6.27.2008

De Leonardo




Tirei estas fotos há poucas horas, quando saí na rua para fumar um cigarro. De manhã eu estava justamente lendo sobre Piero Manzoni e aquela esperteza dele, assinar as pessoas como estátuas vivas e cobrar pelo certificado. Ele chegou a assinar o mundo como um objeto de arte, e eu, que me recuso a fechar qualquer teoria antes de pensar sem preconceitos, estava tentando entender se me interessa ou não levar a sério aquele italiano de sorriso sacana.

Deparar-me com esta surpresa na rua foi uma sincronicidade incrível, porque me rendeu uma boa resposta para essa pergunta - e para outras que vêm e voltam na minha cabeça, tal como o mar em ressaca. O caso é que um Leonardo qualquer, certamente não o Da Vinci, assinou a árvore como presente para a namorada. Não parece ter sido obra de um artista, mas de alguém com alma poética o bastante para um gesto romântico e criativo. A assinatura não foi Para o comprador, mas para a Valentina, uma garota qualquer, que eu torço para que faça jus ao nome.

O ponto a que eu quero chegar é que a verdadeira fusão entre vida e arte se dá no espaço da vida. Tanto faz se na intimidade de pessoas amigas ou no campo social, nas relações interpessoais ou consigo mesmo, desde que na esfera da realidade. Por outro lado, se o referencial é a arte, se o receptor ideal é um crítico de arte, se a intenção é entrar em um livro chique com Duchamp e Beuys no meio, a fusão entre vida e arte só pode ser precária e artificial. Revolto-me sempre que vejo a vida etiquetada em um espaço de arte, mas me comovo ao ver um pouco de arte na vida das pessoas. Precisamos de boa arte como inspiração, como um poderoso estimulante para nos reinventarmos - arte não é o que vale mais que a vida, mas o que a faz vibrar desde fora.

Lembrei de outra coisa, por conta do nome na dedicatória, uma história meio maluca. Em 1999, eu estava na terra de Manzoni, na Itália, um pouco entediado com as pessoas que eu vinha conhecendo nos albergues. Decidi então criar um jogo: durante uma semana eu me chamaria Leonardo. Não em homenagem ao renascentista, mas porque eu gosto da sonoridade do apelido, Leo. E não sou o único: logo depois conheci dois americanos desengonçados que adoravam pronunciar Leo, my buddy!, e não demorou para que uma mestiça se apaixonasse pelo meu personagem. Tenho minhas dúvidas se o Ivan seria tão popular quanto o Leo - um nome é como uma roupa, e Leo, que evoca regiões ensolaradas, nada tem em comum com um hibernal Ivan, tão russo e tão seco. O Leo foi marcante para aquela garota, metade holandesa metade taiwanesa, a ponto de, tempos depois, mandar um cartão de Valentine's day para o Brasil. Não sei se ela daria risada ou me amaldiçoaria se soubesse o que eu fiz, mas, se eu não fui muito verdadeiro com ela, ao menos lhe dei uma semana de fantasia. Quem sabe o pseudônimo não me ajudou a ser mais simpático do que eu seria? Foi uma semana bem lúdica, eu descansei de mim mesmo, pude me reinventar, e devo tê-la encantado justamente porque estava o tempo todo jogando.

Voltando ao Leonardo da Valentina, acho que o gesto dele foi mais poético (mais sincero) do que o de Manzoni, oferecendo a árvore para sua namorada em vez de para um crítico de arte. Quanto à minha mentira, ouso dizer que teve algo de "artistíco" nela. Mas deixaria de ter se, ao final daquela semana, eu dissesse algo assim para a garota: "Querida, não leve a mal, estou tentando levar ao limite a reflexão sobre arte, e, entenda, arte se funde a vida, você sabe, esses experimentos são importantes, pense no lado bom, você vai entrar comigo para a história da arte, não é bacana? É isso, meu bem, a ficção e a realidade, sabe, mesmo assim eu adorei ficar com você." Tenho plena consciência de que isso seria aceitável para o mercado de arte, e provavelmente me renderia um trocado. Mas prefiro contar esta história como um caso, não como obra.

5.29.2008

Neuroverso

Vocês já viram isso? O formato do universo se parece muito com o de um neurônio.



No Photoshop dá para justapor as imagens. Nem tomando ayohasca eu tive essa sensação, o universo inteiro ressoando nas sinapses:



Não sei dizer se tem a ver diretamente com o que eu penso sobre a relação entre signos e matéria. Mas mesmo que não signifique nada, é uma coincidência maravilhosa.

OBS: reli o post anterior agora que já consigo ver meu episódio Joana a contragosto com um pouco mais de leveza. O foda de blog é isso: a gente escreve no meio de uma crise, revela mais do que deveria, ainda por cima escrevendo mal, e quando a poeira baixa é tarde demais para apagar. Até mexi um pouco, melhorei o texto, mas acho que eu não colocaria algo assim no ar se não tivesse passado pela semana mais maldita dos últimos tempos.
Mas tá ok, eu nunca soube manter meus disfarces, e talvez alguém se divirta com minha "vida experimental".

5.22.2008

Vida experimental

Um de meus melhores amigos disse recentemente que eu, por ser um escritor experimental, acabo levando uma vida experimental. Ele o disse para amenizar o consenso, naquela expurgação às quatro da manhã no boteco, de que eu só me fodo. Ouvir isso do Cinco Folhas, alguém famoso não só pelo passado maconheiro que lhe garantiu o apelido, mas por colecionar uma aventura mais insólita que a outra, confirma o quanto, desde que comecei a escrever meus primeiros contos, há dez anos, a vida literária coincidiu com uma perda de controle acompanhada de situações beat.

