10.27.2009
9.23.2008
Conto inédito na Terra Incógnita
Eu venho pensando que a ficção científica vai ganhar uma importância enorme nos próximos anos, principalmente com as descobertas que o LHC, o acelerador de partículas de Genebra, pode nos proporcionar. Os físicos estão a poucos passos de desvendar alguns mistérios que prometem transformar completamente nossa maneira de pensar e sentir. Não se trata de mera elocubração nerd, é bem provável que logo mais você abra o jornal e descubra que vive em mais do que quatro dimensões! Ou fique estarrecido com novidades sobre a tal da anti-matéria. Também sobre a evolução do universo se esperam algumas notícias. Tudo isso me faz crer que o século XXI vai ser dos mais empolgantes da História, e que todo escritor deveria prestar atenção à revolução que a ciência está prestes a realizar.
Meu conto na revista se chama Emaranhamento, um fenômeno que deixava Einstein assombrado e até hoje não foi explicado. Trata-se da influência entre partículas a uma distância potencialmente infinita, o que contraria os princípios da Teoria da Relatividade. Pensando nisso, escrevi sobre o "emaranhamento" de duas pessoas que se distanciam, mas continuam a influir uma sobre a outra.
Outros autores desta edição são Carlos Orsi, Guilherme Kujawski, Fábio Fernandes e Ekaterina Sedia. É só clicar aqui e aproveitar a leitura.
Obs: continuo devendo o texto sobre Hakim Bey. Meu maior inimigo tem sido o tempo (o presente mesmo, quanto ao futuro eu ando otimista). Assim que eu tiver uma brecha, cometo a insensatez de falar sobre essa criatura maldita.
7.30.2008
Reabilitação
REABILITAÇÃO
Bom dia a todos. Meu nome é Marcelo, tenho 32 anos, estou na Associação há dois anos. Após muita luta e coragem, tenho o orgulho de dizer que faz cinco semanas e dois dias que não leio uma única linha de literatura. No começo foi muito difícil, a compulsão falava mais forte, mas com o apoio de todos aqui presentes, estou conseguindo me recuperar desse vício nefasto. A guerra ainda não foi vencida, sei que a possibilidade de uma recaída está sempre nos ameaçando, mas o exemplo de vocês tem me ajudado a seguir o bom caminho e retomar uma vida digna em sociedade. Sou imensamente grato por isso.
Cada um aqui tem uma história pra contar, e cada história pessoal na verdade se abre em mil outras histórias, porque assim é o vício da ficção. Acho que no meu caso, tudo começou com cerca de seis anos de idade. Foi a professora da escolinha que me introduziu a esse universo – lembro-me bem dela, Dona Gilda – me presenteando com um livrinho ilustrado, bonito, sobre as aventuras de João no Pé-de-Feijão. Eu era uma simples criança que nada sabia sobre os perigos dessa vida. Não poderia adivinhar que um gesto tão simpático daquela velhinha de voz macia me levaria para uma trajetória de perdição que com muito custo tento agora deixar para trás. O livro colorido parecia tão inocente, e eu fiquei tão entusiasmado com o João, que não pude oferecer resistência alguma. Fui totalmente tragado pela magia dos feijões que crescem de um dia para o outro sem qualquer explicação, pelo castelo mágico repleto de maravilhas, e, como João, também eu quis derrotar gigantes e dedilhar a harpa de ouro. No começo parece tão bom, não parece? A gente se sente ótimo. Agora, o que mais me deixa revoltado... (ai, me desculpem pelas lágrimas, vou tentar ser mais forte)... o que até hoje eu não consigo entender é como que meus pais não me advertiram. Eu simplesmente não consigo perdoá-los por isso. O caso é que naquele mesmo dia, quando eles chegaram em casa depois do trabalho, eu comentei eufórico que pela primeira vez tinha lido um conto inteirinho, do começo até o fim. E que o João era incrível.
Eu tenho um filhinho pequeno, de dois anos de idade. De uma coisa eu tenho certeza: se um dia meu filho ler um livro desse tipo e me disser que “João é um cara incrível”, eu vou responder que é esse o problema. “Incrível”. Meus pais perderam a oportunidade de me colocar nos eixos, e deixaram que o faz-de-conta ganhasse espaço na minha vida. Posso dizer até mesmo que... (suspiro)... eles ficaram contentes com esse meu “aprendizado”. Disseram que eu tava crescendo. Não é um absurdo? Ali estava eu, pobre criança que se deixou arrebatar pelas ilusões, por uma historinha que nunca existiu, uma mentira descabida, e eles tiveram a pachorra de dizer que eu estava aprendendo, e que eles estavam muito orgulhosos de mim. Será que eles não sabiam que é assim que tudo começa?
