9.09.2008

Terrorismo poético ou oportunista?



Desde que fiquei sabendo da última investida de Rafael Augustaitiz, muita coisa me passou pela cabeça - inclusive se valia a pena publicar qualquer coisa a respeito. Eu já havia escrito sobre a invasão na Faculdade de Belas Artes, quando ele e quarenta amigos picharam as paredes da instituição e definiram o ato como um "trabalho de conclusão de curso". No último sábado, o alvo foi a Galeria Choque Cultural, especializada em arte urbana e grafite, onde ele e seu bando danificaram dezenas de obras alheias. No primeiro ataque, eu deixei claro o quanto me parecia bisonho que um ato de vandalismo reivindicasse a anuência da academia, e o quanto isso era sintomático de uma crise mais antiga no pensamento da arte contemporânea. Algumas pessoas do meio artistíco defenderam o rapaz, o que só prova que a anti-arte faz parte de uma lógica disseminada. Meses depois, nesta ação contra uma galeria comercial, ao menos a contravenção não parece pedir elogios da parte das vítimas. Se o bando que pretende "discutir os limites da arte" falhou ao tentar obter um diploma universitário para seu líder, tampouco se esforça para obter a simpatia de muitos artistas considerados alternativos, que viam nessa galeria a maior esperança de sair das ruas para o estrelato.

Eu dei uma olhada no blog do Rafael. A primeira coisa que me ocorreu foi procurar incongruências, apontar o quanto ele, apesar da iconoclastia, procura um lugar ao sol, o quanto ele quer reconhecimento de seus pares e mecenas bacanas patrocinando o que ele está fazendo. Exatamente como os artistas que ele ataca. A verdade é que, nos tempos niilistas em que vivemos, a auto-destruição da arte é a epítome do que se tem prestigiado nos salões, com tanta insistência que não sobrou muito para se destruir. Rafael não é mais contraditório que os artistas contemporâneos, apenas levou a cabo o que os outros vêm deixando no campo da sugestão. No fundo, acho bom que isso tenha acontecido, talvez obrigue as pessoas a pensarem até o fim o que só interessava pensar pela metade.

E eu não estou fora disso. A maneira como penso arte hoje em dia não pode ser entendida sem o contato que tive com o terrorismo poético - que o Rafael cita sem saber do que se trata, do contrário diria "anarquismo ontológico" em vez de "antológico". Se eu vislumbro coisas que os acadêmicos têm dificuldade de enxergar, devo muito à minha leitura de Hakim Bey, ao grande impacto que me causou Ari Almeida e à experiência de sair da retórica para a ação. Também tive minhas experiências com a subversão do cotidiano, mas tive a decência de não chamá-la de arte. O terrorismo poético que eu conheci, para quem não sabe do que estou falando, tem muito mais generosidade do que destruição pela destruição. A anti-arte é um discurso do ressentimento, nos afasta de Dionísio, ao passo que o terrorismo poético propõe o choque como maneira de despertar a consciência dos desavisados, de proporcionar um pouco de poesia a quem jamais entraria em uma galeria de arte. Uma das sugestões de Hakim Bey é invadir as casas alheias, mas, em vez de roubar, deixar objetos desconcertantes. Sem dúvida, essa proposta influenciou o filme Edukators, mas conheci quem o fizesse na prática.

Quando entrei em contato com o maior terrorista poético do Brasil, Ari Almeida, apesar de estar cometendo meus próprios crimes poéticos, eu pensei que ele iria me ignorar ou me mandar à merda, simplesmente porque eu continuava me interessando por pintura e outras artes comerciais. O discurso que mais zumbiam na minha orelha era o detestável pós-modernismo de faculdade, e me surpreendi ao saber que a radicalidade do Ari, muito mais ampla do que a dos artistas contemporâneos, não precisava da tal da morte da pintura. O grande barato é não se importar com dogma nenhum, e logo notei que mesmo quando nos diferenciávamos nos métodos, nós buscávamos coisas parecidas. Mais surpreso ainda eu fiquei quando ele me disse que adorou um dos meus artigos sobre arte, justamente porque sentiu que eu lhe dava alfinetadas. Era Não-vida e a superação da anti-arte, onde eu tentei distinguir os objetivos de qualquer militância criativa e os das artes plásticas. Fiz isso justamente para evitar essa institucionalização do caos que vejo imperar na arte contemporânea. Afinal, qual o sentido de uma transgressão consentida?

Verdade que meu número de pinturas é maior que o número de ataques que realizei, mas sempre foi uma questão de honra deixar meus atos de terrorismo poético fora do meu portfólio de artista. Eu jamais cobraria nota na faculdade para o que aprontei na rua ou pediria ao Ivo Mesquita para expor na Bienal. O marasmo crítico chegou a tal ponto que eu poderia muito bem fazê-lo e estar em sintonia com o que há de mais "vanguardista", mas me recuso a agir assim por um motivo muito simples. Eu adoraria ver a subversão do cotidiano se espalhar ao máximo, em vez de confiná-la ao meio artistíco. Foram ações não-autoritárias, é bom deixar claro. O que eu fiz nas ruas - ataques críticos-poéticos a shoppings e a lanchonetes - qualquer um que queira se sentir menos passivo pode fazer, e acho que ao menos os jovens deveriam tentar, com a naturalidade de quem combate o próprio tédio.

