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9.29.2009

Incognoscível

Hilda Hilst: "você está se esquecendo do incognoscível. O incognoscível? É, velho Ruiska, não se faça de besta. Levanto-me e encaro-o. Digo: olhe aqui, o incognoscível é incogitável, o incognoscível é incomensurável, o incognoscível é inconsumível, é inconfessável. Ele me cospe no olho, depois diz: ninguém está te mandando escrever sobre o incognoscível, estou te dizendo não se esqueça do incognoscível. Ah, está bem. Finjo que entendo. Ou entendo realmente que não devo esquecer do incognoscível?"

Meu primeiro livro se chama A grande incógnita. O conto que dá o título foi escrito em 1997, e de lá para cá eu passei por algumas experiências que vêm desafiando minha vã filosofia. Em 1997, sequer um deus espinosiano, que não guarda qualquer resquício de religião, poderia me causar mais do que bocejos, apesar de eu devorar Clarice Lispector, que desde sua estreia enveredava por uma espiritualidade um tanto maldita com forte inspiração em Espinosa. De Clarice, eu sorvia a força das palavras, mas entendia suas aleluias e epifanias de maneira bem cética, materialista.

Cresci sob um ateísmo imperturbável, que me permitia dormir tranquilo mesmo após entrar em igrejas falando palavrão. Tamanha era a minha certeza de que a metafísica é mera ficção que eu me divertia provando que o trono de Deus é vazio, e blasfemava em seus palácios. Não creio que sequer em um nível inconsciente me senti muito culpado por isso, de tão convencido eu estava de que não há governo superior ao dos homens. A Grande Incógnita aborda reencarnação, no entanto nem por um segundo me pareceu que a metafísica pudesse ser mais do que um belo conto. Uma amiga espírita leu a história e disse que não era muito condizente com a doutrina de Allan Kardec, mas não era essa minha intenção. E até que eu me pus à prova: a convite de amigos, tomei o chá do Santo Daime, três ou quatro vezes. De todas as visões que eu tive, nada me pareceu exigir explicações que fugissem da psicologia. Ao longo desses anos, fui anotando meus sonhos, porém, mesmo que eu procurasse, não encontrei muito o que justificasse o simbolismo de Jung ou explicações transcendentais. Um ou outro episódio, confesso, me deixou intrigado, mas as pistas falsas eram abundantes.

Talvez eu fosse, desde o início, e ainda hoje, mais agnóstico do que ateu. A rigor, o agnosticismo é uma posição mais científica do que o ateísmo, pois não se pode provar a inexistência de Deus. O que se pode - ou melhor, se deve - é contestar a convicção dos fanáticos, que vomitam dogmas sem qualquer evidência de que agem seguindo a Verdade. O mais engraçado é que, onde procurei com maior afinco, nada encontrei. Talvez porque eu procurasse para não achar - onde tantos pensam ver Deus, só percebi a imaginação dos homens. No entanto, pegando-me desprevenido, de quando em quando me acontecem situações como a do Daniel Seda, cujo e-mail eu transcrevi no último post, e quem eu conheci na semana passada.



Antes de falar dessa coincidência tão improvável, vamos combinar uma coisa. Não quero que ninguém acredite em mim só por voto de confiança. Se eu contar com algo tão insólito quanto a fé, valho tanto quanto um padre, e poucas coisas causam mais sofrimento no mundo do que os dogmas. Quero que cada um tenha fé em si mesmo, acima de qualquer autoridade ou qualquer palavra. Quem me lê deve ter fé em si mesmo mais do que em mim, portanto deve guardar uma dúvida, deve perguntar se eu não estou louco, ou se não foi tudo armado entre mim e Daniel Seda. Quanto a mim, venho preferindo fazer como o Ruiska de Hilda Hilst. Tenho lidado com o incognoscível como inconfessável, não me esquecendo dele mas raramente falando abertamente sobre.

Não sei ao certo sequer se eu deveria ter colocado o e-mail do Seda no ar. Em primeiro lugar porque é inconsumível - vide o silêncio nos comentários, apesar da boa visitação. E principalmente porque não consigo juntar o que penso sobre "metafísica" e os demais assuntos que me interessam, de arte à política. O Daniel é bem diferente de mim nesse aspecto: ele fala de telepatia sem muitos rodeios, vendo na internet um potencializador desses fenômenos e um prelúdio para uma sociedade mais igualitária. Pelo que me diz, ele vê tal potencial de maneira semelhante ao que eu descrevi no Será. Claro, ele sabe que, se eu escrevi A grande incógnita sem intenção de divulgar Kardec, também não escrevi Será para ser lido ao pé da letra. "Será", em ficão, deve ser lido como "Seria", do contrário não se defenderia a distância necessária entre arte e vida. Contudo, a aproximação entre Seda personagem e Daniel mostra até que ponto o diálogo entre as duas instâncias pode ser dinâmico e estreito. Não apenas a maneira como Daniel chegou até o livro, relatada no e-mail, mas certas semelhanças de nossas trajetórias surpreendem. Também ele se formou em artes plásticas mas tem se aproximado cada vez mais da literatura, buscando unir as duas linguagens. Também ele estudou Deleuze e anotou seus sonhos durante anos. E gastou horas e horas tentando imaginar como transpor um pouco da mentalidade anarquista para a realidade, sem se perder na utopia pela utopia. Se eu não fosse o próprio, acharia que esse Ivan Hegenberg batizou o personagem de Seda como homenagem, já conhecendo Daniel há tempos. Acho saudável que duvidem, mas eu não posso me dar esse luxo sem considerar que minha memória deve ter pulado alguma parte, pois não estou avisado da armação.

