4.21.2007

Uma cultura do crime?

Terceira semana de abril de 2007. Segunda-feira, o estudante sul-coreano mata 32 pessoas na Virginia. Na terça, guerra de tráfico no Rio de Janeiro com tiroteio a céu aberto. Quarta, um dos piores atentados no Iraque, matando centenas de pessoas. Sexta, um engenheiro invade a NASA, mata um refém e se suicida.
Será que é apenas coincidência? Tantas cenas dramáticas ocorridas em tão pouco tempo? Minha hipótese é de que, de alguma maneira, um acontecimento "estimulou" o outro. Não sou assassino para saber, meus maiores crimes são cometidos por personagens... mas desconfio que o primeiro a derramar sangue despertou alguma coisa nos outros. Um apelo instintivo que disparou o que há de mais primitivo na mente humana - porém, creio eu, sem deixar de se articular com o que chamamos de linguagem.
A partir da quarta-feira, diante do famoso pacote de vídeos e fotos de Cho Seung-hui, ficamos a par do quanto o atirador de Virginia entendeu seu crime como uma forma de comunicação. É preciso levar isso em conta: neste mundo em que a moeda corrente é a informação, passa a existir uma sub-cultura do assassinato. A maioria de nós só pode constatar isto de maneira vaga e indireta - é bem pouco provável que eu mate alguém, ou que os amigos com que me relaciono o façam - mas entre diferentes criminosos parece haver alguma sintonia, o compartilhamento de uma sensibilidade extremada.
Assistindo aos vídeos que Cho Seung-hui enviou à NBC, é evidente, por exemplo, o quanto ele se identificava com os dois atiradores de Columbine, Eric Harris e Dylan Klebold, que na mesma época do ano (20 de abril de 1999) mataram 12 pessoas em seu colégio. Aliás, 20 de abril é o aniversário de nascimento de Adolf Hitler, que teria feito 110 anos na ocasião, e aparentemente eles estavam "comemorando". Quando falamos em Hitler, imediatamente uma idéia de encarnação do mal nos vem à mente, e é quase como se falássemos de alguém que sequer foi um ser humano, estando mais próximo do filho de um demônio ou algo assim. Esse orgulho não nos ajuda em nada, é preciso admitir que pertencemos à mesma espécie animal que Adolf, Harris, Cho, todos os traficantes do Rio de Janeiro, todos os terroristas do Iraque, e por aí vai. Podemos considerá-los desequilibrados - e geralmente são - mas no fundo temos algo em comum com todos eles, gostemos ou não.
No caso dos massacres suicidas, não podemos nem ao menos dizer que se trata de uma disputa de poder. O principal intuito desses criminosos é se comunicar. Cho realizou um crime-desabafo, em parte por sentir que o ambiente onde vivia não o integrava. Em um mundo onde ninguém vale pelo que é, apenas pelo que produz e acumula, o cálculo foi esse: "Quanto mais mortes eu causar, mais vão me respeitar". A humanidade estaria perdida se todos seguissem este exemplo, mas convém ouvir o que se oculta por trás da mensagem. Não aquilo que ele diz nos vídeos, no entanto o que faz com que surja uma expressão tão radical como a de seu gesto.
Nem tudo tem solução, sociedade alguma conseguiria curar todos os males, evitar todos os crimes, sanar todas as aflições. Mas uma coisa deveria ser bastante óbvia: quanto mais a linguagem oficial for excludente, mais frequente, por parte dos ressentidos, será o uso da violência para se expressar. Não é apenas com os assassinos que há algo de errado. Era de bom-tom que chefes de Estado de diversos países declarassem suas condolências aos 32 norte-americanos mortos; na mesma semana, contudo, centenas de iraquianos foram dizimados e os cariocas viveram momentos de guerra civil. Em todo o planeta, aparentemente, ninguém demonstrou muita preocupação. Afinal, se o conflito é entre pobres-coitados, não há grandes motivos para se preocupar. Nas entrelinhas, parece ser este o discurso oficial.