Ainda assim, confesso que para mim mesmo não é tão fácil entender como posso ter me apaixonado por duas atividades que a princípio parecem concorrer uma contra a outra. Faz sentido se influenciar igualmente por Ari e por Kandinsky? Ou dar atenção a Hakim Bey sem perder de vista Guimarães Rosa? É por isso que a pergunta do título acima não se dirige tanto a Rafael e seu bando. Nem para os grafiteiros alternativos que, segundo o movimento PixAção, traíram a verdadeira arte de rua ao colocarem seus trabalhos à venda. É a mim mesmo que questiono. Como posso realizar pinturas, ou seja, arte em seu sentido mais convencional, depois de já ter deixado Matisse e Miró de lado e ter ido para a rua? Depois de ter despejado a criatividade numa militância muito mais frontal do que a de uma tela? Pior que isso: o que eu devo fazer se, a partir da publicação do Puro Enquanto, a demanda por óleos de Hegenberg se tornar maior que a demanda por óleo de baleia? Moralismos e ideologias à parte, o Ivan de hoje, ainda não muito famoso e com apenas 28 anos, não gostaria de ser desapontado por um Ivan veterano, que ao se afogar em mares de dinheiro se esqueça do quanto a arte pode ser potente. Não posso garantir muito sobre quem eu serei no futuro - e quem é que pode? - mas não acho que todo artista que finalmente consiga viver de arte se esqueça completamente de como era quando começou. Além do mais, para mim não há opção: o que eu crio é sério o bastante para consumir uma quantidade enorme de tempo e energia, a ponto de até hoje eu não ter conseguido conciliar arte com uma profissão estável. Vivo de free-lances para ter algum tempo livre, mas vivo mal. Talvez os moralistas preferissem que eu fosse um artista ainda mais "atitude", que eu passasse a vida inteira sem vender uma peça, mas a obra que eu tenho para criar não é compatível com horários de hobby. Se eu não conseguir transformá-la em ganha-pão, aí sim estarei fazendo a maior concessão: pintar e escrever muito menos do que eu poderia, ficar aquém de onde posso chegar.

Nem por isso acho que os problemas se resolvam tão facilmente. Acho que, apesar das contradições, Rafael aponta para uma angústia genuína. Não seria mal um pouco de humildade da nossa parte: o cara está disposto a enfrentar polícia para dar seu recado, não precisamos pensar que seja tudo encenação. É bom saber que nem tudo é retórica - ainda há quem se incomode quando o comércio sufoca as sempre pequenas possibilidades de a arte permanecer honesta. Não concordo com o autoritarismo de seu método, mas a apatia geral também seria tão triste quanto. É bem provável que Rafael tenha lido a mesma matéria que eu, na Folha de São Paulo da semana passada: o dono da galeria atacada falando de arte como quem fala de ações na bolsa. Baixo Ribeiro, o galerista, demonstrava sua animação com os colecionadores iniciantes que, segundo ele, ganham gosto por arte ao constatar, após um par de anos, que as peças que haviam comprado estão se valorizando. Até o galerista de um espaço alternativo diz que é a rentabilidade que deve levar uma pessoa a apreciar arte? Pensando no quanto o valor de uma obra vem se reduzindo ao seu valor de mercado, também me passa pela cabeça alguma maneira de desestabilizar esse esquema. No entanto, acho que se chega mais longe com um mínimo de sutileza. Aliás, este post já é bem menos sutil do que eu gostaria.Se eu não testemunhasse o quanto não estão entendendo nada, eu não teria que ser tão explícito, não precisaria dizer que a cada artigo que escrevo me parece mais plausível abalar o pregão.

O que vai acontecer quando finalmente os colecionadores perceberem que 90% da arte contemporânea é pura enganação? Isto sim, pode causar muito mais impacto do que a destruição física de algumas pinturas. Muita gente perdendo dinheiro muito rápido - basta deixar claro o que é arte de verdade, para que a desvalorização do que não presta seja estrondosa. O único jeito de fazer isso é através de um pensamento que se mostre mais sofisticado do que os discursos que se ramificaram da anti-arte. Não me parece tão difícil de fazê-lo: se não engolirem o moleque de 28 anos que constatou que a subversão funciona melhor fora do circuito, são muitos os intelectuais mais "respeitáveis" que apontam para a fragilidade da arte pós-moderna. Basta reavivar os melhores livros de Harold Rosenberg. Ou fazer uma leitura decente de Nietzsche, de Lacan, de Deleuze, de qualquer um que tenha pensado o ser humano com este nível de complexidade.

Mas já que queremos todos parecer tão ousados, e já que calhou de eu só conseguir escrever este artigo em um 11 de setembro, termino com uma pequena sugestão para todos os artistas do ressentimento. Em vez de agir só com sinal negativo (sempre moralmente, sempre reclamando de que arte não deveria dar aos mãos ao comércio, etc), por que não agir de forma mais potente, com sinal positivo? Por que não usar o enorme montante que a arte consegue proporcionar a uma pessoa (e, supostamente, uma pessoa com consciência crítica) de uma maneira que desnorteie o status quo? Até o Bin Laden, fanático e anêmico, é mais interessante do que vocês: por mais que ele detestasse os dólares, juntou muitos deles para organizar um ataque eficaz. Longe de mim fazer apologia à violência, mas vocês não conseguem ver que a partir de certo ponto o enfrentamento não se dá mais internamente, não se faz na obra de arte? Nas artes visuais já está mais do que provado que não, o autoritarismo também não interessa, mas e quanto a um terrorismo verdadeiramente... poético?


