5.07.2009

Fenômeno



Certos críticos de arte deveriam assistir a alguns jogos de futebol. Ao menos para ver Ronaldo lidando com a bola com a mesma graça que Miró com as tintas. Após o replay mostrar o lance perfeito, com que cara podem insistir que "não existem gênios"? A teimosia pós-moderna faz com que qualquer amante de futebol entenda de beleza mais do que especialistas com anos e anos de tagarelice acadêmica.



Não preciso muito para provar meu ponto: como parábola, me basta a trajetória da bola em direção ao gol do Santos, na final do Campeonato Paulista. O atacante compensa sua idade e peso escondendo a bola por trás, livrando-se da marcação cerrada com movimentos sutis, e conclui com perfeição. Vem sendo assim a cada jogo, depois de muitas intempéries, quando ninguém mais acreditava. Após três cirurgias no joelho, após um episódio que a moral vigente julga constrangedor, após convulsões, escândalos, descrença e problemas físicos, podemos prever que a trajetória de Ronaldo será lembrada com matizes de lenda. Ultrapassando o terreno do esporte, ele ficará para a História como um exemplo de superação: a alternância de seus momentos de glória e de tragédia comoverão gerações que ainda nem nasceram.

Diante de tantos acontecimentos, como insistir, como fazem os invejosos profissionais, que todo gênio é uma farsa, mero constructo ideológico? Nem Michelangelo nem Picasso convenceram os críticos que azedam o ambiente em que vivo, mas no esporte os resultados são menos subjetivos que na arte, e talvez Ronaldo me ajude a vencer a má filosofia.

"Todos somos iguais", não é mesmo? Se eu afirmo o contrário, se eu digo que Miró é melhor do que 99,999999% dos artistas de nosso tempo, certos acadêmicos se sentem no direito de me tachar de reacionário. Afinal "essa exaltação ao individualismo é retrógrada, burguesa, alienada, etc". Futebol, então, nem entra em cogitação, pois não pode ser outra coisa além de um meio de controlar as massas, "pão e circo"... Estou errado por me sentir em melhor companhia em um boteco, falando de futebol, do que perto de uma gente tão ressentida? Os acadêmicos mais torpes que façam seus gols contra, quero estar com quem torce por vitórias. Não porque eu queira me alienar e me aburguesar, mas, muito pelo contrário, porque um Ronaldo me mostra maior inteligência com as pernas do que aqueles outros com a boca.

O sonho de milhões de habitantes do país do futebol é ser como o Ronaldo. Uma grande parte de seus fãs se esforçou para ser como ele; muitos tentaram exaustivamente, treinando todos os dias, extremamente focados, com um empenho impecável. Mas o que lhes falta para chegar lá não é proporcional ao esforço. Predestinação, genética, histórico familiar, um devir especial? Difícil dizer. Mas qualquer um que já tenha batido numa bola sabe o quanto é ridículo pensar que a distância entre um Ronaldo e um jogador mediano seja apenas o quanto cada um se dedicou.

O jogador não tem apenas uma coordenação motora avantajada ou um arranque fora do comum. Isso sim, claro, do contrário não veríamos aquele gol contra o São Paulo, em que o "gordinho" de 32 anos e três cirurgias vence a corrida contra o zagueiro e finaliza antes que o goleiro chegue à bola. O mais impressionante não está no físico, mas no quanto Ronaldo percebe o campo e o quanto ele é capaz de se antecipar aos movimentos de seus adversários. Por exemplo, na vitória contra o Atlético Paranaense pela Copa do Brasil: ele ameaça o chute, mas não bate, e assim faz com que o adversário se lance em vão. Com isso, abre um espaço que não existia, e por baixo das pernas encontra o caminho do gol. No segundo lance, temos uma finta impressionante sobre dois adversários, coisa que comentaristas experientes, como o Neto, disseram nunca ter visto no futebol.

Não é à toa que o chamam de Fenômeno. Agora, se algo como um pseudo-marxismo mal-ajambrado acha feio dizermos que o talento de algumas pessoas as torna excepcionais, pior para o pseudo-marxismo. Todo esforço para manter-se pseudo desmorona diante da facilidade com que o atacante desloca as defesas adversárias. Prefiro falar em poesia, em linhas de fuga, ou na inteligência espacial extraordinária que ele demonstra a cada jogo. Aqueles que se recusam a ver distinção entre um Ronaldo, seja da área que for - um Ronaldo das artes plásticas, da literatura, da filosofia, não importa - e um homem qualquer, que tente marcá-lo na pequena área como se ele fosse apenas "bem treinado", como se ele não fosse diferenciado. Eu terei o maior prazer em assistir à goleada.

Só se pára um craque na porrada, como fizeram com Pelé em 62 - mais ou menos a mesma época em que artistas e críticos apelaram para o antijogo. Estaríamos vendo muito mais jogadas geniais nas artes plásticas se os invejosos não estivessem quebrando os ossos dos talentosos. Basta coibir as jogadas desleais para deixarmos acontecer uma grande virada na arte.