4.16.2007

Alguns contemporâneos

Atendendo a pedidos, retomei o que eu tava discutindo em "Arte em crise", mas dessa vez citando alguns nomes.
Saiu também no Cronópios.




Em plena Avenida Paulista, a mostra “Itaú Contemporâneo” é uma boa oportunidade para se entender melhor que tipo de arte está se produzindo hoje. Também é um excelente ponto de partida para discutir algumas das questões mais intrincadas da arte contemporânea. A exposição abriu com polêmica ao colocar dezenas de pinturas na horizontal, próximas ao chão, coisa que revoltou os pintores. O correto teria sido consultá-los antes de adotar a disposição, mas é interessante o quanto a mostra consegue, seja por suas virtudes ou por seus defeitos, provocar questionamentos de todo tipo. Começando pelo nome. Entristece um pouco ver uma exposição desse porte batizada com o nome de um banco, como se o que conferisse forma e sentido ao conjunto fosse esse dado, o de a coleção pertencer ao Itaú. Levanto esse ponto porque se discute muito que a verdadeira arte deveria ser refratária às instituições, e antes mesmo de colocar os pés na entrada podemos refletir no quanto um evento dessa amplitude não seria possível sem um grande investidor, mas também o quanto isso é problemático. A arte contemporânea usualmente se opõe ao mercantilismo, porém jamais escapou ao paradoxo de depender financeiramente daqueles que combate. A meu ver esse é um dilema sério, mas, vivendo no capitalismo, não existe solução eficiente para isso. A única resposta que o artista pode dar é a criação de algo que seja mais forte do que o materialismo, que consiga ultrapassar o mercado. Há mais coisas na vida do que uma conta gorda no banco, seja Itaú ou qualquer outro, e todo grande artista consegue fazer com que nos lembremos disso, ao menos por alguns instantes. Não estou falando de trabalhos como os de Hans Haacke ou Broodthaers, que consistiam em panfletários ataques ao mercado – e desse modo apenas reforçavam a presença das instituições. Não precisa ser psicanalista para perceber que no fundo artistas como eles ostentam um fascínio reprimido pelo poder. Muito mais contundente é a arte que nos leva a considerar como há coisas mais estimulantes do que o simples acúmulo de capital. Sandra Cinto, presente na exposição da Av. Paulista, é um bom exemplo disso. Seus trabalhos de traços delicados nos colocam em contato com um universo que se estende ao cosmos, para muito além de nós-mesmos, ao mesmo tempo que nos aprofundam em um estranho abismo íntimo.
Na verdade, a exposição em cartaz não é tão tipicamente contemporânea quanto se denomina. Quase não há vídeo ou alta tecnologia, a arte conceitual está representada mas não dá o tom, sendo que o que vemos em maior quantidade são pinturas. Isso acontece porque a curadoria não teve nenhum critério mais rigoroso além da apresentação do acervo do banco. Apesar de tudo, Teixeira Coelho, o curador, conseguiu arranjar o espaço expositivo de modo a suscitar questões bem contemporâneas, o que faz com que a visita seja especialmente reveladora para quem não costuma acompanhar vernisages de perto. Até mesmo o fato que ganhou maior repercussão, as pinturas deitadas próximas ao chão, pode nos levar a reconsiderar alguns tabus. Desde os anos 60, a pintura vem sendo atacada por ser considerada “convencional” demais, esgotada, e por promover a arte como ilusão. Em contrapartida, a produção de arte mais tipicamente contemporânea se agarra ao real, ao concreto, buscando se inserir na própria tessitura da realidade. Quando isso é bem sucedido, obras maravilhosas podem acontecer. No andar de baixo, por exemplo, encontra-se um corrimão de aço concebido por Ana Tavares, que, no entanto, não é um corrimão qualquer. Tortuoso, provoca vertigem a quem o atravessa, obrigando a redimensionar o corpo em relação ao espaço. Contudo, uma obra como essa é capaz de conviver muito bem com as de Beatriz Milhazes, uma pintora que igualmente nos desnorteia, dessa vez com telas vibrantes, quase hipnóticas. O fato de uma trabalhar com a representação e a outra com a realidade externa não as diferencia tanto quanto se supõe – por mais que até hoje exista um ranço da “Morte à pintura” decretada décadas atrás. Ao ver pinturas no chão, como as de Eduardo Sued ou Ianelli, podemos perceber com maior clareza o quanto uma pintura, ainda que seja ilusionística e nos leve para uma dimensão inexistente, afeta o espaço ao redor, provoca uma nova percepção, inclusive corporal, diante do mundo palpável. Além, é claro, de nos convidar para um lugar impossível que só existe em nossas mentes. Mas creio que um corrimão absurdo também nos conecta com o mundo da imaginação, já que foge ao esperado.