Não faço a menor ideia de porque atraio sincronicidades e fenômenos afins. Lembro, no entanto, que diversos escritores que se empenharam em levar a linguagem ao seu limite acreditaram tocar no incognoscível. Hilda Hilst pensava poder captar as vozes dos mortos; James Joyce se convenceu de que sua filha era telepata; Clarice falava de Deus com tão estranha proximidade que foi convidada a um simpósio sobre bruxaria; Guimarães Rosa hesitou por anos em aceitar a cadeira na Academia, como se soubesse que morreria três dias depois da honraria. Nenhum desses episódios vale como prova de nada, a não ser, talvez, de uma correlação entre uma certa compreensão da linguagem poética e uma experiência de mundo que crê ter intimidade com a "metafísica". Talvez. Há também a física quântica, que me faz a um só tempo esperançoso e cauteloso. Estou aguardando, não quero especular muito.

Ainda prefiro a ciência, gaia que seja, à fé pura e simples. Em poucos anos, o acelerador de partículas de Genebra ajudará a explicar os fenômenos não-newtonianos. Para quem não sabe, na física de partículas observam-se situações tão desnorteadoras que teorias como dimensões extra ou a simultaneidade entre passado, presente e futuro são consideradas com a maior seriedade. Há também quem esboce uma correspondência profunda entre matéria e informação, para não falar em teorias mirabolantes como as divulgadas no esquisitíssimo Quem somos nós?. Estima-se que em dois ou três anos, teremos algumas respostas para essas questões. Já imaginou o incomensurável tornando-se comensurável?

Tudo isto é tão confuso para mim quanto pode ser para os leitores, mas estava difícil passar para qualquer outro assunto enquanto o e-mail do Daniel ficasse flutuando sem reflexão. Agora, até mesmo pela incapacidade de avançar nesses mistérios, vou voltar à programação "normal".

9.14.2009

Sincronicidade estarrecedora

Um e-mail tão surpreendente que eu ainda tô digerindo... Juro que eu nunca tinha ouvido falar do Daniel Seda antes, é uma coincidência "telepática" esquisitíssima. Acho que vou conhecê-lo esta semana e ver como é que a coisa se desdobra. Estou colando o e-mail que ele me mandou pra vocês entenderem do que eu tô falando.


Oi Ivan,

Na sexta-feira passada, dia 4 de setembro, fiz uma apresentação de um projeto meu ( http://www.namahaiku.com ) na Casa das Rosas. Depois da apresentação, um amigo que estava fazendo as vezes de assistente me trouxe um livro que ele havia encontrado no porão da Casa, onde estava localizado nosso camarim improvisado. O que havia chamado a atenção dele para o livro é que ele o abriu bem na página onde a personagem "Seda" é apresentada. Ele achou a coincidência curiosa (meus amigos me chamam de "Seda", meu sobrenome) e pegou o livro de presente pra mim (o livro estava alí, meio jogado).
Resolvi ler o livro e estou achando ele uma agradável surpresa e uma curiosa coincidência.

Estou numas de "ler os meus contemporâneos", ou seja, escritores que nasceram entre os 70 e os 80 e que fizeram e continuam fazendo um bom uso da Internet para desenvolver sua obra. Escrevo e publico na web desde 1996, sempre coisas mais experimentais, juntando imagens e palavras em pequenas narrativas poéticas.
Recentemente (há uns dois anos) comecei a escrever coisas no formato "livro" e agora estou na batalha pra publicar.

Portanto receber por acaso um bom livro de sci-fi brazuca é uma ótima surpresa.

Mas a coincidência maior do seu livro com o meu nome é que eu, há uns anos, desenvolvi uma espécie de narrativa desconstruída chamada "Telepatia". É esse projeto aqui: http://telepatia.blogspot.com Desenvolvi uma idéia geral, escrevi alguns fragmentos, fiz alguns videos e atualmente esse projeto está em animação suspensa devido a outras coisas mais urgentes que estou desenvolvendo.
E o seu livro tem muito a ver com algumas idéias de lá. Atribuo isso ao "espírito da época", claro. Quando eu desenvolvia o "telepatia", tinha uma nítida sensação de que outras pessoas estariam pensando e desenvolvendo coisas semelhantes. E o seu livro é só uma evidência disso. Talvez porque a conexão "telecomunicações móveis" <-> "telepatia" seja um tanto óbvia, pelo menos pra mim e isso está inscrito no espírito de nossa época.