4.28.2009

Harold Rosenberg

Saiu agora um artigo meu na revista Filosofia, Ciência e Vida: Harold Rosenberg diante da morte da arte.Fiz uma aproximação entre meu crítico de arte favorito e a filosofia de Nietzsche, mostrando que os dois juntos derrubam muito do que se pensou sobre arte das últimas décadas. Gosto de Rosenberg porque ele nunca fugiu da briga, percebendo quais eram os desafios intelectuais de nosso tempo e respondendo à altura. Ele foi brilhante ao combater a antiarte com argumentos muito superiores aos de seus adversários, sem cair em simplismos, com uma capacidade quase nietzschiana de avaliar diversos lados ao se posicionar. A antiarte não conseguiu refutá-lo, apenas ignorá-lo bem cinicamente, como muitos fazem até hoje.

É impossível resumir o texto em poucas linhas, mas vou deixar um trecho só para mostrar que a artilharia é pesada:


Percebendo o quanto a aceitação incondicional do novo é comodista, Rosenberg desdenha do que chama de opiniões da geração, não reconhecendo nestas muito mais do que modismo. Não é de todo gratuito, portanto, que acusa seus colegas de “embusteiros profissionais”. É evidente que declarações como essa não o tornavam especialmente simpático por parte de seus contemporâneos, o que também deve ter contribuído para seu isolamento. Contudo, ele não poderia ter herdado de Nietzsche apenas o espírito contestador sem um tanto de sua virulência.

4.17.2009

O que eu quero

Encontrar o mundo na saída um pouco mais interessante do que estava na minha chegada.
Causar algum estrago. Deixar meu recado.

3.16.2009

House, de David Shore



Dizem que heroína pode viciar na primeira dose, o que me leva a ficar longe dela, apesar de dizerem que não há Terra qualquer prazer comparável. Mas de House eu não escapei. Não faz muito tempo que tomei a primeira dose e já estou obcecado. O programa passa todos os dias na Universal às 20h e na Record quinta-feira à meia-noite. Trata-se de um médico mal-humorado e sádico, que não demonstra qualquer compaixão pelos pacientes ou respeito às regras do hospital. Em compensação, é brilhante como um Sherlock Holmes ao diagnosticar os casos clínicos mais enigmáticos. Sua equipe tem que aguentar diariamente suas tiradas sarcásticas, os pacientes passam pelos procedimentos mais invasivos, e mesmo assim, talvez protoganize o que há de mais humanista na televisão. As situações vão ao limite, porque também o espectador precisa de procedimentos radicais, precisa que a agulha penetre o coração e que os neurônios se rearranjem.

Dr. House é o personagem mais complexo que já se criou para a televisão, pois somente ao longo de muitos episódios conseguimos notar o mínimo de afeto que ele tem pelos demais. Misantrópico, escapando da depressão pelo brilhante humor sarcástico e pelos desafios intelectuais, ele tenta a seu modo vencer as dificuldades que tem para sentir algo pelas pessoas, para se importar até mesmo com seus colegas mais próximos. Em um dos episódios, Foreman, seu braço direito, se infectou em serviço, e, mesmo próximo de sucumbir, aparentemente não arrancava o chefe de sua frieza racional. Por mais que já esteja no senso comum a figura do médico como alguém cujo olhar é excessivamente técnico, impassível diante do sofrimento alheio, a anestesia moral do protagonista pode ser chocante. Ele não hesita ao sacrificar um recém-nascido, desde que com isso possa diagnosticar outros. O médico e o monstro são uma pessoa só, no entanto ele salva vidas, o que põe qualquer julgamento sobre seu cárater em suspensão. Com um vigor filosófico mais comum em Sartre do que na tevê, abundam as situações em que é a própria agressividade que permite à mente dissecar os problemas, ir à raiz, e encontrar a cura.

É nos detalhes sórdidos que muitas vezes o diagnosticista encontra a chave para os maiores quebra-cabeças. O detetive pressiona cada paciente até as lágrimas para extrair informações relevantes, beirando a tortura para se certificar que o paciente não está escondendo nada. "Todo mundo mente", inclusive para si mesmo, como os histéricos, criando falsos sintomas e mantendo em segredo o que realmente corrói os órgãos. Ao perceber que é preciso ir além do que se mostra, o espectador vai, aos poucos, delineando a luta entre vida e morte que agita o doutor. Uma bengala é o apoio para a perna doente que o atormenta com dor constante, mas sua luta é menos física do que existencial. O que lhe acomete é a náusea da falta de sentido, é o tédio diante das convenções sociais que tornam qualquer vida uma questão meramente estatística. House sofre o efeito colateral do excesso de inteligência, o desencanto de quem atravessa a superfície dos homens, tanto as vísceras quanto o cérebro. A investigação nos torna mais aptos a encontrar a cura, no entanto precisamos de antídotos para que a inteligência mesma não nos torne catatônicos. O que sustenta a série há mais de cinco anos não é o diagnóstico de cada paciente do hospital, que, por complexo que seja, a equipe resolve em algumas horas ou dias. É a tarefa, muito mais difícil, de arrancar o próprio Dr. House de sua beligerência contra a vida. Uma mais ampla noção de saúde.

