6.19.2010

Discussão de Relacionamento - 2

Se você apenas grita em tom de vingança, a voz é esganiçada – ou seja, você ainda não encontrou teu canto. Se o discurso não tem mais do que acusações ou auto-indulgência, é um discurso pobre; reativo, e não ativo. Não, não quero que você se comporte, que corte as unhas. Não quero te adestrar. Pelo contrário, é bom que você saiba cravar as unhas nas minhas costas. É preciso que você não seja delicada demais, não se iniba, não recue, não se recuse.

Por que um deve ser ativo e o outro reativo? Não podem ser ambos criativos? Saiba discordar de quem ama sem desacorçoar.

Olhando para o umbigo, você não encontra nem tua própria paisagem. Precisamos do olhar do outro como espelho. É nos encontros que o fogo arde mais forte.

Contudo, a maldição decreta que: se realmente nos encontrássemos, sem qualquer proteção, seria como um sol encostando em outro sol. Não seria possível suportar. Por isso, os anteparos.

Eis porque todos serpenteamos. Por que os jogos, por que as manhas, por que a insatisfação quando tudo parece bem, por que as discussões que irrompem sem motivo algum? Para evitar um contato frontal. 180 graus é rota de colisão. Há muito tempo, os espíritos disseram: é preciso turvar o caminho.

Ao contrário do que se pensa, as fantasias muito românticas foram feitas para afastar, não para aproximar. São histórias histéricas: porque o ponto de fusão é morte certa. O faz-de-conta providencialmente possível, para manter longe o que é Real.

É preciso habilidade de artista para que o âmago de um se aproxime do âmago de outro até o ponto que mais aquece, mas não estorrica. Não se toca o âmago nem de quem te parece mais próximo e mais brilhante, como não se toca o sol, mesmo que ele gere vida.

Jamais tocarei o sol de teu sistema, você jamais tocará o sol do meu, mas na superfície nos entrelaçamos e sentimos o calor. Sinto tua gravidade, mas não forço tua órbita ao meu redor. Como eu poderia amar você como sujeito, se eu reivindicasse tua elipse?

Mais que isso não digo. Falei demais, e se falo demais, canso-me de minha voz. Quero ouvir a tua. A voz que me informa remotamente sobre você, que sibila, que chama e afasta ao mesmo tempo, que cria as curvas e me leva a inclinar, que convida, que alude, que arranha e constrói. Tua voz.

1 comment:

Ivan Hegenberg said...

Obs: não estou falando sobre ninguém específico, nem ex, nem atual. Claro que pensei em diversas experiências que tive nos últimos tempos, mas também é uma discussão sobre a dinâmica entre arte e vida. Fiz o que pude para a leitura funcionar nos dois níveis.