12.12.2009

Os dias da peste



Na ficção científica, o debate mais quente tem sido o do experimentalismo formal versus foco no conteúdo. É uma falsa oposição, mas é um tanto aborrecido notar que muitos especialistas do gênero fiquem tão tímidos diante de certos desafios, como os propostos por Nelson Oliveira em As três leis. O que Nelson vem propondo em seus artigos é extremamente alvissareiro para escritores de FC, ao menos para os que querem sair do nicho e ganhar atenção de um público e de uma crítica que ultrapassem os limites do gênero. Assim como Rubem Fonseca não é estimado apenas por fãs de romance policial, a ficção científica pode ir mais longe do que tem ido. Aliás, no exterior a sci-fi tem se repensado, o Brasil é que está atrasado - e que graça pode ter uma ficção especulativa que não olha para a frente? Olhar para a frente não significa pegar 1984 e jogar para 2084 - também pode ser, mas há outros links a se fazer.

Sob o pseudônimo de Luiz Bras, Nelson aponta que a literatura mais aceita pela crítica, herdeira de Clarice, Guimarães ou do mesmo Rubem Fonseca, tem se repetido demais. Por maior que seja o apuro formal dos escritores contemporâneos, estes têm sido pouco inovadores, especialmente no conteúdo. Podem monopolizar os elogios dos críticos com uma escrita consciente e madura, porém têm propiciado inevitáveis sensações de déjà vu. A ficção científica, por outro lado, sempre se esmerou pela inteligência inventiva, lidando com um vasto repertório de possibilidades narrativas. O conteúdo tem sido o forte da sci-fi; a forma, o triunfo da literatura considerada "séria": por que um não pode aprender com o outro?

Há resistências dos dois lados, preconceitos, posições identitárias, preguiça. Por isso que uma das minhas maiores alegrias literárias do ano foi Os dias da peste, de Fábio Fernandes. Antes mesmo de abrir o livro, a conversa que eu tive com o autor no lançamento já me sinalizou que os intercâmbios são possíveis. Leitor atento de Leminski e Borges, Fábio defendia o cuidado com a linguagem e atacava o purismo de ambos os lados. No bar da Bela Cintra, ressaltava que há tecnologia em tudo, até mesmo na camisa que vestimos, portanto, por mais humanista que se queira ser, não há como se livrar dos aparatos, recusar a ciência, ignorar as máquinas. Isto não significa que todo escritor deva escrever sci-fi ou ser expert em mecatrônica, apenas evitar a negaçao de um fato consumado. Aliás, Fábio diz estar mais interessado na reação das pessoas à tecnologia do que nos gadgets em si.



Neste exato momento, estamos recorrendo à internet. É consenso que tal ferramenta vem transformando nossa maneira de comunicar, de interagir com os outros, e consequentemente nossa maneira de pensar. Os Dias da Peste faz um excelente retrato do pensamento internético. Brincamos ao apelidar o Google de Deus, já o tomamos como uma entidade, um cérebro gigante, mas até o momento cremos tê-lo sob controle, afinal nos asseguramos de ter alma e os computadores, não. Mas por quanto tempo teremos esta certeza? As primeiras páginas do romance são a apresentação de Lucida Sanz, uma curadora que em 2109 resgata os antecedentes da chamada Convergência, a partir da qual, nós suspeitamos, a inteligência dominante passará a ser pós-humana. O que isto significa, vamos decifrando aos poucos, em notas de rodapé preparadas pela curadora. O livro se organiza em torno das anotações de Artur, blogueiro de nossos tempos, em diários virtuais que começam em abril de 2010. Artur tenta desvendar o súbito comportamento anormal que acomete os computadores de todo o planeta. Trata-se de uma peste digital com consequências caóticas - aeroportos parados, economia estagnada, população em pânico. Não parece um vírus comum, pois cada máquina responde ao usuário de maneira única, recorrendo às informações arquivadas para dialogar e pedir para não ser desligada.