A coisa foi crescendo, em pouco tempo eu perderia o controle. Não demorei muito para ler todos os contos de fada da biblioteca da escolinha, e como se isso não bastasse, logo em seguida descobri Monteiro Lobato. E, é claro, eu vibrava com as caçadas de Pedrinho, achava Emília um personagem encantador, e tinha vontade de ir com Narizinho ao Reino das Águas Claras... Dona Benta, então, me era tão querida quanto minha própria avó. São recordações que parecem doces, e eu já vejo no rosto de vocês aqui, meus parceiros nessa luta, um ar de nostalgia – mas nós precisamos ser fortes. Naquela época, não tínhamos a menor noção do perigo que corríamos, mas hoje já temos consciência. Tudo estaria bem melhor agora se fôssemos como as crianças normais, que passam horas na frente da televisão, ou mesmo jogando videogames.
Com menos de dez anos eu já estava desencaminhado, e nem sequer suspeitava. Eu devorava pilhas e pilhas de livros de aventura, das viagens de Gulliver às expedições para Marte, sem falar na paixão que eu tinha pelo suspense do Marcos Rey. Quando, alguns anos depois, a escola nos obrigou a ler Machado de Assis, todos meus colegas torceram o nariz, acharam muito difícil ou chato, mas infelizmente não pude sentir o mesmo desprezo. Para mim, que já era um viciado, aquilo foi simplesmente uma dose mais forte de algo que já havia tomado conta do meu sangue. Não havia mais volta: a acidez daquele bruxo transformou meu olhar, e eu já não podia mais ver as máscaras sociais em sua tranqüilizante superfície. Era tarde demais! Dali em diante, passei a ter um impulso irresistível para desconfiar das aparências, para desvendar a hipocrisia das relações pessoais, e para desvendar o que há por trás dos discursos oficiais. Nem mesmo o médico Fortunato, cuja profissão consiste em ajudar as pessoas, foi poupado por aquele homem tão brilhante e tão ardiloso. Hoje me pergunto, como é que pode uma escola ensinar algo assim? Eles deveriam primar pela comunhão entre as pessoas, pela civilidade, e em vez disso nos oferecem um curso completo de sarcasmo que nos pega desprevenidos. A coisa só iria piorar. Li Crime e castigo vibrando com Raskólnikov, um pérfido assassino; li Bukowski com enorme respeito por um bêbado, só porque ele descreve a miséria com um certo charme; li Lolita e achei magistral uma narrativa indecente sobre um pedófilo. E ainda fiz amigos que me incentivavam a ler cada vez mais! Um pior que o outro, é claro. Estavam todos certos de que a glória da literatura é não ter os limites que nos impomos na realidade, e eu, ingenuamente, concordei com eles.
Quando atingi a vida adulta, a literatura já se tornara uma compulsão. Ao menos tive o bom senso de não prestar Letras, mas, advogado recém-formado, eu cumpria meus deveres o mais rápido possível e reservava horas inteiras à fantasia, para assim escapar do mundo real com todos seus problemas. Continuei a encontrar com meus amigos leitores, mas mal sabíamos manter a conversa no clássico futebol, mulher e piadas sujas: todo encontro descambava para as nossas leituras, para nossos escritores prediletos, sem o menor pudor. Parecia uma doença! A literatura começou a transformar minha escala de valores a tal ponto que a mulher que eu idealizava era ninguém menos que Sherazad. Acreditei que a esposa perfeita seria ela, porque saberia me contar inebriantes histórias por mais de mil e uma noites. Mas creio que eu também teria sido o pobre K., do Castelo, e me deixado escorraçar de bom grado por Frieda; eu teria sido Proust e amado Odette sem arrependimento algum; eu teria sido Riobaldo e me apaixonado em segredo por Diadorim. Eu desejava uma vida impossível e absurda, desde que tivesse a mesma intensidade que eu encontrava nos meus romances prediletos. Pouco importava que o final fosse triste, pois o que me parecia decepcionante era o lugar comum, a falta de poesia.
É claro que pensando assim eu só poderia me tornar um desajustado. Nenhuma namorada me fazia feliz, porque eu sentia sempre que lhes faltava algo, uma aura especial sem a qual me pareciam desbotadas em comparação com as personagens preferidas. E aí está o erro, pois desbotadas só podem ser as criaturas que habitam a celulose, presas entre a capa e a contracapa. Eu bem que deveria me conformar com as maria-gasolinas que estão sempre a mão, e que se pode trocar constantemente sem pensar duas vezes, porque com elas jamais sentimos que se perdeu grande coisa. Eu deveria ser como todo homem saudável, mas não. Eu preferi ser romântico, e procurar alguém que me despertasse um amor maior que a morte, tal como o de Romeu e Julieta. Não poderia dar certo. Também no trabalho, eu fui muito aquém do que poderia, pois eu estava mais preocupado com matérias do intelecto e do espírito do que com as coisas palpáveis. Desperdicei minha juventude com essa bobagem. Eu teria força para trabalhar 14 horas por dia, se eu não achasse mais importante adquirir cultura do que dinheiro. Ponho toda a culpa nos livros que li, sendo que tudo começou com aquele maldito João e o pé de feijão que uma professora me ofereceu com insidiosa doçura, tal como se oferece droga disfarçada numa balinha de côco.
