7.28.2007

Fama e publicidade

Saiu recentemente na Folha de São Paulo, (24/07), uma reportagem que abordou a última polêmica em torno de nosso ministro (e tropicalista) Gilberto Gil. Não vem ao caso, no momento, avaliar seu governo, mesmo que o MinC esteja atualmente passando por uma greve complicada, mesmo notando que o órgão libera milhões de reais para espetáculos cuja bilheteria já estaria garantida a preços impopulares. Deixemos isso de lado por um instante - nem todos os problemas de um ministério podem ser atribuídos a uma única pessoa, não precisamos alimentar essa tradição nacional que adora personificar algo tão capilar como o poder. A questão é outra, mas não me soa menos lamentável, apesar de bem mais sutil. Algo que é de responsabilidade completa dele, Gilberto, enquanto político mas também como músico e como cidadão e que requer uma análise.
O fato concreto se refere a uma canção dele, “Na internet”, que foi cedida ao Itaú Bankline para um comercial de tevê. A letra original retrata com otimismo essa mídia relativamente nova, a internet, por sua capacidade de aproximar distâncias, por nos conectar com múltiplas situações diferentes, inclusive as mais inusitadas. Versos como Eu quero entrar na rede pra contactar/ Os lares do Nepal, os bares do Gabão reflete os aspectos mais positivos dessa revolução nas comunicações. No entanto, o ministro-e-poeta, duplamente um dos principais nomes da nossa cultura, vendeu uma ótima música para uma utilização bem mais vulgar do que a de sua proposta original. Ao associar sua canção ao Bankline, divulgou o que a internet oferece de mais lugar-comum: serviços, circulação de dinheiro. O problema não é apenas o fato de ele ser ministro, e com isso comprometer a imagem de um órgão que não deveria, a princípio, demonstrar preferências a determinado grupo privado. Preocupa-me igualmente o fato de ele ser um excelente músico, e nem por isso se importar com um utilitarismo tão mesquinho para uma criação sua, algo que merecia ser apreciado sem esse ruído, sem essa captura. Se nem o político, nem o músico, menos ainda o cidadão percebe essa concessão como problemática, estamos diante de uma completa erosão de valores.
A publicidade não é, no Brasil, encarada com a devida seriedade. Boa parte de nossos artistas supostamente mais críticos já alugaram sua própria imagem em troca de um cachê vultuoso: podemos incluir aí José Celso, Arnaldo Antunes, João Gordo, entre tantos outros. Não acredito que seja, necessariamente, “coisa de marxista” considerar a publicidade um dos pontos mais problemáticos de nosso tempo. No mínimo, deveríamos ver a publicidade como uma grande rival e até mesmo uma antagonista da arte, por atribuir à estética uma função utilitária, interesseira. A grande arte deve aspirar à superação do mero materialismo, e não fomentá-lo. Posto que estamos vivendo no capitalismo, seria ingênuo ignorar que toda obra de arte termina se convertendo em mercadoria, e é justo que um artista possa viver de seu trabalho... contudo, a arte só possibilitará alternativas diante do onipresente e medíocre Mesmo se os criadores forem mais generosos com suas criações. Deveria ser natural para qualquer amante da arte repudiar a mercantilização barata das emoções que a publicidade promove, o emprego desonesto da estética, esvaziada de qualquer sinceridade, e a submissão da imaginação a uma lógica tão pouco promissora em termos de espiritualidade.
É difícil, quase impossível, imaginar qualquer perspectiva de um mundo melhor se não contarmos com o investimento em uma sensibilidade e uma consciência mais desapegadas quanto aos interesses imediatistas. Se até mesmo formadores de opinião considerados libertários demonstram que o dinheiro vem antes que qualquer outro valor, como é que as demais pessoas poderão seguir desejos mais satisfatórios do que o consumismo mais banal? Não me esquecerei tão fácil, por exemplo, que Gilberto Gil, ao ser convidado por Lula para assumir a pasta, hesitou por alguns dias, alegando que “não poderia passar quatro anos recebendo apenas oito mil reais por mês”. Se ele dissesse que não poderia ficar tanto tempo longe dos palcos ou dos estúdios soaria mais palatável, no entanto, do modo que se colocou ficou bem claro quais são suas prioridades. Ficam bem visíveis alguns aspectos deploráveis de Gilberto Gil - um, entre tantos artistas, que poderíamos admirar muito mais se ele próprio entendesse a real importância daquilo com que trabalha.

7.02.2007

Como encontrar os livros?

"A Lâmina que Fere Chronos" e "Puro Enquanto" podem ser encomendados em qualquer livraria, mas se acharem que o prazo de entrega é muito grande, o site da Lojas Americanas está prometendo em menos tempo e ainda oferece desconto.


