11.13.2006

Não suporto ser morno

Não suporto ser morno
Ou sou frio ou sou quente:
Prefiro o nada do que o pouco.

Só te quero se vieres toda
Não só na mente como no corpo.
E somente aceito tua bondade
Se me ofertares a maior de tuas verdades.

10.26.2006

O voto dos desiludidos

Pela terceira vez o ombudsman, Marcelo Beraba, aprovou um texto meu, mas a Folha rejeitou por falta de espaço. Até aí, tudo bem. O que me aborrece é eu passar pelos crivos mais exigentes e não ser chamado nem para a Folha Trainee. Paciência. Ao menos o texto está aqui, para quem quiser ler.

Tamanha é a falta de opção satisfatória no processo eleitoral deste ano, que muitos se sentem tão céticos quanto, em 1899, sentia-se diante de Marechal Deodoro da Fonseca. Naquela ocasião, o sentimento popular, de maneira geral, foi de enorme descrença quanto à promessa de participação nas questões políticas. Não houve muito entusiasmo por parte do povo com a deposição de Pedro II, talvez devido a uma intuição, não totalmente enganada, de que a democracia não diminuiria de fato a distância entre governantes e governados.
Durante o século XX, foi crescendo o anseio por um Estado que solucionasse os problemas do país, e após experiências as mais variadas – a introdução do populismo por Getúlio, o projeto de JK de ocupação e unificação do território, a opressão da ditadura militar, o alívio do retorno às diretas, um impeachment por corrupção, um ex-operário que assume a presidência – chegamos a 2006 com uma pulga enorme, das mais molestas, atrás de cada uma das orelhas.
Apesar da posição que tais pragas ocupam em nossas cabeças, não convém falar em um antagonismo, na atual disputa, entre “esquerda” e “direita”. Aliás, qualquer polaridade se mostraria ilusória, desde que aqueles que tanto criticavam o neoliberalismo passaram a adotá-lo, ou desde que nenhum dos grandes partidos consegue falar em ética e honestidade sem que isto soe ridículo, mero jogo de palavras que só convence aos mais ingênuos. O clima de ceticismo entre eleitores bem informados só pode ser comparado à apatia com que se viu, no final do século XIX, o marechal apresentar-se presidente, distante e alheio aos eleitores, com pompa de imperador. Contudo, até a década passada, a política esteve presente, bem mais próxima, nos corações dos brasileiros “de esquerda” – quando esta aparentemente existia.
Lembro-me do romantismo com que eu acompanhava minha mãe, muito menino, a fazer boca-de-urna na porta dos colégios eleitorais. Íamos munidos com bottons, adesivos, bandeirinhas, e exaltávamos um partido que defendia os trabalhadores, que combatia a corrupção, cujos líderes desejavam um país mais justo. Os confrontos eram apaixonados: militantes da causa “Rouba mas faz” tinham tanta garra quanto nós, e a pequena criança tímida que eu era se sentia vivendo um momento decisivo, gritava o nome do partido. Agitavam-se com a mesma intensidade bandeiras aliadas e adversárias, e ao acreditar nos candidatos que julgávamos os mais justos, sentíamo-nos parte de um belo ideal coletivo.
As cenas de que me lembro com mais cores remetem-se há dez ou quinze anos atrás. O contraste com o momento atual é avassalador. Foi com desânimo que me encaminhei no primeiro turno para a zona eleitoral. Os amigos que tradicionalmente votavam na esquerda se mostravam igualmente desconsolados. Nesse percurso, não pude deixar de levantar uma série de questionamentos.
Seria mesmo possível um partido político que se nutrisse de utopias, ou era desde o início sonho de criança? Devemos chamar as transformações ocorridas no PT de traição e desvio, ou foram exigências de uma realidade mais complexa do que se supunha? Ou não convém esperar mais daqueles que estão hoje no poder, pois são seres humanos, e como tais corruptíveis? A democracia é mesmo a melhor forma de governo? O voto nulo funciona como protesto ou na prática é conivência? E, talvez o ponto crucial: os melhores dentre os homens saberiam resistir às tentações do poder, e se sairiam bem e com maior competência, ou é ingenuidade manter tamanha vontade de pureza em nossas idealizações?
Por mais que pareça tarefa impossível, dadas as afeições que carregamos ao longo dos anos, eu gostaria de ser racional e ponderado em meu julgamento, no momento de voltar às urnas para um segundo turno. Quero estar, ao menos, acima dos preconceitos tanto do “petismo até a morte” quanto do “anti-petismo fanático”, duas cegueiras demasiado parciais. O eleitor que tenha aprendido com a experiência irá decidir, neste ano, não apenas aquilo que considera mais interessante para si e para o país, como também assinalará qual sua posição diante do que os aspectos mais ásperos que a realidade tem revelado.
Tenho bem claro para mim que não há saída incólume.

