6.13.2009

Obs:

O livro é baseado em dez anos de anotações de meus sonhos, que só poderiam ser "amarrados" descontinuamente, em uma linguagem delirante. Levei a palavra escrita o mais longe que pude, próxima da desagregação do "eu" de nossos pensamentos inconscientes. Contudo, mesmo esquizofrenizando a palavra, eu não estava satisfeito. Nos sonhos há sempre algo da ordem do não-dito que poderia ser simulado, mas que minhas frases mais loucas ainda não transmitiam como eu queria. Eu queria sensações inalcançáveis pelo pensamento verbal. Isso me levou a misturar as palavras com diversas imagens visuais, muitas delas abstratas. As pinturas entram como aquilo que o discurso não alcança, aquilo que foge do racionalizável.

Temos uma tradição de milênios em que o mundo da arte o mundo dos sonhos são comparados um ao outro, confundindo-se. Sendo assim, e já que não vivemos só dos devaneios, é natural que a discussão sobre os reflexos da arte na realidade tenha alguma consistência. O protagonista de Puro enquanto, cuja voz conhecemos apenas por meio de seu inconsciente, nos leva a um mergulho no universo fantástico dos sonhos e da arte. Porém, por mais que encaremos este mergulho como aventura pungente, repleta de descobertas viscerais, as incursões pelas profundezas ecoam a agonia de quem se afasta da realidade. O protagonista percebe-se em coma, percebe-se alienado, e procura despertar. Não é tarefa fácil, pois para captar algo da realidade, para não tomá-la pelo mundo dos sonhos, todos temos de nos haver com nossos maiores delírios.

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