6.12.2007
Divagações sobre arte e vida a partir da ocupação da USP
Se é exatamente na fronteira do não-eu que se percebe o eu, por que não seria na fronteira da não-vida a descoberta da vida?
5.23.2007
Orelha do livro "Será"
O primeiro romance de Ivan Hegenberg nos apresenta nada mais nada menos do que o futuro desse progresso. Qual seria ele? O mais assombrado e o mais assombroso possível, coordenado por máquinas inteligentes, suportado por homens e mulheres violentos e inseguros, às vezes esperançosos e confiantes, quase sempre desesperados ou deprimidos. O único futuro possível para o presente no qual vivemos: a continuação caótica do não menos caótico momento atual.
Dezenas de personagens, posicionadas pelo autor em pontos estratégicos, vão revelando pouco a pouco a estranha estrutura social e emocional dessa civilização alucinada, dessa sociedade em certos momentos muito mais angustiante do que as mais célebres distopias da ficção científica: a de George Orwell, em 1984, a de Aldous Huxley, no Admirável mundo novo, e a de Ray Bradbury, em Fahrenheit 451. Mesmo pertencendo a outra linhagem literária, A metamorfose e O castelo, de Franz Kafka, também lançam sua sombra sobre esse futuro.
Todos os fatos aqui revelados se passam no século XXIII. O oxigênio agora é retirado dos oceanos, a realidade virtual aboliu a distância espacial e a temporal (as pessoas podem viajar artificialmente para qualquer lugar e para qualquer época), a propriedade privada também foi abolida, a escassez de água e a superpopulação são as piores ameaças ao equilíbrio do planeta, as pessoas de carne e osso convivem (nem sempre tranqüilamente) com as pessoas virtuais, nos laboratórios os limites do macrocosmo e os do microcosmo são rompidos, as culpas e as neuroses podem ser extirpadas cirurgicamente da mente humana e agora a telepatia é a forma de comunicação mais sutil (até os sentimentos podem ser compartilhados).
A nossa espécie vive o apogeu da tecnologia e do cientificismo. Mas, ironia das ironias, essa situação é o reflexo da forte crise moral e existencial que devagar vai corrompendo as instituições e os indivíduos. Nesse sentido, apesar das possibilidades inimagináveis (a telepatia, a viagem ao centro da célula, a materialidade virtual), a sociedade futura continua estacionada espiritualmente no início do século XX. O fracasso das utopias, a fragmentação da consciência, a indústria cultural, a ideologia de direita e a de esquerda: nada mudou. Diante dos mesmos conflitos vividos por nossos antepassados, conflitos que levaram à Primeira e à Segunda Guerra Mundial, à Guerra do Vietnã e à do Iraque, fica bem claro que o progresso industrial e tecnológico não foi acompanhado pelo fortalecimento da subjetividade humana nem pelo enfraquecimento dos impulsos mais primitivos. Continuamos primatas egoístas e insaciáveis, dominados pelas paixões.
O sexo sádico e autodestrutivo, o fanatismo religioso e o instinto de agressão e dominação continuam testando os limites do amor e da sanidade. A última esperança para esse futuro sombrio e irracional é provavelmente o que a espécie humana vem buscando desde o início dos tempos: o verdadeiro contato com o sagrado. A procura desse contato último irá reunir e separar muitas das dezenas de personagens do romance. Elas precisam provar do sentimento do sagrado. Mesmo que esse sentimento esteja muitas vezes oculto numa cápsula de veneno.
Nelson de Oliveira
5.11.2007
Bicho papão
Papa é para o povo?
Para o povo pobre?
Sei que o papa é pop
O papa é pop
Mas não é um porre?
Que papo é esse
De que não pode porra?
De que não pode o pau?
De que não pode pôr?
Papa é poderoso
Tudo o que ele prega
é medo do escuro
É pavor do impuro
É bicho-papão
4.21.2007
Uma cultura do crime?
Será que é apenas coincidência? Tantas cenas dramáticas ocorridas em tão pouco tempo? Minha hipótese é de que, de alguma maneira, um acontecimento "estimulou" o outro. Não sou assassino para saber, meus maiores crimes são cometidos por personagens... mas desconfio que o primeiro a derramar sangue despertou alguma coisa nos outros. Um apelo instintivo que disparou o que há de mais primitivo na mente humana - porém, creio eu, sem deixar de se articular com o que chamamos de linguagem.