10.23.2006

Altos e baixos da 27a Bienal


Saiu no Cronópios: http://www.cronopios.com.br/site/artigos.asp?id=1850


Não há a menor dúvida de que esta é a edição mais politizada que já houve, dentre todas, da Bienal de São Paulo. Curada por Lisette Lagnado, “Como viver junto”, que sucede ao “Território livre” de Alfons Hug, é direcionada para o engajamento em problemáticas sociais e para a crítica à arte como mercadoria. Duas referências balizaram tanto o espaço expositivo como as proposições teóricas: Roland Barthes, de quem se tomou emprestado o título da mostra, e Hélio Oiticica, cujos conceitos de ambiente e de interação com o espectador se estenderam por todo o pavilhão. De modo geral, foi retomado muito do que se pensou nos anos 60 e 70 quanto ao papel do artista na sociedade.
Bem prevenido, portanto, estará aquele que não buscar belas pinturas e esculturas no prédio da Bienal. A concepção da curadoria é a da dissolução da arte na vida, e portanto, uma certa renúncia ao objeto artístico enquanto tal. O mais próximo que se chega de um apreço pela beleza pictórica é diante de Mustafa Maluka, sul-africano longe de ser um pintor excelente, que nos chama a atenção para esquecidos heróis negros com alguma vivacidade na paleta. Já as esculturas abstratas de León Ferrari são o mais próximo que se chega de um deleite com a forma pela forma, apesar de na mesma sala se encontrarem peças suas que ironizam o patriotismo e a religião. Ou seja, querendo ou não, a Bienal deste ano não permite uma atitude meramente contemplativa.
Verdade seja dita que toda arte é política. Toda arte é humana, e o animal humano é intrinsecamente político. Esta Bienal pode ser uma das melhores oportunidades para julgar se é ou não interessante uma opção explícita pela arte militante, engajada, em detrimento do apelo eminentemente estético. Para ser justo com a curadoria de Lisette, é preciso ver os altos e baixos com imparcialidade.
Há alguns momentos em que se consegue conciliar o “politicamente correto” com poesia. É o caso das vestimentas de vinil de Laura Lima, que recuperam Hélio Oiticica e a noção do espectador como parte da obra. São belas, também, as fotos de Guy Tilim e de Miki Kratsman, por mais tensos que sejam seus cenários – respectivamente, África e Tel Aviv. È lindo o resultado estético da proposta de Antoni Miralda, que dividiu a autoria do seu trabalho com centenas de brasileiros anônimos, oriundos de diversas capitais, que decoraram os pratos de comida cada um a seu gosto. Funciona muito bem o laboratório de Wang Youghen, que em vez de nos apresentar peças com o aviso “Não toque”, permite ao visitante revelar fotos na sala escura. Vale conferir, igualmente, Narda Alvarado, que criou cartões inteligentes e bem-humorados. Quanto a Marilá Dardot respondeu perfeitamente à proposta de “viver junto”, e encorporou com graça, em seu espaço, obras de outros artistas. E de Gordon Matta-Clark, suavemente delinquente, reuniu-se diversos trabalhos instigantes.
É difícil determinar o quanto esses artistas efetivamente transformam a sociedade. Ao menos são capazes de nos proporcionar experiências ricas, e isso, por si só, é inestimável. Bem mais duvidoso, infelizmente, é o caráter da maior parte das obras expostas, que se sustentam muito mais através de discursos do que como presença ou fruição autêntica. Abundam projetos para renovação urbana, slogans contra todo tipo de injustiça, a afirmação dos humildes contra os poderosos e a crítica à arte e ao espaço expositivo. Há algo nos pavilhões da Bienal que lembra muito o horário político na televisão. São propostas, promessas, sonhos embalados em uma estética que, no fundo, não diz muito mais que a dos candidatos partidários. “Acredite nisto, eis aqui a bondade, a honestidade, a maneira correta de se fazer um mundo melhor.”
A demagogia, ao que parece, deve ter sido um dos critérios de seleção para Lisette e, na maior parte do tempo, o resultado é enfadonho. “Eu conjugo o conceito do artista propositor com a missão pedagógica da Bienal: vamos tomar a questão educativa como plataforma essencial. Talvez seja possível falar em um artista educador” nos diz a curadora. Com isso, a exposição em seu conjunto adquire um cunho didático. Lamentavelmente, não se trata sequer de uma aula de estética, de semiótica ou de filosofia. Está mais para uma visão restrita e ingênua de geopolítica, algo tão pouco abstrato que mal colabora com o trabalho de um bom professor.
Não cabe aqui citar os destaques negativos, pois a insuficiência da proposta é o que chama a atenção, mais do que seis ou sete nomes que choquem pela baixa qualidade. A maioria dos artistas em exposição apresenta uma leitura do tema “viver junto” que falha por não abarcar a individualidade, inelutavelmente precedente a qualquer interação ou co-existência. O erro foi não terem refletido o quanto a convivência é um problema bem mais intricado, sutil e profundo do que se possa abranger com posicionamentos pré-fabricados. Uma constatação é a de que a opção pelo pensamento de Oiticica, em vez de libertadora, neste caso foi aprisionante. Não é de se surpreender, pois o que funcionou com naturalidade para Hélio não necessariamente funciona para um cenário artístico completo, com mais de cem propositores envolvidos.
Para finalizar com uma nota mais otimista, fica aqui registrado o melhor momento da 27a Bienal, a obra da cubana Ana Mendieta. Seu trabalho é ao mesmo tempo forte e sensível, tomando o corpo humano como um lugar vazio em busca de preenchimento. No deserto do Novo México, ela cava silhuetas de seu corpo na terra, e através de performances tão simples quanto viscerais, estabelece um intenso diálogo entre homem e natureza. Está muito longe de ser um trabalho literal, panfletário, e nem por isso deixa de ser político – é certamente uma demanda, por uma vida mais plena, como toda grande obra de arte.