Se a história avança por posts e podcasts, é pelos rodapés que compreendemos, paulatinamente, para que novo mundo apontam. Para os leitores pós-humanos de 2109, nosso presente é visto com estranhamento, pois mesmo a ideia de um mundo físico causa dificuldades de compreensão. São cômicas as interpretações não muito lúcidas desses historiadores do século XXII. Eles sofrem com as gírias, com as piadas e com as ambiguidades. Por exemplo, quando o blogueiro diz que se fodeu "em verde e amarelo", o rodapé comenta que "não foi encontrada na BioWeb nenhum registro de relações sexuais envolvendo tintas". Muito se perde, não se tem mais registro nem de Napoleão Bonaparte, embora a maior perda pareça ser a de nossa subjetividade. Estamos diante de uma nova mentalidade, mais limitada em alguns aspectos, mas turbinada em outros. Desde as vitórias de Deep Blue sobre Kasparov, os computadores nos humilham, no entanto fomos nós que os programamos, eles amplificam possibilidades de nossas próprias mentes.

Para Lucida Sanz e seus leitores, a narrativa linear é coisa do passado. Os links e o hipertexto oferecem sempre uma camada a mais, numa continuidade incessante de referências onde a obra fechada não mais se sustenta. A convergência de Fábio, vamos notando, é a do universo da ficção científica com a semiótica, ambas imbricadas em pesquisas com inteligência artificial. É difícil ler Steven Pinker (Como a mente funciona), e não concordar que a inteligência humana, até certo ponto, pode ser elucidada pela informática, pois muitos de seus processos são semelhantes. A hipótese de que um dia se possa criar máquinas com volição não é de todo fictícia, pois a linguagem humana também recorre a procedimentos que podemos considerar automáticos. Não é preciso esperar por 2019 para se inquietar com isso. Os artigos - muito bem escritos, por sinal - de Oliver Sacks também nos mostram o quanto somos maquínicos, pois basta um defeito no cérebro para fazer com que um homem não distingua sua mulher de um chapéu, não retenha memória recente ou perca completamente sua personalidade sem deixar de realizar tarefas lógicas. Onde está, portanto, a subjetividade?

Tomamos um comprimido contra a depressão e nos tornamos outra pessoa - nossa "alma" era melancólica ou tínhamos um problema na recaptação da serotonina? A ciência nos propõe questões tão ou mais perturbadoras que o existencialismo ou a psicanálise. Correr para a igreja para não enfrentá-las não nos salva dos comportamentos automáticos, apenas reforça o determinismo psíquico. O otimismo do livro - também o meu - é o de que o homem ultrapassa os aspectos artificiais da inteligência ao usar o humor, a palavra poética e ao se deixar levar pelos afetos. Contudo, do Deep Blue aos computadores "artistas" de Bill Seaman, estamos ameaçados a menos que enfrentemos nossos padrões pré-programados com uma vida criativa. A linguagem coloquial, "espontânea" de Artur é colocada sob suspeita pela lógica da inteligência artificial, no entanto esta não dá conta - os sentimentos mais simples são os mais herméticos para as Inteligências Construídas, para as máquinas que tentam inutilmente compreender o homem. Não é por exibicionismo que Foucault, Deleuze ou Umberto Eco são citados no livro, pois devemos nos preparar para desafios à nossa própria humanidade.