A partir da quarta-feira, diante do famoso pacote de vídeos e fotos de Cho Seung-hui, ficamos a par do quanto o atirador de Virginia entendeu seu crime como uma forma de comunicação. É preciso levar isso em conta: neste mundo em que a moeda corrente é a informação, passa a existir uma sub-cultura do assassinato. A maioria de nós só pode constatar isto de maneira vaga e indireta - é bem pouco provável que eu mate alguém, ou que os amigos com que me relaciono o façam - mas entre diferentes criminosos parece haver alguma sintonia, o compartilhamento de uma sensibilidade extremada.
Assistindo aos vídeos que Cho Seung-hui enviou à NBC, é evidente, por exemplo, o quanto ele se identificava com os dois atiradores de Columbine, Eric Harris e Dylan Klebold, que na mesma época do ano (20 de abril de 1999) mataram 12 pessoas em seu colégio. Aliás, 20 de abril é o aniversário de nascimento de Adolf Hitler, que teria feito 110 anos na ocasião, e aparentemente eles estavam "comemorando". Quando falamos em Hitler, imediatamente uma idéia de encarnação do mal nos vem à mente, e é quase como se falássemos de alguém que sequer foi um ser humano, estando mais próximo do filho de um demônio ou algo assim. Esse orgulho não nos ajuda em nada, é preciso admitir que pertencemos à mesma espécie animal que Adolf, Harris, Cho, todos os traficantes do Rio de Janeiro, todos os terroristas do Iraque, e por aí vai. Podemos considerá-los desequilibrados - e geralmente são - mas no fundo temos algo em comum com todos eles, gostemos ou não.
No caso dos massacres suicidas, não podemos nem ao menos dizer que se trata de uma disputa de poder. O principal intuito desses criminosos é se comunicar. Cho realizou um crime-desabafo, em parte por sentir que o ambiente onde vivia não o integrava. Em um mundo onde ninguém vale pelo que é, apenas pelo que produz e acumula, o cálculo foi esse: "Quanto mais mortes eu causar, mais vão me respeitar". A humanidade estaria perdida se todos seguissem este exemplo, mas convém ouvir o que se oculta por trás da mensagem. Não aquilo que ele diz nos vídeos, no entanto o que faz com que surja uma expressão tão radical como a de seu gesto.
Nem tudo tem solução, sociedade alguma conseguiria curar todos os males, evitar todos os crimes, sanar todas as aflições. Mas uma coisa deveria ser bastante óbvia: quanto mais a linguagem oficial for excludente, mais frequente, por parte dos ressentidos, será o uso da violência para se expressar. Não é apenas com os assassinos que há algo de errado. Era de bom-tom que chefes de Estado de diversos países declarassem suas condolências aos 32 norte-americanos mortos; na mesma semana, contudo, centenas de iraquianos foram dizimados e os cariocas viveram momentos de guerra civil. Em todo o planeta, aparentemente, ninguém demonstrou muita preocupação. Afinal, se o conflito é entre pobres-coitados, não há grandes motivos para se preocupar. Nas entrelinhas, parece ser este o discurso oficial.
4.16.2007
Alguns contemporâneos
Saiu também no Cronópios.
Em plena Avenida Paulista, a mostra “Itaú Contemporâneo” é uma boa oportunidade para se entender melhor que tipo de arte está se produzindo hoje. Também é um excelente ponto de partida para discutir algumas das questões mais intrincadas da arte contemporânea. A exposição abriu com polêmica ao colocar dezenas de pinturas na horizontal, próximas ao chão, coisa que revoltou os pintores. O correto teria sido consultá-los antes de adotar a disposição, mas é interessante o quanto a mostra consegue, seja por suas virtudes ou por seus defeitos, provocar questionamentos de todo tipo. Começando pelo nome. Entristece um pouco ver uma exposição desse porte batizada com o nome de um banco, como se o que conferisse forma e sentido ao conjunto fosse esse dado, o de a coleção pertencer ao Itaú. Levanto esse ponto porque se discute muito que a verdadeira arte deveria ser refratária às instituições, e antes mesmo de colocar os pés na entrada podemos refletir no quanto um evento dessa amplitude não seria possível sem um grande investidor, mas também o quanto isso é problemático. A arte contemporânea usualmente se opõe ao mercantilismo, porém jamais escapou ao paradoxo de depender financeiramente daqueles que combate. A meu ver esse é um dilema sério, mas, vivendo no capitalismo, não existe solução eficiente para isso. A única resposta que o artista pode dar é a criação de algo que seja mais forte do que o materialismo, que consiga ultrapassar o mercado. Há mais coisas na vida do que uma conta gorda no banco, seja Itaú ou qualquer outro, e todo grande artista consegue fazer com que nos lembremos disso, ao menos por alguns instantes. Não estou falando de trabalhos como os de Hans Haacke ou Broodthaers, que consistiam em panfletários ataques ao mercado – e desse modo apenas reforçavam a presença das instituições. Não precisa ser psicanalista para perceber que no fundo artistas como eles ostentam um fascínio reprimido pelo poder. Muito mais contundente é a arte que nos leva a considerar como há coisas mais estimulantes do que o simples acúmulo de capital. Sandra Cinto, presente na exposição da Av. Paulista, é um bom exemplo disso. Seus trabalhos de traços delicados nos colocam em contato com um universo que se estende ao cosmos, para muito além de nós-mesmos, ao mesmo tempo que nos aprofundam em um estranho abismo íntimo.