Foi por acaso que encontrei o Cinco, o Daniel, e outros amigos nesse bar, no próprio dia em que ocorreram os motivos da lamentação. Eu havia acabado de tomar um doloroso pé-na-bunda da Joana, com quem passei três ou quatro meses certo de ter encontrado uma pessoa que me completasse. Não bastasse a dor da desilusão, que ainda me custa aceitar, aquele foi o dia em que percebi que teria que sair às pressas do apê na Barra Funda. Não vou dar muitos detalhes porque detesto essa história, mas pela primeira vez fui ameaçado de morte. Nunca fui de arrumar briga na rua, mas esse cara soube me irritar como ninguém e terminamos em acusações mútuas. Eu queria ficar no bairro apesar disso, mas logo vi que ele não estaria sozinho e não tive opções.

Minha vida, algo valioso que ainda não quero perder. Não porque eu goste muito dela, não porque eu considere toda vida uma bênção, não porque eu seja mais feliz do que triste. Quem me conhece de perto pode até não perceber, eu tento me divertir, tento disfarçar, mas não é tão fácil quanto parece. Passei por dois psicanalistas, os dois concordaram quando eu comentei que sou tão desadaptado quanto alguém que tenha sido estuprado na infância. Se eu faço questão de persistir entre os vivos não é porque a maior parte dos meus dias seja agradável, mas porque quero investigar um pouco mais. A experimentação vicia, ainda que te desgrace. De constante, tenho apenas a fé de que traduzir as dificuldades em arte nos redime – por mais que a arte pós-moderna tente nos persuadir à covardia. Eles pensam saber o que é experimentação, mas propõem exatamente o contrário.

O que sempre aparece aos montes em qualquer época são homens-enciclopédia, papagaiozinhos que se perdem no meio das abstrações. Muitos deles se dizem artistas, mas não criam, apenas seguem um manual de instruções. Posso dizer que leio bastante, mas mais importante do que minhas leituras é vivenciar minha filosofia, testar os conceitos fora das páginas. Para começar, tenho muito a agradecer aos meus amigos, que logo na adolescência me ajudaram a localizar as poses e os lugares-comuns. O Colégio Equipe foi valioso por isso, e não sei aonde eu chegaria sem os esquisitos que ali conheci. Além do Cinco, o Macarrão, figura brilhante com quem hoje faço curtas, o Kareka, que ao me botar um par de chifres revirou meus conceitos – mas revirou exatamente porque continuamos amigos -, o Daniel, que se quisesse, seria um dos humoristas mais cáusticos do nosso tempo, e o Caetano, um dos caras mais inteligentes que conheço, com quem estou dividindo a nova casa. Essas pessoas são impossíveis de se rotular, e não me trouxeram menos sabedoria do que as que eu encontro nos melhores livros. Depois vieram outros aliados, é claro, como continuam vindo, mas foram esses os da minha época de formação.

Inquieto que sou, não poderia parar por aí – como, na verdade, não paro em lugar algum. Aos 17 anos de idade, eu já estava convencido de que, para ser escritor digno do nome, é preciso levar a sério aquele clichê de “viver um pouco de tudo”. Eu queria montar um repertório de experiências o mais elástico possível, para depois recombiná-lo à vontade. O importante é viver coisas que me ajudem a entender qualquer tipo de pessoa, por mais diferente que ela seja de mim. Tendo isso em mente, encarei batalhas das quais eu muito me arrependeria, se não fizessem parte desse projeto ambicioso. Alguns escorregões foram quase propositais. Eu não tinha medo de quebrar a cara, porque, mesmo que eu me desse mal, aprenderia algo sobre a queda, e isso, por si só, parecia tão atraente quanto a possibilidade da vitória.

Algumas loucuras cometidas atendiam pelo nome: Flávia, que soube me derrotar com maestria, Telma, a quem devo muito do que hoje sou, Mari, que mantém em segredo uma obra poética das mais fortes, Dani, doce menina com quem vivi momentos mágicos, Lila, terrorista carioca que só se permite viver o Real, Paty, uma agente dupla na capital do poder, Malu, 40 anos de experiência e aparência de 27 - e agora a Joana, que me enfeitiçou ao bailar entre a alta filosofia e o erotismo. Todas bruxas, no bom e no mau sentido. Mulheres que me deram muita alegria, mas não sem me tomar algo. Não fosse assim, eu me sentiria morto. A questão não é o rock and roll, não é a trilha sonora ou a indumentária. De quando em quando, preciso colocar minha própria alma na mesa de apostas. Quem não está preparado para perder também não sabe o que é a vitória.

Acho engraçado lembrar dos meus momentos mais corajosos – não só com as mulheres, mas realizando atos de terrorismo poético, consumindo drogas mesmo com risco de "não voltar", trabalhando em Londres para bancar aventuras européias, combatendo os preconceitos de três gerações de artistas, dizendo tudo o que eu penso mesmo ciente das represálias – acho engraçado, porque a verdade é que eu sou uma das pessoas mais tímidas que eu conheço. Se é que pode ter uma explicação, acredito que esteja na lei da inércia. Pelo que vejo, as pessoas costumam se sentir bem em vários ambientes e em situações mundanas, ou ao menos mais à vontade do que eu, o que as desobriga de rupturas radicais. Quanto a mim, demorei demais para sentir que tenho qualquer direito à existência. Não houve – ao menos até onde eu sei – nenhum trauma de infância, nenhum estupro ou proximidade com a morte. Mas fui criado de um jeito muito esquisito, enlouquecedor em seus detalhes, que atrasou muito minha aproximação com “o mundo real”.