Bom, é isso. Resolvi escrever para dar um feedback em relação ao livro, que estou achando muito bom, e em relação à essa coincidência de nomes e inspirações.

Ah é, consegui o seu contato com o Romeu Martins, a quem acompanho no Twitter.

Abração

Daniel Seda

5.29.2008

Neuroverso

Vocês já viram isso? O formato do universo se parece muito com o de um neurônio.



No Photoshop dá para justapor as imagens. Nem tomando ayohasca eu tive essa sensação, o universo inteiro ressoando nas sinapses:



Não sei dizer se tem a ver diretamente com o que eu penso sobre a relação entre signos e matéria. Mas mesmo que não signifique nada, é uma coincidência maravilhosa.

OBS: reli o post anterior agora que já consigo ver meu episódio Joana a contragosto com um pouco mais de leveza. O foda de blog é isso: a gente escreve no meio de uma crise, revela mais do que deveria, ainda por cima escrevendo mal, e quando a poeira baixa é tarde demais para apagar. Até mexi um pouco, melhorei o texto, mas acho que eu não colocaria algo assim no ar se não tivesse passado pela semana mais maldita dos últimos tempos.
Mas tá ok, eu nunca soube manter meus disfarces, e talvez alguém se divirta com minha "vida experimental".

5.22.2008

Vida experimental

Um de meus melhores amigos disse recentemente que eu, por ser um escritor experimental, acabo levando uma vida experimental. Ele o disse para amenizar o consenso, naquela expurgação às quatro da manhã no boteco, de que eu só me fodo. Ouvir isso do Cinco Folhas, alguém famoso não só pelo passado maconheiro que lhe garantiu o apelido, mas por colecionar uma aventura mais insólita que a outra, confirma o quanto, desde que comecei a escrever meus primeiros contos, há dez anos, a vida literária coincidiu com uma perda de controle acompanhada de situações beat.

Foi por acaso que encontrei o Cinco, o Daniel, e outros amigos nesse bar, no próprio dia em que ocorreram os motivos da lamentação. Eu havia acabado de tomar um doloroso pé-na-bunda da Joana, com quem passei três ou quatro meses certo de ter encontrado uma pessoa que me completasse. Não bastasse a dor da desilusão, que ainda me custa aceitar, aquele foi o dia em que percebi que teria que sair às pressas do apê na Barra Funda. Não vou dar muitos detalhes porque detesto essa história, mas pela primeira vez fui ameaçado de morte. Nunca fui de arrumar briga na rua, mas esse cara soube me irritar como ninguém e terminamos em acusações mútuas. Eu queria ficar no bairro apesar disso, mas logo vi que ele não estaria sozinho e não tive opções.

Minha vida, algo valioso que ainda não quero perder. Não porque eu goste muito dela, não porque eu considere toda vida uma bênção, não porque eu seja mais feliz do que triste. Quem me conhece de perto pode até não perceber, eu tento me divertir, tento disfarçar, mas não é tão fácil quanto parece. Passei por dois psicanalistas, os dois concordaram quando eu comentei que sou tão desadaptado quanto alguém que tenha sido estuprado na infância. Se eu faço questão de persistir entre os vivos não é porque a maior parte dos meus dias seja agradável, mas porque quero investigar um pouco mais. A experimentação vicia, ainda que te desgrace. De constante, tenho apenas a fé de que traduzir as dificuldades em arte nos redime – por mais que a arte pós-moderna tente nos persuadir à covardia. Eles pensam saber o que é experimentação, mas propõem exatamente o contrário.

O que sempre aparece aos montes em qualquer época são homens-enciclopédia, papagaiozinhos que se perdem no meio das abstrações. Muitos deles se dizem artistas, mas não criam, apenas seguem um manual de instruções. Posso dizer que leio bastante, mas mais importante do que minhas leituras é vivenciar minha filosofia, testar os conceitos fora das páginas. Para começar, tenho muito a agradecer aos meus amigos, que logo na adolescência me ajudaram a localizar as poses e os lugares-comuns. O Colégio Equipe foi valioso por isso, e não sei aonde eu chegaria sem os esquisitos que ali conheci. Além do Cinco, o Macarrão, figura brilhante com quem hoje faço curtas, o Kareka, que ao me botar um par de chifres revirou meus conceitos – mas revirou exatamente porque continuamos amigos -, o Daniel, que se quisesse, seria um dos humoristas mais cáusticos do nosso tempo, e o Caetano, um dos caras mais inteligentes que conheço, com quem estou dividindo a nova casa. Essas pessoas são impossíveis de se rotular, e não me trouxeram menos sabedoria do que as que eu encontro nos melhores livros. Depois vieram outros aliados, é claro, como continuam vindo, mas foram esses os da minha época de formação.

