8.28.2008

A literatura contemporânea segundo Bonassi

Adorei a orelha que o Bonassi escreveu para o Puro Enquanto, que deixei no post logo acima. Para quem quiser saber porque eu me identifico com a escrita dele, recomendo veementemente sua nova peça, Literatura contemporânea. Está em cartaz em São Paulo no SESC Paulista, mas acredito que vá circular pelo Brasil todo.
É um monólogo afiado, interpretado por César Figueiredo, onde se discutem diversos problemas que assolam a atividade do escritor. A dificuldade de se manter resistente quando a escrita é encomendada, os impasses ideológicos, as veleidades (ou frescuras, como ele traduz) e a nostalgia por um tempo em que a literatura parecia mais transformadora. O texto do Bonassi não se rende a facilidades: a tudo isso ele vê de um panorama vasto, pós-utópico, sem esquemas prontos, passeando pelas correntes do pensamento contemporâneo sem que nenhuma se torne camisa-de-força. Ao mesmo tempo - e não fosse isso, não teria graça alguma - ele não absolve nem a si mesmo, sabe rir de si e de seu lado sórdido, permitindo que a literatura não se reduza a mero projeto moralizante.

Vou deixar para vocês um trecho em que ele cutuca os escritores que não passam de representantes da boa consciência:

Um gesto resistente desses terroristas parece mais convincente do que suas páginas moralistas e supostamente revolucionárias... Não que sejam reacionárias, mas é esse "bom senso" que as aniquila... e como o "bom senso" é de todos, há sempre essa vivência emprestada, entendiada, empestada...


Foram tantas as vezes em que eu senti exatamente isso, diante de obras feitas com nada mais do que "boas intenções"...

8.23.2008

Do lado de lá do mundo

Os desafios e contradições da China em transição me fazem lembrar de uma das minhas canções favoritas, China Girl. Parece ter mais a mão de David Bowie que a de Iggy Pop (eles compuseram juntos), mas prefiro a versão do segundo. A canção faz sentido pela sua violência, a começar pela sem-cerimônia com que as guitarras corrompem as tradicionais melodias chinesas. Milênios de cultura de um império soberano são deformados pela invasão pop, e os gritos de Iggy revelam a intensidade de um dilema. Por maior que seja a paixão, (I’m a mess without you), o americano sente que vai arruinar sua amada, ao lhe dar televisão, olhos azuis e um homem que quer dominar o mundo. Ele chega a confessar o lado fascista de seu desejo, as visões de suásticas na mente, no entanto a guitarra prossegue, demolindo os fraseados mais delicados de uma tradição que não lhe pertence. A música é de 1990, início da abertura econômica da China para o ocidente.

Confesso que não é fácil, mas venho tentando entender o que se passa com os 1,3 bilhões de habitantes deste país. Se, por um lado, as projeções de crescimento econômico parecem infalíveis, na política e na cultura o solo é dos mais instáveis. Para começar, o choque de gerações é muito forte. Os velhos ainda reproduzem a moral maoísta, os jovens cada vez mais adquirem valores ocidentais. A mudança de costumes, acelerada pela internet, é bem mais abrupta que nossa revolução sexual dos anos 50 e 60. Hoje os jovens vão para as baladas e fazem sexo casual, ainda que não precisem mais do que abraçar alguém na rua para serem mal vistos por quem viveu outros tempos. Durante a chamada revolução cultural de Mao, não eram permitidas demonstrações de afeto em público, como beijos ou caminhar de mãos dadas. A paixão era considerada um sentimento “burguês" e “contra-revolucionário”, por nos afastar dos interesses coletivos. Mao certamente concordaria com as visões de suásticas da canção, muito mais do que os roqueiros que a compuseram. O moralismo do Partido era tomado a peito pela população, capaz de apedrejar os casais que ostentassem seu romance. Parece folclore mccarthista, mas tamanha era a repressão que muitas pessoas morriam virgens mesmo quando casadas, devido à total ignorância no assunto. Ainda hoje é um problema sério para os sexólogos chineses, por mais que o governo invista em conscientização. A expressão “criado com a avó”, que usamos para descrever alguém assexuado, na China pode significar um adulto que não sabe sequer quais são as partes do corpo envolvidas em um ato sexual.



Não está longe o dia em que a China ultrapassará os EUA e se consolidará como a principal potência econômica mundial. Só não acredito que tão cedo ela possa ocupar o mesmo espaço no imaginário popular, nos empurrando cultura de massa com o mesmo fôlego que a indústria cultural norte-americana. Por enquanto, acontece o oposto: os jovens chineses que têm algum poder aquisitivo se comportam como os brasileiros, preferindo a cultura enlatada dos gringos do que suas raízes ou qualquer coisa mais autêntica. Isto, é claro, para os que podem se regalar com cultura, para os que vivem o lado bom do crescimento chinês. Alguns se tornam milionários rapidamente, outros viverão até o fim uma miséria de terceiro mundo. Supostamente, estão todos contribuindo igualmente para um país "comunista”, mas é pouco provável que essa ideologia tenha a mesma aceitação hoje do que no tempo dos avós. Ficou para trás o tempo em que o maoísmo podia ser recebido como dádiva pela esquerda no mundo todo. Os jovens chineses parecem ver na revolução cultural o mesmo retrocesso que nós vemos hoje; e, em comparação, a abertura para o ocidente parece mesmo com um avanço. Pena que não seja um progresso tão entusiasmante: como a China girl, deixam-se arrebatar pelos americanos.