L’enfant le terrible é alguém que aos 12 anos mal sabia dar "Bom dia”. Um pouco antes disso, tinha dificuldade até de virar o pescoço para olhar para as pessoas. Meus gestos eram todos travados, minhas palavras não saiam da boca, por mais que eu tentasse. Foi essa minha tabula rasa. Vocês podem achar que é exagero, romantismo, existencialismo barato – ainda mais vindo de um artista, que adora criar mitologias sobre si.... mas só eu sei como foi minha evolução, e acho que foi tanta força que eu despendi (e ainda hoje despendo) para simplesmente me convencer de que posso existir, de que posso falar, enfim, de que posso viver, que a continuação desse impulso só poderia ser acelerada. E um tanto descontrolada.

Além disso, não gosto muito do mundo à minha volta, antes de mais nada é o contexto que me causa mal-estar. Por isso, aproveito o excedente de energia - que depois de disparada se mostra dificílima de se reprimir – para tentar tornar o mundo um pouco mais a meu gosto. Nessa hora, faço questão de sair dos meus parâmetros semi-autistas para atingir um gosto e uma inteligência à altura do meu embalo. Tanto nas leituras quanto na vida experimental, percorri a vida em profundidade e extensão, menos para contar vantagens do que para entender o que é estar vivo. Qualquer roteiro era válido, mesmo porque ninguém jamais me indicou qualquer ponto de partida. Quando todos os valores se equivalem, quando saímos dos jogos das convenções, nossas escolhas tendem a ser estéticas, poéticas – por isso, também, a variedade das coisas com que me deparei.

Não interessam os detalhes, o sentimentalismo barato, dizer que quase sucumbi, que durante anos estive doente, que de uma hora para a outra perdi tudo o que sustentava minha vontade de viver. Quem quiser uma história triste, que procure nas novelas mexicanas. Mas não tenho dúvidas de que peguei atalhos que a maioria das pessoas passa a vida inteira sem conhecer. Sobre arte, sobre relações humanas, sobre nossa psicologia. Metade do que eu sei se deve às armadilhas em que caí.

Esse é o texto mais constrangedor que já publiquei, mas se não fosse também um dos mais importantes eu pouparia a mim e ao leitor. Tem algumas coisas que eu faço questão de dizer, que, se por acaso eu morrer de maneira abrupta, ficarei mais tranquilo por ter deixado registrado. Uma delas é que eu jamais teria sobrevivido à minha trajetória sem boa arte. Se não existisse boa literatura no mundo, e bons filmes, boas canções de rock, boas pinturas, se não fosse o exemplo dos artistas de vanguarda, eu teria desistido. Não digo suicídio - embora tenha pensado muito nisso - mas fraqueza mesmo. Quando uma pessoa não encontra mais nada que a prenda à vida, ela tende a adoecer e morrer. Acontece com outros e estava começando a acontecer comigo. A arte me salvou, isso não é exagero. É verdade que o remédio de um pode ser o veneno de outro, mas acho que distinguo o tipo de arte que salva uma pessoa que vai até seus limites. E sei, igualmente, que arte prejudica, que te coloca mais perto de sucumbir. Foi na pele que eu senti: a “morte da arte” dos pós-modernos não me fez mais forte, mais corajoso, mais inteligente, não ampliou meu espírito. Não causou nada de bom a quem mais precisava de arte - quando todas as outras ilusões se despedaçam, só resta a ilusão que se assume como tal.

Esse atalho é precioso: ao longo de anos fui reconhecendo, fisiologicamente mesmo, que tipo de arte enaltecia meu espírito e qual me enfraquecia. Não vou resumir tudo num post, mas em geral é o contrário do que pode parecer: a arte “politicamente correta” nos afunda. Se nem no imaginário você se liberta da culpa, aquilo vai te esmagando, te paralisa, e, mesmo que pareça adequado à primeira vista, impede de andar tanto quanto se poderia. Um pouco de agressividade, na medida certa, é o que dá a energia necessária para seguir em frente. Quem sabe até a energia necessária para um gesto caridoso – mas não o faça com culpa, não desperdice teu lado animal, confie um pouco mais nos instintos. Do contrário, nem mesmo tua visão de amor será forte o bastante.

Há muitos anos tento desvelar as camadas da mentira, e por mais que eu desconfie de todas as aparências, entendo que o amor é possível. O erro está somente em achatar o amor. É um sentimento real, no entanto bem mais esquivo do que Hollywood nos leva a crer. Dá para estender o mesmo pensamento para a sociedade. Existe uma vontade autêntica de transformar o mundo, mesmo que em muitas pessoas isso fique reprimido. Não tenho dúvidas de que se possa mudar muitas coisas, a começar pela mentalidade, mas é preciso saber até onde o sonho tem chances de se tornar real. Não acho possível, por exemplo, uma utopia clássica, tipo socialismo ortodoxo. É simplista demais. Andei pensando nisso por anos, cheguei a me perguntar se eu não deveria abraçar o socialismo, e agora sinto que posso pronunciar algo a respeito, sinto que conheço algo da dinâmica das forças e fraquezas do ser humano. Uma utopia dessas exigiria uma estabilidade para a qual o homem não tem a menor predisposição. Nesse ponto, os livros de psicanálise são mais úteis do que os de política, e melhor ainda se acompanhados de experiência de vida.