Na verdade, a exposição em cartaz não é tão tipicamente contemporânea quanto se denomina. Quase não há vídeo ou alta tecnologia, a arte conceitual está representada mas não dá o tom, sendo que o que vemos em maior quantidade são pinturas. Isso acontece porque a curadoria não teve nenhum critério mais rigoroso além da apresentação do acervo do banco. Apesar de tudo, Teixeira Coelho, o curador, conseguiu arranjar o espaço expositivo de modo a suscitar questões bem contemporâneas, o que faz com que a visita seja especialmente reveladora para quem não costuma acompanhar vernisages de perto. Até mesmo o fato que ganhou maior repercussão, as pinturas deitadas próximas ao chão, pode nos levar a reconsiderar alguns tabus. Desde os anos 60, a pintura vem sendo atacada por ser considerada “convencional” demais, esgotada, e por promover a arte como ilusão. Em contrapartida, a produção de arte mais tipicamente contemporânea se agarra ao real, ao concreto, buscando se inserir na própria tessitura da realidade. Quando isso é bem sucedido, obras maravilhosas podem acontecer. No andar de baixo, por exemplo, encontra-se um corrimão de aço concebido por Ana Tavares, que, no entanto, não é um corrimão qualquer. Tortuoso, provoca vertigem a quem o atravessa, obrigando a redimensionar o corpo em relação ao espaço. Contudo, uma obra como essa é capaz de conviver muito bem com as de Beatriz Milhazes, uma pintora que igualmente nos desnorteia, dessa vez com telas vibrantes, quase hipnóticas. O fato de uma trabalhar com a representação e a outra com a realidade externa não as diferencia tanto quanto se supõe – por mais que até hoje exista um ranço da “Morte à pintura” decretada décadas atrás. Ao ver pinturas no chão, como as de Eduardo Sued ou Ianelli, podemos perceber com maior clareza o quanto uma pintura, ainda que seja ilusionística e nos leve para uma dimensão inexistente, afeta o espaço ao redor, provoca uma nova percepção, inclusive corporal, diante do mundo palpável. Além, é claro, de nos convidar para um lugar impossível que só existe em nossas mentes. Mas creio que um corrimão absurdo também nos conecta com o mundo da imaginação, já que foge ao esperado.
Duas coisas bem diferentes são a exposição e seus textos. Há um libreto branco distribuído gratuitamente na entrada, e alguns de seus trechos estão reproduzidos nas paredes. Creio que a melhor maneira de se aproveitar a visita seja primeiro observar cada uma das obras com o maior desprendimento possível. Não são muitas as obras ali que dependem de um aprendizado teórico prévio, podendo ser desfrutadas por qualquer um que desbrave com juízo próprio. Em seguida, é interessante ler o texto de Teixeira Coelho, que na verdade busca uma síntese daquilo que críticos e artistas vêm discutindo nas últimas décadas. O texto é bem escrito, franco, e dono de uma rara generosidade para com quem não tem intimidade com esses debates. Apesar de um ou outro escorregão, é uma exposição teórica bastante bonita, assim como a exposição das obras. De modo geral, ele separa a arte contemporânea em duas correntes: a “Persistência da beleza” e “Na linha da idéia” – primazia da estética versus arte conceitual. No entanto, existe um hiato entre essas palavras e os objetos em destaque. O curador reuniu uma amostra interessante de obras de arte, e reuniu também um apanhado de proposições intelectuais desafiadoras. Mas, até mesmo por não ser uma exposição tipicamente contemporânea, arte e teoria não estão perfeitamente justapostas. Coisa que é louvável, pois vinha se tornando cada vez mais forte a tendência de reduzir o artista a um demagogo ilustrador de conceitos, tal como se viu em abundância na última Bienal de São Paulo.
