7.29.2006

Sampa City, centro


Estou morando há menos de um mês no centro de São Paulo. Para ser mais exato, há duas quadras do minhocão com seus travestis viciados em crack e à mesma distância do Shopping Higienopólis com suas madames viciadas em poodles. Não poderia me situar em lugar mais representativo das nossas contradições. Um posto bem avantajado para quem tem como prática frequente a observação e estudo das pessoas e seus costumes.
Caminho pela rua Augusta. Percorrê-la de ponta a ponta é como obter um resumo do Brasil, desde a insalubridade de seus puteiros mais tristes até o requinte de suas lojas e casarões nos Jardins. É sem dúvida o chamado “Lado B” da Augusta que percorro com mais frequência, e me delicio em encontrar tão próximos a decadência e o melhor da cultura. Espaço Unibanco, que tantos filmes de qualidade hospeda em suas salas; botecos como o Charm, o BH e o Ibotirama, onde se reúnem cabeças que mesmo um arrogante incorrigível como eu considera pensantes; livros de todos os tipos nas livrarias, nos sebos, e até mesmo nas calçadas, onde já encontrei belos exemplares por menos de dez reais – o preço de um boquete, para quem não se importa muito com a beleza.
A rua Augusta discorda totalmente de Adorno, aquele que contrapôs barbárie e cultura. Aqui, ambas coexistem, lado a lado, combinam-se em densa atmosfera. Creio ser por isso que esse território se tornou tão charmoso, tão atraente para a minha geração – que, mais do que ir ao aconchegante Frevo, quer mesmo é tomar uma cerveja em copo sujo na calçada, e tanto melhor se a aparência das meninas for parecida com a das putas profissionais. Lê-se muito mais Bukowski do que Vargas Llosa, mas há, sim, ao menos a intenção de se unir sexo e cultura, tal como nos cadernos de Don Rigoberto.
Na paralela, na Frei Caneca, a Lôca é a boate culpada do frenesi jovem, por ter sido, alguns anos atrás, o principal centro da promiscuidade paulistana. Eu também tenho minhas histórias lôcas para contar, de lésbicas que não eram tão lésbicas e namoradas que não eram fiéis entre si. Gays e héteros partilham o mesmo ambiente, o som eletrônico e as mesmas drogas. Casais entram juntos nos banheiros, grupos de três ou mais pessoas saem da boate direto para algum motel.
Há muito tempo que prefiro os botecos à claustrofobia das casas noturnas, então marcho para o Bexiga, o bairro mais pitoresco de São Paulo. Bebo deliciosas jurupingas caseiras, enquanto admiro um simpático cão preto latir para os pedestres, e um casal sentado no chão consumindo tranquilamente sua marijuana.
Na 13 de maio encontro bares que, de tão despojados, esculachados mesmo, fazem-me sentir dentro de um filme brasileiro de baixo orçamento – e adoro a sensação. As pessoas são ao mesmo tempo familiares e caricatas. Tão naturais que a tentação é a de transformá-las em personagens. Um homem de bochechas gordas e gorro toma aguardente junto a uma bicha de casaco verde, que cruza as pernas e segura no colo um cãozinho salsicha. Em outra mesa, quatro mulheres roqueiras, beirando os trinta, conversam animadamente em meio aos cigarros. Na mesa de sinuca, homens barrigudos encaçapam com austeridade. Converso um pouco com um rapaz que mora no bairro, e este defende os corintianos contra o sãopaulinismo do dono do bar.
Para fechar a noite, tenho a desconcertante visão de uma pequena multidão, relaxando com um churrasco completo, às três e meia da madrugada, em plena avenida Rui Barbosa. Há poucos metros da avenida, improvisam um futebol. Satisfeito, eu volto para casa, sentindo-me bem por morar no centro da maior cidade do país. As diversas facetas, devidamente absorvidas, repercutem os opostos que duelam dentro de mim. Residência correta para quem descende de prósperos alemães e é neto de uma maltratada cearense, que, tal como os muitos mendigos que vejo pelo caminho, enfrentou a miséria antes de encontrar sua fatia de paz.

2 comments:

bruna beber said...

opa, tô na área

Anonymous said...

bom comeco