9.27.2006

Menino

Escrevi esse texto assim que terminei de ler a tese de mestrado da minha mãe, a psicanalista Márcia Porto Ferreira - o título é "Crianças que não conseguem esquecer" - sobre menores abandonados.

Eu voltava a pé do bistrô, contente, de alma leve. Barriga forrada de bons petiscos, o humor maravilhosamente leviano, desentendido de pesos e amarguras. Eu e um par de meus melhores amigos rimos a noite inteira, contando mil casos e piadas, sem qualquer censura. Às quatro da manhã saímos à rua, e me ofereceram carona, mas eu preferi caminhar. Em momentos de pura jovialidade, não dispenso o ar livre. Eu era apenas mais um boêmio, acompanhava com a vista o esvaziamento gradativo dos bares. Ainda se ouvia cerveja descendo nos copos, tilintares de vidro, e alegria nas vozes altas, ébrias, dos que não iriam parar de celebrar antes do raiar do sol. Eu gingava satisfeito, ruminando minha fartura, meu hálito de bom vinho, o rosto relaxado de tanto rir... Gostaria que essa carta fosse tão alegre como começou, mas foi terrivelmente triste o que vi em seguida.

Próximo à ladeira, no gelado da noite, um menino abandonado. Tremendo, aflito. Tinha por volta de dois anos de idade, não muito mais. Chamava por uma mãe que não estava ali para ouvi-lo. Não estou certo de conseguir expressar o quão desprotegido percebi aquele garoto... Não creio que ele entendesse inteiramente o que quer que houvesse lhe acontecido. Um menino de fraldas, perninhas gordas expostas ao vento, mal protegido de toda a maldade adulta que estalava em cada fresta, em cada sombra.

Eu me aproximei lentamente. Ele não percebia meus movimentos, seu rosto virado contra o muro. Era como se bastasse não enxergar a cidade, olhar para uma parede qualquer, e a cidade também não o enxergaria. Ele era criança o bastante para esse pequeno delírio, a fantasia de que fechar os olhos equivale a fechar o mundo. Cheguei um pouquinho mais perto, vi que ele estava chorando. Realizava algum faz-de-conta, gestos repetidos com as mãos, e balbucios que eram suas palavras mágicas. Mesmo assim, ele não sabia onde encaixar o abandono da mãe em seu ritual. Até mesmo porque, não há nada que pudesse substituir a ausência da mãe.