O preço desta aproximação entre capitalismo avançado e resquícios de ideologia autoritária pode ser mais alto que o de uma Guerra Fria. Em pleno ano olímpico, a China massacra os tibeteanos, e por mais que o ocidente se oponha, não pode fazer nada. A China canta Why don't you just shut your mouth up, tanto para a imprensa local quanto para os demais países, provando que ninguém contraria quem detém um sexto dos consumidores do mundo. Dinheiro jamais se importou com ideologia, do contrário o McDonald’s não poderia ser o restaurante oficial dos Jogos de Pequim. O Partido Comunista também está mais preocupado com dinheiro do que com Marx, já que não se incomoda em firmar parceria com empresas do país que propagou o fordismo. Se o discurso oficial é comunista, na prática temos uma exploração do trabalhador que não se via desde o século XIX. Em um documentário transmitido no GNT, vi cenas de uma fábrica de jeans onde as operárias enfrentam rotinas de até 16 horas seguidas, sem hora extra, ameaçadas de demissão à menor reclamação, sem direitos trabalhistas, ganhando um salário insignificante. As filmagens tiveram que se fazer em segredo, pois qualquer documento que mostre o lado sórdido do país é reprimido com prisões – o que, de fato, aconteceu com alguns integrantes da equipe. E é sob esta pressão que a China vem obtendo um crescimento anual de quase 10%.


Ao McDonald’s não interessam nem a semi-escravidão dos trabalhadores nem o genocídio no Tibete – enquanto as pessoas se sentirem alegres consumindo China Menu, não há problema algum. Em todo o planeta, trabalha-se cada vez mais para ganhar menos, em grande parte por culpa do modelo chinês, que obriga todos seus competidores a nivelarem por baixo. É claro que a China está muito longe daquilo que os comunistas mais simpáticos sonharam – vamos admitir, existem comunistas bem-intencionados, assim como existem padres humanistas. Até mesmo Godard, na minha opinião o cineasta mais inteligente do século XX, caiu nessa, e rodou um filme um tanto idílico, impossivelmente otimista sobre sua chinesa. A revolução cultural era celebrada quando não era compreendida, quando a falta de informação permitia idealizações. Era o lado de lá do mundo, tão distante quanto o paraíso cristão. Ninguém por aqui o conhecia de perto, poderia imaginá-lo como quisesse, era bonito como escape da realidade. Hoje se pode discutir comunismo à vontade em um país como o nosso, que tem algumas liberdades democráticas. Na China, que se diz comunista, não há a menor possibilidade de discutir o que a esquerda tradicional sonha aqui – que o digam as centenas de sociólogos e antropólogos que iriam a um congresso em Pequim, cancelado para abafar qualquer conversa sobre o Tibete.



O capitalismo é insensível e o socialismo real uma desgraça elevada ao quadrado. Então o que fazemos? Agimos cinicamente e aplaudimos a cerimônia das Olimpíadas, depois vamos ao McDonald’s comemorar a união dos povos? Não sou padre, me recuso a pregar. Postura política jamais deveria ser a de um Cristo preso na cruz, deveria vir a cada um sem coação, só assim para dar liberdade de movimentação. No meu caso, venho boicotando produtos Made in China. Não muda muito, mas me sinto menos otário ao fazê-lo. O que se passa na China respinga em você, até mesmo na diminuição do seu salário – não é exagero, não há fatores isolados em uma economia mundializada.

Há alguns anos, evito também os produtos norte-americanos. Se no futebol ou no vôlei torcemos com tanta garra pelo Brasil contra os EUA, por que em política fazemos o contrário? Por que damos tanta moral a um país que nos explora copiosamente? O que os Estados Unidos vêem no Brasil é um reservatório de mão-de-obra barata e consumidores que abrem a perna fácil. Não estou nem mesmo sendo polêmico: não temos um governo como o chinês que nos impeça de falar de problemas evidentes. Ainda assim, reconheço ao menos uma coisa que os americanos criaram que quase compensa todos os filmes kistch, toda a fast-food insípida e os produtos superestimados que eles nos empurram. Eu não me sinto nem um pouco alienado ao dizer que considero o rock mais revolucionário do que qualquer tentativa de se implantar o comunismo. Mesmo quem não gosta do ritmo tem que admitir, a revolução sexual deve muito àqueles primeiros cabeludos. Por outro lado, confronto a teoria política mais doutrinária com maus exemplos como o da China. Que me desculpem todos meus amigos marxistas, mas não há nada que me leve a acreditar que o próximo ditador do proletariado, seja lá em que país surgir (no Brasil não vai ser, duvido muito), finalmente vai ser gentil com os trabalhadores e fazer tudo como manda a utopia. Para mim, isso é messiânico, é a crença em um lado de lá, tão fictício quanto o reino da Cocanha. É esquecer que onde há desejo há vontade de poder. Ou, como na canção de Bowie e Iggy Pop, esquecer que até mesmo um homem apaixonado pode arruinar aquilo que preza – e nem mesmo a consciência política pode impedi-lo. A meu ver, o rock dá conta da condição trágica do ser humano muito melhor do que o comunismo utópico. Basta notar que, por mais que que os roqueiros tenham seu lado maldito, falam de amor em todas suas nuances, ao passo que no comunismo, este se torna um de seus maiores obstáculos. É de desejo que eu quero falar, algo que não tem muito espaço no pensamento marxista.