PS: Mesmo quem não for fiel à deusa da discórdia, peço que faça uma oração para Éris em nome do Ari, que está com um problema grave no rim.

8.28.2008

Orelha de Puro Enquanto

Por Fernando Bonassi


Por enquanto é isso aí... Aqui...

Isso tudo, aliás, é puro enquanto! Por mais que queiramos permanecer...

O tempo passa com essa velocidade de arrepiar. Chega a dar vertigem na paisagem!

É também uma miragem. Há muitos sonhos maus, esperanças desfeitas e mal estares por baixo de toda essa sacanagem consentida...

Então vêm esses malditos pesadelos, amores e autores que nos ensinam aquilo que não gostaríamos de saber. Aliás, é duro de entender quem é mentira enquanto a realidade é produzida pelas agências de propaganda da verdade, onde os produtos humanos exibem esnobes os seus rótulos, mas escondem o prazo de validade. Puro Enquanto faz um ruído no disco do moto contínuo; é um ponto de desencontro com aquilo que viemos nos fazendo...

Assim, puro enquanto é também um rito de passagem para uma outra coisa. Uma crise que seja. Uma espécie de viagem com destino incerto, o certo lugar dos infernos de nós mesmos.

Puro Enquanto deixa esse cheiro esquisito, meio novo e meio antigo, meio fóssil e meio sintético, bem fedido na garganta...

Puro Enquanto é uma caixa de esgoto, ressonância ou de segredos, travestida de armário de cacarecos. É esse desalento desgraçado, embalado por ironias impagáveis. O preço, no entanto, está fechado e acertado com o editor e o livreiro. São mentiras cristalinas, deslavadas e pagas com dez por cento das favas amargas na conta corrente do autor.

Deve, é claro, dar um tranco, ou um treco na mente dos contentes obscuros.

Tem uma coisa masoquista muito sádica também, como convém a quem leu Dostoiéviski desde criancinha.

É uma coisinha diabólica que invoca o próprio diabo mais invocado para esclarecer. O esclarecimento que ele tem, ou dá, no entanto, pode ser duvidoso. É incômoda a poesia do desconforto!

Escrever pode ser gostoso, mas viver é que é perigoso. E Ivan descreve a nossa ignorância muito bem.

Puro enquanto é isso aí, ou aqui... Cada um sabe o que faz... Ou deixa de fazer, mas leia atentamente o que eu te digo: se segure pra torrente desse livro.


Fernando Bonassi é escritor, dramaturgo, roteirista e gosta muito da pegada do Ivan.

Obs: Puro enquanto está quase pronto. Se tudo der certo, sai no final do ano.

A literatura contemporânea segundo Bonassi

Adorei a orelha que o Bonassi escreveu para o Puro Enquanto, que deixei no post logo acima. Para quem quiser saber porque eu me identifico com a escrita dele, recomendo veementemente sua nova peça, Literatura contemporânea. Está em cartaz em São Paulo no SESC Paulista, mas acredito que vá circular pelo Brasil todo.
É um monólogo afiado, interpretado por César Figueiredo, onde se discutem diversos problemas que assolam a atividade do escritor. A dificuldade de se manter resistente quando a escrita é encomendada, os impasses ideológicos, as veleidades (ou frescuras, como ele traduz) e a nostalgia por um tempo em que a literatura parecia mais transformadora. O texto do Bonassi não se rende a facilidades: a tudo isso ele vê de um panorama vasto, pós-utópico, sem esquemas prontos, passeando pelas correntes do pensamento contemporâneo sem que nenhuma se torne camisa-de-força. Ao mesmo tempo - e não fosse isso, não teria graça alguma - ele não absolve nem a si mesmo, sabe rir de si e de seu lado sórdido, permitindo que a literatura não se reduza a mero projeto moralizante.

Vou deixar para vocês um trecho em que ele cutuca os escritores que não passam de representantes da boa consciência:

Um gesto resistente desses terroristas parece mais convincente do que suas páginas moralistas e supostamente revolucionárias... Não que sejam reacionárias, mas é esse "bom senso" que as aniquila... e como o "bom senso" é de todos, há sempre essa vivência emprestada, entendiada, empestada...


Foram tantas as vezes em que eu senti exatamente isso, diante de obras feitas com nada mais do que "boas intenções"...

8.23.2008

Do lado de lá do mundo

Os desafios e contradições da China em transição me fazem lembrar de uma das minhas canções favoritas, China Girl. Parece ter mais a mão de David Bowie que a de Iggy Pop (eles compuseram juntos), mas prefiro a versão do segundo. A canção faz sentido pela sua violência, a começar pela sem-cerimônia com que as guitarras corrompem as tradicionais melodias chinesas. Milênios de cultura de um império soberano são deformados pela invasão pop, e os gritos de Iggy revelam a intensidade de um dilema. Por maior que seja a paixão, (I’m a mess without you), o americano sente que vai arruinar sua amada, ao lhe dar televisão, olhos azuis e um homem que quer dominar o mundo. Ele chega a confessar o lado fascista de seu desejo, as visões de suásticas na mente, no entanto a guitarra prossegue, demolindo os fraseados mais delicados de uma tradição que não lhe pertence. A música é de 1990, início da abertura econômica da China para o ocidente.