Chamei a polícia, fiquei ao lado do garoto até chegarem. Apenas fiquei assistindo, sem falar com ele. Ao seu lado, me assegurei de que ninguém iria machucá-lo. Mas eu não sabia que carinho lhe dar, achei que talvez se assustasse comigo, saísse correndo, sumisse. Então esperei por dez minutos até a viatura chegar, e durante todo esse tempo o menino sequer percebeu que eu estava ali.

Me dói um pouco lembrar do grito que ele deu quando enfim o guarda chegou. Com certo cuidado, porém de um profissionalismo enojante, o policial o ergueu sem perda de tempo pela cintura e o levou ao carro. O menino se debatia, e o guarda fazia sshhhhhh, em vão querendo acalmá-lo.

Penso que eu deveria ter me envolvido um pouco mais. Não acompanhei o policial quando ele partiu, apenas respondi às suas três ou quatro perguntas que me endereçou antes de me dispensar. Mas eu poderia ter ido um pouco além, ao menos descobrir em que abrigo o garoto passou o resto da noite, ou me manter informado quanto ao que se passou nos dias subseqüentes. Mas não sei nada, não procurei saber. Nem sequer se sua mãe está viva, ou o estado de saúde dele, ou se sabem seu nome. Não fiz. Nada.

Porque é terrível demais. Não quero me identificar com uma história de tamanho abandono. Triste demais para mim, vocês nem sabem. Não pensem que eu não senti nada; eu tentei e não pude. Tentei, sim, falar com o menino, eu gostaria de lhe presentear com um pouco de atenção, dar ao menos uma voz melodiosa para ele ouvir. Alguém precisava falar com ternuras, ele é uma criança, um menino daquela idade precisa de um mínimo de doçura, de esperança mesmo. Alguma coisa tranquilizante, titiritititi-ti, sussega minino bonito, tudo vai ficar bem, prometo pra você, titiritititi-ti, sussega, sussega, sussussussussega. Ou fazer uns carinhos na cabeça, ou dar um pouco de colo e balançar, ou apenas exibir um sorriso amistoso.

Mas não consegui. Por um lado porque perdi minha inocência de modo muito brutal e já faz tempo. Não consigo mais realizar sequer a mímese de uma ilusão-infantil, por mais que isso me pareça triste e severo. Não consigo, está além das minhas forças. E por outro lado... senti que se eu desse um pedaço do meu coração para aquele menino, que tanto precisava, eu perceberia o quanto estou parecido com ele. O quanto, por trás das risadas e das aparências, estou tão sozinho como um menino frágil que chora, que precisa de um calor que nem mesmo sua mãe pôde dar.

Ah. Não... Eu não queria chorar.

9.25.2006

Gaia

Às vezes sinto como se meu pau
fosse do tamanho de um continente
e sem me queimar eu pudesse
abraçar o planeta
penetrar

o centro quente

Então sei o quanto quero este suor
de corpo bem perto
tão junto que me adentre
Como se fosses a própria Gaia
de louca magia extensa

Respire fundo, agora
eu te ensino
a sentir

cada veia como um rio
cada pêlo como vida
cada gemido um furacão

Nada mais quero na terra
do que teus tremores
teus morros, mares e amores
Lamber o sal de teus desertos
Vencer o frio de tuas geleiras
Prolongar-me em tuas florestas
E invadir-te subterrâneo

Venha mais perto
Venha magma vibrante fervente
Venha selva de desejos que transpire
Venha rajada de vento e maré alta
que com lampejos de paixão me arruíne

Ninguém mais do que eu
é o altivo conquistador exilado
que anseia como ao mundo
pela graciosa tempestade
caindo de mim sobre teu colo

E o tremor vulcânico

de teus espasmos



Ivan Hegenberg, 2005.