O "Rock Book" já está com um prazo de entrega curto nas livrarias, mas o preço pode variar. Quem estiver meio sem dinheiro pode achar uma boa checar no Buscapé.

Quanto ao "Será", saiu pelo Ragnarok, selo independente criado por mim e Nelson de Oliveira, então o mais fácil é pedir para mim mesmo, pelo correio, com a vantagem de que o exemplar já vem autografado. Peço para escreverem para ivan_hegen@yahoo.com.br confirmando o depósito e passando o endereço, que eu faço o possível para entregar rápido.

R$ 20,00
Santander
Ivan Alexander Hegenberg
Ag 0220 C/C 010107627-4
CPF 222.940.438-55


Itaú
Ag. 2926
C/C 19843-9
CPF 222.940.438-55

Se gostarem, recomendem para os amigos. Se não gostarem, para os inimigos

6.12.2007

Divagações sobre arte e vida a partir da ocupação da USP

Transferido para Diagnósticos diferenciais para uma arte em crise

Se é exatamente na fronteira do não-eu que se percebe o eu, por que não seria na fronteira da não-vida a descoberta da vida?

5.23.2007

Orelha do livro "Será"

O progresso científico é como um machado nas mãos de um psicopata. Palavras de Einstein.
O primeiro romance de Ivan Hegenberg nos apresenta nada mais nada menos do que o futuro desse progresso. Qual seria ele? O mais assombrado e o mais assombroso possível, coordenado por máquinas inteligentes, suportado por homens e mulheres violentos e inseguros, às vezes esperançosos e confiantes, quase sempre desesperados ou deprimidos. O único futuro possível para o presente no qual vivemos: a continuação caótica do não menos caótico momento atual.
Dezenas de personagens, posicionadas pelo autor em pontos estratégicos, vão revelando pouco a pouco a estranha estrutura social e emocional dessa civilização alucinada, dessa sociedade em certos momentos muito mais angustiante do que as mais célebres distopias da ficção científica: a de George Orwell, em 1984, a de Aldous Huxley, no Admirável mundo novo, e a de Ray Bradbury, em Fahrenheit 451. Mesmo pertencendo a outra linhagem literária, A metamorfose e O castelo, de Franz Kafka, também lançam sua sombra sobre esse futuro.
Todos os fatos aqui revelados se passam no século XXIII. O oxigênio agora é retirado dos oceanos, a realidade virtual aboliu a distância espacial e a temporal (as pessoas podem viajar artificialmente para qualquer lugar e para qualquer época), a propriedade privada também foi abolida, a escassez de água e a superpopulação são as piores ameaças ao equilíbrio do planeta, as pessoas de carne e osso convivem (nem sempre tranqüilamente) com as pessoas virtuais, nos laboratórios os limites do macrocosmo e os do microcosmo são rompidos, as culpas e as neuroses podem ser extirpadas cirurgicamente da mente humana e agora a telepatia é a forma de comunicação mais sutil (até os sentimentos podem ser compartilhados).
A nossa espécie vive o apogeu da tecnologia e do cientificismo. Mas, ironia das ironias, essa situação é o reflexo da forte crise moral e existencial que devagar vai corrompendo as instituições e os indivíduos. Nesse sentido, apesar das possibilidades inimagináveis (a telepatia, a viagem ao centro da célula, a materialidade virtual), a sociedade futura continua estacionada espiritualmente no início do século XX. O fracasso das utopias, a fragmentação da consciência, a indústria cultural, a ideologia de direita e a de esquerda: nada mudou. Diante dos mesmos conflitos vividos por nossos antepassados, conflitos que levaram à Primeira e à Segunda Guerra Mundial, à Guerra do Vietnã e à do Iraque, fica bem claro que o progresso industrial e tecnológico não foi acompanhado pelo fortalecimento da subjetividade humana nem pelo enfraquecimento dos impulsos mais primitivos. Continuamos primatas egoístas e insaciáveis, dominados pelas paixões.
O sexo sádico e autodestrutivo, o fanatismo religioso e o instinto de agressão e dominação continuam testando os limites do amor e da sanidade. A última esperança para esse futuro sombrio e irracional é provavelmente o que a espécie humana vem buscando desde o início dos tempos: o verdadeiro contato com o sagrado. A procura desse contato último irá reunir e separar muitas das dezenas de personagens do romance. Elas precisam provar do sentimento do sagrado. Mesmo que esse sentimento esteja muitas vezes oculto numa cápsula de veneno.


