4.04.2009

Os reativos

É um tanto deprimente considerarmos as últimas consequências antes mesmo do primeiro gesto, mas não fazê-lo pode ser suicida. Não que o suicídio seja sempre condenável, mas é bom saber se a lâmina na mão é para escanhoar ou para cortar a garganta. As atitudes mais eletrizantes são as kamikazes, são as entregas absolutas que não se contentam com a realidade, que ambicionam ultrapassá-la. O amor de Romeu e Julieta jamais se acomodaria às imperfeições do cotidiano, assim como tantas outras voluptuosas utopias. Eu mesmo estou mais próximo do Kamikaze do que do cauteloso, mas estou tentando considerar os movimentos do judô. Preciso lembrar que o golpe que desfiro pode ser usado pelo meu adversário, bastando-lhe aplicar uma alavanca. Quanto mais impetuoso eu for, maior pode ser meu tombo.

À medida que algo pungente ganha força, seja o que for, um movimento reativo se contrapõe. O golpe militar no Brasil reagia às propostas transformadoras de Jango, que não cabiam na cabeça pequena da elite da época. A ditadura de Franco, na Espanha, foi uma resposta aos avanços da esquerda, que terminou ainda mais sufocada pelo autoritarismo do que antes. Quanto à arte pós-moderna, foi principalmente uma arte anti-moderna, uma rejeição muito mal argumentada à vivacidade anterior.

Talvez fosse impossível cobrar dos anarquistas espanhóis da década de 30 que antecipassem o revide fascista; ou que Jango fosse mais diplomático com os empresários que apoiariam o golpe; ou que Greenberg, principal crítico de arte modernista, não forçasse uma polarização no cenário artistíco. Era impossível fazê-los se conterem, porque estavam fruindo sua convicção mais íntima, a comunhão com suas maiores verdades. Não digo que tenham alcançado qualquer Verdade, mas foram verdadeiros, e já isso é raro. É tão árduo o processo que nos leva a uma honestidade maior, honestidade conosco mesmo que, uma vez lá, parece insuportável ceder às concessões. Ainda que algumas concessões talvez signifiquem consequencias menos trágicas. Venho pensando mais nos reativos, embora sem muita clareza do que fazer a seguir.

Na minha opinião, influenciada por Espinosa, é reativo aquele que depende da força do adversário para se sentir forte. A anti-arte nem sequer existe se não houver uma arte ainda mais poderosa onde se atracar. O fascismo não se consagra se não houver um inimigo de quem roubar a atenção. Tampouco os padres são ouvidos se os fiéis não acreditarem em Satanás. É conveniente, para os reativos, que seu inimigo seja forte. Quanto maior a força do inimigo, maior a eficácia da alavanca. Por isso que o reativo tem vantagem sobre lutadores medianos, mas não costuma ser o melhor do tatame. Ao se confrontar com quem domina as mesmas técnicas de combate, dificilmente irá ganhar, por não ter força própria. O que, aliás, complementa a filosofia do judô. Principalmente no pensamento, temos que achar a força em nós mesmos, não no adversário.

Ultimamente, venho tentando ser mais judoca do que kamikase (ou um anarquista espanhol). Eu não soube ser judoca por pensar, com um certo exagero, que judô é o esporte dos reativos, valendo-se demais da força do inimigo. Creio que Jango, os anarquistas e Greenberg pensaram de forma semelhante, ao neglicenciarem o adversário, ao recusarem qualquer proximidade corporal no combate. Em certa medida, até fui um judoca 'faixa amarela" (o nível a que cheguei quando pratiquei o esporte na infância), pois usei muitos dos golpes adversários contra eles mesmos. Meu erro pode ser o de não me contentar com isso. A antiarte chegou a representar, para mim, tudo o que há de reativo em nosso tempo, tudo que há de exangue e de parasitário. Me causava tanto desgosto ver que algo assim sufocava a arte que considero mais verdadeira, que eu ataquei sem me proteger. Eu mal me importei em como estaria minha saúde após o combate, e o que poderia ter sido um confronto desportivo no tatame eu considerei uma guerra.

Tentei não reduzir meus artigos a um mero rebate, mas o que eu queria era derrotar rapidamente o que considerei meu maior inimigo. Agora, vejo sinais de que a arte está finalmente vencendo a antiarte. Só não sei o que os reativos farão, mas eles estão se enfraquecendo. Ainda tenho alguns disparos fulminantes a disparar, depois disso, talvez prefira passar para o tatame. Talvez seja melhor eu lutar de acordo com regras comuns, seguindo o "comitê olímpico". O ambiente mudou muito rápido, já me parece bem possível chegar à vitória sem "derramamento de sangue".

No entanto, me preparei tanto para uma guerra mundial, e pensei tão pouco na minha própria sobrevivência - inclusive sobrevivência material, no sentido mais imediato - que quase tenho mais vontade de abraçar a morte honrosa do Kamikase do que me prolongar no corpo a corpo. Ao menos os anarquistas da década de 30, completamente ignorantes quanto ao destino da Espanha nos anos seguintes, agiram com grande coerência entre sua consciência e seus atos. Deram à sua morte uma beleza e uma integridade dignas do famoso casal shakespereano. Acho que era para essa direção que eu estava caminhando: aceitei tão bem o papel do anarquista que minha morte biológica não estava fora dos planos. Pensei muito pouco em carreira, dinheiro, comida, nada disso me importaria se a arte permanecesse ameaçada. Tenho meu saldo bancário como testemunha. E agora, depois da guerra, como é que o veterano se adapta a combates mais amenos? Mais importante: como fazê-lo sem se tornar, ele mesmo, reativo?

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