7.29.2006

Encontro com Lia Chaia

(Publicado no site Cronópios)

No início do ano houve, no Instituto Itaú Cultural, uma mostra de setenta e dois jovens artistas selecionados ao longo de quatro anos, oriundos de todos os cantos do Brasil, chamada “Paradoxos”, do programa “Rumos Itaú Cultural”. O resultado foi tão medonho quanto ambicioso o projeto. Lembro-me do quanto lamentávamos, eu e Marco Buti, ao constatar a falta de qualidade, a carência de propostas, de originalidade, de sensibilidade, de relevância em praticamente tudo o que estava ali exposto. Certamente a curadoria poderia ter feito uma seleção mais criteriosa, porém a sensação, diante do conjunto, era de que não teríamos tão cedo uma nova geração de artistas com algo a dizer.
Contudo, saí mais satisfeito da exposição “Via invertida”, de Lia Chaia, em cartaz até 19 de agosto na Galeria Vermelho. Ela era uma das poucas – três? quatro? – exceções na coletiva supracitada que nos propicia alguma esperança. Digo isso como quem de fato torce por um ambiente cultural mais consistente, e que, tendo acompanhado a obra da artista há alguns anos, percebe uma evolução. Lia, ainda no início de sua trajetória (27 anos), tem mostrado um interessante diálogo entre caos urbano e natureza. Por vezes usando o próprio corpo como limiar entre mundos biológico e civilizado, por outras pavimentando imagens delicadas, ela tem conseguido algum destaque ao imprimir um toque pessoal, singelo, nas obras que realiza.
A instalação que mais me impressionou foi a da sala principal, sem título, que a meu ver contrapõe o caos metropolitano – uma colagem inclinada de edifícios ao longo do minhocão – à uma outra vertigem, bem mais sutil, provocada pelos suaves traços em círculo no chão. Caminha-se um tanto claudicante sobre um piso de concreto desnivelado, enquanto o gesto mais informal e espontâneo, dos círculos rabiscados, também desorienta, dessa vez devido a uma sugestão quase hipnótica de suas formas.
Convido Lia para trocarmos algumas palavras. Não resisto a comentar que seu olhar tem a inocência de criança que ateou fogo na casa - sorriso tranquilo de quem desconhece a ordem instituída. Não tem pose de estrela, não se deslumbra com o prestígio recebido. Ela diz que a mídia é passageira, que as coisas passam muito rápido. Quer aproveitar enquanto está em evidência, mas sabendo que de uma hora para outra pode ser descartada. “Um dia a gente tá no jornal, no outro o jornal tá embrulhando o peixe.”
Entre suas influências estão Regina Silveira, Tarsila, Matta-Cark, uma cubana chamada Ana Mandieta, Burle Marx, o cinema. E, talvez principalmente, a cidade. “Sair e ver o que tá acontecendo”: os prédios, os viadutos, as personagens, as gambiarras dos vendedores ambulantes. O que há de concreto e o que há de efêmero na vida urbana.
Percorremos juntos o espaço da galeria. No segundo andar, há duas séries que registram a passagem do tempo. Em uma, o tempo cíclico das estações, marcado pela mudança de cor nas folhas das árvores. Na outra, a transformação linear da reforma de um prédio, progredindo de um amontoado de materiais brutos a uma quadra esportiva completa. De quando em quando, ouvimos sons de motor e hélices, para nos lembrar que a fachada da galeria foi pintada como uma pista de pouso para helicópteros.
“Eu acho que gosto de estar numa cidade caótica” diz a artista. “Morei seis meses em Paris e achei muito organizada; queria um lugar mais parecido com São Paulo. Depois fui para a Cidade do México (pela bolsa Iberê Camargo), e gostei de perceber o contraste.” Uma das obras expostas, “Choque”, em que carrinhos à pilha se trombam constantemente, é uma referência ao trânsito na capital mexicana.
Tanto a cidade está entranhada em Lia Chaia que seu vídeo “Minhocão” nada mais é do que a artista retirando, cuidadosamente, fotografias de edifícios da boca. “É a continuação de uma obra anterior, em que eu devorava paisagens urbanas. Mas não é só pelo caos que eu gosto de São Paulo: com pouco mais de uma hora estamos na praia, em contato com o mar”, ela diz, enquanto me exibe belas fotos de desenhos sobre a areia.
O que carrego comigo, de toda a conversa que tive com Lia, é a impressão de que ela busca aproximar opostos. Caos e suavidade; cidade e natureza; introversão e extroversão. Tanto a violência da concretude como a delicadeza são capazes de nos desnortar. Creio que a artista ainda tem muito a mostrar no futuro, e fico desde já curioso com os desdobramento de sua obra nos próximos anos. Antes de nos despedirmos, comemos um sanduíche na Rua Augusta, expostos inevitavelmente aos contrastes da metrópole.
“A cidade é apocalíptica, caótica, mas é onde eu vivo. Eu simplesmente não posso propor outro tema.”