Desculpem-me, eu não queria me exaltar. Se apenas eu tivesse mais cedo encontrado alguém como vocês para me aconselhar, meus caros... Como por exemplo o Guigo, aqui presente, que compreendeu que toda poesia de que precisamos está na bula do Prozac. Ou como o Leonor, que desde que abandonou a literatura conseguiu se focar em objetivos mais altos, e em breve vai conseguir seu primeiro milhão. Ou como o Marcão, que todos conhecem bem, e que tem conquistado o triplo de mulheres desde que deixou para trás a sensibilidade refinada que bem sabemos o quanto costuma atrapalhar.
Infelizmente, eu não tive a sorte de ter amigos como vocês mais cedo, e me deixei levar por uma infinidade de sonhos inúteis. Tenho ainda um longo caminho pela frente. Hoje eu tenho mais cultura do que dinheiro, e não existe banco algum que faça a conversão. Sinto-me deslocado em todas as festas do pessoal do trabalho, porque meu assunto favorito sempre foi, por muitos anos, livros. Ainda não consigo me acostumar com os programas de tevê mais populares, mas sei que só quando eu tiver me habituado à sabedoria humilde das emissoras, poderei me sentir à vontade com as pessoas mais respeitáveis. Ao menos tenho parado de ouvir as reclamações da minha esposa, que antes ameaçava com o divórcio se eu não parasse com a mania de dar valor ao que não leva a lugar algum. Ela é uma pessoa normal e saudável, tanto quanto eu quero ser. Por isso que estou aqui. Sei que meu caso é grave, mas já faz cinco semanas e dois dias que eu não leio uma linha de literatura, e com a ajuda de vocês eu sei que posso me livrar desse mal. Obrigado a todos, era isso o que eu tinha para dizer.
11.30.2007
Menino que faz os sonhos
Menino que faz os sonhos
- Ai, que mininu bunitu, coisa fofa da titia!
Rafaelzinho mal sabia que se chamava Rafael. Ainda estava aprendendo a pronunciar os primeiros sons, e como quase sempre chamavam-no de “Mininu”, ainda
estava longe o dia em que diria: “Meu nome é Rafael dos Anjos”.
- Bilubilubilubilubilú! Lindinho!
Na verdade, é Rafael das Dores, mas com um rostinho tão angelical, os cabelos loiros charmosamente encaracolados e a pele tão branca, preferiria um nome que melhor lhe aparentasse, e não o dos parentes.
- Vem agora com a mamãe, meu anjo, vem.
Rafaelzinho ainda não sabia que a mãe era operária de uma fábrica de cotonetes. Não tinha a menor idéia de o que é isso. Não tinha a menor idéia de quanto suor valia cada papinha que devorava. Aliás, não sabia que a mãe soluçava de aflição, e nem que seu nome é Maria, e nem que estava devendo três meses de aluguel.
- Mininu gotôso! Ói que perninha gotósa de apertar!
Tão bonito esse Rafaelzinho que o sucesso com as meninas será fácil. Mesmo as riquinhas mais embonecadas vão cair na sua lábia, nos bailes da cidade. E ele um rapaz meigo. Não muito romântico nem monogâmico, mas conhecedor das delicadezas que as meninas gostam.
- Uma graça, não é? Lindão!
O Mininu tinha um passatempo favorito, que era brincar de carrinho. Acelerava pelos ladrilhos frios da sala, buzinava para os três vira-latas magros, e de quando em quando derrapava em alguma almofada velha, poeirenta, esquecida no chão.
- Cumprimenta com a mão assim. Estica mais, assim. Isso aí, filhão!
O pai procurando emprego há anos, tentando o melhor que pode sem encontrar nada. Rafael vai demorar para aprender a ler, então não sabe o que é jornal e muito menos o que é Classificados. Dizem que seu pai é um desclassificado, mas isso ninguém da família entende muito bem o que significa.
- Você é um príncipe, filhinho. Um principezinho encantado.
E quando levasse para casa as filhas bonitas da gente rica, veria no braço delas os pêlos arrepiados. Não por tesão, mesmo que ele caprichasse nas carícias. Seriam as paredes descascadas, as cortinas desbotadas, o sofá gasto e remendado. Nenhuma delas se sentiria à vontade ali, por mais que confessassem uma quase magia em seu beijo. Ele fingiria não ver problema algum. Elas diriam que ele se parece com um galã de novela e estaria tudo bem.
- Tutitutituti. Tutitutitutitutitu!
Rafaelzinho ainda não sabia o quanto o trabalho esgotava sua mãe. Ela chegava quase desfalecendo de cansaço, era enorme seu esforço para disfarçar. O bebê era a esperança da casa, e todos combinaram que ele seria o primeiro da família a entender perfeitamente o que é essa tal de dignidade.