8.14.2008

Flávia

Há anos eu quase não pensava na Flávia, mas ontem à noite sonhei com ela. Ela que encarnou meus maiores traumas, que me forçou aos mais estrambólicos desvios. Foi há muito tempo, no final do século passado. Já não tenho direito de guardar mágoas, mas só pelo avesso posso me certificar de que se foram. Sonhei que conversávamos em paz. Ela um pouco diferente, com os cabelos roxos, o rosto sereno. Não lembro do que dizíamos um ao outro, exceto uma solenidade madura, meio budista.
 Quem se agitava eram meu pai e meu irmão. Não os convidamos, mas faziam a ronda, presumindo um perigo que não existia. Fingíamos que não estavam ali, como se pertencessem à mera opinião.

Tenho pensado pouco na Flávia, mas penso bastante em Larissa, personagem do Puro Enquanto. Que é meu livro costurado com sonhos. Não há lugar, no livro, para uma Larissa tão suave quanto esta Flávia recente. Larissa é a Flávia que me marcou, mas não sei até que ponto elas coincidem. Confundiram-se por anos nos meus sonhos, hoje entendo que nenhuma das duas foi maldição. Por mais que a traição tenha doído na carne.

Eu a admirava e odiava ao mesmo tempo, pela audácia de dar prazer a mim e ao meu melhor amigo. Logo ela, a primeira mulher a quem eu realmente me entregava. Logo eu, que me sentia sem pai e sem pátria. Que me escorava nos outros para não saber dos pés. Que tinha nos amigos a única religião. Poetas morrem desses males, mas pouco importa, não houve erro. Eu estaria sempre só, a não ser que descobrisse em mim um bocado de deus. Sem metafísica e sem Verdades.

Às vezes me pergunto o que seria de mim se não fossem os abalos. Impossível saber, eis que sou fruto de grandes desvios. Não fossem as verdades e mentiras que tiveram início com Flávia, talvez eu me perdesse na retidão. Não fossem os descaminhos, eu jamais me alinharia. Traição maior teria sido rejeitar o Abismo, que eu tanto receava adentrar.

Não há necessidade de perdoar Flávia, pois pecado não é a melhor palavra. Não foi a mulher mais desonesta com quem me envolvi, tampouco a mais vã. Maior desgosto me causam as que traem a si mesmas. Essas, podem pensar que são respeitáveis, mas em sonho algum merecem perdão por suas faltas.

8.08.2008

E fez-se o escuro!

Conheci na faculdade Sofia Borges, que hoje tem uma boa exposição de fotografias na Maria Antônia. Não é a primeira vez que vejo fotos dela, mas a primeira em que elas me impressionam. Estão mais sombrias, impenetráveis, ao mesmo tempo mais sedutoras do que qualquer outra que ela tenha exposto. Curioso é que, diante desta nova fase, não consigo tirar da cabeça uma conversa que tivemos em um ateliê da ECA, anos atrás. Eu lhe dizia que mal me reconhecia ao olhar para trás, tamanha a velocidade com que vinha me transformando. Ela, completamente cética, insistia que ninguém jamais muda, que a essência é a mesma por toda a vida.


Não posso dizer que conheço a Sofia muito profundamente, mas algo de sua trajetória eu acompanhei, e creio que esta, por si só, derruba a velha crença no essencialismo. Ela se transferiu para as Artes Plásticas partindo de uma faculdade de moda, nem por isso mostrava os trejeitos de quem segue naquela área. Parecia uma boneca, nada afetada mas graciosa, com suas blusas listradas, macacões, o cabelo loiro e os olhos azuis. Suas fotos também eram bastante claras, transmitiam inocência. Mesmo uma série em que ela deixava à mostra seu próprio corpo me parecia singela – fotos pequeninas, ela se enrolando toda em posições fetais, uma nudez que talvez preferisse o útero ao sexo adulto. Com o passar dos anos, uma dissonância começou a se fazer ver em suas imagens, mas ainda com elementos contornáveis, ainda preservando uma ternura reconfortante. O período de transição me pareceu bastante confuso, como que primeiros passos vacilantes. A maneira de se vestir também foi mudando, tornando-se mais dark, embora não fosse nas roupas que a expressão se transformaria com maior contundência.
Com a mostra em cartaz na Maria Antônia, os caminhos que ela se dispõe a percorrer ficam mais evidentes. A distorção das lentes puxando a gravidade para baixo, águas de um verde radioativo, objetos em desencontro, olhares fugidios e corpos que a câmera falha em aprisionar são alguns sinais de seu novo universo. Por mais que o computador entre para manipular todo o conjunto, há uma tensão que o Photoshop não concilia, a beleza maior estando naquilo que a imagem não paralisa. O tempo de exposição é grande, ao menos 15 segundos os modelos se detiveram em pose rígida – em várias imagens o modelo é a própria Sofia – enquanto o espectador, por mais voyeur que seja, mal retém o que se configura diante dos olhos. Há apuro técnico, inclusive tecnologia, e uma estranha harmonia, mas o prazer estético que as fotografias proporcionam nem de longe significa que elas se deixam capturar. Os cenários são banais, quartos de dormir, uma cozinha, uma piscina, um banheiro, no entanto os objetos, sejam utensílios domésticos ou pessoas seminuas, estão cada um em uma temporalidade diferente. A diferença de luminosidade que sofrem denuncia que são incompatíveis, que a coexistência entre as partes é precária – mesmo assim insistem em ressoar umas sobre as outras.
Em uma entrevista, Sofia falou em esquizofrenia ao descrever seu trabalho. Ela não emprega a palavra no sentido mais deleuziano, mesmo assim se percebe a quebra de barreiras, a tal da desterriorialização. É isso o que me entusiasma diante de uma boa obra de arte, o fato de escapar a categorias pré-definidas. Claro que sempre se pode interpretar as imagens de muitas maneiras, e não é fácil saber se cometemos uma violência ou um acréscimo com a incursão intelectual. Pode-se, por exemplo, analisar em um nível metalinguístico: na foto de um quarto de dormir uma cortina é saturada e faz-se tão escura quanto o pano que protege um laboratório fotográfico da luz externa; em outra imagem, Sofia opera um cortador de papel com tamanha ausência de espírito que parece prestes a decepar a mão. Poderíamos enveredar por esse caminho, pela hesitação quanto a renunciar ou não aos aspectos artesanais da criação. Ou então, detendo-se no formalismo: são estabelecidas relações internas entre objetos os mais díspares, em especial o fulgor das costas nuas, de um dourado quase tão metálico quanto uma panela cujo brilho se destaca no meio da pia. Ou psicologicamente: em um banheiro, as toalhas adquirem maior nitidez que o corpo feminino; por mais que o decote esteja aberto, a promessa carnal é tão perturbadora que a mente neurótica tem o foco na higiene. E, se quisermos, temos também a situação política: pode-se falar no quanto toda imagem ludibria seu consumidor, no quanto de mistificação há na imagem que o espectador crê resolvida, capturada, representativa da realidade. No entanto, se houve ao menos 15 segundos de diafragma aberto, o que se passou nesse tempo é muito mais do que o instante apresentado.