Tente transitar por diferentes estados de espírito, aprender com todo tipo de gente, imaginar-se sob diversas peles, olhar nos olhos dos amigos e dos inimigos. Podem contra-argumentar, dizer que eu nunca saí do semi-autismo de que falei, compará-lo com a alienação, mas acho que é exatamente por saber o quanto custa reconhecer a realidade que não consigo vislumbrar a humanidade inteira fazendo o mesmo. Tanto o cara da Barra Funda, sem estudo nenhum, quanto a Joana, especialista em Escola de Frankfurt, estão presos demais às leis da inércia. Um, em estado bruto, a outra, numa inércia das abstrações, mas o resultado é igualmente uma fuga. Quanto à Joana, não a coloco como inimiga, mas alguém que me entristece, que eu sei que dificilmente vai ser feliz. Não é para me vingar do pé na bunda, mas lamento muito ela ser a prova viva de que nem toda a filosofia do mundo é o bastante para livrar uma pessoa das disputas de poder mais mesquinhas. Eu devo ter minha parte de culpa, mas o fato maior é que a inveja matou uma vontade de amor que no início parecia boa, e eu sei que ela simplesmente não poderia evitar, por mais que tentasse.

Parecia a melhor relação que dois fodidos como nós poderíamos ter, mas novamente a inércia, mais forte que qualquer sonho, foi destruindo tudo que havia de bom. Saindo da sessão fofoca para a política, não sei porque seria diferente em qualquer governo que se dissesse utópico. E não estou comparando laranjas com maçãs - acreditem ou não os marxistas, o poder depende totalmente de pré-disposições subjetivas.

Ainda tem mais uma coisa que sinto muita vontade de contar, também descoberta pelas minhas andanças à deriva. Mas essa é a que eu mais hesito em expor abertamente. É algo que aparece, aqui e ali, nos meus livros, mas quando me perguntam eu costumo dar uma resposta atravessada. Ainda estou investigando, a resposta que dou para mim mesmo ainda é bem provisória. Para piorar, a obrigação de vocês é duvidar, seria falta de inteligência acreditarem só pela boa vontade. E seria jogar tudo fora passar a ser visto como um Paulo Coelho - ou como um louco, um sequelado, um autista. Nietzsche, Foucault, Schopenhauer - transvaloração de todos os valores, a morte do homem, o niilismo, para tudo isso havia espaço no meu hardware, mas reformular meu materialismo é, intelectualmente, o que mais me desafia. Era o que eu menos esperava, mas pelo jeito quanto mais se peregrina, e quanto mais desprevenida é a entrega, maior a chance de se deparar com esse tipo de coisas.

Só posso adiantar até aqui: de tanto cavoucar experiências, algumas delas se abriram para conjecturas “metafísicas”. Com aspas mesmo, não quero subentender "deus". Só vou poder falar disso com maior clareza depois de 2012 - não por ser o fim do calendário maia, mas quando o acelerador de partículas de Genebra nos informar ao menos em quantas dimensões nós vivemos. Nada a ver com What the bleep do we know, estou falando da física mais séria, cogitada até por Stephen Hawking. Não acho que na resposta vai ter “deus”, mas sim um amplo emaranhamento, uma sintaxe das coisas e eventos - não-causal, não finalista. Não exatamente o Supremo Esteta como eu coloquei no Será. Será é ficção, mas posso dizer que imaginei aquilo enquanto quebrava a cabeça, tentando entender o que de mais inexplicável já me aconteceu. Não duvido muito que a ciência um dia explique melhor essa interação "transcendente" entre signos, matéria e eventos. Talvez ainda neste século.
Espero estar vivo até lá. É um motivo a mais para viver.

4.17.2008

La mère de la merde

La mère de
la merde:
la mer

3.25.2008

Ronaldo Cagiano escreve sobre o Será

Saiu no último domingo no Hoje em Dia, que circula em Minas Gerais e Brasília, uma resenha do autor de "Dicionário de pequenas solidões" sobre meu "Será".


Alegoria sobre o abismo

Ronaldo Cagiano

Tendo iniciado com o pé direito sua estréia literária com os contos de A grande incógnita (Annablume, SP, 2005), o jovem escritor paulista Ivan Hegenberg incursiona com novo fôlego no romance Será (Ragnarok, SP, 2007), cuja história faz um (in)tenso mergulho na realidade contemporânea, com um olhar crítico sobre os rumos da técnica e da ciência, a partir da revelação da vida, dos condicionamentos e ações de personagens desajustados emocional e socialmente.

O universo narrativo de Ivan Hegenberg projeta-se para o século XXIII, uma época que sofre os efeitos de um caos já ancestral, que se manifesta na estagnação da vida, nos prejuízos causados pelos desequilíbrios sociais e ambientais, levando ao esgotamento não só da natureza, mas também à falta de perspectiva para a própria ciência, ainda que os seres tenham a seu favor todos os benefícios de um progresso alcançado nos séculos passados.