- Ae, garotão! Mininu esperto, assim que eu gosto!
O pai jamais contaria quanta humilhação já passou com os antigos patrões. Até cuspe na cara ele tomou, quando reclamou de seus direitos. “O que foi, seu Zé Ruela? É baixar a cabeça e fazer o que eu mando. Tá me olhando torto porquê? Tu é feio demais, porra. Mete o rabo debaixo das pernas e pega tuas coisas. Tá despedido.”
O sol está forte. O vento que sopra ao meio-dia é muito bem-vindo, refrescante. Uma sopa de ervilhas está para sair do fogo e o aroma desperta a fome nos moradores.
- Amo demais esse gurizinho. Ele é a nossa maior bênção, não é? Nós somos felizes, não somos?
- Somos, sim.
E Rafaelzinho corre pela sala, descalço, descobrindo brinquedos e inventando pequenos truques. Atrás de uma cortina ou do lado de lá da parede cabe um universo inteiro. Absolutamente tudo o que a brincadeira pode conceber é possível e real. Tesouros indescritíveis, imensos, doidos. Seres fantásticos maiores que uma casa, maiores que o quarteirão. Mesmo assim cabem em sua minúscula mão de mágico, na mão dele, menino que faz os sonhos.
9.27.2006
Menino
Eu voltava a pé do bistrô, contente, de alma leve. Barriga forrada de bons petiscos, o humor maravilhosamente leviano, desentendido de pesos e amarguras. Eu e um par de meus melhores amigos rimos a noite inteira, contando mil casos e piadas, sem qualquer censura. Às quatro da manhã saímos à rua, e me ofereceram carona, mas eu preferi caminhar. Em momentos de pura jovialidade, não dispenso o ar livre. Eu era apenas mais um boêmio, acompanhava com a vista o esvaziamento gradativo dos bares. Ainda se ouvia cerveja descendo nos copos, tilintares de vidro, e alegria nas vozes altas, ébrias, dos que não iriam parar de celebrar antes do raiar do sol. Eu gingava satisfeito, ruminando minha fartura, meu hálito de bom vinho, o rosto relaxado de tanto rir... Gostaria que essa carta fosse tão alegre como começou, mas foi terrivelmente triste o que vi em seguida.
Próximo à ladeira, no gelado da noite, um menino abandonado. Tremendo, aflito. Tinha por volta de dois anos de idade, não muito mais. Chamava por uma mãe que não estava ali para ouvi-lo. Não estou certo de conseguir expressar o quão desprotegido percebi aquele garoto... Não creio que ele entendesse inteiramente o que quer que houvesse lhe acontecido. Um menino de fraldas, perninhas gordas expostas ao vento, mal protegido de toda a maldade adulta que estalava em cada fresta, em cada sombra.
Eu me aproximei lentamente. Ele não percebia meus movimentos, seu rosto virado contra o muro. Era como se bastasse não enxergar a cidade, olhar para uma parede qualquer, e a cidade também não o enxergaria. Ele era criança o bastante para esse pequeno delírio, a fantasia de que fechar os olhos equivale a fechar o mundo. Cheguei um pouquinho mais perto, vi que ele estava chorando. Realizava algum faz-de-conta, gestos repetidos com as mãos, e balbucios que eram suas palavras mágicas. Mesmo assim, ele não sabia onde encaixar o abandono da mãe em seu ritual. Até mesmo porque, não há nada que pudesse substituir a ausência da mãe.
Chamei a polícia, fiquei ao lado do garoto até chegarem. Apenas fiquei assistindo, sem falar com ele. Ao seu lado, me assegurei de que ninguém iria machucá-lo. Mas eu não sabia que carinho lhe dar, achei que talvez se assustasse comigo, saísse correndo, sumisse. Então esperei por dez minutos até a viatura chegar, e durante todo esse tempo o menino sequer percebeu que eu estava ali.
Me dói um pouco lembrar do grito que ele deu quando enfim o guarda chegou. Com certo cuidado, porém de um profissionalismo enojante, o policial o ergueu sem perda de tempo pela cintura e o levou ao carro. O menino se debatia, e o guarda fazia sshhhhhh, em vão querendo acalmá-lo.
Penso que eu deveria ter me envolvido um pouco mais. Não acompanhei o policial quando ele partiu, apenas respondi às suas três ou quatro perguntas que me endereçou antes de me dispensar. Mas eu poderia ter ido um pouco além, ao menos descobrir em que abrigo o garoto passou o resto da noite, ou me manter informado quanto ao que se passou nos dias subseqüentes. Mas não sei nada, não procurei saber. Nem sequer se sua mãe está viva, ou o estado de saúde dele, ou se sabem seu nome. Não fiz. Nada.