O que mais importa não é o enfoque específico, mas o fôlego que tem a obra para nos instigar. Ao situarmos a série de Sofia em um contexto que inclua toda a arte conceitual, o contraste com o que tem sido feito é notável. A quase totalidade dos artistas contemporâneos parece satisfeita em se deixar reduzir por um discurso, por uma “explicação”, em uma perfeita submissão à crítica. A despeito do que a Sofia me disse anos atrás no ateliê da faculdade, suas fotografias me provam que algo se transforma, algo se movimenta para além do previsível. Se não há um impulso desse tipo a obra não sobrevive à dissecação, e torna-se inócuo falar em resistência, torna-se ridículo acreditar que a arte valha mais do que o encarte em anexo. Uma forte intuição parece ter guiado a artista, mais do que a descrição pedagógica de problemas já conhecidos por quem é do meio. Uma boa notícia, diante de obras como a dela, é que a abnegação não tem nada de necessário – ou seja, ninguém precisa se contentar apenas com a forma ou apenas com o conteúdo. Não é preciso ser deleuziano para lamentar que a esquizofrenia, melhor dizendo, o desejo que não se detém nos territórios, pouco tem estimulado os artistas. É somente na confluência de muitos aspectos simultâneos que uma obra não se deixa dominar, e o interessante na série de Sofia Borges é que ali se fez o escuro. Quem já revelou em um laboratório entenderá a parábola: a luz mesmo, quando intensificada, cria zonas de escuridão.



Fotografias – Sofia Borges
visitação 20 jun a 24 ago 2008
ter a sex, das 12h às 21h
sáb, dom e feriados, das 10 às 18h
visitas monitoradas agendamento no 11 3255 7182
entrada gratuita
Local:
Centro Universitário Maria Antonia - USP
Rua Maria Antonia, 294 Vila Buarque
01222 010 São Paulo SP
tel 11 3255 7182
fax 11 3255 3140
E-mail: mariantonia@edu.usp.br
web: http://www.usp.br/mariantonia/

7.30.2008

Reabilitação

Este saiu na edição de julho da Revista E, do SESC. Eu não sabia em que mês iria sair, só me dei conta de que estava impresso quando recebi o e-mail de uma leitora dizendo que sofria do mesmo mal que meu personagem.

REABILITAÇÃO

Bom dia a todos. Meu nome é Marcelo, tenho 32 anos, estou na Associação há dois anos. Após muita luta e coragem, tenho o orgulho de dizer que faz cinco semanas e dois dias que não leio uma única linha de literatura. No começo foi muito difícil, a compulsão falava mais forte, mas com o apoio de todos aqui presentes, estou conseguindo me recuperar desse vício nefasto. A guerra ainda não foi vencida, sei que a possibilidade de uma recaída está sempre nos ameaçando, mas o exemplo de vocês tem me ajudado a seguir o bom caminho e retomar uma vida digna em sociedade. Sou imensamente grato por isso.

Cada um aqui tem uma história pra contar, e cada história pessoal na verdade se abre em mil outras histórias, porque assim é o vício da ficção. Acho que no meu caso, tudo começou com cerca de seis anos de idade. Foi a professora da escolinha que me introduziu a esse universo – lembro-me bem dela, Dona Gilda – me presenteando com um livrinho ilustrado, bonito, sobre as aventuras de João no Pé-de-Feijão. Eu era uma simples criança que nada sabia sobre os perigos dessa vida. Não poderia adivinhar que um gesto tão simpático daquela velhinha de voz macia me levaria para uma trajetória de perdição que com muito custo tento agora deixar para trás. O livro colorido parecia tão inocente, e eu fiquei tão entusiasmado com o João, que não pude oferecer resistência alguma. Fui totalmente tragado pela magia dos feijões que crescem de um dia para o outro sem qualquer explicação, pelo castelo mágico repleto de maravilhas, e, como João, também eu quis derrotar gigantes e dedilhar a harpa de ouro. No começo parece tão bom, não parece? A gente se sente ótimo. Agora, o que mais me deixa revoltado... (ai, me desculpem pelas lágrimas, vou tentar ser mais forte)... o que até hoje eu não consigo entender é como que meus pais não me advertiram. Eu simplesmente não consigo perdoá-los por isso. O caso é que naquele mesmo dia, quando eles chegaram em casa depois do trabalho, eu comentei eufórico que pela primeira vez tinha lido um conto inteirinho, do começo até o fim. E que o João era incrível.