Ao mapear esse novo ambiente em que, de um lado o homem depara-se com os resultados da evolução e, de outro, com as conseqüências da transformação da vida pela tecnologia, criando suas ilhas tanto de excelência produtiva quanto de isolamento, solidão e neurose, o autor compartilha com o leitor uma preocupação com os destinos da humanidade e do Planeta, questionando o modus vivendi de uma civilização cujos ícones vão sendo paulatinamente desmantelados.

Este século XXIII que serve de pano de fundo à trama é permeado de contradições. Não se trata de uma visão hiperbólica, ou escatológica, do caos inadiável, mas a percepção dos caminhos que podemos trilhar caso a condição humana insista na prevalência de uma lógica vital que privilegie o “ter” no lugar do “ser”, do virtual em vez do real, o que vem levando de roldão a sociedade a um estágio cujo ritmo avassalador impõe a cada um relações descartáveis e um profundo abismo existencial, ensejando uma crime que é fruto do escalonamento de valores morais, espirituais e éticos.

Ao abordar a questão da transição do homem para esse “futuro” de aparências e conveniências, cujo desenvolvimento cuidou de arraigar ainda mais o materialismo e a racionalidade em lugar de ratificar a alteridade e o encontro, Ivan denuncia a forma mais sutil de medievalismo, representada pelo fundamentalismo das religiões, das ideologias políticas e do mercado. Instituições que criaram uma relação esquizofrênica do homem com o seu semelhante e o próprio meio e que impõem um ritmo autofágico, sem esperança para qualquer projeto onírico. Será traduz-se numa narrativa metafórica do abismo em que estamos metidos, sobre a vida que poderia ter sido e não foi, território em que se percebe a tênue fronteira entre o delírio e a sanidade.

Romance repleto de surpresas e imprevistos, com nítidas influências niilistas e clariceanas, antecipa uma reflexão sobre o eterno embate do espírito contra a consciência, da vida contra a morte, do virtual contra o real, da tecnologia contra os sentimentos. Ao mesmo tempo perturbador e poético, mas que nos coloca frente a frente com nossos dilemas e faz uma competente e sensível crítica dos valores na sociedade contemporânea, na expectativa de um caminho com volta. Com este segundo livro, o autor consolida seu trabalho e apresenta-se como uma das promissoras vozes da nova ficção, demonstrando completo domínio da arte narrativa.

3.01.2008

A tropa e o urso


Não é nada fácil encontrar o encaixe. O que leva um diretor como Costa-Gravas, que há décadas aborda apenas temas políticos em seus filmes, que desafia a igreja e o capitalismo com a convicção de um bolchevique, contradizer tudo o que representa ao conceder o Urso de Ouro a "Tropa de elite", considerado o filme mais fascista dos últimos tempos?

Verdade seja dita que a esquerda está cada vez mais perdida, mas acho que ninguém esperava tanto. É como se ele fizesse de propósito, como se o objetivo fosse o de causar indignação em seu meio. Na qualidade de presidente do júri em Berlim, ele certamente estava a par de todos os ataques ao filme de Padilha - sobre a apologia à tortura, sobre a ação repressiva colocada como solução, sobre o desdém para com o pensamento crítico - mesmo assim, um dos diretores vivos mais engajados parece ter dito: "Eu não me importo com o fato de o filme ser fascista. Me empolgou, é isso o que interessa." E ele vinha insinuando isso desde a abertura do festival, ao declarar que a diferença de qualidade entre um filme de ação e um filme de arte seria mera questão de gosto.

São muito canhestras as tentativas de dizer que "Tropa de elite" traz uma visão política interessante, por mais que alguns insistam em fazê-lo. Tecnicamente é bem realizado, e como filme de ação ele é mesmo envolvente. Mas, até eu, que detesto a patrulha ideológica quando se trata de arte, acho que o filme apela. Posso ter gostado de algumas cenas, posso até ter o péssimo gosto de curtir a trilha sonora, mas não posso dizer que seja um filme inocente. A história nada mais é que a de um recruta, acompanhado por seu capitão, que aos poucos abandona os estudos e a luta através das idéias para abraçar a luta armada, violenta e autoritária. Se isso não carrega uma sedução para o fascismo, alguém me dê uma definição melhor do termo, porque não acho que estou sequer ideologizando. O que eu vejo em "Tropa de elite" é o mesmo que vejo no programa do Datena: a crença de que nossos problemas se resolvem com repressão policial, em vez de investimentos sociais ou de uma mentalidade mais humanista. Não vale a pena considerar o filme como ironia, ou seja, tomando o Capitão Nascimento como vilão para fazer com que o filme pareça auto-crítico. As escolhas do roteiro, da mise-en-scène e até mesmo do cartaz de divulgação - "Existem várias versões para uma guerra. Essa é a verdadeira" - confirmam que o filme foi feito para as massas, que é apenas a versão favelada dos filmes de ação hollywoodianos.