Um dos filósofos mais inquietantes do século XX, Deleuze, em “O que é a filosofia?” separa abruptamente as funções da arte e as da filosofia. Ele sequer perde tempo argumentando porque opta por essa cisão, apesar de ter vivido uma época em que a arte conceitual atingia enorme prestígio. Deleuze, junto com Guatarri, não hesita ao dizer que a filosofia se constrói por conceitos, enquanto a arte se constrói por “afectos” e “perceptos”. “A obra de arte é um ser de sensação e nada mais: ela existe em si.” [1] Eu mesmo não seria tão radical, pois com todas as minhas ressalvas reconheço algumas (poucas) obras de arte conceitual que se sustentam em pé. No entanto é curioso notar que um filósofo como ele, alguém que buscava constantemente a quebra de fronteiras, atribuiu tão pouco interesse à arte conceitual que sequer a levou em consideração. Com a exceção de alguns pouquíssimos casos – como Duchamp, Tinguely, Marina Abramovich, de vez em quando Joseph Kosuth – eu também não vejo em que medida a arte conceitual acrescentaria algo a qualquer ser humano capaz de ver beleza na filosofia por ela mesma. O pensamento que vai até seu limite é, e sempre foi, comovente. E a sensação pura, com toda sua contundência, é, e sempre será, estimulante. No entanto, a comunicação verbal e a comunicação não-verbal são devires diferentes, cada uma necessária à sua maneira e a seu tempo.
É muito comum, nas grandes exposições de arte contemporânea, que a própria curadoria tenha algo de opressora, um conjunto de regras pré-estabelecidas – oprime o visitante leigo porque este desconhece o jogo, e oprime quem está familiarizado, porque lhe impõe um excesso de preceitos. Porém na atual mostra - em cartaz até 27 de maio - é tão eclético o conjunto exposto que torna a visita a ocasião ideal para se formar juízos pessoais. Vale conferir a pintura de Iberê Camargo, mesmo que não seja de suas melhores; Siron Franco e seu mórbido balanço de playground; Eder Santos com sua fantástica projeção animada sobre uma cristaleira. Raquel Kogan e seus códigos numéricos que escorrem no escuro, partindo do conceitualismo em direção ao mistério. A fotografia de João Musa flertando com a pintura, ao captar o mar tal como uma pincelada. Evandro Carlos Jardim em uma ótima gravura, para que ninguém duvide que ele é um dos melhores em sua atividade. Além disso, o espectador terá para si a tarefa de decidir se a ironia pop de Nelson Leirner é um convite ao riso ou se é apenas ele quem ri por último. Terá de pensar se Antonio Henrique Amaral, com suas melancias e bananas modernistas, diz ou não alguma coisa para nós no século XXI. Verá também as esculturas de Nuno Ramos, e sem precisar chamá-las de não-objetos saberá sentir se lhes tocam. Diante de Brígida Baltar em sua “Coleta de neblina”, poderá perguntar se a obra vale para o visitante ou se existiu apenas para a artista. E até mesmo as pedras de Cildo Meireles, bem parafusadas no solo, poderão servir de interrogação a todo tipo de tropeço. Em nossos tempos, a última palavra para decidir o que é e o que não é arte deve caber a cada espectador, e a ninguém mais.
4.01.2007
Poema de primeiro de abril
Talvez duas ou três
De uma vez só e sem dó
Em minha defesa eu digo
Que não te ludibrio
Minto com fé e verdade
- malícia sem maldade -
Com base em fatos
sub-reais
2.26.2007
O carnaval-arte de Paulo Barros

Eu pessoalmente aprecio mais o futebol do que o carnaval. Deleito-me com a inteligência e a plasticidade de uma bela jogada, ao passo que me sinto um pouco gringo no carnaval, principalmente por não entender nada de samba. No entanto, contrariando minhas próprias expectativas, fui fisgado este ano pelas imagens do sambódromo, quando me deparei com a Unidos do Viradouro. Raramente perco mais do que dois minutos assistindo aos desfiles, mas por sorte calhou de a Viradouro atravessar a Marques de Sapucaí no momento em que parei para olhar. E foi uma sorte mesmo, eu tenho que admitir que esse tal de Paulo Barros, o carnavalesco por trás da escola, me deixou fascinado. Ele inovou com muito bom gosto, nos presenteando com um resultado tão sofisticado que não há porque hesitar em chamá-lo de um verdadeiro artista.