Porque é terrível demais. Não quero me identificar com uma história de tamanho abandono. Triste demais para mim, vocês nem sabem. Não pensem que eu não senti nada; eu tentei e não pude. Tentei, sim, falar com o menino, eu gostaria de lhe presentear com um pouco de atenção, dar ao menos uma voz melodiosa para ele ouvir. Alguém precisava falar com ternuras, ele é uma criança, um menino daquela idade precisa de um mínimo de doçura, de esperança mesmo. Alguma coisa tranquilizante, titiritititi-ti, sussega minino bonito, tudo vai ficar bem, prometo pra você, titiritititi-ti, sussega, sussega, sussussussussega. Ou fazer uns carinhos na cabeça, ou dar um pouco de colo e balançar, ou apenas exibir um sorriso amistoso.
Mas não consegui. Por um lado porque perdi minha inocência de modo muito brutal e já faz tempo. Não consigo mais realizar sequer a mímese de uma ilusão-infantil, por mais que isso me pareça triste e severo. Não consigo, está além das minhas forças. E por outro lado... senti que se eu desse um pedaço do meu coração para aquele menino, que tanto precisava, eu perceberia o quanto estou parecido com ele. O quanto, por trás das risadas e das aparências, estou tão sozinho como um menino frágil que chora, que precisa de um calor que nem mesmo sua mãe pôde dar.
Ah. Não... Eu não queria chorar.7.04.2006
Fones de ouvido
Passeavam de mãos dadas, na praia. Ele queria muito mostrar a ela este lindo encontro de areia e mar, a léguas de qualquer cinza urbano, que era seu refúgio desde criança. Caminhavam devagar, os rostos próximos. De quando em quando paravam, trocavam beijos macios. A natureza estava esplêndida, com a luz do sol, forte, irradiando vida ao verde das folhas, o colorido das flores mais que nunca colorido, pássaros cortando o céu em vôo aberto. O walkman ligado, colado na orelha.
- Me empresta um fone, vai? Deixa eu ouvir o que você tá ouvindo.
Como de costume, ela preferiu a brincadeira. Disse um "Não" teimoso, inflando as bochechas. Moleca.
No rosto dela, naquele irretocável rosto de leite dela, suavidade e ternura. De uma perfeição tão delicada e harmonia tão justa que confundiam - seu jeito travesso, as pirraças que fazia. Era anjo afeito a diabruras.
Às vezes ele se pegava nuns instantes em que receava tocá-la ou beijá-la, como que temendo desmanchar, ela uma estátua de nuvem. Seis meses que namoravam, e ele ainda se surpreendia tomado por pequenos delírios, o angelical de sua beleza atingindo um tom quase sublime. Não sabia explicar se com determinada luz ou sombra, se de eventual expressão mais graciosa, se era ele que se emocionava - aconteceu mais de uma vez, durando o tempo de um lapso. Depois passava, ele se vingava da hesitação com beijos duas vezes mais lascivos.
Contornavam o mar abraçados, pele com pele e desejos.
Contagiava-o sua animação, toda risonha, carismática, admirada com tudo. Colhendo conchinhas na areia, afagando um cão que passava, conversando em voz doce. Seu maior talento talvez fosse uma habilidade especial para extrair de qualquer coisa uma leveza, com que sorrir, querendo nos fazer bem.
- A areia tá fofinha, não tá? Eu gosto quando ela faz cosquinha, faz "suiche suiche" debaixo dos pés... - e eram trejeitos, olhares, ternuras, somente seus.
A manhã de domingo. Amanheceu com sol, ele telefonou convidando para irem à praia. No entanto teve uma sensação estranha, uma intuição aguda e vaga. Ele tateava não sei o quê, algum disfarce por trás daquela voz aparentemente receptiva. Talvez uma indecisão, chegou a pensar que uma recusa, chegou a ter certeza disso. Ela disse sim, aceitou. Parecia alegre e disposta, sua entonação o indicava. Mesmo assim não se convencia, ainda havia alguma nuança, pouco perceptível, suspeitável. Poderia ser imaginação, era bem possível, mas como saber? Não era de sua personalidade esse tipo de insegurança, não agora com vinte e sete anos.
Ou será que ela, guardando algum mistério, mergulhava um pouco mais fundo em seus sentimentos do que as demais garotas até então? Se a insegurança estava nele ou nela era difícil dizer; sua sensibilidade estava confusa.
Por causa dos negros e envolventes olhos dela, sua pele branca, seu perfume único... Seus gestos, seus lábios, sua voz... Os dias corriam breves, a cada manhã uma maior saudade de alcançá-la.
Seus olhos não eram olhos. Eram imensos segredos brilhantes, profundos abismos incrustados na face. Algo se escondia por trás desse par sedutor, algo inatingível, longe. Ele a penetrava no sexo, mas será sempre barrado diante desses olhos negros. Imensos.
Ele a penetrava no sexo, preenchia, completava. Mas o que será que se passava na cabeça dela nos momentos? Em cada momento de sua vida - prazer, alegria, dor, fastio - da vida vivida juntos. Compartilhada, porém menos compartilhada que assistida, dois espectadores alheios. Porque não era o orgasmo que os tornava um só; nada é capaz de quebrar o invólucro dos corpos.