Nelson de Oliveira

5.11.2007

Bicho papão

Para que serve o papa?
Papa é para o povo?
Para o povo pobre?
Sei que o papa é pop
O papa é pop

Mas não é um porre?
Que papo é esse
De que não pode porra?
De que não pode o pau?
De que não pode pôr?

Papa é poderoso
Tudo o que ele prega
é medo do escuro
É pavor do impuro
É bicho-papão

4.21.2007

Uma cultura do crime?

Terceira semana de abril de 2007. Segunda-feira, o estudante sul-coreano mata 32 pessoas na Virginia. Na terça, guerra de tráfico no Rio de Janeiro com tiroteio a céu aberto. Quarta, um dos piores atentados no Iraque, matando centenas de pessoas. Sexta, um engenheiro invade a NASA, mata um refém e se suicida.
Será que é apenas coincidência? Tantas cenas dramáticas ocorridas em tão pouco tempo? Minha hipótese é de que, de alguma maneira, um acontecimento "estimulou" o outro. Não sou assassino para saber, meus maiores crimes são cometidos por personagens... mas desconfio que o primeiro a derramar sangue despertou alguma coisa nos outros. Um apelo instintivo que disparou o que há de mais primitivo na mente humana - porém, creio eu, sem deixar de se articular com o que chamamos de linguagem.
A partir da quarta-feira, diante do famoso pacote de vídeos e fotos de Cho Seung-hui, ficamos a par do quanto o atirador de Virginia entendeu seu crime como uma forma de comunicação. É preciso levar isso em conta: neste mundo em que a moeda corrente é a informação, passa a existir uma sub-cultura do assassinato. A maioria de nós só pode constatar isto de maneira vaga e indireta - é bem pouco provável que eu mate alguém, ou que os amigos com que me relaciono o façam - mas entre diferentes criminosos parece haver alguma sintonia, o compartilhamento de uma sensibilidade extremada.
Assistindo aos vídeos que Cho Seung-hui enviou à NBC, é evidente, por exemplo, o quanto ele se identificava com os dois atiradores de Columbine, Eric Harris e Dylan Klebold, que na mesma época do ano (20 de abril de 1999) mataram 12 pessoas em seu colégio. Aliás, 20 de abril é o aniversário de nascimento de Adolf Hitler, que teria feito 110 anos na ocasião, e aparentemente eles estavam "comemorando". Quando falamos em Hitler, imediatamente uma idéia de encarnação do mal nos vem à mente, e é quase como se falássemos de alguém que sequer foi um ser humano, estando mais próximo do filho de um demônio ou algo assim. Esse orgulho não nos ajuda em nada, é preciso admitir que pertencemos à mesma espécie animal que Adolf, Harris, Cho, todos os traficantes do Rio de Janeiro, todos os terroristas do Iraque, e por aí vai. Podemos considerá-los desequilibrados - e geralmente são - mas no fundo temos algo em comum com todos eles, gostemos ou não.
No caso dos massacres suicidas, não podemos nem ao menos dizer que se trata de uma disputa de poder. O principal intuito desses criminosos é se comunicar. Cho realizou um crime-desabafo, em parte por sentir que o ambiente onde vivia não o integrava. Em um mundo onde ninguém vale pelo que é, apenas pelo que produz e acumula, o cálculo foi esse: "Quanto mais mortes eu causar, mais vão me respeitar". A humanidade estaria perdida se todos seguissem este exemplo, mas convém ouvir o que se oculta por trás da mensagem. Não aquilo que ele diz nos vídeos, no entanto o que faz com que surja uma expressão tão radical como a de seu gesto.
Nem tudo tem solução, sociedade alguma conseguiria curar todos os males, evitar todos os crimes, sanar todas as aflições. Mas uma coisa deveria ser bastante óbvia: quanto mais a linguagem oficial for excludente, mais frequente, por parte dos ressentidos, será o uso da violência para se expressar. Não é apenas com os assassinos que há algo de errado. Era de bom-tom que chefes de Estado de diversos países declarassem suas condolências aos 32 norte-americanos mortos; na mesma semana, contudo, centenas de iraquianos foram dizimados e os cariocas viveram momentos de guerra civil. Em todo o planeta, aparentemente, ninguém demonstrou muita preocupação. Afinal, se o conflito é entre pobres-coitados, não há grandes motivos para se preocupar. Nas entrelinhas, parece ser este o discurso oficial.

4.16.2007

Alguns contemporâneos

Atendendo a pedidos, retomei o que eu tava discutindo em "Arte em crise", mas dessa vez citando alguns nomes.
Saiu também no Cronópios.