Voltando a Berlim. Se eu detesto o maniqueísmo da esquerda ortodoxa, prefiro evitar chamar Costa-Gravas de fascista, apesar de achar que ele errou feio ao consagrar esse filme que, na minha opinião, não deveria dar orgulho aos brasileiros. Também não vou dizer qeu "ele envelheceu", seus filmes recentes são contundentes. Ele foi corajoso ao enfrentar a igreja no "Amém", e gosto ainda mais de "O corte", em que um executivo assassina um a um os concorrentes a um cargo na empresa de seus sonhos. Andei pensando no caso do cineasta, para ver se dá para chegar a algum lugar com esse episódio todo.
Vamos admitir que Costa-Gravas tenha gostado do filme fascista. Mas vamos admitir também que filmes lamentáveis do ponto de vista político possam ter, por outro lado, alguns encantos. Se quisermos ser honestos conosco, não temos como evitar essa constatação. Eu diria até que o problema não está nesses filmes. Está na recepção. Em um mundo onde todos fossem extremamente críticos e inteligentes, não haveria problema algum em filmes como esse circulando por aí - ao menos, é melhor que circulem do que impor a censura. Eu tenho capacidade de separar o que há de válido e o que há de venenoso em um filme como "Tropa de elite". O diretor de "O corte" também, muito provavelmente. A ética que seguimos na vida não precisa ser a mesma ética do que apreciamos em uma obra de arte. Pode inclusive ser oposta, porque com a ficção nos descansamos um pouco de nós mesmos. Às vezes precisamos disso. Às vezes, é esse descanso que nos permite traçarmos o caminho que mais nos interessa, com a certeza renovada de que as opções divergentes que se apresentam a nós podem ser descartadas. No mínimo, precisamos imaginar aonde vão dar as bifurcações, antes de escolher para onde seguir.

Acho que nesse ponto, começo a falar de algo que a esquerda ortodoxa tem dificuldades em perceber. Talvez até mesmo o diretor de filmes como "Z" e "O corte" se sinta sufocado com a patrulha ideológica, que não permite o menor desvio, o menor pecado, que está pronta a simplificar o mundo em duas categorias: "reacionários" e "revolucionários". Não duvido que, para se sentir livre e realizar filmes de resistência com um mínimo de tesão pelo que faz, ele tenha que deixar claro que os faz porque quer, não porque obedece a uma diretriz. A melhor maneira de fazer isso é mostrar que, como todo ser humano, ele tem sentimentos contraditórios. Deleuze já dizia que todos temos nosso lado fascista, Foucault dizia que o inimigo está dentro de nós, e Freud que no inconsciente somos todos sádicos. Desconsiderar essas questões fortalece as ideologias, mas é extremamente repressor, utiliza-se a culpa como instrumento de poder. Costa-Gravas mostrou que sabe disso, e também José Padilha, que não é um diretor mal-informado. Aliás, o brasileiro tinha condições de ser um cineasta de resistência - é dele o documentário "Ônibus 174", de enfoque mais social - mas preferiu debandar para o cinema de massa. Mera especulação, mas talvez ele tenha virado a casaca ao sentir que a esquerda ortodoxa é, muitas vezes, tão opressora quanto o Capitão Nascimento. Mais claro é que Costa-Gravas, apesar de ter se mantido fiel ao cinema engajado, sentiu-se identificado com a bifurcação, a ponto de dar uma esculachada na crítica militante, deixando claro que ele não está preso a uma doutrina. Acho que os dois exageraram na dose, não precisavam flertar logo com o fascismo para romper com o maniqueísmo vigente. Ou melhor: espero que eles estejam enganados, e muito. Espero que para romper com a arrogância da esquerda mais inflexível, simpatizar com seus piores rivais seja completamente dispensável. Espero que mesmo sem excessos desse tipo, que não apontam para a liberdade, possamos chegar a uma crítica cultural e a uma atuação política que não tenham medo de se questionar.

2.11.2008

Entrevista: Ivan Hegenberg no Ponto de Convergência

Por Romeu Martins


Ele apresenta duas motivações estranhas para ter iniciado o curso de Artes Plásticas na Universidade de São Paulo: uma curta carreira de pintor de rodapés na Inglaterra e a proximidade que teve com os maiores museus da Europa enquanto esteve naquele continente. De volta ao Brasil, passou a se dedicar mesmo a outra forma de expressão, a literatura, tendo recentemente lançado seu segundo livro, Será um romance distópico de ficção científica, e ainda abriu uma editora que pretende se especializar neste nicho literário. Falando diretamente da capital paulista, o escritor e pintor comenta as diferenças entre esses dois mundos artísticos; descreve as vantagens da FC para se contar histórias que tenham a sociedade como protagonista; e filosofa sobre a função da estética. Com vocês, o filho espiritual de Friedrich Nietzsche e de Clarice Lispector, Ivan Hegenberg.

Você é um artista plástico por formação, mas tem se dedicado à literatura como forma de expressão. Poderia fazer um breve retrospecto de sua produção literária e nas artes plásticas?

Antes de entrar em Artes Plásticas, na USP, eu cursei um ano de Letras, já pensando em me tornar escritor. Logo vi que Letras prepara bons professores, mas não me ajudaria muito a escrever, e tranquei a faculdade para ficar nove meses vagando pela Europa. Não sei se foi minha experiência como pintor de rodapés em Londres ou a proximidade com os principais museus do mundo, mas quando voltei estava decidido a enveredar pelas artes plásticas. Eu sempre gostei de desenhar, e acho que há situações que se expressam melhor com cores do que com palavras. Mas não parei de escrever, a essa altura eu estava terminando os contos do primeiro livro. A grande incógnita circulou pouco mas teve uma boa aceitação por outros escritores. Foi fácil perceber que o ambiente literário, por mais que tenha seus problemas, está bem mais arejado do que o das artes plásticas – não é à toa que este ano teremos em São Paulo a primeira Bienal do Vazio. Acho que escapar um pouco do ambiente de artes plásticas e escrever o Será me deu ânimo para agüentar bobagens desse tipo. De uns tempos para cá, tenho escrito alguns artigos sobre arte contemporânea, tentando combater as idéias fixas que eu encontro nas exposições e na crítica.

