2.03.2009

Sobre Zizek no Roda Viva


Hoje assisti à entrevista do filósofo Slavoj Zizek no Roda Viva. Não sei se ele já pode ser considerado o mais importante marxista vivo, mas já se pode dizer que se destaca como o que com maior tenacidade busca atualizar as idéias de Marx. Lacan, Freud, Nietzsche e cognitivismo entram no leque dele, na sua tentativa de tirar o pó de uma utopia que se formou há mais de 150 anos atrás. Admito logo de cara que ele consegue criar algumas pontes interessantes, inspiradas, às vezes com toques poéticos. Dificilmente outro marxista conseguiria prender minha atenção como ele, que evidentemente tem seu vigor. Concordo com muitas de suas análises do sistema, muitos de seus diagnósticos sobre a vida no capitalismo. Mas, honestamente, se ele é o melhor que o marxismo tem a oferecer, se ele é a maior esperança de fazer com que essa ideologia permaneça em pauta... eu não entendo como é que muitos amigos meus que parecem tão vivos conseguem comprar o pacote todo, com Hegel e tudo, revolução, etc. Gosto desses meus amigos, mas adoraria saber como libertá-los de um pensamento que não pode fazer bem nem para o mundo nem para eles mesmos. O marxismo tem seu interese como análise, mas quando não é relativizado se torna um limite, interdita uma série de sinapses. Pode bem parecer abusado da minha parte dizer isso, mas para bom entendedor, Zizek mostrou diversas falhas na entrevista.

Vou ser generoso e começar por um ponto em que eu aprovei sua fala. O que ele diz sobre violência, por exemplo, me toca. Verdade que ele foi esperto, eu diria até precavido, e para não assustar o público com a sanguinolência inerente à implantação do comunismo, desviou o foco para Gandhi. Falou bonito, ao associar sua defesa da violência a Gandhi, que na sua opinião é mais violento do que Hitler. A violência de Hitler era reativa, conservadora, fazia com que os valores vigentes permanecessem. Gandhi, mesmo pregando a paz, rompia com o poder, era um corte mais fundo na estrutura social. É esta a violência que nos interessa, e que tanto eu quanto ele tentamos transpor para a escrita. Claro que a sede de sangue dele deve ser muito maior que a minha, eu não tenho ímpetos anti-democráticos tão fortes, não vejo nem a revolução de Outubro com a mesma alegria que ele. Mas como ele não derrama sangue pessoalmente, algo da pungência dos textos dele me fascinam, por que não?

Por outro lado, Zizek disse: "Não gosto de carnaval, gosto de ordem". Deve ser isso o que leva alguém a se identificar com a esquerda dura. Eu posso não gostar muito de samba, mas se não houver alguma folia, a vida fica restrita a pouco mais do que pão. Um filósofo que advoga ter entendido Nietzsche e Deleuze não pode achar que um mundo sem Dionísio (ou Rei Momo) tenha qualquer coisa a ver com liberdade. Mais atenção a Foucault também lhe faria bem, para ele pensar se não é apenas uma sociedade disciplinar o que ele espera do mundo.

Concordo com ele, no entanto, com um ponto em que as pessoas pensam muito pouco, e que é fundamental para se entender a vida atual. O capitalismo liberal tende a ser bastante permissivo, e nem precisamos entrar no mérito de quem fica à margem, há um problema sério inclusive para quem tem poder de compra e encontra estabilidade financeira. É o imperativo do gozo. Para quem tem grana, tudo parece permitido, no entanto a suposta liberdade tem muita imposição por trás. Toda a cultura de massa faz com que nos sintamos mal quando não desfrutamos de todas as maravilhas do mundo moderno, quando não consumimos tudo o que poderíamos, quando não temos uma namorada tão bonita quanto a da TV, ou quando não somos tão felizes quanto prometeram que ficaríamos com o carro, as viagens, etc. O desejo é estimulado ao máximo, mas também a insatisfação. Se você fica satisfeito com seu carro atual, não comprará um novo no ano que vem, e o capitalismo avançado precisa que você compre sempre mais. Se fosse apenas uma questão teórica ou chatice militante, os consultórios psicanalíticos não veriam tantos casos de depressão grave que se devem mais ao imperativo do gozo do que a recalques. Zizek não disse novidade nenhuma, isso foi dito por Lacan muito antes dele. De qualquer modo, ele disse bem: em nosso tempo, é do superego que vem a ordem para gozar. Vindo do superego, produz culpa ad infinitum e domina a subjetividade. Hoje a culpa por não gozar é tão neurótica quanto a culpa por gozar nos tempos antes de Freud.