Entre as inúmeras citações, ganham destaque os diálogos de Artur com um escritor consagrado, Sant'Anna (livremente inspirado em Sérgio Sant'Anna). Sant'Anna não disfarça seu desprezo pela literatura de ficção científica, no que representa a opinião majoritária da academia. Artur tinha feito uma oficina literária com o mestre em sua juventude (assim como o próprio Fábio) e tenta, inutilmente, convencê-lo de que há boa sci-fi, desde que se separe o joio do trigo. São mundos distantes, Sant'Anna permanece refratário a esse universo, no entanto o blog de Artur, de maneira didática, convida o leitor a deixar de lado seus preconceitos e conhecer o que a sci-fi tem a oferecer. Os embates de Artur com Sant'Anna, me parecem, são a tentativa do próprio Fábio de ser reconhecido como escritor competente, não só entre os aficcionados pelo gênero. Não seria o primeiro brasileiro a ganhar esse status, uma vez que Bráulio Tavares, merecidamente, recebeu elogios de ninguém menos que José Paulo Paes. Em minha opinião, Os dias da peste é um livro essencial, não só para leitores de sci-fi, mas para qualquer um que acompanhe literatura contemporânea. Lamento apenas alguns falhas na edição - erros de datilografia, na cronologia e outros pequenos lapsos. Nada que não possa ser resolvido numa segunda tiragem, mas são detalhes que mereceriam melhor cuidado. No mais, torço para que o livro tenha a longevidade de muitas edições, por mais que não saibamos o que o futuro (do livro em papel, da literatura, da humanidade, das Inteligências Construídas) nos reserva.

11 comments:

Fabio Fernandes said...

Ivan, você foi direto no nervo da palavra. Pescou a polissemia do signo. O resto é silêncio - e esperar por uma segunda edição, que sonhar não custa nada. Abraço e obrigado!

Ivan Hegenberg said...

Valeu, meu caro!

Abração

Romeu Martins said...

O esteta Ivan também é um grande resenhista!

Parabéns ao resenhista e ao resenhado ;-)

g]< said...

Interessante o embate forma/conteúdo ser a introdução da resenha; acho essa uma questão fundamental. Por que tanta resistência do fandom com relação às experimentações formais da narrativa de FC? Por que apenas escritores de outras vertentes são legitimados a arriscarem o impossível? Por que nas experimentações formais "existe um maior risco de cansar o leitor"? Por que escritores de FC não podem incorporar em seus textos digressões e "denouement"? São questões nada triviais que merecem uma maior consideração no presente debate.

Guilherme Kujawski

Fabio Fernandes said...

Como se diz atualmente lá nos EUA, Kuja, esta é a pergunta de US$64.000... ;-)

g]< said...

Pois é, Fábio! Acho que você conseguiu resolver bem a equação em seu livro; mas isso não exaure a questão, meu caro. Há uma peça de resistência aqui: http://www.overmundo.com.br/banco/mal-do-seculo
Vale ao menos ler o "caveat lector", pois o texto pode ser bem ofensivo ao "mainstream"...

Ivan Hegenberg said...

Olá, Romeu, olá, Kujawski!

Forma e conteúdo são indissociáveis. Acho que um conteúdo elaborado sempre merece uma forma à altura. Medo de cansar o leitor não é justificativa.

Abraços

Albarus Andreos said...

