6.09.2009

Tempo (e a falta de)

Uma das minhas angústias mais frequentes costumava ser a falta de tempo. Não era fácil conciliar as tarefas do ganha-pão com o tempo necessário para criar, para pensar e para falar de arte. Sempre uma urgência desesperada de me expressar, e eu seguia frustrado porque outros deveres me chamavam. Hoje, ao menos aquilo que de fato eu precisava fazer e me deixava sem dormir está em boa parte concretizado. Terminei o Puro enquanto, livro que me tomou dez anos para realizar e que termino com grande felicidade. E alívio, vocês não sabem como foi difícil. Nos próximos anos vou ficar só nos contos e nos poemas, mais fáceis de espremer entre uma obrigação e outra.

Quanto às minhas leituras, sinto que, na medida do possível, pude pô-las em dia - nos últimos anos, li tanta filosofia, tanta teoria estética e tanta literatura que ao menos não me sinto mais numa dívida constante. A sensação de que não posso escrever um artigo decente até entender o que Nietzsche ou Rosenberg queriam dizer, ou que eu não posso me considerar escritor de verdade até ler os principais autores, já foi quase neurótica, hoje está bem mais suave. Só passou com as muitas horas de vôo, depois de ler muito. Em muitos momentos, foi um grande prazer; em outros nem tanto, pois a gente não lê só os autores com que tem afinidade.

Pensei agora, não é à toa que em um de meus romances, estico meu tempo até o século XXIII, e nesse novo, o tempo é puro enquanto. À minha maneira, eu quis ampliar a experiência temporal, revirar o cotidiano. Torná-lo mais musical, extrair ritmos. Não me contento com o tempo objetivo, pois sei que ele coexiste com o tempo dos sonhos e dos devaneios. Percepção e memória são inseparáveis, e a mais remota infância ecoa em cada um de nossos gestos. Se entrarmos em física quântica, então, a coisa se complica ainda mais, pois há teorias que entendem o passado, o presente e o futuro como como ocorrências simultâneas. Mas essa é uma conversa que deixo para um outro dia - pra que a pressa?

O que me interessa não é só o tempo, mas a temporalidade, os ritmos, a possibilidade de ver vida e arte numa dança. Aquela história de "morte da arte", na minha opinião, aniquilava tudo isso, percebessem ou não seus defensores. A gente faz o melhor que pode para ser um bom terrorista poético, ou seja, para não se esquecer de dançar enquanto briga, mas nem sempre é fácil. Acho que hoje, finalmente, estou bem seguro de que minhas opiniões sobre arte contemporânea estão embasadas o suficiente para o assunto não me drenar tanto as energias. Organizando os artigos já escritos e alguns inéditos, até o fim do ano reúno o material todo em um livro e lanço grátis em PDF. Assim, dou minha conclusão à querela, em que eu gastei tanto tempo e neurônio que minha pressão estava sempre alta, e também evito deixar monotemático este tão querido blog. Exatamente porque o tempo é precioso, quero postar mais sobre atos criativos, meus e dos outros, e menos reclamações sobre a anticriação. Os dois ou três melhores artigos inéditos contra a antiarte eu ainda vou postar avulsos, porque talvez sejam os mais fortes, mas comecei a sentir essa querela como um contra-tempo, e acho que o barato é vencê-la logo, para ajudar a arte de modo geral a recuperar também seu tempo perdido.

Carpe diem et carpe noctem!

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