Em plena Avenida Paulista, a mostra “Itaú Contemporâneo” é uma boa oportunidade para se entender melhor que tipo de arte está se produzindo hoje. Também é um excelente ponto de partida para discutir algumas das questões mais intrincadas da arte contemporânea. A exposição abriu com polêmica ao colocar dezenas de pinturas na horizontal, próximas ao chão, coisa que revoltou os pintores. O correto teria sido consultá-los antes de adotar a disposição, mas é interessante o quanto a mostra consegue, seja por suas virtudes ou por seus defeitos, provocar questionamentos de todo tipo. Começando pelo nome. Entristece um pouco ver uma exposição desse porte batizada com o nome de um banco, como se o que conferisse forma e sentido ao conjunto fosse esse dado, o de a coleção pertencer ao Itaú. Levanto esse ponto porque se discute muito que a verdadeira arte deveria ser refratária às instituições, e antes mesmo de colocar os pés na entrada podemos refletir no quanto um evento dessa amplitude não seria possível sem um grande investidor, mas também o quanto isso é problemático. A arte contemporânea usualmente se opõe ao mercantilismo, porém jamais escapou ao paradoxo de depender financeiramente daqueles que combate. A meu ver esse é um dilema sério, mas, vivendo no capitalismo, não existe solução eficiente para isso. A única resposta que o artista pode dar é a criação de algo que seja mais forte do que o materialismo, que consiga ultrapassar o mercado. Há mais coisas na vida do que uma conta gorda no banco, seja Itaú ou qualquer outro, e todo grande artista consegue fazer com que nos lembremos disso, ao menos por alguns instantes. Não estou falando de trabalhos como os de Hans Haacke ou Broodthaers, que consistiam em panfletários ataques ao mercado – e desse modo apenas reforçavam a presença das instituições. Não precisa ser psicanalista para perceber que no fundo artistas como eles ostentam um fascínio reprimido pelo poder. Muito mais contundente é a arte que nos leva a considerar como há coisas mais estimulantes do que o simples acúmulo de capital. Sandra Cinto, presente na exposição da Av. Paulista, é um bom exemplo disso. Seus trabalhos de traços delicados nos colocam em contato com um universo que se estende ao cosmos, para muito além de nós-mesmos, ao mesmo tempo que nos aprofundam em um estranho abismo íntimo.
Na verdade, a exposição em cartaz não é tão tipicamente contemporânea quanto se denomina. Quase não há vídeo ou alta tecnologia, a arte conceitual está representada mas não dá o tom, sendo que o que vemos em maior quantidade são pinturas. Isso acontece porque a curadoria não teve nenhum critério mais rigoroso além da apresentação do acervo do banco. Apesar de tudo, Teixeira Coelho, o curador, conseguiu arranjar o espaço expositivo de modo a suscitar questões bem contemporâneas, o que faz com que a visita seja especialmente reveladora para quem não costuma acompanhar vernisages de perto. Até mesmo o fato que ganhou maior repercussão, as pinturas deitadas próximas ao chão, pode nos levar a reconsiderar alguns tabus. Desde os anos 60, a pintura vem sendo atacada por ser considerada “convencional” demais, esgotada, e por promover a arte como ilusão. Em contrapartida, a produção de arte mais tipicamente contemporânea se agarra ao real, ao concreto, buscando se inserir na própria tessitura da realidade. Quando isso é bem sucedido, obras maravilhosas podem acontecer. No andar de baixo, por exemplo, encontra-se um corrimão de aço concebido por Ana Tavares, que, no entanto, não é um corrimão qualquer. Tortuoso, provoca vertigem a quem o atravessa, obrigando a redimensionar o corpo em relação ao espaço. Contudo, uma obra como essa é capaz de conviver muito bem com as de Beatriz Milhazes, uma pintora que igualmente nos desnorteia, dessa vez com telas vibrantes, quase hipnóticas. O fato de uma trabalhar com a representação e a outra com a realidade externa não as diferencia tanto quanto se supõe – por mais que até hoje exista um ranço da “Morte à pintura” decretada décadas atrás. Ao ver pinturas no chão, como as de Eduardo Sued ou Ianelli, podemos perceber com maior clareza o quanto uma pintura, ainda que seja ilusionística e nos leve para uma dimensão inexistente, afeta o espaço ao redor, provoca uma nova percepção, inclusive corporal, diante do mundo palpável. Além, é claro, de nos convidar para um lugar impossível que só existe em nossas mentes. Mas creio que um corrimão absurdo também nos conecta com o mundo da imaginação, já que foge ao esperado.