Prazer, alegria, dor, fastio.
Namoravam há algum tempo, a intimidade aumentava. Ele se satisfazia, sempre. E ela? Quando ia despi-la, notava uma certa timidez, uma hesitação, alguns segundos apenas. Mas suficientes para o fazerem ansioso. Não exatamente a cautela da primeira vez, que com frequência lembrava. Os dois envergonhados, ele também, acanhados nos dedos, os lábios tímidos, a expectativa resignada... Superaram logo, com a segurança de que o namoro iria além. No ato sexual ela se dedicava, era com carinho que o recebia à porta das sensações.
Mas é que... como dizer? Para ele não bastava ver o sorriso no rosto dela, e estarem suas mãos unidas. Era pouco, seu desejo ardia por mais. Queria sentir exatamente do mesmo modo que ela sentia. O sentimento exato, não o de duas pessoas próximas que se identificam - um ser só. Uma consciência só. Vez em quando ele diz que gostaria de experimentar o orgasmo do ponto de vista dela, invertido. Não um orgasmo feminino; o orgasmo dela.
- Que foi que cê tá me olhando desse jeito? - ela perguntou, entre risos. Fingiu um falso ar de preocupação, zombando docemente. Moveu então os lábios para dizer mais alguma coisa, dissimulou, preferiu cantar. Recolocou o fone e se deixou ouvindo música.
O braço dele a envolvia pela cintura, acolhedor. Olhando calado nos olhos, apreciando a delicadeza de seu rosto. Naquele instante desejou ser a um mesmo tempo a mão sua e a pele acariciada dela, e sentir ambos os toques simultâneos. Seria um consagrado êxtase.
“Esqueça” pensou, “é impossível”. Ah, se ao menos pudesse conhecer todas as miudezas do não-dito, dessas que se multiplicam incessáveis entre um casal... Se pudesse ler o que vai em sua cabeça. O que ela pensa a cada gesto seu, a dissonância entre o pensamento e a fala, que sensações ela tem quando se beijam, quando se tocam. Assim a teria muito mais do que se pode ter, eliminaria muito da distância inesgotável que os torna estranhos mesmo quando íntimos.
Seria paranóia? Mas nem mesmo o corpo se pode ter inteiro! Ao abraçar pela frente, por mais apertado que seja, deixa-se de abraçar pelas costas. E é por isso que pegava dela com tanto ímpeto, mais que um carinho uma vontade de envolvê-la inteira, englobá-la – e abraçava, trançava as pernas, apertava junto ao peito.
Pegou na sua mão, beijaram-se. Sentados de frente para o mar. O rumor trazendo e levando águas, enquanto seus dedos sulcavam buracos na areia. Alisava o solo, traçava marcas distraídas. Colhendo os grãos e deixando escorrerem.
Ele estava apaixonado? - quanto mais repetia a questão, mais a resposta lhe parecia sim. Apesar de não conseguir dizer em voz alta. Ele era um homem que gostava de dizer “eu te amo” - para as namoradas anteriores, sempre que houve sinceridade, sempre o disse. Gostava de dizer, não sentia vergonha em ser romântico - ao contrário, orgulho - com essas três palavras tornava-se um pouco menos mortal. Mas para ela, que despertava sentimentos tão novos, não ousava. Temeroso de ela não responder como esperava. Ou pior, respondesse, mas como saber se não estava mentindo?
O maldito walkman! Por que é que ela não desliga? Começava a irritá-lo. Deveriam estar conversando, rindo juntos, e ela se fazendo surda com esse maldito rádio na orelha! Pegou e atirou um punhado de areia para o lado. “Quem é você?” Talvez sejam essas as três palavras que ele nunca teria forças para pronunciar, entaladas à beira da boca. “Quem é você?” Mas não um interrogatório, ou análise. Não, ele queria a cumplicidade, uma união maior que nunca, um amor sem proporções. Mas ela teria de responder tudo, absolutamente tudo, desabar da memória desde a lembrança menos significativa à mais oculta e proibida. Cada sensação, pensamento e impressão contidos nela, e o mais que se vai carregando ao longo da vida. Para que pudesse ele nela vivê-la.
Do canto do olho, discreto, espreitou a brancura de seu rosto liso. E se ele dissesse agora, “Eu te amo”? Todas as letras, sem medo. Agora. Qual seria o exato timbre com que ressoariam na caixa craniana dela, as ondas sonoras traduzidas em sensação? Atadas a que impressões iriam ecoar essas calculadas palavras, sopradas de sua boca para o ouvido dela? De sua boca, para o ouvido dela.
Os fones de walkman, mais uma vez. Naquele instante o aparelho se tornava seu pior inimigo, fazia-se urgente combatê-lo. Os fones, símbolo desse isolamento, confirmando a fronteira entre as almas... Lá estava ela, cantarolando em voz baixa as notas da canção, balançando a cabeça sozinha. Transportada para aquela caixinha que trazia música só para ela, um ambiente só dela.