Eu tenho um filhinho pequeno, de dois anos de idade. De uma coisa eu tenho certeza: se um dia meu filho ler um livro desse tipo e me disser que “João é um cara incrível”, eu vou responder que é esse o problema. “Incrível”. Meus pais perderam a oportunidade de me colocar nos eixos, e deixaram que o faz-de-conta ganhasse espaço na minha vida. Posso dizer até mesmo que... (suspiro)... eles ficaram contentes com esse meu “aprendizado”. Disseram que eu tava crescendo. Não é um absurdo? Ali estava eu, pobre criança que se deixou arrebatar pelas ilusões, por uma historinha que nunca existiu, uma mentira descabida, e eles tiveram a pachorra de dizer que eu estava aprendendo, e que eles estavam muito orgulhosos de mim. Será que eles não sabiam que é assim que tudo começa?

A coisa foi crescendo, em pouco tempo eu perderia o controle. Não demorei muito para ler todos os contos de fada da biblioteca da escolinha, e como se isso não bastasse, logo em seguida descobri Monteiro Lobato. E, é claro, eu vibrava com as caçadas de Pedrinho, achava Emília um personagem encantador, e tinha vontade de ir com Narizinho ao Reino das Águas Claras... Dona Benta, então, me era tão querida quanto minha própria avó. São recordações que parecem doces, e eu já vejo no rosto de vocês aqui, meus parceiros nessa luta, um ar de nostalgia – mas nós precisamos ser fortes. Naquela época, não tínhamos a menor noção do perigo que corríamos, mas hoje já temos consciência. Tudo estaria bem melhor agora se fôssemos como as crianças normais, que passam horas na frente da televisão, ou mesmo jogando videogames.

Com menos de dez anos eu já estava desencaminhado, e nem sequer suspeitava. Eu devorava pilhas e pilhas de livros de aventura, das viagens de Gulliver às expedições para Marte, sem falar na paixão que eu tinha pelo suspense do Marcos Rey. Quando, alguns anos depois, a escola nos obrigou a ler Machado de Assis, todos meus colegas torceram o nariz, acharam muito difícil ou chato, mas infelizmente não pude sentir o mesmo desprezo. Para mim, que já era um viciado, aquilo foi simplesmente uma dose mais forte de algo que já havia tomado conta do meu sangue. Não havia mais volta: a acidez daquele bruxo transformou meu olhar, e eu já não podia mais ver as máscaras sociais em sua tranqüilizante superfície. Era tarde demais! Dali em diante, passei a ter um impulso irresistível para desconfiar das aparências, para desvendar a hipocrisia das relações pessoais, e para desvendar o que há por trás dos discursos oficiais. Nem mesmo o médico Fortunato, cuja profissão consiste em ajudar as pessoas, foi poupado por aquele homem tão brilhante e tão ardiloso. Hoje me pergunto, como é que pode uma escola ensinar algo assim? Eles deveriam primar pela comunhão entre as pessoas, pela civilidade, e em vez disso nos oferecem um curso completo de sarcasmo que nos pega desprevenidos. A coisa só iria piorar. Li Crime e castigo vibrando com Raskólnikov, um pérfido assassino; li Bukowski com enorme respeito por um bêbado, só porque ele descreve a miséria com um certo charme; li Lolita e achei magistral uma narrativa indecente sobre um pedófilo. E ainda fiz amigos que me incentivavam a ler cada vez mais! Um pior que o outro, é claro. Estavam todos certos de que a glória da literatura é não ter os limites que nos impomos na realidade, e eu, ingenuamente, concordei com eles.

Quando atingi a vida adulta, a literatura já se tornara uma compulsão. Ao menos tive o bom senso de não prestar Letras, mas, advogado recém-formado, eu cumpria meus deveres o mais rápido possível e reservava horas inteiras à fantasia, para assim escapar do mundo real com todos seus problemas. Continuei a encontrar com meus amigos leitores, mas mal sabíamos manter a conversa no clássico futebol, mulher e piadas sujas: todo encontro descambava para as nossas leituras, para nossos escritores prediletos, sem o menor pudor. Parecia uma doença! A literatura começou a transformar minha escala de valores a tal ponto que a mulher que eu idealizava era ninguém menos que Sherazad. Acreditei que a esposa perfeita seria ela, porque saberia me contar inebriantes histórias por mais de mil e uma noites. Mas creio que eu também teria sido o pobre K., do Castelo, e me deixado escorraçar de bom grado por Frieda; eu teria sido Proust e amado Odette sem arrependimento algum; eu teria sido Riobaldo e me apaixonado em segredo por Diadorim. Eu desejava uma vida impossível e absurda, desde que tivesse a mesma intensidade que eu encontrava nos meus romances prediletos. Pouco importava que o final fosse triste, pois o que me parecia decepcionante era o lugar comum, a falta de poesia.