Com David Shore, roteirista da série, podemos flexibilizar a hierarquia costumeira que coloca os livros sempre acima dos programas de televisão. Enquanto meio, a tevê não é necessariamente mais limitada que o cinema, que também pode ter o foco na audiência ou na qualidade. Embora na imensa maioria das vezes o foco esteja na audiência, Shore se confessa impresionado com a não-interferência dos produtores sobre seu programa. De fato se nota que ele tem grande liberdade para ousar e fazer de House uma série surpreendemente autoral. O personagem pode causar inveja a qualquer escritor que lhe preste atenção, os diálogos são polifônicos a ponto de nos lembrar de Dostoievski, a trama é ágil e captura. Há em David Shore uma inteligência de quem não se limita às fórmulas fáceis, não importa o veículo em que trabalhe.

Impressionado eu fico ao constatar que um programa tão dilacerante tem sido a série mais assistida. Um programa que vai além do entretenimento fácil, que exige cérebro e estômago do espectador, que o obriga a formular algo em vez de apenas absorver passivamente. Não passa de academicismo insistir que o feito não seja possível, se já temos o prognóstico, e é positivo. Neil Gaiman fez algo semelhante nos quadrinhos, e Matt Groening nos desenhos animados. David Shore conseguiu se infiltrar na cultura de massas e proporcionar a uma imensa multidão algo de que ela é carente, que podemos chamar de arte.

2.23.2009

Mais imagens do Puro Enquanto



Completei o upload de imagens do Puro Enquanto no Flickr, estão aqui. O Flickr não foi muito fiel, mas ok, é só pra dar uma prévia. Logo mais eu deixo aqui um trecho do livro, pra vocês degustarem a linguagem delirante que eu criei pra dar conta do universo dos sonhos. Dia de lançamento? Perguntem ao editor, o livro tá com ele há meses, já poderia ter saído.

Também estou cheio de artigos na gaveta que vão sair em revistas e sites ainda no começo do ano. "Enfrentando o vazio" está na nova edição da DASartes, o primeiro texto polêmico que eu consigo infiltrar em um terreno especificamente de artes plásticas. Ótimo, a única saída confortável dos antiartistas nos debates que eu coloco é me ignorar, e isso tende a ficar cada vez mais difícil. Nos últimos anos eu me senti um perseguido político, os antiartistas implacáveis contra a pintura, e só agora, com o Puro enquanto no prelo e os últimos artigos que eu escrevi é que eu sinto que derrotei esses meus inimigos. Nem que seja na minha mente, eu superei todos aqueles assassinos, os tapados que não deixavam a pintura respirar.

Às vezes sinto que deve soar meio chata a minha militância, mas se você notar que até mesmo artistas que se consagraram na pintura, como Luiz Zerbini, sofrem tanta pressão que absorvem o discurso do inimigo, seria covardia minha ficar quieto. É este o momento da arte que eu sou obrigado a presenciar, onde até os mais destacados pintores brasileiros podem deixar de pintar e se lamentar como um viúvo, dizendo "eu sei que a pintura morreu", mas que "não param de pensar nela". Alguém precisava oferecer um contra-discurso com toda a vitalidade necessária, alguém precisava superar quase cinquenta anos de mentalidade Gulag. Para que a pintura sobreviva, não basta pintar bem. Não adianta exibir saúde se tem alguém apontando uma arma para você - é preciso desarmar o agressor antes. Como não vi quase ninguém indo para o front, deixei muitos projetos de lado para contra-atacar com toda força. Agora sinto alívio, acho que o pior já passou. Obtive boas vitórias e tenho visto pessoas importantes mostrando que pensam parecido comigo. É questão de tempo até virar o jogo, basta que o trabalho que temos feito se propague para que a repressão seja coisa do passado. Em poucos anos, nem pensaremos muito na morte da arte, não nos apegaremos aos traumas. Vocês verão que um bom período para a arte está por vir, e eu sinto orgulho por acreditar que deixo minha colaboração.

2.14.2009

Pletora

Esta energia que não gasto

Que não acaba

Que me arrebata

Com que me maltrato

É o que me faz servil (ser vil)

E o que tenho de mais alto

2.10.2009

Que conto?

- E agora, Ivan, o que é que você está escrevendo?
- Contos de foda.
- Ah, que bonitinho, contos de fada?
- Não. De foda.
- Ah... tá.