabia que a mãe era operária de uma fábrica de cotonetes. Não tinha a menor idéia de o que é isso. Não tinha a menor idéia de quanto suor valia cada papinha que devorava. Aliás, não sabia que a mãe soluçava de aflição, e nem que seu nome é Maria, e nem que estava devendo três meses de aluguel.
- Mininu gotôso! Ói que perninha gotósa de apertar!
Tão bonito esse Rafaelzinho que o sucesso com as meninas será fácil. Mesmo as riquinhas mais embonecadas vão cair na sua lábia, nos bailes da cidade. E ele um rapaz meigo. Não muito romântico nem monogâmico, mas conhecedor das delicadezas que as meninas gostam.
- Uma graça, não é? Lindão!
O Mininu tinha um passatempo favorito, que era brincar de carrinho. Acelerava pelos ladrilhos frios da sala, buzinava para os três vira-latas magros, e de quando em quando derrapava em alguma almofada velha, poeirenta, esquecida no chão.
- Cumprimenta com a mão assim. Estica mais, assim. Isso aí, filhão!
O pai procurando emprego há anos, tentando o melhor que pode sem encontrar nada. Rafael vai demorar para aprender a ler, então não sabe o que é jornal e muito menos o que é Classificados. Dizem que seu pai é um desclassificado, mas isso ninguém da família entende muito bem o que significa.
- Você é um príncipe, filhinho. Um principezinho encantado.
E quando levasse para casa as filhas bonitas da gente rica, veria no braço delas os pêlos arrepiados. Não por tesão, mesmo que ele caprichasse nas carícias. Seriam as paredes descascadas, as cortinas desbotadas, o sofá gasto e remendado. Nenhuma delas se sentiria à vontade ali, por mais que confessassem uma quase magia em seu beijo. Ele fingiria não ver problema algum. Elas diriam que ele se parece com um galã de novela e estaria tudo bem.
- Tutitutituti. Tutitutitutitutitu!
Rafaelzinho ainda não sabia o quanto o trabalho esgotava sua mãe. Ela chegava quase desfalecendo de cansaço, era enorme seu esforço para disfarçar. O bebê era a esperança da casa, e todos combinaram que ele seria o primeiro da família a entender perfeitamente o que é essa tal de dignidade.
- Ae, garotão! Mininu esperto, assim que eu gosto!
O pai jamais contaria quanta humilhação já passou com os antigos patrões. Até cuspe na cara ele tomou, quando reclamou de seus direitos. “O que foi, seu Zé Ruela? É baixar a cabeça e fazer o que eu mando. Tá me olhando torto porquê? Tu é feio demais, porra. Mete o rabo debaixo das pernas e pega tuas coisas. Tá despedido.”
O sol está forte. O vento que sopra ao meio-dia é muito bem-vindo, refrescante. Uma sopa de ervilhas está para sair do fogo e o aroma desperta a fome nos moradores.
- Amo demais esse gurizinho. Ele é a nossa maior bênção, não é? Nós somos felizes, não somos?
- Somos, sim.
E Rafaelzinho corre pela sala, descalço, descobrindo brinquedos e inventando pequenos truques. Atrás de uma cortina ou do lado de lá da parede cabe um universo inteiro. Absolutamente tudo o que a brincadeira pode conceber é possível e real. Tesouros indescritíveis, imensos, doidos. Seres fantásticos maiores que uma casa, maiores que o quarteirão. Mesmo assim cabem em sua minúscula mão de mágico, na mão dele, menino que faz os sonhos.
Menino que faz os sonhos
- Ai, que mininu bunitu, coisa fofa da titia!
Rafaelzinho mal sabia que se chamava Rafael. Ainda estava aprendendo a pronunciar os primeiros sons, e como quase sempre chamavam-no de “Mininu”, ainda
estava longe o dia em que diria: “Meu nome é Rafael dos Anjos”.
- Bilubilubilubilubilú! Lindinho!
Na verdade, é Rafael das Dores, mas com um rostinho tão angelical, os cabelos loiros charmosamente encaracolados e a pele tão branca, preferiria um nome que melhor lhe aparentasse, e não o dos parentes.
- Vem agora com a mamãe, meu anjo, vem.