Duas coisas bem diferentes são a exposição e seus textos. Há um libreto branco distribuído gratuitamente na entrada, e alguns de seus trechos estão reproduzidos nas paredes. Creio que a melhor maneira de se aproveitar a visita seja primeiro observar cada uma das obras com o maior desprendimento possível. Não são muitas as obras ali que dependem de um aprendizado teórico prévio, podendo ser desfrutadas por qualquer um que desbrave com juízo próprio. Em seguida, é interessante ler o texto de Teixeira Coelho, que na verdade busca uma síntese daquilo que críticos e artistas vêm discutindo nas últimas décadas. O texto é bem escrito, franco, e dono de uma rara generosidade para com quem não tem intimidade com esses debates. Apesar de um ou outro escorregão, é uma exposição teórica bastante bonita, assim como a exposição das obras. De modo geral, ele separa a arte contemporânea em duas correntes: a “Persistência da beleza” e “Na linha da idéia” – primazia da estética versus arte conceitual. No entanto, existe um hiato entre essas palavras e os objetos em destaque. O curador reuniu uma amostra interessante de obras de arte, e reuniu também um apanhado de proposições intelectuais desafiadoras. Mas, até mesmo por não ser uma exposição tipicamente contemporânea, arte e teoria não estão perfeitamente justapostas. Coisa que é louvável, pois vinha se tornando cada vez mais forte a tendência de reduzir o artista a um demagogo ilustrador de conceitos, tal como se viu em abundância na última Bienal de São Paulo.
Um dos filósofos mais inquietantes do século XX, Deleuze, em “O que é a filosofia?” separa abruptamente as funções da arte e as da filosofia. Ele sequer perde tempo argumentando porque opta por essa cisão, apesar de ter vivido uma época em que a arte conceitual atingia enorme prestígio. Deleuze, junto com Guatarri, não hesita ao dizer que a filosofia se constrói por conceitos, enquanto a arte se constrói por “afectos” e “perceptos”. “A obra de arte é um ser de sensação e nada mais: ela existe em si.” [1] Eu mesmo não seria tão radical, pois com todas as minhas ressalvas reconheço algumas (poucas) obras de arte conceitual que se sustentam em pé. No entanto é curioso notar que um filósofo como ele, alguém que buscava constantemente a quebra de fronteiras, atribuiu tão pouco interesse à arte conceitual que sequer a levou em consideração. Com a exceção de alguns pouquíssimos casos – como Duchamp, Tinguely, Marina Abramovich, de vez em quando Joseph Kosuth – eu também não vejo em que medida a arte conceitual acrescentaria algo a qualquer ser humano capaz de ver beleza na filosofia por ela mesma. O pensamento que vai até seu limite é, e sempre foi, comovente. E a sensação pura, com toda sua contundência, é, e sempre será, estimulante. No entanto, a comunicação verbal e a comunicação não-verbal são devires diferentes, cada uma necessária à sua maneira e a seu tempo.
É muito comum, nas grandes exposições de arte contemporânea, que a própria curadoria tenha algo de opressora, um conjunto de regras pré-estabelecidas – oprime o visitante leigo porque este desconhece o jogo, e oprime quem está familiarizado, porque lhe impõe um excesso de preceitos. Porém na atual mostra - em cartaz até 27 de maio - é tão eclético o conjunto exposto que torna a visita a ocasião ideal para se formar juízos pessoais. Vale conferir a pintura de Iberê Camargo, mesmo que não seja de suas melhores; Siron Franco e seu mórbido balanço de playground; Eder Santos com sua fantástica projeção animada sobre uma cristaleira. Raquel Kogan e seus códigos numéricos que escorrem no escuro, partindo do conceitualismo em direção ao mistério. A fotografia de João Musa flertando com a pintura, ao captar o mar tal como uma pincelada. Evandro Carlos Jardim em uma ótima gravura, para que ninguém duvide que ele é um dos melhores em sua atividade. Além disso, o espectador terá para si a tarefa de decidir se a ironia pop de Nelson Leirner é um convite ao riso ou se é apenas ele quem ri por último. Terá de pensar se Antonio Henrique Amaral, com suas melancias e bananas modernistas, diz ou não alguma coisa para nós no século XXI. Verá também as esculturas de Nuno Ramos, e sem precisar chamá-las de não-objetos saberá sentir se lhes tocam. Diante de Brígida Baltar em sua “Coleta de neblina”, poderá perguntar se a obra vale para o visitante ou se existiu apenas para a artista. E até mesmo as pedras de Cildo Meireles, bem parafusadas no solo, poderão servir de interrogação a todo tipo de tropeço. Em nossos tempos, a última palavra para decidir o que é e o que não é arte deve caber a cada espectador, e a ninguém mais.