Confesso que não é fácil, mas venho tentando entender o que se passa com os 1,3 bilhões de habitantes deste país. Se, por um lado, as projeções de crescimento econômico parecem infalíveis, na política e na cultura o solo é dos mais instáveis. Para começar, o choque de gerações é muito forte. Os velhos ainda reproduzem a moral maoísta, os jovens cada vez mais adquirem valores ocidentais. A mudança de costumes, acelerada pela internet, é bem mais abrupta que nossa revolução sexual dos anos 50 e 60. Hoje os jovens vão para as baladas e fazem sexo casual, ainda que não precisem mais do que abraçar alguém na rua para serem mal vistos por quem viveu outros tempos. Durante a chamada revolução cultural de Mao, não eram permitidas demonstrações de afeto em público, como beijos ou caminhar de mãos dadas. A paixão era considerada um sentimento “burguês" e “contra-revolucionário”, por nos afastar dos interesses coletivos. Mao certamente concordaria com as visões de suásticas da canção, muito mais do que os roqueiros que a compuseram. O moralismo do Partido era tomado a peito pela população, capaz de apedrejar os casais que ostentassem seu romance. Parece folclore mccarthista, mas tamanha era a repressão que muitas pessoas morriam virgens mesmo quando casadas, devido à total ignorância no assunto. Ainda hoje é um problema sério para os sexólogos chineses, por mais que o governo invista em conscientização. A expressão “criado com a avó”, que usamos para descrever alguém assexuado, na China pode significar um adulto que não sabe sequer quais são as partes do corpo envolvidas em um ato sexual.



Não está longe o dia em que a China ultrapassará os EUA e se consolidará como a principal potência econômica mundial. Só não acredito que tão cedo ela possa ocupar o mesmo espaço no imaginário popular, nos empurrando cultura de massa com o mesmo fôlego que a indústria cultural norte-americana. Por enquanto, acontece o oposto: os jovens chineses que têm algum poder aquisitivo se comportam como os brasileiros, preferindo a cultura enlatada dos gringos do que suas raízes ou qualquer coisa mais autêntica. Isto, é claro, para os que podem se regalar com cultura, para os que vivem o lado bom do crescimento chinês. Alguns se tornam milionários rapidamente, outros viverão até o fim uma miséria de terceiro mundo. Supostamente, estão todos contribuindo igualmente para um país "comunista”, mas é pouco provável que essa ideologia tenha a mesma aceitação hoje do que no tempo dos avós. Ficou para trás o tempo em que o maoísmo podia ser recebido como dádiva pela esquerda no mundo todo. Os jovens chineses parecem ver na revolução cultural o mesmo retrocesso que nós vemos hoje; e, em comparação, a abertura para o ocidente parece mesmo com um avanço. Pena que não seja um progresso tão entusiasmante: como a China girl, deixam-se arrebatar pelos americanos.

O preço desta aproximação entre capitalismo avançado e resquícios de ideologia autoritária pode ser mais alto que o de uma Guerra Fria. Em pleno ano olímpico, a China massacra os tibeteanos, e por mais que o ocidente se oponha, não pode fazer nada. A China canta Why don't you just shut your mouth up, tanto para a imprensa local quanto para os demais países, provando que ninguém contraria quem detém um sexto dos consumidores do mundo. Dinheiro jamais se importou com ideologia, do contrário o McDonald’s não poderia ser o restaurante oficial dos Jogos de Pequim. O Partido Comunista também está mais preocupado com dinheiro do que com Marx, já que não se incomoda em firmar parceria com empresas do país que propagou o fordismo. Se o discurso oficial é comunista, na prática temos uma exploração do trabalhador que não se via desde o século XIX. Em um documentário transmitido no GNT, vi cenas de uma fábrica de jeans onde as operárias enfrentam rotinas de até 16 horas seguidas, sem hora extra, ameaçadas de demissão à menor reclamação, sem direitos trabalhistas, ganhando um salário insignificante. As filmagens tiveram que se fazer em segredo, pois qualquer documento que mostre o lado sórdido do país é reprimido com prisões – o que, de fato, aconteceu com alguns integrantes da equipe. E é sob esta pressão que a China vem obtendo um crescimento anual de quase 10%.


Ao McDonald’s não interessam nem a semi-escravidão dos trabalhadores nem o genocídio no Tibete – enquanto as pessoas se sentirem alegres consumindo China Menu, não há problema algum. Em todo o planeta, trabalha-se cada vez mais para ganhar menos, em grande parte por culpa do modelo chinês, que obriga todos seus competidores a nivelarem por baixo. É claro que a China está muito longe daquilo que os comunistas mais simpáticos sonharam – vamos admitir, existem comunistas bem-intencionados, assim como existem padres humanistas. Até mesmo Godard, na minha opinião o cineasta mais inteligente do século XX, caiu nessa, e rodou um filme um tanto idílico, impossivelmente otimista sobre sua chinesa. A revolução cultural era celebrada quando não era compreendida, quando a falta de informação permitia idealizações. Era o lado de lá do mundo, tão distante quanto o paraíso cristão. Ninguém por aqui o conhecia de perto, poderia imaginá-lo como quisesse, era bonito como escape da realidade. Hoje se pode discutir comunismo à vontade em um país como o nosso, que tem algumas liberdades democráticas. Na China, que se diz comunista, não há a menor possibilidade de discutir o que a esquerda tradicional sonha aqui – que o digam as centenas de sociólogos e antropólogos que iriam a um congresso em Pequim, cancelado para abafar qualquer conversa sobre o Tibete.



