5.29.2009

05h43

A essa hora da manhã, de pé, arritmia e a irritação de um sonho ruim. Quantas vezes não levantei para rabiscar anotações oníricas, para depois convertê-las em poesia? Anos e anos, e agora também. Dessa vez, tenho pouco mais de uma hora pra elaborar, antes de sair, então vou juntar as tarefas. Eu queria algo no método Kerouac, despejando um monte de frases sem muito cuidado e sem voltar atrás - há algum tempo eu queria fazer isso diretamente no L'Enfant Le Terrible. Outra tarefa: deixar claro que eu tenho coisas melhores a fazer do que aquilo que acabo fazendo, que eu perco tempo demais com bobagens alheias.

A ponto de sonhar com as bobagens... Uma aula de arte sobre Hélio Oiticica e Lygia Clark, em um museu, onde a professora dizia que as instalações deles estavam entre as últimas obras de arte. Depois daquilo já não seria mais possível fazer arte. A pintura, ela insistia, estava irremediavelmente morta, como o próprio Hélio fazia questão de dizer. Putaquepariu, Hélio, não dei permissão pra você ocupar tanto espaço na minha cabeça, muito menos a essa hora da madrugada. Ok, até no sonho eu disse que gostava um pouco da sua obra, e que isso te sirva de consolo, mas até abaixarmos tua bola, você atrapalha mais do que ajuda. Respeito de verdade, com admiração, eu tenho é pela Lygia - a obra dela, no meu sonho, estava bem mais deslumbrante que a do Hélio, e não posso fazer nada, meu inconsciente é que vê assim. A Lygia, a antiartista que entendeu a piada de mau gosto que é vender antiarte no salão.

De repente lembro que o Caetano, que divide aluguel comigo, está a um passo de acreditar em fantasmas. Por causa do porteiro do trabalho dele, que tem falado com o antigo proprietário do prédio. O porteiro, que é pai-de-santo, revelou meses atrás segredos do morto que a família descobriu há apenas 10 dias - sobre uma filha não reconhecida. Fiquei arrepiado quando ouvi. Mas não acredito nem desacredito. Foram várias as experiências "metafísicas" que eu tive e nem sei se queria ter tido, porque não vou ao ponto de lhes tirar as aspas em definitivo. Se deus existe, não sei dizer se ele gosta muito de mim, então não sei se me agrada a ideia de um Deus chefão guiando meus passos. Nesse ponto não tenho tanto a ver com Kerouac, tô mais pra Breton, faço uma ginástica enorme para explicar a mim mesmo os acasos objetivos, os recados inconscientes das coincidências. Talvez Deleuze me dê os vetores, os devires ou até um Deus espinosiano - que não é bem Deus, certo? - em que me permito acreditar. Apesar daquele dia em que a porta do banheiro se trancou por dentro, sozinha, sem qualquer vento... Não importa: estou vivo, um dia morro e descubro, não é coisa que em que eu queria pensar até girar em falso.

Mas pode ser, pode ser sim, que Hélio seja um fantasma que vaga por aí, e além de expor neoconcretos nos meus sonhos, possa me ouvir de alguma forma. Quem sabe não sejam boicotes inconscientes, nem Deus, nem mau-olhado, mas sim o orgulho dos mortos que me faz tão azarado? Quem sabe os antiartistas mortos não tenham se incomodado mais que os vivos com as pedras que eu jogo em suas tumbas? Então é melhor falar direto pra ele: Hélio, você nunca deveria ter dito que sua obra enterraria a pintura. Foi cagada, Hélio, você falou bosta. E eu perco um puta tempo pra desfazer a tua cagada, quando eu deveria estar concentrado na minha própria arte. O saco é que tem gente demais ouvindo as ideias um tanto afetadas da tua geração, e o olhar mesmo, para onde foi? Está a deriva, já não consegue mergulhar. Foda que não resolve nada simplesmente dizer "para mim, o Hélio Oiticica não mata a pintura, o problema é dele". Também não dá para isolar a questão, dizer que só puseram a pintura na berlinda, porque toda uma noção de arte iria junto - poemas, filmes, romances, teatro, etc. A mera presença física de obras da geração dele implica em questões difíceis pra cacete, por mais que repletas de sofismas. Talvez eu nem devesse falar palavrão, pra que os intelectuais que dão as cartas não me tomassem por um falastrão qualquer. Mas essa é entre mim e o Hélio, e ele também carregava no vocabulário.

