11.21.2010

Nota final

Como é que se introduz o encerramento de algo que, no fim das contas, é um começo? Acho que contando brevemente a tortuosa trajetória que me trouxe até aqui. A primeira atividade criativa que me ocupou foram os quadrinhos. As referências que eu tinha eram Turma da Mônica, que eu consumia aos montes, e a Chiclete com Banana do Angeli, que eu pegava meio escondido das coisas do meu pai. Eu e meu vizinho Fê bolávamos e desenhávamos histórias absurdas, onde piadas sujas iam entrando em um universo à primeira vista infantil. Um dos personagens era o Pafúncio, que uma vez fingiu suicídio para comover parentes e colegas, mas, contrariando sua expectativa, deixou todos felizes com sua presumida morte. Alguns anos depois,  descobri que o rock acelerava minha pulsação e escrevi algumas letras esquisitas. E falava para meus amigos mais próximos, de brincadeira: "Decidi que vou ser famoso". O problema era que eu não sabia cantar nem tocar nada, mas isso era o de menos: eu começava a entender que arte podia ser catártica.

Ninguém mais do que eu precisava de estímulos estéticos capazes de provocar alguma transformação. Quando criança, eu era patologicamente tímido. Patológico, afinal posso dizer sem muito medo de errar que eu era o mais travado da escola inteira. O curioso é que uma vez meu pai sugeriu que eu fizesse análise para lidar com isso, mas fui reticente. Por mais frustrado que me sentisse, tive medo que "me curar" pudesse estragar minha criatividade. Eu ainda nem tinha criado nada de que realmente me orgulhasse, mas já começava a intuir que meu caminho seria pela arte. Quando tive conhecimento de literatura subversiva (começando por Rubem Fonseca) e das vanguardas artistícas europeias, pressenti que poderia estar meio lento nos primeiros passos, mas que havia um caminho alternativo a  perseguir. Em vez de consultar um analista, na adolescência fui lendo Freud e me auto-analisando, enquanto os artistas malditos dos sons, das letras e das imagens me empurravam para me arriscar mais na vida social.

Hoje em dia há uma espécie de consenso instaurado que a arte não transforma ninguém, que no máximo distrai e diverte. Muitos intelectuais repudiam a estética justamente por isso, considerando-na uma espécie de anestésico que minaria o contato com o mundo real. Não é uma questão fácil de responder, afinal ninguém consegue medir o efeito concreto de uma pintura, de uma música ou de um livro nas atitudes de uma pessoa. O que eu posso dizer é que parti de muito pouco, de uma apatia quase autista, e hoje, se contasse tudo que já aprontei, nem Allen Ginsberg poderia dizer que não me experimentei, que não ousei, que não encarei a vida com uma coragem que pouquíssimas pessoas têm. Podem até me repreender, achar que em alguns momentos fui longe demais - e, pela tentativa e erro, algumas vezes fui mesmo - mas lembrando que até os treze anos eu mal abria a boca, conquistei uma liberdade a se considerar. Pode ser que eu esteja enganado, que eu teria ido ainda mais longe sem a companhia da arte, mas eu apostaria a alma que não.

Contudo, não foi uma evolução linear. Aos vinte anos, quando eu começava a me sentir à vontade comigo mesmo de maneira inédita, quando as coisas pareciam se encaixar - eu terminava meu primeiro livro, eu voltava de uma viagem de oito meses da Europa, eu ingressava na ECA, eu me sentia confiante o bastante para fazer tudo o que desse vontade - no meu melhor momento, entrei em uma crise profunda. Resumindo muito, as cinco pessoas em que eu mais confiava na época me decepcionaram bruscamente em menos de seis meses. Foi como se todas minhas paranoias de rejeição se provassem reais, e não a mera insegurança que pareciam ser. Pensando hoje no assunto, acho que todos estavam tão acostumados com o velho Ivan que não quiseram aceitar que ele estava mudando tão rápido, pouco importando que ele estivesse melhor e mais simpático que antes. Eles me atacaram de maneiras que eu não poderia prever e, como foram cinco ao mesmo tempo, não aguentei muito bem.

