11.15.2007

Encontro na pensão

Ele tem cabelos compridos, ondulados. Acabou de sair do banho e, absorvido por uma música que ecoa do andar superior, ajeita os fios rebeldes com o pente vermelho. Ainda não consegue reconhecer qual é a canção, mas percebe nela algo de familiar. Com os tufos que se prendem aos dentes ele amassa uma bola, que vai ganhando volume na outra mão.

Ela descia as escadas, senhora de seu corpo e de sua alma. A porta do quarto está aberta, ela pára na soleira. A serenidade em seu rosto lhe comove, aquecendo-o como um bom gole de absinto. Seus olhos tinham uma cor que se bebe com a vista, e igualmente embriagante.

– Voltei do estúdio agora. Rodei a cena de que te falei.

Não era atriz, só alguém que amava muito o cinema. Fez um bico para ajudar no aluguel.

– Só por hoje mesmo, uma ponta. Um filme de aventura sessão-da-tarde. Já vi melhores.
Os dois morando na mesma pensão, tentando arrumar emprego na cidade hostil. Não fosse a confiança que um transmitia ao outro, já não saberiam de onde tirar a esperança. Era bom isso, encontrar alguém para incentivar, para desejar vitórias. Ajudava a vencer a metrópole e seus percalços.

A bola de cabelos se tornava embaraçosa na mão fechada e ele volta ao banheiro para atirá-la ao cesto. Esse pequeno movimento deu a ela tempo para entrar sorrateira no quarto, sem precisar pedir licença. Seria constrangedor pedir para entrar, e ele hesitava se deveria ou não convidá-la. Melhor assim: gestos que dispensam palavras.
Ele está de calça, ainda sem camisa para que os cabelos não a molhassem. Mas é ela quem treme e diz sentir frio.

– Faz um favor? Me empresta um casaco? Não tive tempo de buscar as roupas na lavanderia.

A música vazava pela janela entreaberta e fazia com que o teto vibrasse. Não conseguiria jamais se lembrar o nome da banda, apenas que o solo de guitarra se desenvolvia suave e seguro, enquanto a bateria retumbava acelerada como um coração bombardeado.

“Já pego para você o casaco”, ele iria dizer, mas nem chegou a pronunciar. Mal a boca se abriu para a primeira palavra, algo como um tremor em seu corpo o levou a concluir a intenção nos lábios dela. Quando deu por si, estava feito. Para sua felicidade, ela sorria.

– Você é linda.

– Eu sei que sou.

– E eu sei que você sabe. Tá no seu olhar.

Abraçados, caíram os dois sobre a cama. Ela sentou-se em seu colo, olhando para ele de cima, como se quisesse dominá-lo. Ele girou o torso para empurrá-la com a perna direita, derrubando-a ao seu lado.

– Linda, mas nem um pouco modesta. Mesmo assim, eu gosto de você.

Ficou algum tempo encarando aqueles olhos bons para se perder, meio escondidos por trás dos cabelos de dois rostos muito próximos. Beijaram-se novamente. E pela primeira vez desde que chegaram à cidade, tiveram a certeza de que estavam onde deveriam estar.

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