Ele investiu uma nova tentativa; optando pelo tom lúdico. Fingiu um ar severo, policial:
- Garota, acho que vou ter de confiscar seu aparelho. Posso ver sua habilitação para o porte?... Como eu suspeitava: está vencido.
Ela fez “Nããão” novamente, mostrou a língua. Ele insistiu, ela se divertia em negar todas as vezes, caprichosa.
Isso o aborreceu. Voltou à cena do telefone, ao pressentimento. Que mais ela escondia? Fechou a cara. Estava com sua namorada, a mulher que amava, e, no entanto, sentia-se só. Não porque a praia fosse deserta – era a praia de sua infância, povoada de recordações - não era o lugar, é que mal saberia dizer se a pessoa que o acompanhava estava mesmo ali.
Sua irritação se tornava visível, ela percebeu. Primeiro baixou os olhos, pensativa. Parou de cantar. Não queria magoá-lo, é que não esperava que ele ficasse assim triste. Só estava brincando. Estalou um beijo em sua nuca, soprou junto à orelha. E quando ele virou o rosto pôde ver que ela lhe oferecia o tão requisitado fone de ouvido.
Ele sorriu agradecido, realmente feliz. Muito feliz. Ela nunca saberá o quanto.
O homem que de fato morreu
O título acima foi o primeiro que me ocorreu. Outra possibilidade seria manter só as duas primeiras palavras, descartar o predicado desnecessário. Optei deixar como está, para um melhor entendimento – é este meu principal objetivo.
Digo logo: estas linhas pertencem aos dias de hoje, mundo ocidental. Seriam de outra importância se escritas na Idade Média, quando o mais insignificante moribundo era acompanhado por uma corja de curiosos, ávidos pelo espetáculo da passagem; ou em tempos mais bélicos, cada cidadão transformado em guerreiro e os cadáveres espalhados como que para a colheita. Demoro-me mais do que deveria - 1998 d.C.
Há algum personagem na história que conto? Se assim quiserem, concentrem-se por ora em um senhor de setenta e oito anos, vestido à moda antiga, calças sóbrias, suspensório. Digamos que ele está na fila de um banco. Por sua idade o leitor provavelmente imagina uma respiração frágil, os passos vagarosos, a pele desbotada flácida. Assim seja.
Mora sozinho em seu sobrado, passa a maior parte do dia tocando o melancólico violino. Dorme cedo todas as noites; cumprimenta os vizinhos da sacada; recebe visitas esporádicas dos filhos e dos netos. E suas sobrancelhas se apertam pensativas no esforço de rememorar tempos de infância. Uma de suas maiores alegrias é quando, em seu aniversário, os familiares se reúnem para ouvir o violino, mas o velho irá morrer hoje, em meio a disparos de assaltantes no banco.
Assim será. Suas juntas não respondem tão bem quanto as do office-boy às suas costas; a demora com que se agacha ao chão é longa demais para que pudesse desviar do trajeto da bala. Teve a cabeça perfurada.
Fato é que esse homem de saúde frágil não viveria muitos anos mais, mesmo que escapasse intacto ao tiroteio. Pensando bem, eram grandes as chances de que morresse ali no banco, senão por homicídio, de infarto.
O office-boy ficou surpreso com sua própria indiferença. Não é difícil aceitarmos que os idosos falecem. Os velhos e os recém-nascidos, que não chegamos a conhecer. Não pensava de outra maneira a mente que mora nesse corpo jovem e ativo, ansioso pela hora de trocar a pastinha da empresa pela bola com os amigos e o abraço da namorada.
O vento soprando nos cabelos e ele recebe o cruzamento - conduz a bola com elegância, a perna ágil dribla o adversário na entrada da área, completa o giro limpando o lance, pontaria firme, a bola vai, e encaixa na rede do gol! Ele corre até Michele para receber o abraço.
Rapaz alto e bronzeado; suas maneiras têm um brilho alegre. Adolescente agitado, muito falante, amigável. Um pouco relaxado nos estudos, sua mãe sempre reclamou, mas ele nunca foi de causar problemas. E, se os estudos não o instigavam, o dinheiro fazia dele um trabalhador razoável.
Somente uma vez olhou a morte de perto, no velório do bisavô. Parecia estar apenas dormindo, o derrame cerebral não manchou as feições do cadáver. Naquela noite o garoto tentou imaginar a escuridão dos que partiam - porque estava em um cemitério.
Algumas semanas depois, entrou na fila de um banco carregando na pasta as contas da empresa, e notou que o homem à sua frente se parecia muito com o parente defunto - talvez fossem os suspensórios. Não soube dizer por que, mas organizou em sua mente uma nova morte para esse bisavô reencarnado. Nova morte, em um tiroteio, o velho tentava se esquivar, uma bala se enterrava no crânio. Porque o cenário era um banco, não o hospital.
