3.26.2007

O tal do bonde das letras

Assunto delicado esse bonde das letras... Eu acabei de falar mal do pessoal de artes plásticas, me deu uma certa preguiça de entrar nessa outra briga, dessa vez dos escritores. Mas vou traçar algumas linhas. Para quem pegou o bonde andando, um bom link para ficar a par é esse aqui: http://todoprosa.nominimo.com.br/ do Sérgio Rodrigues. Resumindo, 16 escritores estão pedindo 1,2 milhões de reais pela Lei Rouanet para um projeto associado à Companhia das Letras. Cada um ficaria em uma cidade diferente do mundo durante um mês, com o compromisso de na volta escrever uma história de amor ambientada no local.
A verba ainda nem saiu, mas gostei de ver como isso gerou discussão. Um debate desse precisa acontecer, e é bacana ver que as pessoas se importam, que elas querem saber como o dinheiro público vai ser gasto, ou, mais interessante ainda, qual a validade de um projeto que mal disfarça sua vocação marqueteira. Ninguém é capaz de dizer que não é pura jogada de marketing, acho que nem os escritores escalados. Respeito muito alguns deles - Sérgio Sant'Anna, Joca Terron, Lourenço Mutarelli, Marçal Aquino, Ruffato - mas suspeito que eles mesmos duvidem que os livros originados dessa viagem estarão entre seus melhores. É clichê demais, uma história de amor numa cidade estrangeira...
Mesmo assim, não consigo ser taxativo nesse caso. Acontece que meu maior salto qualitativo não devo nem ao Gilson Rampazzo, do Colégio Equipe, nem ao Carlos Felipe Moisés, com sua oficina literária, por mais que os dois sejam excelentes professores. Acho que as melhores páginas que eu escrevi até agora, o capítulo "Zeigeist" de Será, jamais teriam existido se não fosse a oportunidade que eu tive de passar, não apenas um mês, mas oito, em terra estrangeira, na Europa. Não foi Lei Rouanet, foi um "paitrocínio". Eu havia ingressado na faculdade, e meu pai foi generoso de tanto que ficou aliviado - não apenas com esse pequeno feito, mas também pelo fato de que a faculdade era pública, e portanto ele se desencarregava de pagar pela minha (boa?) educação. Como prêmio, eu poderia escolher um carro ou uma viagem. Até hoje não tenho carro, nem por isso me arrependo da minha opção. Ali, em solo estrangeiro, cada dia era um contato com o Outro, com a alteridade, com o desconhecido. Uma experiência desse tipo é das mais ricas que se pode ter, e por saber disso eu entendo o quanto é quase impossível uma pessoa criativa recusar um convite desses.
Admiro muito o gesto de Sartre, que recusou o Prêmio Nobel quando lhe foi concedido. Ele desdenhou uma quantidade absurda de dinheiro, apontando que Alfred Nobel, ainda que hoje inclua o Prêmio da Paz em seu legado, não deixa de ter sido o inventor da dinamite. Ele também ressaltou o quanto era importante não se tornar codificado por um rótulo, ainda que fosse o prêmio máximo da literatura. A resistência de Sartre foi significativa, mas também é inegável que ele estava numa situação financeira bastante cômoda, e pôde sustentar esse luxo sem grandes abalos. No Brasil é diferente, mesmo os escritores consagrados não costumam ficar ricos. Uma meia-dúzia consegue manter uma vida modesta vivendo apenas da escrita, sendo que muitos dos nomes mais importantes mal conseguem tirar a barriga da miséria. Em boa parte por culpa do leitor, devido a sua quase inexistência.
Com tudo isso na cabeça, fiquei imaginando o que eu faria, se por acaso o convite da viagem fosse feito para mim. É bom informar que dentro da comitiva se incluem escritores iniciantes, alguns sequer têm livro publicado - o que, aliás, só gerou mais bate-boca e indignação. Mas, enfim, supondo que me convidassem para uma boca-livre dessa, levando em conta o sofrimento que passo para pagar minhas contas. .. Não sei bem se me pesaria mais o que sinto com o exemplo do Sartre, ou a importância que atribuo ao ócio criativo em solo estrangeiro. As duas saídas custam caro, e só posso dizer que nos dois casos, aceitando ou recusando, eu ficaria com remorsos.

PS: Escrevi de madrugada, estou relendo agora. Vou confessar que esse episódio me deixou bem confuso. Eu até entendo os escritores que entraram no barco, é uma proposta que se parece muito com um mês de liberdade, e por isso não tenho muita vontade de ser radical e condená-los. Por outro lado, é um projeto que se subordina demais ao mercado. Juntando agora com o que eu escrevi em "Arte em crise", nos dois casos acho que o interessante seria estar além do mercado, e não aquém. Não dá para ignorar o mercado, não faz sentido colocá-lo como um inimigo constante porque isso é falso - sem mercado mal chegaríamos ao fruidor, que é onde a obra de arte se completa. Mas é preciso estar além do mercantilismo. Valer-se do capital como recurso inevitável, mas ultrapassá-lo.