O capitalismo é insensível e o socialismo real uma desgraça elevada ao quadrado. Então o que fazemos? Agimos cinicamente e aplaudimos a cerimônia das Olimpíadas, depois vamos ao McDonald’s comemorar a união dos povos? Não sou padre, me recuso a pregar. Postura política jamais deveria ser a de um Cristo preso na cruz, deveria vir a cada um sem coação, só assim para dar liberdade de movimentação. No meu caso, venho boicotando produtos Made in China. Não muda muito, mas me sinto menos otário ao fazê-lo. O que se passa na China respinga em você, até mesmo na diminuição do seu salário – não é exagero, não há fatores isolados em uma economia mundializada.

Há alguns anos, evito também os produtos norte-americanos. Se no futebol ou no vôlei torcemos com tanta garra pelo Brasil contra os EUA, por que em política fazemos o contrário? Por que damos tanta moral a um país que nos explora copiosamente? O que os Estados Unidos vêem no Brasil é um reservatório de mão-de-obra barata e consumidores que abrem a perna fácil. Não estou nem mesmo sendo polêmico: não temos um governo como o chinês que nos impeça de falar de problemas evidentes. Ainda assim, reconheço ao menos uma coisa que os americanos criaram que quase compensa todos os filmes kistch, toda a fast-food insípida e os produtos superestimados que eles nos empurram. Eu não me sinto nem um pouco alienado ao dizer que considero o rock mais revolucionário do que qualquer tentativa de se implantar o comunismo. Mesmo quem não gosta do ritmo tem que admitir, a revolução sexual deve muito àqueles primeiros cabeludos. Por outro lado, confronto a teoria política mais doutrinária com maus exemplos como o da China. Que me desculpem todos meus amigos marxistas, mas não há nada que me leve a acreditar que o próximo ditador do proletariado, seja lá em que país surgir (no Brasil não vai ser, duvido muito), finalmente vai ser gentil com os trabalhadores e fazer tudo como manda a utopia. Para mim, isso é messiânico, é a crença em um lado de lá, tão fictício quanto o reino da Cocanha. É esquecer que onde há desejo há vontade de poder. Ou, como na canção de Bowie e Iggy Pop, esquecer que até mesmo um homem apaixonado pode arruinar aquilo que preza – e nem mesmo a consciência política pode impedi-lo. A meu ver, o rock dá conta da condição trágica do ser humano muito melhor do que o comunismo utópico. Basta notar que, por mais que que os roqueiros tenham seu lado maldito, falam de amor em todas suas nuances, ao passo que no comunismo, este se torna um de seus maiores obstáculos. É de desejo que eu quero falar, algo que não tem muito espaço no pensamento marxista.

8.14.2008

Flávia

Há anos eu quase não pensava na Flávia, mas ontem à noite sonhei com ela. Ela que encarnou meus maiores traumas, que me forçou aos mais estrambólicos desvios. Foi há muito tempo, no final do século passado. Já não tenho direito de guardar mágoas, mas só pelo avesso posso me certificar de que se foram. Sonhei que conversávamos em paz. Ela um pouco diferente, com os cabelos roxos, o rosto sereno. Não lembro do que dizíamos um ao outro, exceto uma solenidade madura, meio budista.
 Quem se agitava eram meu pai e meu irmão. Não os convidamos, mas faziam a ronda, presumindo um perigo que não existia. Fingíamos que não estavam ali, como se pertencessem à mera opinião.

Tenho pensado pouco na Flávia, mas penso bastante em Larissa, personagem do Puro Enquanto. Que é meu livro costurado com sonhos. Não há lugar, no livro, para uma Larissa tão suave quanto esta Flávia recente. Larissa é a Flávia que me marcou, mas não sei até que ponto elas coincidem. Confundiram-se por anos nos meus sonhos, hoje entendo que nenhuma das duas foi maldição. Por mais que a traição tenha doído na carne.

Eu a admirava e odiava ao mesmo tempo, pela audácia de dar prazer a mim e ao meu melhor amigo. Logo ela, a primeira mulher a quem eu realmente me entregava. Logo eu, que me sentia sem pai e sem pátria. Que me escorava nos outros para não saber dos pés. Que tinha nos amigos a única religião. Poetas morrem desses males, mas pouco importa, não houve erro. Eu estaria sempre só, a não ser que descobrisse em mim um bocado de deus. Sem metafísica e sem Verdades.

Às vezes me pergunto o que seria de mim se não fossem os abalos. Impossível saber, eis que sou fruto de grandes desvios. Não fossem as verdades e mentiras que tiveram início com Flávia, talvez eu me perdesse na retidão. Não fossem os descaminhos, eu jamais me alinharia. Traição maior teria sido rejeitar o Abismo, que eu tanto receava adentrar.

Não há necessidade de perdoar Flávia, pois pecado não é a melhor palavra. Não foi a mulher mais desonesta com quem me envolvi, tampouco a mais vã. Maior desgosto me causam as que traem a si mesmas. Essas, podem pensar que são respeitáveis, mas em sonho algum merecem perdão por suas faltas.

8.08.2008

E fez-se o escuro!

Conheci na faculdade Sofia Borges, que hoje tem uma boa exposição de fotografias na Maria Antônia. Não é a primeira vez que vejo fotos dela, mas a primeira em que elas me impressionam. Estão mais sombrias, impenetráveis, ao mesmo tempo mais sedutoras do que qualquer outra que ela tenha exposto. Curioso é que, diante desta nova fase, não consigo tirar da cabeça uma conversa que tivemos em um ateliê da ECA, anos atrás. Eu lhe dizia que mal me reconhecia ao olhar para trás, tamanha a velocidade com que vinha me transformando. Ela, completamente cética, insistia que ninguém jamais muda, que a essência é a mesma por toda a vida.