Inquieto que sou, não poderia parar por aí – como, na verdade, não paro em lugar algum. Aos 17 anos de idade, eu já estava convencido de que, para ser escritor digno do nome, é preciso levar a sério aquele clichê de “viver um pouco de tudo”. Eu queria montar um repertório de experiências o mais elástico possível, para depois recombiná-lo à vontade. O importante é viver coisas que me ajudem a entender qualquer tipo de pessoa, por mais diferente que ela seja de mim. Tendo isso em mente, encarei batalhas das quais eu muito me arrependeria, se não fizessem parte desse projeto ambicioso. Alguns escorregões foram quase propositais. Eu não tinha medo de quebrar a cara, porque, mesmo que eu me desse mal, aprenderia algo sobre a queda, e isso, por si só, parecia tão atraente quanto a possibilidade da vitória.

Algumas loucuras cometidas atendiam pelo nome: Flávia, que soube me derrotar com maestria, Telma, a quem devo muito do que hoje sou, Mari, que mantém em segredo uma obra poética das mais fortes, Dani, doce menina com quem vivi momentos mágicos, Lila, terrorista carioca que só se permite viver o Real, Paty, uma agente dupla na capital do poder, Malu, 40 anos de experiência e aparência de 27 - e agora a Joana, que me enfeitiçou ao bailar entre a alta filosofia e o erotismo. Todas bruxas, no bom e no mau sentido. Mulheres que me deram muita alegria, mas não sem me tomar algo. Não fosse assim, eu me sentiria morto. A questão não é o rock and roll, não é a trilha sonora ou a indumentária. De quando em quando, preciso colocar minha própria alma na mesa de apostas. Quem não está preparado para perder também não sabe o que é a vitória.

Acho engraçado lembrar dos meus momentos mais corajosos – não só com as mulheres, mas realizando atos de terrorismo poético, consumindo drogas mesmo com risco de "não voltar", trabalhando em Londres para bancar aventuras européias, combatendo os preconceitos de três gerações de artistas, dizendo tudo o que eu penso mesmo ciente das represálias – acho engraçado, porque a verdade é que eu sou uma das pessoas mais tímidas que eu conheço. Se é que pode ter uma explicação, acredito que esteja na lei da inércia. Pelo que vejo, as pessoas costumam se sentir bem em vários ambientes e em situações mundanas, ou ao menos mais à vontade do que eu, o que as desobriga de rupturas radicais. Quanto a mim, demorei demais para sentir que tenho qualquer direito à existência. Não houve – ao menos até onde eu sei – nenhum trauma de infância, nenhum estupro ou proximidade com a morte. Mas fui criado de um jeito muito esquisito, enlouquecedor em seus detalhes, que atrasou muito minha aproximação com “o mundo real”.

L’enfant le terrible é alguém que aos 12 anos mal sabia dar "Bom dia”. Um pouco antes disso, tinha dificuldade até de virar o pescoço para olhar para as pessoas. Meus gestos eram todos travados, minhas palavras não saiam da boca, por mais que eu tentasse. Foi essa minha tabula rasa. Vocês podem achar que é exagero, romantismo, existencialismo barato – ainda mais vindo de um artista, que adora criar mitologias sobre si.... mas só eu sei como foi minha evolução, e acho que foi tanta força que eu despendi (e ainda hoje despendo) para simplesmente me convencer de que posso existir, de que posso falar, enfim, de que posso viver, que a continuação desse impulso só poderia ser acelerada. E um tanto descontrolada.

Além disso, não gosto muito do mundo à minha volta, antes de mais nada é o contexto que me causa mal-estar. Por isso, aproveito o excedente de energia - que depois de disparada se mostra dificílima de se reprimir – para tentar tornar o mundo um pouco mais a meu gosto. Nessa hora, faço questão de sair dos meus parâmetros semi-autistas para atingir um gosto e uma inteligência à altura do meu embalo. Tanto nas leituras quanto na vida experimental, percorri a vida em profundidade e extensão, menos para contar vantagens do que para entender o que é estar vivo. Qualquer roteiro era válido, mesmo porque ninguém jamais me indicou qualquer ponto de partida. Quando todos os valores se equivalem, quando saímos dos jogos das convenções, nossas escolhas tendem a ser estéticas, poéticas – por isso, também, a variedade das coisas com que me deparei.

Não interessam os detalhes, o sentimentalismo barato, dizer que quase sucumbi, que durante anos estive doente, que de uma hora para a outra perdi tudo o que sustentava minha vontade de viver. Quem quiser uma história triste, que procure nas novelas mexicanas. Mas não tenho dúvidas de que peguei atalhos que a maioria das pessoas passa a vida inteira sem conhecer. Sobre arte, sobre relações humanas, sobre nossa psicologia. Metade do que eu sei se deve às armadilhas em que caí.