Duas coisas bem diferentes são a exposição e seus textos. Há um libreto branco distribuído gratuitamente na entrada, e alguns de seus trechos estão reproduzidos nas paredes. Creio que a melhor maneira de se aproveitar a visita seja primeiro observar cada uma das obras com o maior desprendimento possível. Não são muitas as obras ali que dependem de um aprendizado teórico prévio, podendo ser desfrutadas por qualquer um que desbrave com juízo próprio. Em seguida, é interessante ler o texto de Teixeira Coelho, que na verdade busca uma síntese daquilo que críticos e artistas vêm discutindo nas últimas décadas. O texto é bem escrito, franco, e dono de uma rara generosidade para com quem não tem intimidade com esses debates. Apesar de um ou outro escorregão, é uma exposição teórica bastante bonita, assim como a exposição das obras. De modo geral, ele separa a arte contemporânea em duas correntes: a “Persistência da beleza” e “Na linha da idéia” – primazia da estética versus arte conceitual. No entanto, existe um hiato entre essas palavras e os objetos em destaque. O curador reuniu uma amostra interessante de obras de arte, e reuniu também um apanhado de proposições intelectuais desafiadoras. Mas, até mesmo por não ser uma exposição tipicamente contemporânea, arte e teoria não estão perfeitamente justapostas. Coisa que é louvável, pois vinha se tornando cada vez mais forte a tendência de reduzir o artista a um demagogo ilustrador de conceitos, tal como se viu em abundância na última Bienal de São Paulo.
Um dos filósofos mais inquietantes do século XX, Deleuze, em “O que é a filosofia?” separa abruptamente as funções da arte e as da filosofia. Ele sequer perde tempo argumentando porque opta por essa cisão, apesar de ter vivido uma época em que a arte conceitual atingia enorme prestígio. Deleuze, junto com Guatarri, não hesita ao dizer que a filosofia se constrói por conceitos, enquanto a arte se constrói por “afectos” e “perceptos”. “A obra de arte é um ser de sensação e nada mais: ela existe em si.” [1] Eu mesmo não seria tão radical, pois com todas as minhas ressalvas reconheço algumas (poucas) obras de arte conceitual que se sustentam em pé. No entanto é curioso notar que um filósofo como ele, alguém que buscava constantemente a quebra de fronteiras, atribuiu tão pouco interesse à arte conceitual que sequer a levou em consideração. Com a exceção de alguns pouquíssimos casos – como Duchamp, Tinguely, Marina Abramovich, de vez em quando Joseph Kosuth – eu também não vejo em que medida a arte conceitual acrescentaria algo a qualquer ser humano capaz de ver beleza na filosofia por ela mesma. O pensamento que vai até seu limite é, e sempre foi, comovente. E a sensação pura, com toda sua contundência, é, e sempre será, estimulante. No entanto, a comunicação verbal e a comunicação não-verbal são devires diferentes, cada uma necessária à sua maneira e a seu tempo.
É muito comum, nas grandes exposições de arte contemporânea, que a própria curadoria tenha algo de opressora, um conjunto de regras pré-estabelecidas – oprime o visitante leigo porque este desconhece o jogo, e oprime quem está familiarizado, porque lhe impõe um excesso de preceitos. Porém na atual mostra - em cartaz até 27 de maio - é tão eclético o conjunto exposto que torna a visita a ocasião ideal para se formar juízos pessoais. Vale conferir a pintura de Iberê Camargo, mesmo que não seja de suas melhores; Siron Franco e seu mórbido balanço de playground; Eder Santos com sua fantástica projeção animada sobre uma cristaleira. Raquel Kogan e seus códigos numéricos que escorrem no escuro, partindo do conceitualismo em direção ao mistério. A fotografia de João Musa flertando com a pintura, ao captar o mar tal como uma pincelada. Evandro Carlos Jardim em uma ótima gravura, para que ninguém duvide que ele é um dos melhores em sua atividade. Além disso, o espectador terá para si a tarefa de decidir se a ironia pop de Nelson Leirner é um convite ao riso ou se é apenas ele quem ri por último. Terá de pensar se Antonio Henrique Amaral, com suas melancias e bananas modernistas, diz ou não alguma coisa para nós no século XXI. Verá também as esculturas de Nuno Ramos, e sem precisar chamá-las de não-objetos saberá sentir se lhes tocam. Diante de Brígida Baltar em sua “Coleta de neblina”, poderá perguntar se a obra vale para o visitante ou se existiu apenas para a artista. E até mesmo as pedras de Cildo Meireles, bem parafusadas no solo, poderão servir de interrogação a todo tipo de tropeço. Em nossos tempos, a última palavra para decidir o que é e o que não é arte deve caber a cada espectador, e a ninguém mais.