Não é à toa que tanta gente acha o Será um livro pesado. Eu até que tento, no final,  mostrar que dá para descer bem fundo no abismo e voltar, mas antes disso o leitor pode vislumbrar o estado em que eu me encontrava. A meu ver, não deixa de ser uma tentativa desesperada de salvação, e acho que escrevê-lo me ajudou a me recuperar, porém há uma descida até o mais desolador dos infernos antes da esperança. Os anos mais agudos da crise não deixaram de ser anos de aprendizado, em que minha única opção era perder tudo o que ainda me restasse de ingenuidade, aceitar as pessoas como elas são, e buscar freneticamente maneiras de afirmar a vida, apesar das intempéries. Nada muito leve surtiria efeito porque não me pareceria convincente.

Creio que com a ajuda da Telma, a namorada que não entendo como me suportou por mais de três anos, Nietzsche e boa arte, eu poderia ter me restabelecido um tanto mais cedo do que de fato aconteceu. Quem conhece meus textos sobre arte contemporânea agora pode entender melhor porque são tão viscerais. Também foi aos vinte anos que tomei conhecimento da chamada morte da arte. Eu entrei na faculdade desavisado, animado por milhares de pinturas que eu tinha visto na minha estadia europeia. Kandinsky, Miró, Picasso, Goya, Bosch, Rembrandt, Van Gogh, todos os que eu só conhecia por reprodução, vistos ao vivo me causavam um bem enorme, era como se preenchessem pedaços de mim que, por defeito de fabricação, estavam me faltando. Mas eis que entro na faculdade e começo a me inteirar da crítica atual, quase hegemônica, que tenta fazer meus herois parecerem tão conservadores quanto os mais medíocres dos fascistas. E provavelmente teria sido melhor ignorar essa besteira pós-moderna, mas eu fiquei na dúvida por um tempo. Estava meio difícil seguir a intuição, porque a intuição também me dizia que as pessoas mais próximas jamais me fariam sentir tão miserável, e essa previsão falhou.

No momento em que eu mais precisava de arte, um dos poucos apoios que me restavam, fui bombardeado por uma ideologia intransigente que simplesmente tentava me fazer sentir um reacionário caso não renunciasse aos artistas que mais me fortaleciam. Só fui me sentindo melhor conforme aprendi a desmontar os argumentos deles, um por um. Isto se concluiu agora, com o Diagnósticos para uma arte em crise, uma espécie de mestrado outsider. Estão longe de ser meus textos favoritos, gosto mais da minha ficção, mas achei que era necessário refutar a morte da arte para não deixar mal-entendidos. Eu gostaria de ter lido algo assim quando comecei a estudar, e é um conteúdo que não se encontra em lugar algum.

Talvez fique mais claro, com tudo que contei, porque estou encerrando o blog. Eu creio estar fechando um grande ciclo. Com o tempo, aquela minha crise pessoal foi mitigando, e já posso dizer que vários dos melhores momentos da minha vida só foram possíveis porque aprendi algo com a queda.  Também meu desgosto com a crise da arte foi diminuindo um pouco, a ponto de eu já conseguir apreciar alguns aspectos menos deploráveis dos meus "inimigos". Bem que fico curioso em saber o que seria de mim se a trajetória tivesse sido mais natural, sem desvios abruptos, mas acho que eu não teria chegado tão longe se não fossem as porradas que levei. Passei boa parte da vida me sentindo afastado da realidade, sentindo que havia alguma coisa a que eu não tinha contato efetivo; porém cada vez mais a sensação é, pelo contrário, de que de tanto tentar, acabei aprendendo como que se quebram algumas barreiras. Em outras palavras, entendo cada vez melhor como tocar a pele da vida.

Não sei bem se vai mudar muito o que escreverei no futuro do que o que escrevi até agora. Uma diferença é que não acho que tenho que provar mais nada a ninguém. E outra é que até aqui meus escritos vieram do próprio processo de descoberta, os mares que eu singrava ainda me eram desconhecidos. Hoje sou rodado demais para ficar com L'enfant no nome. Terrível eu continuarei sendo, isso eu garanto.


This is not The End. 
This is The And.