Saiu da agência, suspirou para longe suas imaginações. O nome do jovem é Cristóvão, como o de Colombo.
Antes de atravessar a rua parou no orelhão, para telefonar ao chefe. Passou os valores, e quando guardou o fone no gancho reconheceu outra vez o velho, que alcançava a rua em passos cautelosos.
Tudo se passou em quatro segundos. No primeiro, viu o homem caminhando pela marquise. No seguinte, viu sua cabeça desviar brusca para o lado, e o sangue esguichando. Depois, ladrões encapuzados abrindo caminho aos tiros, em fuga desordenada. O bisavô morto, agora o velho. Houve um novo disparo - então ele soube.
Aqui termina a narrativa. Certamente chegaram repórteres, tentaram retratar a morte com suas câmaras fotográficas. Falharam, porque é falso nosso aprendizado de que é no instante coincidente ao clique das objetivas quando os corpos se tornam matéria abandonada. Suas vidas haviam se desgarrado antes, em um momento imperceptível ao relógio e aos vivos.
Um estalo repentino, semelhante ao de um graveto que se parte com as mãos? Uma aproximação incerta, como a passagem da vigília para o sono; degradée sombrio e torpor? Uma sinestésica erupção de sentidos; irradiação de loucura; desmoronamento; sensação de queda?...
Agora mesmo, em algum lugar da cidade, alguém deve estar atravessando. Eu queria ouvir.
Uma maníaca fase de transição, depois vem. Sob recusa, gemidos, pavores, pânico. Ela vem, sua chegada demonstra que as aflições não eram assim tão tragicamente insuperáveis. Vem negra, e fria? Imagino um corpo abandonado num universo sem estrelas. O domínio do nada. A consciência se perde e ignora a perda. Nenhum sentimento. O corpo não guarda memória do que foi, torna-se menos do que casca, oco por dentro em um espaço oco.
No quarto em que escrevo estou há quase duas horas absorvendo a escuridão da noite, mas não consigo sentir. O poço no qual todo instante se dissolve, inapreensível como o infinito.
Suponhamos então uma terceira personagem: um paranóico, em um dos mais acentuados graus. A todo momento experimenta a sensação do precipício. Acredita ter, em lugar do coração, uma frágil bolha de ar no peito, prestes a estourar. Acometem-no vertigens avassaladoras, sofre como se fosse a morte, chora todos os pesares de quem agoniza. Mesmo este homem, nem ele, sequer entrevê a carícia gelada. Não antes do tempo.
Frágeis bolhas de ar que somos. Tão fácil morrer, tão fácil matar. Muitas vezes de forma inocente. Para fabricar o papel em que escrevo foi preciso matar uma árvore, para a tinta de minha caneta foi preciso outro tanto. Inevitável, ao longo dos anos um único ser humano consome uma quantidade de vidas equivalente ao de populações inteiras, começando pela carne de que se alimenta.
Sobre a página em que escrevo uma pequena formiga está caminhando, da esquerda para a direita. Parece perdida, circulando sem norte. Sinto por ela alguma simpatia. Está se aproximando da ponta da caneta, ignorante de seu destino. Vou esmagá-la, mas de maneira que o ponto final desta oração coincida com a mancha de seu
cadáver .
Estou ensaiando um assassinato maior, desde as primeiras linhas. É por isso que passo as horas imerso no escuro, convidando-me sombras.
Estou falando no presente, este que vivo agora entre o último e o próximo bater do coração, no fugidio espaço entre uma contração e outra. Falo agora. Agora. Agora. Diástole. Sístole. Diástole. Sístole. Este tempo mais fugaz que as águas de uma corredeira, que nos escorrega pelas mãos, e fracassamos querendo congelar.
Estou ensaiando um assassinato maior. Vou matar o velho.
Ele vai morrer, talvez não passe desta noite. Toda essa tinta e papel não foi gasta para outro fim, eu não conto ficção. Porque sou eu o velho do banco. E o garoto, e a formiga, e outros. Morrerei, não com uma bolha imaginária no peito, mas pelo pulmão sangrando. Gota a gota esvaziando minha alma.
Dizê-lo por escrito é como assinar meu atestado de óbito. Como se concluísse minha carta de referências a Deus, que ele escolha para mim o céu ou o inferno. (Deliro na hora próxima, a única voz que me chama é a escuridão da cova). Eu tenho medo, queria estar preparado. O ponto final para tudo o que fui na vida, trocar a certeza da respiração para desintegrar no nada... É tão impossível quanto terrível quanto inevitável.
O ponteiro do relógio prossegue, em seu ritmo monótono e incisivo, cadência sem perdão.
Não posso continuar este relato agora, o farei pela manhã. Peço apenas um último desejo: se eu não puder terminar, por amanhecer morto, por amanhecer morto, peço que assinem embaixo, deixando o trabalho menos inconcluso. Já devem ter adivinhado o nome. Assinem: O homem.