Por contraditório que pareça, ver o excesso de gozo como problemático pode ser um discurso bem libertário, tendo seus pontos de contato com Foucault, por exemplo. Mas, se estamos contestando o mais-gozar, é claro que um moralista também pode gostar da idéia. Fica claro que Zizek não é livre nem libertário ao falar bem do cristianismo, apesar de ateu. É tão absurdo um ateu elogiando o cristianismo que a impressão é que ele pode até ser um cara inteligente e capaz de associações inusitadas, mas que a moral antecipa tudo o que passa pela cabeça dele. Por que raios um comunista ateu tem que achar o cristianismo tão bonito? Para ele não tem nem as vantagens da vida após a morte ou de um Deus bondoso no céu olhando por todos nós. Só nos resta pensar que a simpatia dele pelo cristianismo é ainda mais obtusa do que a do carola mais fervoroso. Bem que Deleuze diz que o marxismo é muito cristão, mas Zizek não precisava ser um exemplo tão caricato disso.

Ainda não falei do mais chocante. Podem até achar que é golpe baixo falar de stalinismo com um comunista, já que a maioria dos vermelhos insiste que Stalin não tem nada a ver com seus sonhos, e que um comunismo muitas vezes melhor do que o de Stalin é totalmente viável. Eu acho ingênuo ficar torcendo para que um ditador seja um bom camarada se existe a chance de que ele seja Stalin, mas tudo bem, não vamos entrar nisso agora. Zizek também afirmou não ser stalinista. No entanto, fez questão de separar radicalmente o totalitarismo de esquerda do totalitarismo de direita, Stalin e Hitler. Isto porque, mesmo no pior momento do Gulag, os prisioneiros políticos tinham que escrever felicitações a Stalin no dia de seu aniversário. De fato, não dá para imaginar os judeus no campo de concentração mandando parabéns para Hitler, e isso é uma diferença grande entre os dois regimes. Mas Zizek parece ter visto nisso um mínimo alento, uma chama de fé, um desejo de coesão social em que até os prisioneiros seriam "incluídos". É tão revoltante que eu temo ter entendido mal, se for erro meu, por favor me corrijam. Zizek pode até ter lido mais psicanálise do que eu, mas se tivesse lido direito, veria no Gulag um toque de perversidade de que nem mesmo Hitler era capaz. Não um diferencial positivo, por mínimo que fosse. É extremamente sádico fazer com que um homem destituído da liberdade física ainda tenha que ter sua subjetividade aniquilada dessa forma, obrigado a beijar a mão de quem o oprime. Só uma vontade extremada de ordem pode conceber tal requinte de sadismo e ainda achar que é bom. Não adianta nada acusar o capitalismo de dominar nossa subjetividade se o comunismo se mostra muito pior exatamente nisso.

Zizek até soltou um "sou stalinista" ao condenar o carnaval, mas, acho eu, dessa vez falou meio de brincadeira. Na questão das cartas a Stalin, já acho que ele quis enxergar um pequeno desconto para as ditaduras de esquerda. Na verdade, ouvi com tamanho sobressalto que não consegui acompanhar a explicação muito bem, mas temo que era isso mesmo. Confesso a dúvida, mesmo achando que minha hesitação surge porque isso não coaduna com a imagem que eu tenho de um comunista. Por mais que seja bem crítica a imagem que eu faço de um comunista, o que vi é muito pior do que eu pensava. Mesmo me parecendo um tanto insano o impulso que leva alguém a fechar os olhos para todos os erros, mais do que evidentes, do marxismo revolucionário, ainda quero acreditar que não é tão patológico assim, que a coisa não é sadismo puro, não é só sanguinolênca sublimada. Se alguém assistiu ao programa e entendeu de outra maneira, por favor se manifeste. Eu perdi o sono por causa disso, estou escrevendo às quatro da manhã. De qualquer modo, continuarei achando que o materialismo dialético não sobrevive à dialética primeira, aquela que testa os argumentos adversários até a aporia; mas, acreditem ou não, eu consigo aproveitar a parte boa das críticas marxistas, e prefiro não ver o Zizek de maneira tão monstruosa como me pareceu nesse caso.

12 comments:

Edith said...

Você é patético, um mix de nerd e filhino de papa desavisado que se diz sem modéstia e + inteligwente que Zizek... Não fica com vergonha, não? Bobão?

Ivan Hegenberg said...

