5.07.2010

Secretária Eletrônica - Caderno de Bobagens - 4

Trabalhando cerca de 12 horas por dia, não tem como não sentir o estresse. Para relaxar um pouco e seguir adiante, resolvi folhear meu velho Caderno de Bobagens. Uma das minhas bobagens favoritas, da qual eu estava quase me esquecendo, era gravar mensagens de saudações bizarras na secretária eletrônica. Adorava isso quando era moleque, e não sei como meus pais deixavam.

As pessoas telefonavam para minha casa, de parentes e amigos a cobradores e colegas de trabalho, e mesmo que não falassem com ninguém, saberiam que os Hegenbergs não eram muito convencionais. A secretária eletronica se incumbia de dar esse recado.

Às vezes, assustava. Entrava Hit the light do Metallica para criar a atmosfera apocalíptica, seguida de minha narração: O fim... O fiiiiiiiim está próximo. Guitarras rasgando. E então, ouviremos a mensagem. Voz profética se elevando. Mas antes... Deixava rolar a bateria acelerada, até uma pausa súbita. Antes... o sinal. E então, o bip da gravação.

Outra, antológica, tinha aquela trilha da Missão Imposível, que um amigo improvisava com a boca ao fundo. Tananan, tananan, tananan, nanan. Em vez de pedir nome, telefone e horário em que ligou, eu falava sobre QG, códigos secretos e exigia informes sobre a próxima missão. Besteira, sem dúvida, mas era divertido.

Outras intervenções eram um pouco mais dadaístas. Como uma anunciada e celebrada escovação de dentes. Muito antes de saber de Vito Acconci, eu falava da higiene bocal como se fosse uma performance imperdível para os ouvintes incautos. Ou então, improvisava um conto surealista que poderia ir de sapos a naves espaciais, sem o menor nexo entre as partes, só para deixar aquela cara de interrogação em quem queria ser recebido com um simples Alô. Ah, também tinha essa, que aliás era meio manjada: dizer alô, como se não fosse uma gravação, esperar o tempo da resposta, emendar um tudo bem, e levar adiante, para que o pobre coitado na outra linha pensasse estar falando com alguém em carne e osso, em vez de uma voz gravada.

Geralmente, essas saudações, por estúpidas que fossem, causavam um certo frisson, até mesmo uma expectativa quanto a qual seria a próxima. Mas às vezes deixavam as colegas de trabalho de minha mãe apreensivas a ponto de se queixarem. Como uma em que o teclado lhes dava aquela frase lenta e hipnótica, aguda, tão familiar quanto desenraizante. Nem todo mundo gostava de saber que, com um simples telefonema, poderia entrar na Zona Além da Imaginação.   

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