Esse é o texto mais constrangedor que já publiquei, mas se não fosse também um dos mais importantes eu pouparia a mim e ao leitor. Tem algumas coisas que eu faço questão de dizer, que, se por acaso eu morrer de maneira abrupta, ficarei mais tranquilo por ter deixado registrado. Uma delas é que eu jamais teria sobrevivido à minha trajetória sem boa arte. Se não existisse boa literatura no mundo, e bons filmes, boas canções de rock, boas pinturas, se não fosse o exemplo dos artistas de vanguarda, eu teria desistido. Não digo suicídio - embora tenha pensado muito nisso - mas fraqueza mesmo. Quando uma pessoa não encontra mais nada que a prenda à vida, ela tende a adoecer e morrer. Acontece com outros e estava começando a acontecer comigo. A arte me salvou, isso não é exagero. É verdade que o remédio de um pode ser o veneno de outro, mas acho que distinguo o tipo de arte que salva uma pessoa que vai até seus limites. E sei, igualmente, que arte prejudica, que te coloca mais perto de sucumbir. Foi na pele que eu senti: a “morte da arte” dos pós-modernos não me fez mais forte, mais corajoso, mais inteligente, não ampliou meu espírito. Não causou nada de bom a quem mais precisava de arte - quando todas as outras ilusões se despedaçam, só resta a ilusão que se assume como tal.

Esse atalho é precioso: ao longo de anos fui reconhecendo, fisiologicamente mesmo, que tipo de arte enaltecia meu espírito e qual me enfraquecia. Não vou resumir tudo num post, mas em geral é o contrário do que pode parecer: a arte “politicamente correta” nos afunda. Se nem no imaginário você se liberta da culpa, aquilo vai te esmagando, te paralisa, e, mesmo que pareça adequado à primeira vista, impede de andar tanto quanto se poderia. Um pouco de agressividade, na medida certa, é o que dá a energia necessária para seguir em frente. Quem sabe até a energia necessária para um gesto caridoso – mas não o faça com culpa, não desperdice teu lado animal, confie um pouco mais nos instintos. Do contrário, nem mesmo tua visão de amor será forte o bastante.

Há muitos anos tento desvelar as camadas da mentira, e por mais que eu desconfie de todas as aparências, entendo que o amor é possível. O erro está somente em achatar o amor. É um sentimento real, no entanto bem mais esquivo do que Hollywood nos leva a crer. Dá para estender o mesmo pensamento para a sociedade. Existe uma vontade autêntica de transformar o mundo, mesmo que em muitas pessoas isso fique reprimido. Não tenho dúvidas de que se possa mudar muitas coisas, a começar pela mentalidade, mas é preciso saber até onde o sonho tem chances de se tornar real. Não acho possível, por exemplo, uma utopia clássica, tipo socialismo ortodoxo. É simplista demais. Andei pensando nisso por anos, cheguei a me perguntar se eu não deveria abraçar o socialismo, e agora sinto que posso pronunciar algo a respeito, sinto que conheço algo da dinâmica das forças e fraquezas do ser humano. Uma utopia dessas exigiria uma estabilidade para a qual o homem não tem a menor predisposição. Nesse ponto, os livros de psicanálise são mais úteis do que os de política, e melhor ainda se acompanhados de experiência de vida.

Tente transitar por diferentes estados de espírito, aprender com todo tipo de gente, imaginar-se sob diversas peles, olhar nos olhos dos amigos e dos inimigos. Podem contra-argumentar, dizer que eu nunca saí do semi-autismo de que falei, compará-lo com a alienação, mas acho que é exatamente por saber o quanto custa reconhecer a realidade que não consigo vislumbrar a humanidade inteira fazendo o mesmo. Tanto o cara da Barra Funda, sem estudo nenhum, quanto a Joana, especialista em Escola de Frankfurt, estão presos demais às leis da inércia. Um, em estado bruto, a outra, numa inércia das abstrações, mas o resultado é igualmente uma fuga. Quanto à Joana, não a coloco como inimiga, mas alguém que me entristece, que eu sei que dificilmente vai ser feliz. Não é para me vingar do pé na bunda, mas lamento muito ela ser a prova viva de que nem toda a filosofia do mundo é o bastante para livrar uma pessoa das disputas de poder mais mesquinhas. Eu devo ter minha parte de culpa, mas o fato maior é que a inveja matou uma vontade de amor que no início parecia boa, e eu sei que ela simplesmente não poderia evitar, por mais que tentasse.

Parecia a melhor relação que dois fodidos como nós poderíamos ter, mas novamente a inércia, mais forte que qualquer sonho, foi destruindo tudo que havia de bom. Saindo da sessão fofoca para a política, não sei porque seria diferente em qualquer governo que se dissesse utópico. E não estou comparando laranjas com maçãs - acreditem ou não os marxistas, o poder depende totalmente de pré-disposições subjetivas.

Ainda tem mais uma coisa que sinto muita vontade de contar, também descoberta pelas minhas andanças à deriva. Mas essa é a que eu mais hesito em expor abertamente. É algo que aparece, aqui e ali, nos meus livros, mas quando me perguntam eu costumo dar uma resposta atravessada. Ainda estou investigando, a resposta que dou para mim mesmo ainda é bem provisória. Para piorar, a obrigação de vocês é duvidar, seria falta de inteligência acreditarem só pela boa vontade. E seria jogar tudo fora passar a ser visto como um Paulo Coelho - ou como um louco, um sequelado, um autista. Nietzsche, Foucault, Schopenhauer - transvaloração de todos os valores, a morte do homem, o niilismo, para tudo isso havia espaço no meu hardware, mas reformular meu materialismo é, intelectualmente, o que mais me desafia. Era o que eu menos esperava, mas pelo jeito quanto mais se peregrina, e quanto mais desprevenida é a entrega, maior a chance de se deparar com esse tipo de coisas.