4.01.2007

Poema de primeiro de abril

Eu te contei uma mentira
Talvez duas ou três
De uma vez só e sem dó

Em minha defesa eu digo
Que não te ludibrio
Minto com fé e verdade
- malícia sem maldade -
Com base em fatos
sub-reais

2.26.2007

O carnaval-arte de Paulo Barros


Oba! Essa saiu no Cronópios:

Não se pode colocar todo o peso da palavra “alienação” no futebol ou no carnaval. Gostar de folia ou de esporte não implica necessariamente em ignorância quanto a outros assuntos mais sérios. Aliás, de que vale uma filosofia que não preze a alegria ou que ignore o corpo? Algumas das pessoas mais inteligentes que conheço amam estas duas festas tipicamente brasileiras - a que se celebra com a bola nos pés e a que se celebra com pandeiros e fantasias. Todos os povos têm seus rituais, e os nossos são marcados pelo improviso, pela malícia, pela ginga. Tradições nacionais costumam ser rígidas e repetitivas, as nossas ao menos se apresentam com alguma criatividade. É claro que as válvulas de escape se tornam bastante limitadoras quando hipertrofiadas, quando excluem os demais aspectos da vida. Mas há uma outra questão que eu pretendo enfocar até o final do artigo.




Eu pessoalmente aprecio mais o futebol do que o carnaval. Deleito-me com a inteligência e a plasticidade de uma bela jogada, ao passo que me sinto um pouco gringo no carnaval, principalmente por não entender nada de samba. No entanto, contrariando minhas próprias expectativas, fui fisgado este ano pelas imagens do sambódromo, quando me deparei com a Unidos do Viradouro. Raramente perco mais do que dois minutos assistindo aos desfiles, mas por sorte calhou de a Viradouro atravessar a Marques de Sapucaí no momento em que parei para olhar. E foi uma sorte mesmo, eu tenho que admitir que esse tal de Paulo Barros, o carnavalesco por trás da escola, me deixou fascinado. Ele inovou com muito bom gosto, nos presenteando com um resultado tão sofisticado que não há porque hesitar em chamá-lo de um verdadeiro artista.