Acho preocupante isso de tentar provar para o mainstream que "somos tão bons quanto...". Vejo muitos se esfalfando com isso, como a hoste de escravos se rebelando contra os velhos cansados demais para resistir. "Talvez o "movimento" desta vez decole e sejamos aceitos para uma limonada na varanda da academia", conjecturam eles (limonada sim, mas nem sonhe com o chá nas cadeiras de balanço no salão principal dos velhos de farda, diria o capataz, com o chicote na mão, observando a hoste capinar à mãos nuas. "Continuem com a lida", ele grita. "Reclamem, mas continuem com a lida!"). Eu, sinceramente, me incomodo, mas não tento fazer com que alguém engula lá, suas palavras maldosas. Ele não vai, é perda de tempo! Minhas observações aqui fogem simplesmente de acalorar elogios e regar louros à obra de Fábio Fernandes, vai mais de encontro à resenha do autor deste blog, pois suscita em mim desconforto já presente por anos, e vai de encontro ao que o autor disse sobre a obra de Fábio ser, em alguma medida, um diálogo com o antigo mestre Sant'Anna. Tentando provar-lhe pontos de vista. Nesse vagão vão também as arguições sobre o tecer da narrativa, agregando-lhe conteúdo em contraposição com o pastiche literário. O que posso dizer é que adoro o pastiche. E bem passado! O que, afinal, Campbell disse sobre todos os heróis do mundo e suas aventuras? Perguntam-me se não acho que os clichês devem ser abandonados e eu sempre respondo que não é a questão cronológica que faz os clichês. O segundo homem a ir a Lua era um clichê porque houvera um primeiro e, por isso, dizem, como atração televisiva, foi um fracasso. Mas, olha só, o segundo, o terceiro, o quarto homem a ir a Lua, não foram lá para só aparecer na TV! Há muito por trás de cada missão. Cada uma delas, com objetivos muito além de serem só diversão para a mídia. Com livros também é assim. Acho que escrever um livro, para o autor, não deve ser um exercício de provar-se melhor, diferente... Meus temas podem ser antigos, mas são meus agora, e agora, quem escreve sobre eles, sou eu! E por isso mereço uma nova atenção, pois o que escrevo não são, de novo, as primeiras imagens envelhecidas do primeiro homem a pisar na lua. São imagens novas! Perdoe-me por, de repente, pôr-me no meio deste texto. Nem sei direito como isso aconteceu, mas continuando, clichês não são ruins, mas os maus autores que usam clichês. Devemos também rechear nossos volumes com linhas cheias de personagens redondos, mas Forster só definiu o termo quando criou também o personagem plano em contraposição e, por isso, para se ter personagens redondos, há de se ter planos. Me preocupa aquele autor que corre contra o tempo para ser o primeiro a escrever sobre tal tema novo e relevante, com a preocupação de ser o aventureiro que primeiro pisa a poeira lunar. A relevância literária não vem disso, mas do fato de escrever um bom texto. Comprarei e lerei Os Dias da Peste, procurando achar uma boa história, não procurando saber se seu domínio dos bits é melhor que o de Asimov com seus cérebros positrônicos. Apenas acho que um autor deve saber escrever, só isso. E se lá houver robôs falantes, acharei o máximo! Talvez se alguém ainda escrever sobre robôs que carregam pessoas nos ombros pelas minas de Marte ainda dê algum caldo, como escrever fantasia com elfos e dragões. Por isso leia estes livros também. Dê uma chance aos que crêem que dragões e elfos ainda dão um bom caldo. Dispa-se de um preconceito que condena novos autores de ficção fantástica como os velhotes da academia já fazem com a FC há décadas. Não interessa se alguém vai lhe dizer que seu livro é um clone de outro. Quem diz isso apenas aprendeu a palavra porque viu a novela das oito há alguns anos. Apenas escreva, preocupando-se com seu texto. É o autor quem manda no seu texto, não o crítico que vê novela das oito. Abraços.

Ivan Hegenberg said...

Albarus

Não é tanto uma urgência pelo pioneirismo, fincar a bandeira na lua pra sair na TV, mas o gosto pela descoberta, pela exploração, passear por outros territórios.

Eu me entedio um pouco com os clichês, outros se entediam com experimentalismos. Também não posso obrigar ninguém a desejar coisas novas.

Abraço

g]< said...

Será que por "mainstream" devemos subentender "clichê"? Clichês, quando bem empregados, são peças de ouro. Logo, por “mainstream” subentenda-se “mais do mesmo”. Ou “histórias de carochinha”. Ou histórias para boi dormir. Ou (insira sua definição aqui).
Mais aqui: http://autofagia2.blogspot.com/2009/12/prontofalei.html

Ivan Hegenberg said...

Qualquer elemento depende de como você usa. Não tem clichê maior que o amor, é o tema das piores novelas de TV, mas dá pra falar de amor sem pieguice. Pode até ter robô falante - meu romance Será, aliás, abre com o Alan, cabeça de sucata.

E já que a gente não consegue se reinventar o tempo todo, vou repetir o que eu disse uns meses atrás: a questão não é o quanto uma obra é nova, mas o quanto é rejuvenescedora.