Pesquisando um pouco, notei que nos anos anteriores ele já trazia elementos novos à passarela. Em 2004, apresentou um carro repleto de pessoas pintadas de azul, que, cintilando em coluna ascendente, representavam a cadeia de DNA. Em 2005, Dom Quixote foi o fio condutor para o mundo da imaginação. Em 2006, Mozart visitou o Brasil, entrou em uma roda de samba e regeu a imensa “ópera de rua”. Um dos carros alegóricos era um gramofone gigante que se convertia em orquestra, onde em sincronia perfeita as pessoas tocavam música ou trocavam o disco.
Neste ano o mote foi o Jogo, abordado desde os cassinos até o pinball, passando pelos esportes e por “Onde está o Wally”. As soluções visuais surpreenderam, indo muito além da ostentação kitsch que se costumava ver nos desfiles tradicionais. Um dos carros que mais me causou impacto foi a alegoria dos Jogos Olímpicos. Mulheres moviam os braços em nado sincronizado, tendo uma lona azul imitando a altura da água na cintura. Subitamente, a lona é retirada, e o que era piscina se transforma em quadra de basquete, com jogadores quicando a bola ferozmente. O que era harmonia feminina e leveza se converteu em confronto direto e combativo - dois aspectos do lúdico sintetizados com muita graça. Também me intrigou o carro do Castelo de Cartas, virado de ponta-cabeça em alusão ao samba-enredo “A Viradouro vira o jogo”. As rodas expostas para cima provocavam uma sensação de estranhamento, por se tratar de uma opção mais conceitual do que estética. Faz parte do estilo de Paulo Barros não só oferecer o belo, mas também causar suspensões e deslocamentos, tal como os bons artistas plásticos.
O que confirma o temperamento desse carnavalesco como o de um autêntico criador é sua disposição para o risco e seu perfeccionismo. O melhor exemplo disso é sua perigosíssima decisão de colocar a bateria sobre um carro alegórico. Se a bateria errasse, o desfile inteiro desandaria. Mesmo assim ele fez 300 ritmistas subirem e descerem as escadas de um elegante tabuleiro de xadrez sobre rodas. Era grande a chance de tamanha ousadia terminar em vexame, sendo que os solavancos do carro poderiam colocar a batucada em descompasso. Mas, graças aos ensaios exaustivos, tudo correu bem, e a bateria foi aplaudida pela multidão. É pouco provável que alguém jamais tenha efetuado na Sapucaí manobra mais corajosa.
Apesar de tudo isso, e aqui entra o que chamo de problema, a Viradouro amargou um quarto lugar na avaliação do júri. A maior parte da imprensa apontava a escola como favorita ao título. Eu, fã instantâneo do artista, torcia para que se corroborasse o que me parecia quase certo. Para ter base de comparação, dei uma olhada nas outras escolas, e confesso que encontrei cenas bem interessantes – por exemplo, na Mocidade, Adão se destacava de um livro como se fosse uma ilustração ganhando vida - ainda assim, nada atingia o patamar do que a Viradouro apresentou. É por isso que me senti impelido a escrever este artigo, para sublinhar o quanto, neste país, no atual momento histórico, aquele que vai além do esperado é pouco valorizado. Nas mais diversas áreas, o que se cobra é, no máximo, que se faça bem-feito o que já é de conhecimento público, e quem apresenta algo a mais é advertido e desestimulado. Isso vale até mesmo para o carnaval, coisa que, gostemos ou não, é a cara que mostramos para o resto do mundo.Vale também para o futebol - ou não vimos, recentemente, Robinho no banco de reservas, apesar de ter sido o único jogador da equipe a atuar com brilhantismo? Se para a maior parte do planeta o Brasil não é mais do que o país do futebol e do carnaval, eu preferiria que ao menos nessas atividades exibíssemos inteligência, criatividade e arte. Alguns exemplos provam que isso é possível. Paulo Barros, a meu ver, apresenta algo de excepcional, e poderia ser um motivo de orgulho, alguém capaz de transfigurar em alguma medida a auto-imagem do brasileiro. É uma pena que não haja espaço para essa renovação – o carnavalesco já declarou que não terá condições de ousar novamente em futuros desfiles, pois as escolas cobram resultado – acho que com isso a perda para o país, em termos de identidade, é inestimável.
