9.13.2007

Como assim, democracia?

Depois que o safado do Renan se safou, a pergunta que não quer calar: alguém aqui acha que vivemos numa democracia? Do final da ditadura para cá, que passo adiante foi conquistado? Na prática, nenhum. Nem mesmo o impeachment de Collor foi significativo, na medida que ele perdeu um mandato mas logo depois voltou à cena política. Tudo muito tranquilo: comete-se um crime, pega-se um castigo leve, e já se sabe de antemão que logo mais todo e qualquer escândalo será esquecido. Assim foi com Collor, com Renan nem mesmo isso.

Esse ciclo vicioso vem se mostrando podre com tanta evidência, e o caos que isso acarreta no país é tão generalizado, que cada vez mais se tem visto uma descrença na democracia como um todo, chegando inclusive a uma esperança renovada no comunismo. Isto me soa como uma consequência natural, já que, ao menos por aqui, a democracia tem se mostrado completamente inútil, e as pessoas precisam vislumbrar alguma direção para onde caminhar.

Quanto a mim, não me declaro tão otimista a ponto de abraçar uma ditadura do proletariado antes de saber o que teríamos no futuro: se um bom camarada como Trotsky ou um sanguinário como Stálin. O que dizem meus amigos marxistas é que o verdadeiro comunismo jamais foi implantado, nem na Rússia, nem na China, nem em Cuba ou qualquer outro país. Isso é verdade. A última etapa do comunismo até que viria a calhar para mim, que caí da classe B para a D, depois que saí da casa dos meus pais (É a triste verdade! Eu pensava pertencer à classe C, mas uma amiga que trabalha com pesquisas me transmitiu essa lamentável avaliação).

Desde que eu não perdesse a liberdade de expressão e pudesse escrever sem a menor intervenção estatal, eu preferiria estar num país igualitário do que viver nesse fim de mundo atual. Mas sou um tanto pessimista, não acredito muito que se possa fazer uma transição do capitalismo para o socialismo sem uma coerção intensa a todas as opiniões contrárias, e com isso os textos de uma criatura maldita como eu poderiam ser considerados desestabilizadores (pois não me contento em estar apenas a favor ou contra, não me canso de questionar, sou inquieto, eu sempre quero algo a mais). Mas, pensando não só em meu trabalho, não visualizo muito bem como poderíamos chegar a um comunismo pleno, levando em conta os resultados desastrosos que tivemos a cada tentativa até aqui.

A meu ver, o problema está na essência do ser humano, facilmente corruptível assim que atinge o poder. Não adianta, é muita ingenuidade achar que se pode juntar mais de três pessoas num mesmo gabinete e que todos serão altruístas por mais do que alguns poucos anos. Assim são os seres humanos, e quem não percebe isso está, de um jeito ou de outro, enganando a si mesmo. Levando isso em conta, fiquei anos pensando em uma hipótese um tanto absurda: talvez se os computadores nos governassem evitariam alguns erros, pois, desprovidos de inteligência real, não teriam interesses próprios. Contudo incorreriam em muitas outras injustiças, devido à total falta de sensibilidade. É essa uma das teses que desenvolvi em "Será", e quem achar interessante que leia, não dá para resumir o livro todo aqui.

O que ninguém discorda é que estamos muito longe de habitar um mundo justo. Ainda assim, acho que não precisamos ser utópicos para nos dispor a lutar por melhoras paulatinas. A micropolítica pode ser uma saída interessante: reivindicações pontuais, sempre tendo em vista a subjetividade (que depende, sempre, das condições objetivas), em vez de totalizações ideológicas. A derrocada das utopias pode nos tornar mais realistas, e portanto mais eficientes como vetores de transformação. O caso é que a implantação do socialismo jamais deu mostras de que conseguiria percorrer mais do que um pequeno percurso; e, se for para se contentar com ir até a metade, por que não perceber que mal estamos na metade da instauração da democracia? Talvez seja preciso brigar por ela com o mesmo ímpeto revolucionário de um bolchevique. Para que culpar a democracia - algo que originalmente não é traiçoeiro - se a utopia iluminista jamais foi alcançada? Se a população realmente fosse representada pelos que ocupam o poder, um criminoso comprovado como Renan Calheiros não seria apenas cassado; seria preso. Nesse caso, quem sabe, talvez houvesse um bom motivo para acreditarmos na igualdade de todos perante as leis.

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