Só posso adiantar até aqui: de tanto cavoucar experiências, algumas delas se abriram para conjecturas “metafísicas”. Com aspas mesmo, não quero subentender "deus". Só vou poder falar disso com maior clareza depois de 2012 - não por ser o fim do calendário maia, mas quando o acelerador de partículas de Genebra nos informar ao menos em quantas dimensões nós vivemos. Nada a ver com What the bleep do we know, estou falando da física mais séria, cogitada até por Stephen Hawking. Não acho que na resposta vai ter “deus”, mas sim um amplo emaranhamento, uma sintaxe das coisas e eventos - não-causal, não finalista. Não exatamente o Supremo Esteta como eu coloquei no Será. Será é ficção, mas posso dizer que imaginei aquilo enquanto quebrava a cabeça, tentando entender o que de mais inexplicável já me aconteceu. Não duvido muito que a ciência um dia explique melhor essa interação "transcendente" entre signos, matéria e eventos. Talvez ainda neste século.
Espero estar vivo até lá. É um motivo a mais para viver.

7.04.2006

Dos novos códigos para a fé



Deus está morto? Os indícios são de que, mais de cem anos depois da sentença de Nietzsche, a entidade suprema continua viva em nossa cultura. No entanto, um olhar atento não poderia deixar de perceber que, nos últimos anos, a fé tem se reformulado. Por exemplo, o sucesso de “Código da Vinci”, que agora repete nos cinemas a febre que obteve nas livrarias, é significativo à medida que politiza e desmistifica aspectos da religião católica. Se tomarmos o cinema como uma espécie de catalizador de opiniões, vale também lembrar de “Quem somos nós?” que buscou cientificizar o debate metafísico, e da figura de Tom Cruise, inegável astro das telas, que vem se tornando garoto-propaganda da polêmica cientologia.

Vamos por partes. Em “Código da Vinci” temos um fenômeno comercial extraordinário, que, junto a intriga policial e tensão amorosa, apresenta a quebra de alguns dos maiores tabus católicos. A principal imagem que se corrompe é a do Cristo sobre-humano, a-histórico, virginal e puro, ainda que Jesus como filho de Deus permaneça incólume. Dan Brown, autor do livro, foi competente ao menos em um ponto: soube seduzir o leitor comum para uma desconstrução de preceitos, soube convidar ao questionamento de dogmas que resistem na mentalidade ocidental há quase dois milênios. Infelizmente, a precisão científica de seu livro é pífia, e ainda que calcada em argumentos pertinentes, está longe de constituir uma tese aprofundada - aliás, já se apontaram mais de duzentos erros históricos que permeiam a narrativa. Contudo, Dan Brown realizou o interessante feito de ao menos inquietar as massas, o que já é, por si, algo a se considerar.

Talvez seja ainda cedo para dizer se, a longo prazo, o público médio que leu o livro ou assistiu ao filme irá realmente se apropriar do deslocamento de ponto de vista que ali se propõe. Transformações na mentalidade são lentas, e requerem tanto um estopim quanto a continuidade de estímulos. Já seria, contudo, uma interessante mudança de patamar se boa parte dos cristãos pudessem assimilar que a Bíblia não é um livro definitivo, tendo sido escrita por homens e decupada por ordens de um imperador - Constantino, no concílio de Nicéia. Tal apreensão seria um salto positivo, pois a perspectiva histórica tende a nos humanizar. Em detrimento de uma leitura moralizadora dos evangelhos, a politização da fé tende a conferir maior dignidade à vida terrena.

Missão impossível

A tradição cristã é a dominante na sociedade ocidental, porém jamais foi a única. O ocultismo sobreviveu às Inquisições, as religiões africanas resistiram à aculturação, o budismo ganhou novos adeptos ao longo do século XX. E, recentemente, este milênio vem apresentando algumas maneiras tecnicistas de se relacionar com a fé. É o caso da cientologia e da mescla de física quântica com espiritualidade, duas correntes que iniciam perceptível fase de ascensão – a primeira, impulsionada por declarações de Tom Cruise; a segunda, por livros e documentários como “Quem somos nós?” e a influência de físicos de alto escalão. São crenças que, de uma forma ou de outra, cativam aqueles que sentem o cristianismo como algo anacrônico.