É claro que pensando assim eu só poderia me tornar um desajustado. Nenhuma namorada me fazia feliz, porque eu sentia sempre que lhes faltava algo, uma aura especial sem a qual me pareciam desbotadas em comparação com as personagens preferidas. E aí está o erro, pois desbotadas só podem ser as criaturas que habitam a celulose, presas entre a capa e a contracapa. Eu bem que deveria me conformar com as maria-gasolinas que estão sempre a mão, e que se pode trocar constantemente sem pensar duas vezes, porque com elas jamais sentimos que se perdeu grande coisa. Eu deveria ser como todo homem saudável, mas não. Eu preferi ser romântico, e procurar alguém que me despertasse um amor maior que a morte, tal como o de Romeu e Julieta. Não poderia dar certo. Também no trabalho, eu fui muito aquém do que poderia, pois eu estava mais preocupado com matérias do intelecto e do espírito do que com as coisas palpáveis. Desperdicei minha juventude com essa bobagem. Eu teria força para trabalhar 14 horas por dia, se eu não achasse mais importante adquirir cultura do que dinheiro. Ponho toda a culpa nos livros que li, sendo que tudo começou com aquele maldito João e o pé de feijão que uma professora me ofereceu com insidiosa doçura, tal como se oferece droga disfarçada numa balinha de côco.

Desculpem-me, eu não queria me exaltar. Se apenas eu tivesse mais cedo encontrado alguém como vocês para me aconselhar, meus caros... Como por exemplo o Guigo, aqui presente, que compreendeu que toda poesia de que precisamos está na bula do Prozac. Ou como o Leonor, que desde que abandonou a literatura conseguiu se focar em objetivos mais altos, e em breve vai conseguir seu primeiro milhão. Ou como o Marcão, que todos conhecem bem, e que tem conquistado o triplo de mulheres desde que deixou para trás a sensibilidade refinada que bem sabemos o quanto costuma atrapalhar.

Infelizmente, eu não tive a sorte de ter amigos como vocês mais cedo, e me deixei levar por uma infinidade de sonhos inúteis. Tenho ainda um longo caminho pela frente. Hoje eu tenho mais cultura do que dinheiro, e não existe banco algum que faça a conversão. Sinto-me deslocado em todas as festas do pessoal do trabalho, porque meu assunto favorito sempre foi, por muitos anos, livros. Ainda não consigo me acostumar com os programas de tevê mais populares, mas sei que só quando eu tiver me habituado à sabedoria humilde das emissoras, poderei me sentir à vontade com as pessoas mais respeitáveis. Ao menos tenho parado de ouvir as reclamações da minha esposa, que antes ameaçava com o divórcio se eu não parasse com a mania de dar valor ao que não leva a lugar algum. Ela é uma pessoa normal e saudável, tanto quanto eu quero ser. Por isso que estou aqui. Sei que meu caso é grave, mas já faz cinco semanas e dois dias que eu não leio uma linha de literatura, e com a ajuda de vocês eu sei que posso me livrar desse mal. Obrigado a todos, era isso o que eu tinha para dizer.