Em seu primeiro romance, apesar de ele estar inserido em um nicho da ficção científica dos mais tradicionais, a distopia, é notável a influência que outros autores fora da literatura de gênero exerceram sobre você, sem falar da área da filosofia. Friedrich Nietzsche e Clarice Lispector são os mais notáveis, mas não devem ser os únicos. Que outros escritores, de FC ou não, estão entre seus preferidos e lhe servem como referência?

Na verdade, não me apego muito aos gêneros. Acho que o melhor da ficção científica – por exemplo, Bradbury, Huxley, Orwell, K. Dick – vai muito além dos clichês e atinge o patamar da alta literatura. Do mesmo modo, Márcia Denser e Henry Miller fazem muito mais do que literatura erótica, Rubem Fonseca não faz apenas romance policial, nem Edgar Allan Poe escreve terror para assustar criancinhas. O importante é que o livro seja bom. James Joyce é quase o oposto de Kafka, mas os dois são excelentes. Guimarães não tem nada a ver com Bukowski, mas os dois me interessam. Não dá pra fechar a lista, mas, de todos, considero Nietzsche uma espécie de pai espiritual, sendo Clarice minha mãe. Também tenho lido bastante Deleuze, que a meu ver coloca Nietzsche diante dos problemas de hoje.

Por que você escolheu um cenário típico de ficção científica para contar uma história tão atípica de ficção científica? Qual sua ligação com este gênero
específico da literatura fantástica?


Nos meus primeiros contos eu falei muito do indivíduo, e dessa vez eu quis falar sobre a sociedade. Mas em vez de colocar meus personagens no mesmo mundo em que vivemos, preferi criar um outro ambiente, para olhar alguns problemas a uma distância estratégica. Decidi então jogar um monte de coisas em que eu estava pensando para o futuro. Um dos elementos atípicos do Será é o fato de termos um futuro estagnado, uma desaceleração na história do homem, apesar de ainda repleta de conflitos. Minha intenção era fazer com que os problemas fossem percebidos com o máximo de pureza, por isso não podia ser uma história no presente: eu não queria que as conseqüências fossem atribuídas a circunstâncias meramente conjunturais. Eu busquei nesses homens do futuro forças muito semelhantes às que agiam no homem primitivo, e que com o tempo só vão se sofisticando, mas não desaparecem.

Para mim, as questões principais do livro não se remetem nem ao presente nem ao futuro, acredito que sejam eternas, mas uma das coisas que mais me divertiu no processo de escrita foi compor a ambientação. O oxigênio retirado da água, o sangue como moeda de troca, as ações do Comando Água, a telepatia rolando solta, os experimentos científicos radicais, etc. Acho que é esse o grande barato da ficção científica: a imaginação se mostra capaz de recriar o universo inteiro, não só uma situação isolada. E ainda assim, o link com a realidade permanece, tanto que os franceses chamavam a literatura FC de “romances de antecipação”.

Um dos capítulos que mais chamam a atenção em seu livro é “O Supremo Esteta”, no qual você especula sobre uma nova religião que passa a ser predominante naquele cenário, um ideário mítico que sobrepõe conceitos estéticos a questões morais. Desde o lançamento do livro, já houve alguma reação dos leitores às idéias contidas naquele trecho da obra?

Sim. Já chegaram a me perguntar como faz para se converter. É bom deixar claro que é uma ficção, portanto “Será” deve ser entendido como “Poderia ser”. Acho que se eu fosse realmente esperto, fundaria uma religião, em vez de levar tão miseravelmente essa vida de escritor. Quantas seitas esquizofrênicas, uma mais bizarra que a outra, lucram com a ingenuidade alheia? Acho que se eu fosse mais cara-de-pau, o esteticismo-maior poderia mesmo vingar como religião, mas prefiro mantê-lo na ficção.

Além da leitura puramente estética, que outras intenções nortearam aquele capítulo?

Eu mesmo não entendo muito bem o que eu quis dizer com “O Supremo Esteta”. Se eu soubesse com muita precisão tudo o que quero transmitir, eu nem me daria ao trabalho de escrever ficção. Aliás, aí é que está a força da estética: o fato de ela não poder se reduzir a nenhuma lógica identificável, por mais que alguns acadêmicos acreditem que sim. Acho que mais de cem anos depois, Nietzsche ainda não foi compreendido, caso contrário todo intelectual evitaria leituras moralistas de uma obra de arte, e infelizmente não chegamos a esse estágio de esclarecimento. Está mais do que confirmado que a moral só serve para escravizar o povo, pois nem a promessa católica de danação da alma por toda a eternidade impediu que os senhores abusassem dos servos. Sendo assim, como pensar que o moralismo das ideologias seria capaz de conter nossos instintos destrutivos? O homem está em perpétua mutação, mas se tem algum traço constante é a oscilação entre a vontade de criar e a de destruir. A estética é o campo ideal para exercitarmos as duas coisas ao mesmo tempo, mas essa ânsia deveria ser satisfeita livremente, sem o condicionamento de qualquer doutrina. Os autores que me fazem bem, que me aliviam das neuroses, são os que assumem uma visão trágica da existência. Ou seja, os que entendem que não existe bem nem mal, que a vida não faz sentido algum, que só tem felicidade quem suporta também o sofrimento e que nossos sentimentos e convicções costumam ser ambíguos. Vão nessa linha as traduções dos bons observadores da natureza humana.