Não posso dizer que conheço a Sofia muito profundamente, mas algo de sua trajetória eu acompanhei, e creio que esta, por si só, derruba a velha crença no essencialismo. Ela se transferiu para as Artes Plásticas partindo de uma faculdade de moda, nem por isso mostrava os trejeitos de quem segue naquela área. Parecia uma boneca, nada afetada mas graciosa, com suas blusas listradas, macacões, o cabelo loiro e os olhos azuis. Suas fotos também eram bastante claras, transmitiam inocência. Mesmo uma série em que ela deixava à mostra seu próprio corpo me parecia singela – fotos pequeninas, ela se enrolando toda em posições fetais, uma nudez que talvez preferisse o útero ao sexo adulto. Com o passar dos anos, uma dissonância começou a se fazer ver em suas imagens, mas ainda com elementos contornáveis, ainda preservando uma ternura reconfortante. O período de transição me pareceu bastante confuso, como que primeiros passos vacilantes. A maneira de se vestir também foi mudando, tornando-se mais dark, embora não fosse nas roupas que a expressão se transformaria com maior contundência.
Com a mostra em cartaz na Maria Antônia, os caminhos que ela se dispõe a percorrer ficam mais evidentes. A distorção das lentes puxando a gravidade para baixo, águas de um verde radioativo, objetos em desencontro, olhares fugidios e corpos que a câmera falha em aprisionar são alguns sinais de seu novo universo. Por mais que o computador entre para manipular todo o conjunto, há uma tensão que o Photoshop não concilia, a beleza maior estando naquilo que a imagem não paralisa. O tempo de exposição é grande, ao menos 15 segundos os modelos se detiveram em pose rígida – em várias imagens o modelo é a própria Sofia – enquanto o espectador, por mais voyeur que seja, mal retém o que se configura diante dos olhos. Há apuro técnico, inclusive tecnologia, e uma estranha harmonia, mas o prazer estético que as fotografias proporcionam nem de longe significa que elas se deixam capturar. Os cenários são banais, quartos de dormir, uma cozinha, uma piscina, um banheiro, no entanto os objetos, sejam utensílios domésticos ou pessoas seminuas, estão cada um em uma temporalidade diferente. A diferença de luminosidade que sofrem denuncia que são incompatíveis, que a coexistência entre as partes é precária – mesmo assim insistem em ressoar umas sobre as outras.
Em uma entrevista, Sofia falou em esquizofrenia ao descrever seu trabalho. Ela não emprega a palavra no sentido mais deleuziano, mesmo assim se percebe a quebra de barreiras, a tal da desterriorialização. É isso o que me entusiasma diante de uma boa obra de arte, o fato de escapar a categorias pré-definidas. Claro que sempre se pode interpretar as imagens de muitas maneiras, e não é fácil saber se cometemos uma violência ou um acréscimo com a incursão intelectual. Pode-se, por exemplo, analisar em um nível metalinguístico: na foto de um quarto de dormir uma cortina é saturada e faz-se tão escura quanto o pano que protege um laboratório fotográfico da luz externa; em outra imagem, Sofia opera um cortador de papel com tamanha ausência de espírito que parece prestes a decepar a mão. Poderíamos enveredar por esse caminho, pela hesitação quanto a renunciar ou não aos aspectos artesanais da criação. Ou então, detendo-se no formalismo: são estabelecidas relações internas entre objetos os mais díspares, em especial o fulgor das costas nuas, de um dourado quase tão metálico quanto uma panela cujo brilho se destaca no meio da pia. Ou psicologicamente: em um banheiro, as toalhas adquirem maior nitidez que o corpo feminino; por mais que o decote esteja aberto, a promessa carnal é tão perturbadora que a mente neurótica tem o foco na higiene. E, se quisermos, temos também a situação política: pode-se falar no quanto toda imagem ludibria seu consumidor, no quanto de mistificação há na imagem que o espectador crê resolvida, capturada, representativa da realidade. No entanto, se houve ao menos 15 segundos de diafragma aberto, o que se passou nesse tempo é muito mais do que o instante apresentado.



O que mais importa não é o enfoque específico, mas o fôlego que tem a obra para nos instigar. Ao situarmos a série de Sofia em um contexto que inclua toda a arte conceitual, o contraste com o que tem sido feito é notável. A quase totalidade dos artistas contemporâneos parece satisfeita em se deixar reduzir por um discurso, por uma “explicação”, em uma perfeita submissão à crítica. A despeito do que a Sofia me disse anos atrás no ateliê da faculdade, suas fotografias me provam que algo se transforma, algo se movimenta para além do previsível. Se não há um impulso desse tipo a obra não sobrevive à dissecação, e torna-se inócuo falar em resistência, torna-se ridículo acreditar que a arte valha mais do que o encarte em anexo. Uma forte intuição parece ter guiado a artista, mais do que a descrição pedagógica de problemas já conhecidos por quem é do meio. Uma boa notícia, diante de obras como a dela, é que a abnegação não tem nada de necessário – ou seja, ninguém precisa se contentar apenas com a forma ou apenas com o conteúdo. Não é preciso ser deleuziano para lamentar que a esquizofrenia, melhor dizendo, o desejo que não se detém nos territórios, pouco tem estimulado os artistas. É somente na confluência de muitos aspectos simultâneos que uma obra não se deixa dominar, e o interessante na série de Sofia Borges é que ali se fez o escuro. Quem já revelou em um laboratório entenderá a parábola: a luz mesmo, quando intensificada, cria zonas de escuridão.