“Via invertida” de Lia Chaia – até 19 de agosto, terça a Sexta das 10h às 19h, sábado das 11 às 17h. Galeria Vermelho – rua Minas Gerais, 350, www.galeriavermelho.com.br

7.09.2006

A bola e a bandeira

Crônica sobre a derrota do Brasil.
Minha estréia no Cronópios!

Não é de hoje; sempre olhei para a bandeira do Brasil e a considerei de uma pobreza visual tão lamentável quanto a falta de dentes na boca de um miserável. Não o digo por decepção com a equipe de Parreira, embora a ausência de garra que se viu em campo, neste último sábado contra a França, tenha certamente reiterado a minha antiga sensação. Talvez me chamem de anti-patriota, ou quem sabe coisa pior; no entanto tenho meus argumentos com que me defender.

É fácil observar como as cores da bandeira são enfadonhas: verde, amarelo e azul, sendo que todo verde é mistura de amarelo com azul. Pobreza cromática evidente. Se houvesse, por exemplo, um pouco de vermelho, a composição já teria mais paixão, pois vermelho é uma cor que aciona o sistema nervoso, coloca qualquer animal de sangue quente em estado de alerta. Mas, em nosso caso, o que temos é o predomínio do verde, uma cor fria que sugere calma, tranquilidade – eu diria até mesmo passividade.

No campo de futebol, também verde, os brasileiros pastaram, apáticos como se não tivessem sangue nas veias. Deixaram que os franceses tomassem conta do jogo, e mostraram uma atuação vexaminosa no esporte que é praticamente o único motivo de orgulho nacional. Não acho que futebol deva ser considerado uma prioridade, mas é fato que nada confere maior identidade ao brasileiro do que onze jogadores em campo vestindo a camisa amarela.

Temos o amarelo - que deveria ser ouro. É este o simbolismo do bizarro losango que mal se encaixa sobre o verde-selva da flâmula. Porém jamais vimos a cor do ouro. Bem sabemos que o nobre metal foi vilipendiado sem o mínimo pudor pela coroa portuguesa, extrativista e exploradora durante todo nosso passado colonial. O amarelo em nosso estandarte não é dourado – apenas o singelo amarelo, cor que recua. E tampouco o azul estrelado nos parece infinito – não assim, sufocado entre tantas arestas, dentro de um losango que se posiciona com frouxidão em um desenho pouco dinâmico – Kandinsky concordaria comigo, tenho certeza.

A expectativa de que um círculo pudesse resumir o infinito estava encarnada na bola de futebol. A esperança era de que nossos jogadores, heróis nacionais, movimentassem o amarelo de suas camisas com graça e criatividade sobre o gramado. Pensávamos que, com os melhores boleiros do mundo, a imagem inerte e apática que temos de nosso país seria literalmente driblada, e ao menos durante uma copa do mundo poderíamos nos sentir uma grande potência. Infelizmente não foi o caso, e o que se viu em campo ecoou tudo o que há de estanque em nosso estandarte e em nossa realidade.

Parece deprimente minha análise? Talvez seja, mas minha vontade de ver o país avançar nunca precisou de amores por uma bandeira. Aliás, se levarmos a sério o universo das representações, o melhor seria mudarmos urgentemente o nome que deram à nossa terra. Se pensarmos bem, quando a torcida, exaltada, grita “Brasil!” nada mais faz do que repetir o eufemismo que os portugueses deram para “Escambo”. Pois, se nos batizaram dessa maneira foi para designar a fonte de renda fácil que nossos primeiros ludibriadores aqui encontraram, naquele não tão remoto século XVI.

Para completar a composição, nem ordem nem progresso podemos dizer que façam parte da agenda política nacional. Não quero parecer ressentido, apenas lamento o ufanismo intermitente de uma nação que usualmente não demonstra maiores ambições do que ser o país do futebol. E talvez nem isso sejamos, pois o fato é que jogamos muito mal, sem aplicação, sem vontade. Perdemos com uma equipe repleta de estrelas, de fato foi decepcionante, mas melhor seria que as pessoas torcessem pelo Brasil, e não apenas pelo nosso futebol.