Edith, eu não falei por falar, me desculpa mas eu argumentei muito melhor do que você. Se você se acha mais inteligente do que o Nerd aqui, manda o seu melhor que eu não vou achar mais difícil de refutar do que as falhas de Zizek.

Tem falhas graves no marxismo, minha senhora. Você não quer admitir porque não vê de perto.

Ivan Hegenberg said...

Só mais uma coisa. Não me sinto especial por ser melhor que Zizek, não. Acho que milhares de pessoas o são. E outras milhares podem vir a ser se conseguirem ultrapassar a névoa.

Tião said...

Legal seu texto, Ivan. Desde que li o livro do Zizek sobre o Lenin também fiquei impressionado com as análises sobre o stalinismo - afinal, tema espinhoso para um marxista que pretende atualizar a teoria revolucionária. De qualquer modo o admiro por enfrentá-lo. Indico o texto que se pode encontrar em [http://www.lrb.co.uk/v27/n06/zize01_.html], sobre a comparação com o nazismo.

Em outra nota, não achei golpe baixo ele citar Ghandi ao falar da violência. É exatamente seu argumento o de que a violência tomou uma forma banalizada que nos leva a subverter seu valor, na sociedade contemporânea - falo da ilustração que ele dá, que a paranóia é tão grande com a violência que passa a ser aceitável advocar a tortura como remédio. Conjurar o Ghandi serve para demarcar qual a violência da política, e qual política - aquela feita nos espaços públicos, da razão histórica, que para se construir demole o edifício existente, a política revolucionário, pois.

Não aceito confundir a aventura (e coragem) em discutir estes temas simplesmente com uma suposta "linha dura comunista" que dominaria o pensamento. O pensamento crítico que temos deve à herança marxista - os mortos pesando - e temos de enfrentá-la. Neste sentido Zizek não tenta, em nenhum momento reabilitar o stalinismo.

Luiz Alfredo said...

Caro Ivan
Ótimas ponderações. Mas acho que você se apegou muito aos defeitos do pensamento de Zizek e não viu suas brilhantes qualidades.
Zizek é radical, de um modo que o faz se aproximar de maneira perigosa, eu diria, de certos limites ao pensamento e conhecimento humano.

Tive também o mesmo arrepio ao ver sua defesa (?) do stalinismo e seu avesso ao carnaval. Mas percebi muito mais provocação no segundo, embora a idéia da disciplina que você desenvolveu a meu ver está muito bem embasada.

O primeiro caso, do stalinismo, talvez decorra da profunda contradição do sujeito marxista, que acredita na práxis, mas percebe que a experiencia real do socialismo, ainda que de estado, foi desastrosa, no mínimo: como resolver esse impasse, defender novamente a teoria relegando totalmente a prática, a realidade? Difícil encruzilhada.

Sobre o cristianismo, ele teve um contraponto específico no discurso do Zizek: o zen budismo espalhado entre os executivos capitalistas. O pensamento cristão da comunidade versus o individualismo explícito do Zen que foi apropriado e maquiado como uma alternativa que reitera os pilares do capitalismo. Neste ponto, acho que a análise dele foi muito pertinente, e não vejo contradição da parte dele.

Acho que as grandes sacadas geniais do Zizek são muito superiores a estes dois pontos falhos (stalin e o carnaval), embora nao disponho de tempo agora para mostrar o que eu humildemente achei de magnífico em seu pensamento. Certa dose de indulgência da sua parte poderia diminuir algo de sua repulsa, Ivan, ao marxismo; da mesma forma que podemos, tranquilamente, relevar os arroubos que você mesmo permitiu-se =)

Abraço

Ivan Hegenberg said...

Tião e Luis Alfredo, quem me dera todo estudioso de Marx fosse como vocês.
Apesar de tudo, eu vejo qualidades no Zizek. Acho que ele faz algumas boas pontes, não temos muitos analistas como ele. Só não aprovo quando ele insiste numa práxis que realmente não consigo engolir.

Tião, vou conferir o link com calma, obrigado pelo toque.

Abraços

Rodrigo Cássio said...

Olá Ivan,

Estava pesquisando na internet e conheci o seu blog. Gostei da sinceridade com a qual você escreveu sobre a entrevista de Zizek, ainda que, a meu ver, a sua posição seja demasiado soberba. Ao se manifestar contra Zizek, descrevendo o seu espanto diante das radicalidades dele, você também fez um texto radical. Assustou-me.