Pesquisando um pouco, notei que nos anos anteriores ele já trazia elementos novos à passarela. Em 2004, apresentou um carro repleto de pessoas pintadas de azul, que, cintilando em coluna ascendente, representavam a cadeia de DNA. Em 2005, Dom Quixote foi o fio condutor para o mundo da imaginação. Em 2006, Mozart visitou o Brasil, entrou em uma roda de samba e regeu a imensa “ópera de rua”. Um dos carros alegóricos era um gramofone gigante que se convertia em orquestra, onde em sincronia perfeita as pessoas tocavam música ou trocavam o disco.





Neste ano o mote foi o Jogo, abordado desde os cassinos até o pinball, passando pelos esportes e por “Onde está o Wally”. As soluções visuais surpreenderam, indo muito além da ostentação kitsch que se costumava ver nos desfiles tradicionais. Um dos carros que mais me causou impacto foi a alegoria dos Jogos Olímpicos. Mulheres moviam os braços em nado sincronizado, tendo uma lona azul imitando a altura da água na cintura. Subitamente, a lona é retirada, e o que era piscina se transforma em quadra de basquete, com jogadores quicando a bola ferozmente. O que era harmonia feminina e leveza se converteu em confronto direto e combativo - dois aspectos do lúdico sintetizados com muita graça. Também me intrigou o carro do Castelo de Cartas, virado de ponta-cabeça em alusão ao samba-enredo “A Viradouro vira o jogo”. As rodas expostas para cima provocavam uma sensação de estranhamento, por se tratar de uma opção mais conceitual do que estética. Faz parte do estilo de Paulo Barros não só oferecer o belo, mas também causar suspensões e deslocamentos, tal como os bons artistas plásticos.





O que confirma o temperamento desse carnavalesco como o de um autêntico criador é sua disposição para o risco e seu perfeccionismo. O melhor exemplo disso é sua perigosíssima decisão de colocar a bateria sobre um carro alegórico. Se a bateria errasse, o desfile inteiro desandaria. Mesmo assim ele fez 300 ritmistas subirem e descerem as escadas de um elegante tabuleiro de xadrez sobre rodas. Era grande a chance de tamanha ousadia terminar em vexame, sendo que os solavancos do carro poderiam colocar a batucada em descompasso. Mas, graças aos ensaios exaustivos, tudo correu bem, e a bateria foi aplaudida pela multidão. É pouco provável que alguém jamais tenha efetuado na Sapucaí manobra mais corajosa.





Apesar de tudo isso, e aqui entra o que chamo de problema, a Viradouro amargou um quarto lugar na avaliação do júri. A maior parte da imprensa apontava a escola como favorita ao título. Eu, fã instantâneo do artista, torcia para que se corroborasse o que me parecia quase certo. Para ter base de comparação, dei uma olhada nas outras escolas, e confesso que encontrei cenas bem interessantes – por exemplo, na Mocidade, Adão se destacava de um livro como se fosse uma ilustração ganhando vida - ainda assim, nada atingia o patamar do que a Viradouro apresentou. É por isso que me senti impelido a escrever este artigo, para sublinhar o quanto, neste país, no atual momento histórico, aquele que vai além do esperado é pouco valorizado. Nas mais diversas áreas, o que se cobra é, no máximo, que se faça bem-feito o que já é de conhecimento público, e quem apresenta algo a mais é advertido e desestimulado. Isso vale até mesmo para o carnaval, coisa que, gostemos ou não, é a cara que mostramos para o resto do mundo.Vale também para o futebol - ou não vimos, recentemente, Robinho no banco de reservas, apesar de ter sido o único jogador da equipe a atuar com brilhantismo? Se para a maior parte do planeta o Brasil não é mais do que o país do futebol e do carnaval, eu preferiria que ao menos nessas atividades exibíssemos inteligência, criatividade e arte. Alguns exemplos provam que isso é possível. Paulo Barros, a meu ver, apresenta algo de excepcional, e poderia ser um motivo de orgulho, alguém capaz de transfigurar em alguma medida a auto-imagem do brasileiro. É uma pena que não haja espaço para essa renovação – o carnavalesco já declarou que não terá condições de ousar novamente em futuros desfiles, pois as escolas cobram resultado – acho que com isso a perda para o país, em termos de identidade, é inestimável.