A cientologia deriva muito mais da ficção científica do que de um pensamento que se possa chamar racional. Seu fundador foi o americano L. Ron Hubbard, que se notabilizou como escritor de sci-fi, e portanto se confundem na seita sua obra ficcional com sua obra doutrinária. Sua mitologia original é no mínimo extravagante, remontando a 75 milhôes de anos atrás, sendo Xenu uma entidade alienígena que supostamente teria colonizado a Terra. A cientologia professa a reencarnação e propõe uma dispendiosa limpeza espiritual, mediante um tratamento por etapas. De científico, aparentemente há apenas o emprego de máquinas, como o e-metter, uma espécie de detector de mentiras. Tal aparelho seria usado em sessões de terapia regressiva, e auxiliaria a localizar “engramas” - traumas acumulados ao longo das várias encarnações. Constam muitas acusações contra a seita, considerada prejudicial à saúde mental de seus adeptos, e têm sido freqüentes as batalhas judiciais contestando sua legitimidade como religião. Ainda assim, tem sido um negócio extremamente lucrativo, em especial nos EUA e na Europa.

A ascenção da cientologia, a despeito dos inúmeros alertas contra a instituição, pode ser vista como sintoma de desespero, diante de uma preocupante sensação de vazio. Neste ponto, retomo o Nietzstche de Gott ist tot: “Como conseguimos beber inteiramente o mar? Quem nos deu a esponja para apagar o horizonte? (...) Não vagamos através de um nada infinito? Não sentimos na pele o sopro do vácuo?” O filósofo iconoclasta já previa o preço a se pagar pela morte de deus, um sentimento de vazio para o qual ninguém estaria realmente preparado. Para os seguidores da cientologia, Jesus talvez esteja morto, mas deus está tão vivo que não hesitam em gastar rios de dinheiro em seu nome. Talvez o cristianismo sofra, no mundo industrializado, de uma defasagem imagética que a fantasia de Hubbard se propõe a suprir. Afinal, seus adeptos se relacionam melhor com aparelhos como o e-metter do que com o confessionário da igreja, e preferem uma mitologia espetacular, recheada de toques de ficção científica, do que episódios bíblicos que remontem à antiguidade. Eis uma religião que apresenta um espírito de aventura semelhante ao dos filmes hollywoodianos. Não é de se estranhar que alguns de seus astros tenham sido fisgados. É uma seita que une perfeitamente a eterna busca por respostas e a artificialidade consumista de nossa época.

Meta-física

Outro fenômeno que merece atenção é a recente tentativa de popularização da física quântica, em sua vertente mais zen. O primeiro gesto nesse sentido se deu com a publicação de “O tao da física”, de Fritjof Capra, de 1975. O livro torna acessível para leigos algumas das idéias de Heisenberg, que, em confronto com Einstein, interpretou certos fenômenos quânticos com o auxílio da filosofia oriental. De fato, o mundo subatômico desafia a lógica com que estamos acostumados, e até o momento não se encontrou explicações racionais para muitos de seus aspectos, tais como o princípio da incerteza. O pensamento de Heisenberg, em alguns momentos mais filosófico do que empírico, se aproxima de uma indistinção entre consciência e matéria. Uma de suas proposições é a de que o próprio ato de observar uma partícula alteraria seu comportamento.

Por mais que seja um assunto de difícil compreensão para leigos, o prestígio de alguns físicos renomados, muitas vezes professores das melhores universidades, têm transmitido uma sensação de credibilidade a esse sincretismo moderno entre ciência e fé. O documentário “Quem somos nós?”, de 2004, ao fazer um apanhado de seus principais representantes, obteve alguma repercussão entre pessoas não necessariamente da área de exatas. Por um lado, é um debate extremamente interessante que pode e deve invadir outras áreas do conhecimento e até mesmo do cotidiano. Por outro, o perigo é o de se comprar muito fácil aquilo que não se entende bem.

No buscador google, há 1,4 milhões de menções ao filme em inglês (“What the bleep do we know’). Para “quantum” combinado com “physics”, que a princípio seria um dos assuntos mais herméticos, temos 86 milhões. Para se ter uma base de comparação, “Sartre” não atinge sequer 10 milhões. Isso é um sinal de que o assunto ultrapassou há muito o território dos especialistas, e tem cativado um público sedento de respostas. A sedução se faz pela proximidade de que estaríamos de uma explicação “racional” para “deus”.

Alguns dos físicos assumem prontamente a posição de gurus, tal como Amit Goswami, um dos mais populares deste novo nicho. Um problema é que pensadores como ele não colocam qualquer hierarquia entre método científico e misticismo oriental, e sem evidência concludente chegam a afirmar que todo o mundo da matéria é “nada além de possíveis movimentos da consciência”. Por mais que alguns conceitos quânticos possam dar brecha a afirmações desse tipo, não há qualquer prova empírica para tais extrapolações. Muito menos para pretender que qualquer homem já tenha compreendido os meandros de uma metafísica completa. Há uma certa manipulação da ciência nesses casos - nem sempre movida por má-fé, como parece ser o caso da cientologia.