Fotografias – Sofia Borges
visitação 20 jun a 24 ago 2008
ter a sex, das 12h às 21h
sáb, dom e feriados, das 10 às 18h
visitas monitoradas agendamento no 11 3255 7182
entrada gratuita
Local:
Centro Universitário Maria Antonia - USP
Rua Maria Antonia, 294 Vila Buarque
01222 010 São Paulo SP
tel 11 3255 7182
fax 11 3255 3140
E-mail: mariantonia@edu.usp.br
web: http://www.usp.br/mariantonia/

7.30.2008

Reabilitação

Este saiu na edição de julho da Revista E, do SESC. Eu não sabia em que mês iria sair, só me dei conta de que estava impresso quando recebi o e-mail de uma leitora dizendo que sofria do mesmo mal que meu personagem.

REABILITAÇÃO

Bom dia a todos. Meu nome é Marcelo, tenho 32 anos, estou na Associação há dois anos. Após muita luta e coragem, tenho o orgulho de dizer que faz cinco semanas e dois dias que não leio uma única linha de literatura. No começo foi muito difícil, a compulsão falava mais forte, mas com o apoio de todos aqui presentes, estou conseguindo me recuperar desse vício nefasto. A guerra ainda não foi vencida, sei que a possibilidade de uma recaída está sempre nos ameaçando, mas o exemplo de vocês tem me ajudado a seguir o bom caminho e retomar uma vida digna em sociedade. Sou imensamente grato por isso.

Cada um aqui tem uma história pra contar, e cada história pessoal na verdade se abre em mil outras histórias, porque assim é o vício da ficção. Acho que no meu caso, tudo começou com cerca de seis anos de idade. Foi a professora da escolinha que me introduziu a esse universo – lembro-me bem dela, Dona Gilda – me presenteando com um livrinho ilustrado, bonito, sobre as aventuras de João no Pé-de-Feijão. Eu era uma simples criança que nada sabia sobre os perigos dessa vida. Não poderia adivinhar que um gesto tão simpático daquela velhinha de voz macia me levaria para uma trajetória de perdição que com muito custo tento agora deixar para trás. O livro colorido parecia tão inocente, e eu fiquei tão entusiasmado com o João, que não pude oferecer resistência alguma. Fui totalmente tragado pela magia dos feijões que crescem de um dia para o outro sem qualquer explicação, pelo castelo mágico repleto de maravilhas, e, como João, também eu quis derrotar gigantes e dedilhar a harpa de ouro. No começo parece tão bom, não parece? A gente se sente ótimo. Agora, o que mais me deixa revoltado... (ai, me desculpem pelas lágrimas, vou tentar ser mais forte)... o que até hoje eu não consigo entender é como que meus pais não me advertiram. Eu simplesmente não consigo perdoá-los por isso. O caso é que naquele mesmo dia, quando eles chegaram em casa depois do trabalho, eu comentei eufórico que pela primeira vez tinha lido um conto inteirinho, do começo até o fim. E que o João era incrível.

Eu tenho um filhinho pequeno, de dois anos de idade. De uma coisa eu tenho certeza: se um dia meu filho ler um livro desse tipo e me disser que “João é um cara incrível”, eu vou responder que é esse o problema. “Incrível”. Meus pais perderam a oportunidade de me colocar nos eixos, e deixaram que o faz-de-conta ganhasse espaço na minha vida. Posso dizer até mesmo que... (suspiro)... eles ficaram contentes com esse meu “aprendizado”. Disseram que eu tava crescendo. Não é um absurdo? Ali estava eu, pobre criança que se deixou arrebatar pelas ilusões, por uma historinha que nunca existiu, uma mentira descabida, e eles tiveram a pachorra de dizer que eu estava aprendendo, e que eles estavam muito orgulhosos de mim. Será que eles não sabiam que é assim que tudo começa?

A coisa foi crescendo, em pouco tempo eu perderia o controle. Não demorei muito para ler todos os contos de fada da biblioteca da escolinha, e como se isso não bastasse, logo em seguida descobri Monteiro Lobato. E, é claro, eu vibrava com as caçadas de Pedrinho, achava Emília um personagem encantador, e tinha vontade de ir com Narizinho ao Reino das Águas Claras... Dona Benta, então, me era tão querida quanto minha própria avó. São recordações que parecem doces, e eu já vejo no rosto de vocês aqui, meus parceiros nessa luta, um ar de nostalgia – mas nós precisamos ser fortes. Naquela época, não tínhamos a menor noção do perigo que corríamos, mas hoje já temos consciência. Tudo estaria bem melhor agora se fôssemos como as crianças normais, que passam horas na frente da televisão, ou mesmo jogando videogames.