2.04.2007

Uma auto-biografia não-autorizada

Aos 26 anos, começa a me dar comichão de escrever um livro auto-biográfico. Não sei se é uma velhice precoce, um certo medo de morrer sem mostrar quem fui, ou porque sinto estar no final de um grande ciclo da minha vida. Acho que narrar esses meus anos “de formação” daria uma história tão boa, e tão inusitada, quanto qualquer ficção que eu pudesse criar. Quem leu meu livro de estréia sabe o quanto minha imaginação adentra territórios pouco explorados – porém a minha vida ninguém teria sido capaz de imaginar, nem eu, nem Garcia-Marquez, nem Balzac, ninguém.

Se eu contasse numa mesa de bar, dia após dia, minha trajetória inteirinha para um desconhecido, duvido muito que ele acreditasse, por mais crédulo que fosse. Aliás, mesmo que eu a narrasse para meus melhores amigos, cada um só aceitaria um pedaço, diria que o resto “não é a minha cara”. Colocar tudo no papel é a única maneira de provar que todas as minhas faces se amalgamam numa pessoa só. Posso já conhecer alguma coisa do enredo, mas para torná-lo convincente, realista, eu teria que caprichar na forma, chegar numa linguagem tão elástica quanto a diversidade do personagem em questão.

O mais difícil de compreender são os meus contrastes. Vou dar exemplos, sem aprofundar. Como é que posso ter feito uma performance terrorista-poética, com um megafone, diante de centenas de pessoas, se até os quinze anos eu era tão travado que não sabia sequer conversar? Como posso ter cenas de putaria das mais desinibidas no currículo, sendo tímido como até hoje sou? Ou o oposto: como posso manter uma inocência romântica quando me apaixono, depois de ter transposto os limites da decência? E como posso ser tão forte em alguns momentos, e tão decepcionantemente frágil em outros? Por último, que tipo de intelectual eu sou, que recebe elogios dos nossos melhores escritores, mas não consegue evitar um sem-fim de burrices que somente um retardado mental cometeria? 

Não terei tempo para isso agora, mas quando eu enfim descrever minhas errâncias, vai ser muito parecido com fazer ficção. Porque, no fundo, eu estive o tempo inteiro me inventando, me criando a partir de páginas brancas. Ninguém ditou minha vida; se alguém encomendou minha história, eu jamais atendi o pedido. Eu me sinto, constantemente, vivendo um romance experimental, onde o personagem atravessa as situações mais diversas, tentando, atordoado, aprender um pouco de tudo. Colocar minhas vivências em texto será apenas ratificação, pois em cada pequena coisa que vivo estou exercitando minha arte.

12.30.2006

Rita de Cássia e a gota d'água

Decidi escrever sobre Rita de Cássia por um motivo: notei que NENHUM órgão de imprensa deu a atenção que o episódio merecia. Assunto um tanto pesado para o final de ano, mas não escolhi data para os acontecimentos.
Aliás, neste ano, tivemos uma notícia atrás da outra com uma coisa em comum: dos ataques do PCC à facada em ACM Neto, da invasão do MLST no Congresso aos ataques recentes no Rio, parece que a reverência – leia-se respeito ou leia-se temor – dos marginalizados perante as figuras de autoridade já não se impõe como limite. Em outras palavras, a estrutura sócio-econômica dá mostras de desgaste, pois há quem não tenha absolutamente nada a perder e demonstra isso em ação. Não se pode ignorar que esses ataques são sintomas da desigualdade social, ou de que a tendência é que a situação piore – como em um efeito dominó, o radicalismo de um inspira o de outros, pois o “tabu” se perde, abre-se precedentes. Não é preciso qualquer aparato ideológico para compreender, basta observar e analisar com sensatez. É perceptível que os detentores de poder já não estão de todo seguros ou que mantenham pleno controle da situação. O quanto o preço a se pagar pela miséria atinge a todos, ricos ou pobres, começa a ficar explícito em 2006, contudo já poderia ter sido adivinhado há muito tempo por qualquer pessoa provida de um mínimo de inteligência e sensibilidade.