Prestando a atenção que ninguém prestou para Rosenberg e Nietzsche, eu sinto que realmente consegui reverter o estrago daquela geração de antiartistas. Mas, missão cumprida, já não vejo tanta graça nisso, acho que foi uma perda de tempo enorme. Eu só limpei a sujeira dos outros, não era o que eu realmente teria prazer em fazer. Gastei um tempo que não era meu, um contra-tempo, contra cinquenta anos de absurdos que poderiam muito bem ter sido evitados. Se a literatura soube evitar, as artes plásticas também poderiam.

Ontem à noite, aquilo sim, aquilo era vivo, pulsante. O sarau do CAI MAL, organizado pelos Maloqueiristas. Apesar do nome, cai muitíssimo bem. Maloqueiristas eles são mesmo: poetas de rua que sabem se organizar e sabem anarquizar. Impressionante como eles juntam um monte de gente boa, alguns dos quais eles vão caoticamente conhecendo na rua - inclusive este escriba aqui. O mais próximo que se chega de uma fusão entre arte e vida é um evento anárquico como aquele, onde os poetas se revezam e contaminam os ouvintes. A noite poética é um evento completo, circula no sangue. Não é com o assassinato da arte que esta se torna mais próxima de nós, como na teoria idiota que o Oiticica comprou. A obra do Hélio pode até ser um pouco melhor do que a teoria - e não é por medo de fantasma que eu digo isso - mas acho que muito do que ele, um tanto forçosamente, queria ver como a intimidade maior entre arte e vida, eu vi ontem, com uma naturalidade que a geração do Hélio parece ter visto mas não ter compreendido.

A poesia está viva, e é incrível como nem os carros, nem os helicópteros, nem a televisão ligada, nem a futilidade de nossa época conseguem silenciá-la. Só não era para eu sonhar com a maldição. Não era para ninguém, jamais, sonhar com a morte da arte, e eu acho mesmo que perco tempo demais com ela. Ao menos como vitória moral (atrasada em décadas), pretendo liquidar com o assunto até o fim desse ano. Vou matar a "morte da arte", e quem quiser que aprenda a matá-la também. O que me interessa não é essa matéria asquerosa, mas a força que se obtém com a quebra de seus átomos.

Excomungo-te de meus sonhos, antiarte, porque sei o que é sagrado.

2 comments:

cahoni said...

Fala Ivan blz? Curti esse seu texto especialmente essa "conversa" bem direta com o helio oiticica.Sem querer entrar no mérito das suas "questões pessoais" com ele,gostei simplesmente da forma mais coloquial ou, digamos, mundana com que vc o tratou. Faço um curso de arte contemporanea no mam e é incrível como os caras conseguem pegar qualquer coisa que o hélio tenha feito ou dito e transformar tudo num discurso incrivelmente complexo, pesadaço... Nada afasta mais o espectador da obra de arte do que perceber que para ele entender uma obra de arte é necessário uma erudição incrível. Se o hélio queria unir arte e vida,trazer o espectador para dentro (literalmente) da obra de arte, acho que um punhado de críticos e professores querem fazer o caminho inverso.

abraço

cahoni

Ivan Hegenberg said...

Valeu, Cahoni!

Esse é um texto porra-louca que eu escrevi correndo, experimentando a pegada do Kerouac. Pra quem vê o quanto o ambiente da literatura pode ser vibrante, é decepcionante mesmo ver o apego que o povo das artes plásticas tem por algumas armadilhas.

Grande abraço