Com menos de dez anos eu já estava desencaminhado, e nem sequer suspeitava. Eu devorava pilhas e pilhas de livros de aventura, das viagens de Gulliver às expedições para Marte, sem falar na paixão que eu tinha pelo suspense do Marcos Rey. Quando, alguns anos depois, a escola nos obrigou a ler Machado de Assis, todos meus colegas torceram o nariz, acharam muito difícil ou chato, mas infelizmente não pude sentir o mesmo desprezo. Para mim, que já era um viciado, aquilo foi simplesmente uma dose mais forte de algo que já havia tomado conta do meu sangue. Não havia mais volta: a acidez daquele bruxo transformou meu olhar, e eu já não podia mais ver as máscaras sociais em sua tranqüilizante superfície. Era tarde demais! Dali em diante, passei a ter um impulso irresistível para desconfiar das aparências, para desvendar a hipocrisia das relações pessoais, e para desvendar o que há por trás dos discursos oficiais. Nem mesmo o médico Fortunato, cuja profissão consiste em ajudar as pessoas, foi poupado por aquele homem tão brilhante e tão ardiloso. Hoje me pergunto, como é que pode uma escola ensinar algo assim? Eles deveriam primar pela comunhão entre as pessoas, pela civilidade, e em vez disso nos oferecem um curso completo de sarcasmo que nos pega desprevenidos. A coisa só iria piorar. Li Crime e castigo vibrando com Raskólnikov, um pérfido assassino; li Bukowski com enorme respeito por um bêbado, só porque ele descreve a miséria com um certo charme; li Lolita e achei magistral uma narrativa indecente sobre um pedófilo. E ainda fiz amigos que me incentivavam a ler cada vez mais! Um pior que o outro, é claro. Estavam todos certos de que a glória da literatura é não ter os limites que nos impomos na realidade, e eu, ingenuamente, concordei com eles.

Quando atingi a vida adulta, a literatura já se tornara uma compulsão. Ao menos tive o bom senso de não prestar Letras, mas, advogado recém-formado, eu cumpria meus deveres o mais rápido possível e reservava horas inteiras à fantasia, para assim escapar do mundo real com todos seus problemas. Continuei a encontrar com meus amigos leitores, mas mal sabíamos manter a conversa no clássico futebol, mulher e piadas sujas: todo encontro descambava para as nossas leituras, para nossos escritores prediletos, sem o menor pudor. Parecia uma doença! A literatura começou a transformar minha escala de valores a tal ponto que a mulher que eu idealizava era ninguém menos que Sherazad. Acreditei que a esposa perfeita seria ela, porque saberia me contar inebriantes histórias por mais de mil e uma noites. Mas creio que eu também teria sido o pobre K., do Castelo, e me deixado escorraçar de bom grado por Frieda; eu teria sido Proust e amado Odette sem arrependimento algum; eu teria sido Riobaldo e me apaixonado em segredo por Diadorim. Eu desejava uma vida impossível e absurda, desde que tivesse a mesma intensidade que eu encontrava nos meus romances prediletos. Pouco importava que o final fosse triste, pois o que me parecia decepcionante era o lugar comum, a falta de poesia.

É claro que pensando assim eu só poderia me tornar um desajustado. Nenhuma namorada me fazia feliz, porque eu sentia sempre que lhes faltava algo, uma aura especial sem a qual me pareciam desbotadas em comparação com as personagens preferidas. E aí está o erro, pois desbotadas só podem ser as criaturas que habitam a celulose, presas entre a capa e a contracapa. Eu bem que deveria me conformar com as maria-gasolinas que estão sempre a mão, e que se pode trocar constantemente sem pensar duas vezes, porque com elas jamais sentimos que se perdeu grande coisa. Eu deveria ser como todo homem saudável, mas não. Eu preferi ser romântico, e procurar alguém que me despertasse um amor maior que a morte, tal como o de Romeu e Julieta. Não poderia dar certo. Também no trabalho, eu fui muito aquém do que poderia, pois eu estava mais preocupado com matérias do intelecto e do espírito do que com as coisas palpáveis. Desperdicei minha juventude com essa bobagem. Eu teria força para trabalhar 14 horas por dia, se eu não achasse mais importante adquirir cultura do que dinheiro. Ponho toda a culpa nos livros que li, sendo que tudo começou com aquele maldito João e o pé de feijão que uma professora me ofereceu com insidiosa doçura, tal como se oferece droga disfarçada numa balinha de côco.

Desculpem-me, eu não queria me exaltar. Se apenas eu tivesse mais cedo encontrado alguém como vocês para me aconselhar, meus caros... Como por exemplo o Guigo, aqui presente, que compreendeu que toda poesia de que precisamos está na bula do Prozac. Ou como o Leonor, que desde que abandonou a literatura conseguiu se focar em objetivos mais altos, e em breve vai conseguir seu primeiro milhão. Ou como o Marcão, que todos conhecem bem, e que tem conquistado o triplo de mulheres desde que deixou para trás a sensibilidade refinada que bem sabemos o quanto costuma atrapalhar.

Infelizmente, eu não tive a sorte de ter amigos como vocês mais cedo, e me deixei levar por uma infinidade de sonhos inúteis. Tenho ainda um longo caminho pela frente. Hoje eu tenho mais cultura do que dinheiro, e não existe banco algum que faça a conversão. Sinto-me deslocado em todas as festas do pessoal do trabalho, porque meu assunto favorito sempre foi, por muitos anos, livros. Ainda não consigo me acostumar com os programas de tevê mais populares, mas sei que só quando eu tiver me habituado à sabedoria humilde das emissoras, poderei me sentir à vontade com as pessoas mais respeitáveis. Ao menos tenho parado de ouvir as reclamações da minha esposa, que antes ameaçava com o divórcio se eu não parasse com a mania de dar valor ao que não leva a lugar algum. Ela é uma pessoa normal e saudável, tanto quanto eu quero ser. Por isso que estou aqui. Sei que meu caso é grave, mas já faz cinco semanas e dois dias que eu não leio uma linha de literatura, e com a ajuda de vocês eu sei que posso me livrar desse mal. Obrigado a todos, era isso o que eu tinha para dizer.