Rita de Cássia e a gota d’água

Nem mensalão nem escândalo algum causaram, na história recente, tamanho repúdio por parte dos brasileiros como a tentativa de aumento salarial de 91% dos parlamentares. Não pela anticonstitucionalidade do ato, mas pelo descaramento, pela falta de pudor, pela naturalidade com que os parlamentares demonstram quais são seus interesses primeiros e últimos. Mal terminaram as eleições - aparentemente a única ligação entre a classe política e seus cidadãos - nossos supostos representantes já se sentiram à vontade para agir sem sequer disfarçar seu pouco caso.

Passeata em Brasília, abaixo-assinado na internet, e o mais sincero desgosto nos desabafos de cada um, em toda e qualquer parte do país. No entanto, estranha-me que tão pouca atenção da imprensa tenha tomado o caso de Rita de Cássia Sampaio de Souza que, no último dia 18, apunhalou com uma peixeira o deputado federal Antônio Carlos Magalhães Neto. A notícia foi vinculada, contudo sem qualquer destaque pela televisão ou pela mídia impressa. A meu ver, uma discussão das mais importantes deixou de ganhar o espaço merecido.

Em breve entrevista, Rita afirmou estar “revoltada com a classe política”, o que a teria motivado à tentativa de homicídio. Segundo ela, ACM Neto lhe prometera ajudar a resgatar seu FGTS, que estaria retido, no entanto ele – como era de se esperar? - nada fez. A desilusão da eleitora atingiu o paroxismo com a votação pelo reajuste salarial, e ela não pôde conter seu impulso de se vingar deliberadamente do deputado que um dia lhe conquistou alguma confiança.

À parte qualquer pré-julgamento, a expressão de Rita nos toma de assalto e nos mostra a que conclusões pode chegar o mais instintivo sentimento de revolta. Aparentemente, ela não estava agindo de acordo com nenhuma ideologia contundente, ou lutando em nome de valores acima de seus próprios interesses. Contudo, se a violência de seu ato não se justifica, ao menos é compreensível seu sentimento. Que atire a primeira pedra quem, neste país tão corrompido, nunca teve vontade de assassinar um de nossos políticos. As fantasias não necessariamente precisam ser realizadas, porém, perdoem-me a expressão, será que Rita foi a única a sentir o aumento de 91% como uma verdadeira facada?

É violento o descaso dos políticos, sendo este o ponto que requer atenção. É uma agressão colocarem como prioridade o conforto pessoal com tão pouca cerimônia. A mensagem subentendida é a de que estão governando para si mesmos, atingindo o ponto da tirania, pois sequer a dissimulação se faz necessária. Suas resoluções não condizem com a realidade brasileira, e tamanha é a falta de sensibilidade que não pode ser de todo surpreendente o fato de alguns reagirem tomados por paixão. No caso de Rita, nem heroína nem vilã, fica claro o quão insuportável foi, para ela, sentir-se impotente diante de um cenário que feriu profundamente seu senso de justiça.

Recuemos para 1933, em Le Mans, França. Temos o famoso caso das irmãs Papin, duas impecáveis empregadas domésticas que assassinaram sua patroa em um surto não-premeditado. Foi notável como os existencialistas souberam enxergar o quanto as serviçais, exploradas de maneira despótica pela patroa, não foram apenas as assassinas, mas também vítimas. Simone de Beauvoir registrou: “Somente a violência do crime cometido nos dá uma medida da atrocidade do crime invisível, onde os verdadeiros assassinos ‘apontados’ são os patrões”. A reação das irmãs Papin não teve, a princípio, um cunho político, tendo sido uma reação de ordem afetiva, um descontrole emocional contra um modo de vida desumanizado, injusto, insuportável.