7.19.2008

Márcia Denser, querida maldita


Alguns artistas estão à frente de seu tempo, mas no caso de Márcia Denser foi um pouco diferente. Estreou em 1976, época de contestação, época de experimentação e de “desbunde”. Com vinte e poucos anos já possuía uma prosa cortante e precisa, com a qual não passou desapercebida. Sem pudor ou hesitação, arrastava o leitor para recônditos onde prazer e queda se confundiam, afirmando-se como uma das escritoras mais perversas da literatura brasileira. Dona de uma narrativa ao mesmo tempo sofisticada e sem frescuras, pôde dialogar com seu próprio tempo, quando em meio à vontade de ruptura havia lugar até mesmo para a sordidez. É estranho pensar que ela tenha passado um bom tempo num semi-esquecimento, após tantos elogios que lhe renderam Paulo Francis, Rubem Fonseca e tantos outros que fizeram sua fortuna crítica. Em boa parte a responsável foi ela mesma, que passou anos sem publicar, sem dar à luz filhos novos. Mas apenas em parte essa explicação é convincente. Ao pensar em nossa época, a impressão é a de que a liberdade que Márcia incitava, a musa dark dos anos 70 e 80, sofreu um recuo generalizado. Alguma coisa se perdeu de trinta anos para cá, os estômagos estão mais fracos.
Uma falta de ousadia, talvez. Não cortes de cabelos, gírias ou piercings na língua. Mas uma sinceridade maior, quase suicida. Inocência, ainda que pelo avesso. Hoje até mesmo cantoras de axé vestem calças de couro, a rebeldia faz parte dos cálculos, inclusive os escândalos, mas não se encontra quem suporte estar acima da opinião mundana. No caso de Denser, porém, temos uma escritora que não entrega o que seu leitor pede, preferindo cometer delitos inafiançáveis contra o mundo e contra si. Creio que somente Mirisola, para o bem e para o mal, vem realizando uma façanha semelhante. À parte a diferença de gênero, os temas de ambos são praticamente os mesmos: sexo cafajeste, cinismo constante, solidão, frustrações na busca por amor, comportamento niilista, e uma crítica feroz que termina em desprezo por todos, a começar por aqueles que levam para a cama. Diante de uma empreitada dessas, não é surpresa que Márcia jamais tenha recebido um prêmio, ou que até hoje Mirisola apanhe da crítica a cada livro, por mais que os dois exibam um primor técnico que tranquilamente os colocaria entre aqueles que melhor dominam a língua portuguesa.
Márcia recorre com freqüência a longos períodos, muitas vezes ocupando um parágrafo inteiro, onde a profusão de sensações nos apresenta um universo pessoal que somente a inteligência e a poesia salvam do colapso. Ela extrai do ritmo uma expressividade que poucas vezes se vê na literatura, sabendo controlar a velocidade e variar as tensões. Há escritores que conhecem muito bem a forma, outros que exploram o conteúdo com vigor, e mesmo os que sabem lidar com as duas coisas; mas é raro quem conheça tão bem a relação íntima, orgânica, entre uma e outra. Seu ambiente natural é o conto, onde realiza a arquitetura de maneira tão cuidadosa que citar trechos isolados não faria jus ao edifício. Quem acaso nunca leu Diana caçadora, sua obra-prima, que procure um exemplar e confira. É uma injustiça que este livro não seja considerado tão obrigatório quanto, por exemplo, Obscena Senhora D da Hilda Hilst.
Tal como em Henry Miller, é seu próprio corpo que emerge das páginas, fazendo das palavras um jogo contínuo de sedução. Ao aproximar o carnal e o sublime, ela nos oferece uma escrita que é toda potência e audácia. Como revelou recentemente, houve um momento em que ela se confundiu com a personagem, Diana Marini, o que talvez nos ajude a entender como seus contos nos parecem tão vivos. Há quem se choque com tudo o que ela viveu: os porres, os desaforos, as drogas e o repertório eclético que abarca latin lovers, poetas picaretas, mecânicos, burocratas, escritores de renome, motoqueiros, jovens tietes, entre outros. Ela foi fiel aos seus desejos, não se limitando a um nicho específico, superando seus próprios preconceitos. Quantas pessoas conhecemos, hoje, que se permitem tamanha entrega, seja na vida ou na arte?
Se, no conto Tigresa, ela mostra o quanto se decepcionou com a juventude dos anos 80, uma geração depois da sua, gostaria muito de saber o que ela pensaria da minha. De modo geral, o que tenho encontrado nas baladas e botecos é gente ainda mais previsível, mais blasée, apática, e que está sempre incorrendo no velho problema da forma desconectada do conteúdo... Inadvertidamente, eis que me vejo correndo o enorme risco de me deixar embriagar por La Denser. Aconteceu ao longo do artigo, sem qualquer prevenção: percebo-me desprezando dois terços da humanidade e odiando o terço restante, tal como ela admitiu em seu encontro com Fernando Coelho/Lobo Antunes. Deve ser por isso que ela nunca ganhou um prêmio, já que definitivamente desperta nosso pior lado.
Não creio, porém, que a crueldade seja a força motriz de sua poética, nem de sua vida. Um conto que nos ajuda a compreendê-la melhor é O animal dos motéis. Os espelhos no teto nos apresentam um casal no motel que se satisfaz fisicamente, apesar de não terem uma comunicação que vá muito além disso. Diana tenta puxar conversa e alude a uma história de Hemingway, em que um toureiro precisa acertar sua espada no local exato do dorso do animal. O ponto é do tamanho de uma moeda de prata - um toureiro experiente não costuma errar, porém este falha consecutivamente . Logo vemos que se trata de uma parábola sobre o amor. Tanto no amor como na tourada, não seria diferente a precisão necessária para acertar esse ponto exato em que o bicho é subjugado pelo homem. Cito apenas um trecho: Como se fosse possível o amor, como se fosse muito fácil, muito simples. Possível. Fácil. Simples. Do tamanho de uma moeda de prata. Uma fresta úmida. O ponto exato. Amor. Segundo Diana, o toureiro passa muito perto da morte por várias vezes, mas sequer a "merecia". Amor e morte aqui são colocados em equivalência, e tendo Márcia seu lado mistíco, não é bobagem pensar numa ressonância de Kali, a um só tempo deusa-mãe e ceifadora.
Por mais que se trate de uma femme fatale, em todas as narrativas de Márcia notamos uma vontade de compreensão mútua, de carinho, de entrega a dois. Contudo, esse anseio acaba invariavelmente frustrado, e o conto se faz uma tentativa de lidar com a decepção. O maior problema é que talvez o amor seja parecido com a morte: é preciso abdicar de algo para existir em par. O pré-requisito seria um abandono de si – mas Márcia é essa raridade, uma escritora que não faz concessão alguma, que não quer mentiras, que nem mesmo para se proteger se afasta de sua verdade. Ela se deixa arranhar pelos chifres do touro, é pisoteada pelos cavalos, sangra, flerta com a morte, e apesar de tudo continua procurando o ponto exato. Não o encontra porque não merecia? O tamanho é o de uma moeda de prata, o que logo de cara exclui andar de mãos dadas e o sentimento longe, em outro país, outro tempo, como em tantos relacionamentos que só parecem amor para quem vê de fora. Márcia não quer uma sodoma de mentiras, tampouco se abster de enfiar a mão nas gangrenas alheias, senti-las como suas. Por mais frenética que seja a caçadora, encontrar o buraco negro, o corte no tempo ao atravessar a carne é projeto temerário. O mais próximo do abandono fatal que ela atingia era o orgasmo, por isso a caça constante, que nem sempre requer afinidade especial com o parceiro – e daí tanto desprezo após o ato. No entanto, na literatura, jamais dissociada da vida, ela consegue se prolongar, dar um passo a mais, e construir com as palavras um encontro com toda a plenitude que lhe foi negada. O absoluto não está na trama, na ação, menos ainda nas personagens – mas no próprio erotismo de sua linguagem.
Há pouco tempo foi lançado Toda Prosa II, que reúne alguns contos inéditos e textos selecionados. O livro dá continuidade a um movimento de resgate de sua obra, que se iniciou com a inclusão de dois contos seus nos Cem Melhores Contos do Século XX, por iniciativa de Ítalo Moriconi, e prosseguiu com o relançamento de Diana Caçadora e Tango Fantasma, além, é claro, do primeiro volume de Toda Prosa. O destaque da nova coletânea é O quinto elemento, onde a autora expõe como o uso de anfetaminas elidiu a distância entre Márcia Denser e seu alter ego. Foi sob esse êxtase que ela largou um emprego estável para viver em período integral o sonho literário. Infelizmente, o resultado foi um longo ostracismo, ao descobrir com amargura que "vida e literatura não se premedita". Outro ótimo momento do livro é Todos os amores, que também funde Márcia Denser e Diana Marini, a segunda mais intimidadora que a primeira, as duas sedentas por um espelho onde a deformidade se convertesse em perfeição. Este conto encerra o livro com tamanha dignidade que já não deixa dúvidas: se La Denser teve seus anos de obscuridade, não poderá mais ser esquecida facilmente.