Entendo que você parte de um princípio: "o marxismo é um equívoco, e é necessário que alguém me convença do contrário". Esse princípio acaba sendo uma arma no seu texto, pois você o utiliza de modo que não precisa entrar, em nenhum momento, na argumentação de Zizek. Seu texto apenas tangencia as teses do filósofo, que não são apresentadas com muio rigor, e conclui: "Zizek não conseguiu me convencer".

Há um bocado de má-fé nessa postura, não acha?

Assim, entendo o deboche da leitora Edith. É meio ridículo (do ponto de vista da estrutura de um texto, não é nada pessoal, ok?) um autor declarar-se mais inteligente que outro, e ater-se unicamente a comentários sobre as respostas deste outro autor em uma entrevista de televisão. Para refutar Zizek, é preciso muito mais que isso.

Se o marxismo tem "falhas" (seja lá o que isso significa em filosofia), elas nunca passaram ao largo da própria tradição marxista. O marxismo é um discurso que está muito além de Marx e do próprio Zizek. É uma teoria que não é mais passível de atualizações que as teorias liberais, ou tantas outras. Zizek a atualiza, como atualizaram Gramsci, Althusser, Adorno, Eagleton, Jameson, etc.

Sugiro a leitura de Um Mapa da Ideologia, organizado pelo Zizek, e publicado no Brasil pela editora Contraponto. Os textos do Zizek, nesse livro, são muito bons, esclarecendo e aprofundando as ideias discutidas no Roda Viva. A partir dele, você pode brigar filosoficamente com o Zizek com mais propriedade!

Saudações,

Ivan Hegenberg said...

Rodrigo

Não tenho nada contra o marxismo atualizado. Acho até que muitos dos melhores pensadores atuais seguem nessa linha. Só acho que ou o marxismo desiste da "ditadura do proletariado", que já vimos que só funciona no papel, ou não está realmente atualizado.

Se eu fosse seguir o coração, eu seria anarquista. Mas também não posso deixar de me atualizar, de entender que o anarquismo tradicional não tem qualquer chance de ser implementado.

Observatório da Cidadania said...

Excelente texto,Ivan.Creio que Zizek é um escritor bastante conflituoso e que me influencia bastante,principalmente pelo seu estilo de construir os argumentos.A crítica que ele faz,assim como a feita por Marx é contundente e beira a perfeição,só discordo um pouco de suas proposições e negação de valores democráticos.Creio que esteja nisso seu "desvio de rota".Mas procuro absorver dele o que há de interessante.Ele é um intelectual que levanta questões que ainda hoje são pouco debatidas e "dá a cara para bater",assim como o fez Foucault,por exemplo.Admiro isso também nele.Creio que faltou um comentário sobre o inglês rústico dele.(Brincadeira)
Abraço

Ivan Hegenberg said...

Obrigado
Acho que tá na moda falar bem de Stalin. O Niemeyer é outro que andou elogiando aquele grande camarada...

Felipe said...

Ivan,

Acho que sua interpretação do que seria a "ditadura do proletariado" tem um pouco de mal entendido. Muito embora eu reconheça que tal proposta de transição para o comunismo tenha muitos problemas, eles não passam tanto pela falta de liberdade, como supomos ao ouvir o termo.

Quando Marx usou o termo ditadura, ele não se referia ao entendimento que temos hoje - em que ditadura é o inverso de democracia - mas sim à idéia de que, durante um curto período de tempo, o proletariado (a classe, não um indivíduo) teria que tomar a liderança das mudanças políticas que levassem ao comunismo. Não implica em governo totalitário, oligárquico ou mesmo autoritário - pelo contrário.

O que aconteceu na URSS a partir de um certo momento, realmente foi uma tragédia, e é isso que o próprio Zizek diz sempre. Se ele tentou de qualquer forma minimizar o fato, é uma pena, mas você deve entender que não pode jogar isso na conta do "marxismo".

Quanto ao seu texto, acredito que os problemas já foram bem colocados pelo Luiz Alfredo e outros.

Abraço,

Ivan Hegenberg said...

Felipe, eu sou escritor, para mim é complicado achar que a terminologia não induza, por sua forma, a certas interpretações. No mínimo, Marx teria sido um tanto descuidado ao chamar aquela fase de "ditadura", se de fato imaginasse uma transição não-autoritária.

Acho que vou mais fundo na questão em outro artigo meu, "Além dos bens e de Marx": http://ivanhegenberg.blogspot.com/search?q=al%C3%A9m+dos+bens+e+de+marx

Abraço