Aos aspectos mais objetivos da política, deve-se acrescentar as percepções subjetivas que os mesmos acarretam, para que tenhamos uma acepção mais ampla de tal palavra. Não me parece equivocado assinalar que o costumeiro paternalismo está caindo por terra, pois já não é capaz de iludir como antigamente. A sensação de abandono e distanciamento por parte dos eleitores é crescente, e começa a assumir novas formas. Há uma carência de programas legítimos na política partidária, e é também uma carência, dessa vez mais íntima e passional, o que eventualmente provoca reações as mais imprevisíveis. Muitos aderiram aos abaixo-assinados e às passeatas, que são as manifestações permitidas pela lei, dentro de um código que chamamos de civilizado. Em casos como o de Rita de Cássia, o que temos é puro pathos, impulso que se desatou, gota d’água inevitável. Não se pode, contudo, dizer que seu gesto não tenha sido resposta a uma agressão.



12.07.2006

O pesadelo orgânico de Janaina Tschäpe


São duas as exposições de Janaina Tschäpe em cartaz na cidade, em plena época de Bienal - exatamente quando todo o mercado de arte de São Paulo atinge sua temperatura máxima. Isso demonstra o prestígio que a artista conquistou no circuito comercial, tendo há muito ultrapassado o rótulo de “esposa de Vik Muniz”. Para além do sucesso mais frívolo, temos, no Paço das Artes e na Galeria Fortes Vilaça, boas oportunidades para averiguar se seu trabalho possui tanta força quanto a reputação que vem conquistando.
A foto e o vídeo dominam o Paço das Artes, retrospectiva com várias etapas de sua obra; na Galeria Fortes Vilaça, são enormes aquarelas, seus trabalhos mais recentes, que dão cor à exposição. Não é de se estranhar a variedade de linguagens empregadas: há uma evidente inspiração pictórica em suas fotografias, e, nas pinturas, a busca pela mesma ambientação insólita de trabalhos anteriores. Em suas próprias palavras, sua aventura é a de “retratar não o mundo dos sonhos, mas a sensação de estar em um.” Esses sonhos, na maior parte das vezes, são perturbadores, muitas vezes representando o corpo como uma moradia bizarra. Bolhas, bexigas e tentáculos de borracha presos aos modelos, fazem com que seus corpos, contraditoriamente, pareçam a um mesmo tempo pesados e leves. Pesados: os movimentos são torpes e lentos, lutam contra a gravidade da terra ou contra a água; leves: porque coloridos e plenos de ar.
Janaina Tschäpe assume desde o nome uma identidade um tanto deslocada. O “Tschäpe” denota sua origem alemã, e “Janaina” revela brasilidade. O racionalismo e a precisão típica de um país, e a paixão e visceralidade de outro se confluem em perfeita harmonia, numa obra que diz respeito a lugares e tempos mais íntimos que as demarcações de fronteira. As flores e frutos de sua série "Botanica" não compõem o cenário de uma floresta tropical. São alucinações fotografadas, em que as cores vibram intensamente: azuis, vermelhos, laranjas e verdes impossíveis, incandescentes. Os modelos humanos de 'Melantropics" não desbravam a mata; caminham dentro de sonhos, deixando-se deformar pelo ambiente. Brincando de deus, Janaina converte as leis da natureza em uma espécie de pesadelo orgânico.
A literatura, pode-se notar, influencia a obra da artista. Nota-se uma qualidade narrativa mesmo nas fotografias, enganosamente estáticas. Seus modelos são mais propriamente personagens que outra coisa, incitam-nos a imaginar de que mundo fantástico poderiam ter surgido. Romantismo gótico alemão, Novalis e Borges inspiraram a atmosfera melancólica de alguns dos trabalhos, como nos belíssimos "He drowned herself as she called him to follow", "Blood, sea" e "Lacrimacorpus". Uma de suas séries chama-se "Água viva', como o livro homônimo de Clarice Lispector. Há semelhanças entre estas duas: o fascínio pelo insólito, o estranhamento diante dos detalhes, o poder de síntese, e a aproximação entre animalesco e divino no ser humano.