Na minha vida fui obrigado a me confrontar com tudo isso, que pode assustar mas também liberta, porque nos permite criar a vida conforme o paladar, sem dogmas, bela e inexplicável como uma obra de arte.

Os personagens do livro fazem constantes referências a um período histórico em que não viveram, que muitos deles chamam de “no tempo do capitalismo”. Curiosamente, apesar de muito do cenário proposto lembrar conceitos igualitários do socialismo, e mesmo com parte da trama se desenrolando em cidades como Pequim, não existe nenhuma comparação entre aquela realidade e as várias experiências socialistas reais que existem ou existiram em nosso mundo. Há alguma razão para essa ausência de referencial?


Boa pergunta. Eu não senti necessidade de falar diretamente sobre os países que vivem hoje o socialismo real porque seu processo histórico parece estar no fim, e portanto não alterariam muito os eventos que desembocariam na derrocada do capitalismo. Não considero a China um país socialista: está claro que vive uma lógica capitalista ainda mais selvagem que a nossa, com a agravante de estar sob uma ditadura. Por essa reviravolta Marx não esperava, e rasteiras da realidade desse tipo são ótimos motivos para os artistas não facilitarem uma captura muito materialista. Acho que se eu falasse muito do socialismo real, as interpretações tenderiam para a macropolítica, que eu considero ultrapassada e redutora. Eu deliberadamente evitei deixar o sistema social falar mais do que as personagens, exatamente porque creio que nosso campo de batalha está na subjetividade, e não nas grandes ideologias ou nos modelos econômicos. Arte não tem capacidade para mudar o mundo e faria muito melhor se tentasse mudar as pessoas.

Você pensa em retornar algum dia a esse mesmo universo ficcional ou já explorou tudo o que tinha vontade dele?


Sim. Escrevi um conto, “Vladja”, sobre um personagem coadjuvante de Será, que vai sair em uma coletânea da Record. O conto me satisfez tanto que eu já planejo um livro só com histórias curtas retomando o universo do Será.

O seu livro de estréia, A grande incógnita, foi publicado por uma pequena editora, a Annablume. Seu segundo livro já saiu por uma editora da qual você é
um dos sócios, a Ragnarok. Pode fazer uma análise desses dois extremos tão distintos como forma de publicação?


A Annablume não é assim tão pequena, ela tem porte equivalente ao de uma Hedra, mas como trabalham mais com não-ficção, ainda estão construindo sua tradição na literatura. Estão no começo, mas acho que é uma das poucas editoras sérias do Brasil, que carece de gente com visão. Para o Será eu já queria uma editora um pouco maior, achei que o livro merecia divulgação, que ele podia desencadear discussões fortes, e despachei originais para todas as grandes. Foi uma decepção enorme, que diz muito sobre nosso mercado editorial: obtive ao menos duas respostas em que consideraram o livro muito bom, e mesmo elogiando não se arriscaram a investir. A lógica é essa mesma, acho que falta visão e falta coragem por conta dos editores. Eu escrevi para o Nelson de Oliveira desabafando, e ele me convidou para montarmos a Ragnarok. Tem sido um prazer trabalhar com o Nelson, que é um bom amigo e uma das figuras que mais respeito da nossa literatura. Outra coisa bacana é que ao montar uma editora independente você aprende muito sobre todas as etapas do processo.

Quais são os planos de sua editora para novos lançamentos? A Ragnarok pretende se especializar na área da literatura fantástica? Ela faz avaliação dos originais de outros escritores do gênero?


A Ragnarok já nasceu especializada em ficção científica e fantasia. Não é exatamente uma empresa, está mais para um clube, já que não bancamos as despesas do processo, mas também não estamos interessados em lucrar com o autor. A idéia é orientar sobre a capa, a gráfica, a diagramação e a divulgação, para que o livro, mesmo saindo em esquema independente, não faça feio diante de um produto das editoras profissionais.
Nos nossos planos está um livro de crônicas do André Carneiro, deliciosas de se ler, e um romance do Nelson, que ainda está sendo escrito. A gente faz avaliação de originais, com o tempo vamos mostrar algumas surpresas. Pode ser um pouco piegas citar Renato Russo, mas de fato o futuro não é mais como era antigamente, estamos em um momento em que a ficção científica tem de tudo para se renovar.

E você como escritor, já tem outros projetos planejados para o futuro próximo? Pretende voltar a trabalhar com temas da FC?


Recentemente, ganhei uma bolsa do governo de São Paulo para concluir meu próximo romance, Puro enquanto, que talvez seja meu livro mais ambicioso. Passei dez anos anotando meus sonhos pela manhã, e os costurei na história de um publicitário que entra em coma. Em certo momento, ele percebe que está sonhando e quer despertar, mas “despertar” ganha outros sentidos. A linguagem é pouco usual, com texto e imagens em constante diálogo. Também quero escrever para teatro e cinema. Quanto à ficção científica, só não quero escrever nada que me pareça inferior ao Será, mas assim que eu tiver um material consistente, lanço uma coletânea de contos.

Este texto faz parte de um projeto chamado Ponto de Convergência, que pretende traçar um panorama da ficção científica nacional através de resenhas de livros significativos lançados ao longo da última década e de entrevistas com seus autores.