6.27.2008

De Leonardo




Tirei estas fotos há poucas horas, quando saí na rua para fumar um cigarro. De manhã eu estava justamente lendo sobre Piero Manzoni e aquela esperteza dele, assinar as pessoas como estátuas vivas e cobrar pelo certificado. Ele chegou a assinar o mundo como um objeto de arte, e eu, que me recuso a fechar qualquer teoria antes de pensar sem preconceitos, estava tentando entender se me interessa ou não levar a sério aquele italiano de sorriso sacana.

Deparar-me com esta surpresa na rua foi uma sincronicidade incrível, porque me rendeu uma boa resposta para essa pergunta - e para outras que vêm e voltam na minha cabeça, tal como o mar em ressaca. O caso é que um Leonardo qualquer, certamente não o Da Vinci, assinou a árvore como presente para a namorada. Não parece ter sido obra de um artista, mas de alguém com alma poética o bastante para um gesto romântico e criativo. A assinatura não foi Para o comprador, mas para a Valentina, uma garota qualquer, que eu torço para que faça jus ao nome.

O ponto a que eu quero chegar é que a verdadeira fusão entre vida e arte se dá no espaço da vida. Tanto faz se na intimidade de pessoas amigas ou no campo social, nas relações interpessoais ou consigo mesmo, desde que na esfera da realidade. Por outro lado, se o referencial é a arte, se o receptor ideal é um crítico de arte, se a intenção é entrar em um livro chique com Duchamp e Beuys no meio, a fusão entre vida e arte só pode ser precária e artificial. Revolto-me sempre que vejo a vida etiquetada em um espaço de arte, mas me comovo ao ver um pouco de arte na vida das pessoas. Precisamos de boa arte como inspiração, como um poderoso estimulante para nos reinventarmos - arte não é o que vale mais que a vida, mas o que a faz vibrar desde fora.

Lembrei de outra coisa, por conta do nome na dedicatória, uma história meio maluca. Em 1999, eu estava na terra de Manzoni, na Itália, um pouco entediado com as pessoas que eu vinha conhecendo nos albergues. Decidi então criar um jogo: durante uma semana eu me chamaria Leonardo. Não em homenagem ao renascentista, mas porque eu gosto da sonoridade do apelido, Leo. E não sou o único: logo depois conheci dois americanos desengonçados que adoravam pronunciar Leo, my buddy!, e não demorou para que uma mestiça se apaixonasse pelo meu personagem. Tenho minhas dúvidas se o Ivan seria tão popular quanto o Leo - um nome é como uma roupa, e Leo, que evoca regiões ensolaradas, nada tem em comum com um hibernal Ivan, tão russo e tão seco. O Leo foi marcante para aquela garota, metade holandesa metade taiwanesa, a ponto de, tempos depois, mandar um cartão de Valentine's day para o Brasil. Não sei se ela daria risada ou me amaldiçoaria se soubesse o que eu fiz, mas, se eu não fui muito verdadeiro com ela, ao menos lhe dei uma semana de fantasia. Quem sabe o pseudônimo não me ajudou a ser mais simpático do que eu seria? Foi uma semana bem lúdica, eu descansei de mim mesmo, pude me reinventar, e devo tê-la encantado justamente porque estava o tempo todo jogando.

Voltando ao Leonardo da Valentina, acho que o gesto dele foi mais poético (mais sincero) do que o de Manzoni, oferecendo a árvore para sua namorada em vez de para um crítico de arte. Quanto à minha mentira, ouso dizer que teve algo de "artistíco" nela. Mas deixaria de ter se, ao final daquela semana, eu dissesse algo assim para a garota: "Querida, não leve a mal, estou tentando levar ao limite a reflexão sobre arte, e, entenda, arte se funde a vida, você sabe, esses experimentos são importantes, pense no lado bom, você vai entrar comigo para a história da arte, não é bacana? É isso, meu bem, a ficção e a realidade, sabe, mesmo assim eu adorei ficar com você." Tenho plena consciência de que isso seria aceitável para o mercado de arte, e provavelmente me renderia um trocado. Mas prefiro contar esta história como um caso, não como obra.