Inconclusão

Mesmo que de maneira às vezes trôpega, o que temos em comum, nos três casos analisados, é o investimento no sentido de tornar instrumental o que tradicionalmente era apenas questão de credo. Temos a politização da narrativa bíblica, sujeitando um livro sagrado a investigações e revisão crítica; temos a tentativa de elevação espiritual mediada por máquinas, que com ponteiros e sinais sonoros guiam as respostas procuradas; e temos a ciência em seu papel mais inusitado, empregando fórmulas complexas para falar em transcendência.

Ratifica-se, portanto, um olhar que diminui a distância, outrora marcante, entre um plano superior e a vida terrena. Em parte, tal fenômeno se dá como forma de competir com onipresenças mais ululantes, como a concretude inevitável dos apelos publicitários. Um deus que queira competir com campanhas maciças e enormes outdoors tem que oferecer algum acesso mais pragmático do que a simples fé. Ao menos uma base que pareça sólida - não necessariamente um estudo preciso e sistemático, pois isso jamais foi exigido pelo grande público. O que se evidencia é a demanda por um deus que se possa assimilar: seja comprando a prestações, seja pensando que seu descendente foi tão humano como nós, seja acreditando que deus é decomponível em números.

Não é de todo impossível que um dia a razão consiga quebrar códigos dos mais obscuros e explicar o inexplicável. Mas convém não nos precipitarmos. Enquanto a solução não aparece, enquanto só podemos ter certeza da incerteza, usemos de nossa ignorância com um mínimo de astúcia. Sejamos desconfiados, suspeitosos de falsas promessas. É tentador desvendar o labirinto, entender de fato ao invés de apenas supor. Mas, para isso, afastemo-nos das armadilhas fáceis.

Quando arte e religião se atracam

Artigo publicado no site da Caros Amigos


Recentemente, no Rio de Janeiro, foi retirada de exposição uma peça da mostra Erotica, em cartaz no CCBB. Trata-se de “Desenhando em terços”, de Márcia X., foto de dois terços em forma de pênis que se atravessam em cruz. A polêmica foi gerada pela sociedade Opus Christi e a decisão decretada pelo Banco do Brasil, atropelando qualquer diálogo com a curadoria. A obra já havia sido exposta em São Paulo, sem maiores problemas, porém foi recebida no Rio sob protestos.

É aterrador pensar que a censura possa estar, aos poucos, retornando ao campo da cultura brasileira. Temos de estar atentos para evitar os casos isolados, antes que eles se acumulem e passem a se tornar rotina, pois a liberdade de expressão é condição sine qua non para um ambiente cultural saudável. O caso de Márcia X. chama a atenção pela falta de diálogo com que a proibição foi feita, não dando sequer a chance de se argumentar contra a medida.

Se, em defesa da artista, considerarmos a questão como disputa moral, podemos muito bem inverter o foco que os querelantes vêm tomando. Márcia X. iniciou sua carreira nos anos 80 através de performances, numa década de intenso retorno à pintura, o que por si já faz com que sua integridade como artista seja admirável. Fato é que ela seguiu arriscado caminho próprio, sem se importar com apelos mercadológicos ou mesmo com a crítica vigente. Não teve aceitação imediata, e ainda assim prosseguiu trabalhando contra a corrente, por acreditar em seu trabalho. Pensando aqui na habilidade com que grupos como o Opus Christi transformam o sublime em dinheiro, ou lembrando das múltiplas denúncias recentes de pedofilia contra padres, não se percebe a mesma honestidade. É exatamente por isso que são importantes as obras de arte ousadas, capazes de levantar questionamentos, mesmo que se valendo de efeitos de choque.

No caso de “Desenhando Terços” temos a aproximação de dois universos a princípio distantes, mas que ao fundo estão intimamente relacionados. Freud, em “Totem e tabu”, compara os rituais religiosos com as obsessões neuróticas. Um dos traços evidentes para seu paralelo é o de que ambos se caracterizam pela repetição – como exemplos, os cacoetes e manias, rituais neuróticos; ou a reza do terço, ritual religioso. Segundo o vienense, por trás desses comportamentos haveria uma enorme energia sexual represada. Ora, se sua teoria é até hoje levada a sério e amplamente estudada, por que não se poderia sugerir associações entre o furor religioso e o furor sexual? Por que não apresentá-las numa obra de arte? Aliás, é bastante adequado exibir uma obra dessa em uma exposição sobre arte e sexualidade. Afronta agressiva seria fazê-lo em um contexto definitivamente religioso, coisa que Márcia X não viu necessidade de realizar.

O diálogo entre posições antagônicas pode ser muito profícuo, mas não a imposição taxativa, tal como foi feita. A censura fere o direito à liberdade de expressão, sem a qual não há esperança de debates dialéticos. É verdade que a obra pode parecer chocante para alguns grupos de pessoas, e de fato a ironia e a polêmica são marcas da artista em questão. É muito justo que aqueles que se sentiram ofendidos tivessem direito a algum tipo de resposta. Que protestassem, que escrevessem aos jornais, que demonstrassem seu repúdio, mas o fato de terem conseguido a censura é uma derrota lamentável para todos que entendem arte com alguma seriedade. Não é solução que possa ter lugar em um país supostamente democrático.