Rafaelzinho ainda não sabia que a mãe era operária de uma fábrica de cotonetes. Não tinha a menor idéia de o que é isso. Não tinha a menor idéia de quanto suor valia cada papinha que devorava. Aliás, não sabia que a mãe soluçava de aflição, e nem que seu nome é Maria, e nem que estava devendo três meses de aluguel.
- Mininu gotôso! Ói que perninha gotósa de apertar!
Tão bonito esse Rafaelzinho que o sucesso com as meninas será fácil. Mesmo as riquinhas mais embonecadas vão cair na sua lábia, nos bailes da cidade. E ele um rapaz meigo. Não muito romântico nem monogâmico, mas conhecedor das delicadezas que as meninas gostam.
- Uma graça, não é? Lindão!
O Mininu tinha um passatempo favorito, que era brincar de carrinho. Acelerava pelos ladrilhos frios da sala, buzinava para os três vira-latas magros, e de quando em quando derrapava em alguma almofada velha, poeirenta, esquecida no chão.
- Cumprimenta com a mão assim. Estica mais, assim. Isso aí, filhão!
O pai procurando emprego há anos, tentando o melhor que pode sem encontrar nada. Rafael vai demorar para aprender a ler, então não sabe o que é jornal e muito menos o que é Classificados. Dizem que seu pai é um desclassificado, mas isso ninguém da família entende muito bem o que significa.
- Você é um príncipe, filhinho. Um principezinho encantado.
E quando levasse para casa as filhas bonitas da gente rica, veria no braço delas os pêlos arrepiados. Não por tesão, mesmo que ele caprichasse nas carícias. Seriam as paredes descascadas, as cortinas desbotadas, o sofá gasto e remendado. Nenhuma delas se sentiria à vontade ali, por mais que confessassem uma quase magia em seu beijo. Ele fingiria não ver problema algum. Elas diriam que ele se parece com um galã de novela e estaria tudo bem.
- Tutitutituti. Tutitutitutitutitu!
Rafaelzinho ainda não sabia o quanto o trabalho esgotava sua mãe. Ela chegava quase desfalecendo de cansaço, era enorme seu esforço para disfarçar. O bebê era a esperança da casa, e todos combinaram que ele seria o primeiro da família a entender perfeitamente o que é essa tal de dignidade.
- Ae, garotão! Mininu esperto, assim que eu gosto!
O pai jamais contaria quanta humilhação já passou com os antigos patrões. Até cuspe na cara ele tomou, quando reclamou de seus direitos. “O que foi, seu Zé Ruela? É baixar a cabeça e fazer o que eu mando. Tá me olhando torto porquê? Tu é feio demais, porra. Mete o rabo debaixo das pernas e pega tuas coisas. Tá despedido.”
O sol está forte. O vento que sopra ao meio-dia é muito bem-vindo, refrescante. Uma sopa de ervilhas está para sair do fogo e o aroma desperta a fome nos moradores.
- Amo demais esse gurizinho. Ele é a nossa maior bênção, não é? Nós somos felizes, não somos?
- Somos, sim.
E Rafaelzinho corre pela sala, descalço, descobrindo brinquedos e inventando pequenos truques. Atrás de uma cortina ou do lado de lá da parede cabe um universo inteiro. Absolutamente tudo o que a brincadeira pode conceber é possível e real. Tesouros indescritíveis, imensos, doidos. Seres fantásticos maiores que uma casa, maiores que o quarteirão. Mesmo assim cabem em sua minúscula mão de mágico, na mão dele, menino que faz os sonhos.
11.12.2007
Re: Pau latino
Caro Ivan,
Guardei aquele guardanapo em meu bolso. Quando cheguei no hotel, tirei
do
bolso e estava escrito uma coisa bizzara, assim: Não escrevo nada, não
sou
porra nenhuma, ó alma. Era só isso, parece uma piada mesmo.
Um abraço,
Antônio.
Guardei aquele guardanapo em meu bolso. Quando cheguei no hotel, tirei
do
bolso e estava escrito uma coisa bizzara, assim: Não escrevo nada, não
sou
porra nenhuma, ó alma. Era só isso, parece uma piada mesmo.
Um abraço,
Antônio.
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